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GRAÇA COMUM - SPROUL

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A Graça Comum

I. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA

A.  Introdução e definição

Quando Adão e Eva pecaram, tornaram-se réus da punição eterna e da separação de Deus (Gênesis2:17). Do mesmo modo, hoje, quando os seres humanos pecam, eles se tornam sujeito à ira de Deus e à punição eterna: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Isso significa que, uma vez que as pessoas pecam, a justiça de Deus requer somente uma coisa — que elas sejam eternamente separadas de Deus, alienadas da possibilidade de experimentar qualquer bem da parte dEle, e que elas existam para sempre no inferno, recebendo eternamente apenas a Sua ira. De fato, isso foi o que aconteceu aos anjos que pecaram e poderia ter acontecido exatamente conosco também: “Pois Deus não poupou aos anjos que pecaram, mas os lançou no inferno, prendendo-os em abismos tenebrosos a fim de serem reservados para o juízo” (2 Pedro 2:4). 40

Mas, de fato, Adão e Eva não morreram imediatamente (embora a sentença de morte começasse a ser aplicada na vida deles no dia em que pecaram). A execução plena da sentença de morte foi retardada por muitos anos. Além disso, milhões de seus descendentes até o dia de hoje não morrem nem vão para o inferno tão logo pecam, mas continuam a viver por muitos anos, desfrutando bênçãos incontáveis nesta vida. Como pode ser isso? Como Deus pode continuar a conferir bênçãos a pecadores que merecem somente a morte — não somente aos que finalmente serão salvos, mas também a milhões que nunca serão salvos, cujos pecados nunca serão perdoados?

A respostas a essas perguntas é que Deus concede-lhes graça comum. Podemos definir graça comum da seguinte maneira: Graça comum é a graça de Deus pela qual Ele dá às pessoas bênçãos inumeráveis que não são parte da salvação. A palavra comum aqui significa algo que é dado a todos os homens e não é restrito aos crentes ou aos eleitos somente.

Diferentemente da graça comum, a graça de Deus que leva pessoas à salvação é muitas vezes chamada “graça salvadora”. Naturalmente, quando falamos a respeito da “graça comum” e da “graça salvadora”, não estamos sugerindo que há duas diferentes espécies de graça no próprio Deus, mas apenas estamos dizendo que a graça de Deus se manifesta no mundo de duas maneiras diferentes. A graça comum é diferente da graça salvadora quanto aos resultados (ela não traz salvação), seus destinatários (é dada aos crentes e descrentes igualmente) e sua fonte (ela não flui diretamente da obra expiatória de Cristo, visto que a morte dEle não obtém nenhuma medida de perdão para os descrentes e, portanto, nem os crentes nem os descrentes fazem jus às suas bênçãos). Contudo, sobre o último ponto, deve ser dito que a graça comum flui indiretamente da obra redentora de Cristo, porque o fato de Deus não julgar o mundo assim que o pecado entrou nele talvez seja apenas porque Ele planejou finalmente salvar alguns pecadores por meio da morte de Seu Filho.

B.  Exemplos de graça comum Se olhamos para o mundo ao nosso redor e o contrastamos com o fogo do inferno que ele merece, podemos ver imediatamente a abundante evidência da graça comum de Deus em milhares de exemplos na vida diária. Podemos distinguir diversas categorias específicas nas quais essa graça comum pode ser vista.

1. A esfera física. Os descrentes continuam a viver neste mundo somente por causa da graça comum de Deus — cada vez que as pessoas respiram é pela graça, pois o salário do pecado é a morte, não a vida. Além disso, a terra não produz somente espinhos e ervas daninhas (Gênesis 3:18), nem permanece um deserto ressequido, mas a graça comum de Deus provê comida e material para roupa e abrigo, muitas vezes em grande abundância e diversidade. Jesus disse: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque Ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mateus 5:44,45). Aqui Jesus apela para a abundante graça comum de Deus como

encorajamento aos seus discípulos, para que eles também concedam amor e orem para que os

descrentes sejam abençoados (cf. Lucas 6:35,36). Semelhantemente, Paulo disse ao povo de Listra:

“No passado [Deus] permitiu que todas as nações seguissem os seus próprios caminhos. Contudo.

Deus não ficou sem testemunho: mostrou sua bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas no

tempo certo, concedendo-lhes sustento com fartura e um coração cheio de alegria” (Atos 14:16,17).

O Antigo Testamento também fala da graça comum de Deus que vem aos descrentes tanto quanto

aos crentes. Um exemplo específico é o de Potifar, o capitão da guarda do Egito que comprou José

como escravo: “o Senhor abençoou a casa do egípcio por causa de José. A bênção do Senhor estava

sobre tudo o que Potifar possuía, tanto em casa como no campo” (Gênesis 39:5). Davi fala de modo

muito mais geral a respeito das criaturas que o Senhor fez:

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“O Senhor é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas. [...] Os olhos de

todos estão voltados para ti, e tu lhes dás o alimento no devido tempo. Abres a tua mão e satisfazes

os desejos de todos os seres vivos” (Salmos 145:9,15,16).

Estes versículos são outro lembrete de que a bondade que é encontrada em toda a criação não

acontece automaticamente — ela se deve à bondade de Deus e Sua compaixão.

2. A esfera intelectual. Satanás é “mentiroso e pai da mentira” e “não há verdade nele” (João 8:44),

porque lhe foi dado ter domínio sobre o mal e sobre a irracionalidade e comprometimento com a

falsidade que acompanha o mal radical. Mas os seres humanos no mundo de hoje, mesmo os

descrentes, não estão totalmente entregues à mentira, irracionalidade e ignorância. Todas as

pessoas são capazes de ter um pouco de compreensão da verdade; de fato, algumas possuem

grande inteligência e entendimento. Isso também deve ser visto como resultado da graça comum

de Deus. João fala de Jesus como “a verdadeira luz, que ilumina todos os homens” (João 1:9), pois,

em seu papel como criador e sustentador do universo (não particularmente em seu papel como

redentor), o Filho de Deus concede iluminação e entendimento que vêm a todas as pessoas no

mundo.

A graça comum de Deus na esfera intelectual é vista no fato de que todas as pessoas têm certo

conhecimento de Deus: “porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe

renderam graças” (Romanos 1:21). Isso significa que há um senso da existência de Deus e muitas

vezes a fome de conhecer Deus que Ele permite que permaneça no coração das pessoas, embora

isso resulte muitas vezes em muitos religiões diferentes criadas pelos homens. Portanto, mesmo

quando falando a pessoas que sustentavam religiões falsas, Paulo pôde encontrar um ponto de

contato com respeito ao conhecimento da existência de Deus, exatamente como fez quando falou

aos filósofos atenienses: “Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos [...]

o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio” (Atos 17:22,23).

A graça comum de Deus na esfera intelectual também resulta na capacidade de captar a verdade e

distingui-la do erro e de experimentar crescimento em conhecimento que pode ser usado na

investigação do universo e na tarefa de dominar a terra. Isso significa que toda ciência e tecnologia

desenvolvida pelos não-cristãos é resultado da graça comum, permitindo-lhes fazer descobertas e

invenções incríveis, para desenvolver os recursos do planeta na criação de muitos bens materiais,

para produção e distribuição desses recursos e para alcançar habilidades na obra produtiva. Em

sentido prático, isso significa que, cada vez que entramos em uma mercearia, andamos em um

automóvel ou entramos em uma casa, devemos lembrar que estamos experimentando os resultados

da abundante graça comum de Deus derramada tão ricamente sobre toda a raça.

3. A esfera moral. Pela graça comum Deus também refreia as pessoas de serem tão más quanto

poderiam. Novamente o reino demoníaco, totalmente dedicado ao mal e à destruição, proporciona

um contraste claro com a sociedade humana, na qual o mal é claramente refreado. Se as pessoas

persistem dura e repetidamente em seguir o pecado durante o curso de sua vida, Deus finalmente

as entregará ao maior de todos os pecados (cf. Salmos 81:12; Romanos 1:24,26,28), mas no caso da

maioria dos seres humanos eles não caem nas profundezas às quais seus pecados normalmente os

levariam, porque Deus intervém e coloca freio na sua conduta. Um refreamento muito eficaz é a

força da consciência. Paulo diz: “De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam

naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois

mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a

sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os” (Romanos 1:32). E

em muitos outros casos, essa sensação interior da consciência leva os indivíduos a estabelecer leis e

costumes na sociedade que são, em termos da conduta exterior que eles aprovam ou proíbem,

totalmente iguais às leis morais da Escritura. As pessoas muitas vezes estabelecem leis ou têm

costumes que respeitam a santidade do casamento e da família, protegem a vida humana e proíbem

o roubo e a falsidade no falar. Por causa disso, elas muitas vezes seguem caminhos moralmente

retos e exteriormente andam conforme os padrões morais encontrados na Escritura. Embora a

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conduta moral delas não possa ganhar méritos com Deus, visto que a Escritura claramente diz que

“diante de Deus ninguém é justificado pela Lei” (Gálatas 3:11) e “Todos se desviaram, tornaram-se

juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Romanos 3:12),

contudo, em algum sentido menor que ganhar a aprovação ou o mérito eterno de Deus, os

descrentes realmente fazem “o bem”. Jesus sugere isso quando diz: “E que mérito terão, se fizerem

o bem àqueles que são bons para com vocês? Até os ‘pecadores’ agem assim” (Lucas 6:33).

4. A esfera da criatividade. Deus distribuiu medidas significativas de capacidade em áreas artísticas

e musicais, assim como em outras esferas nas quais a criatividade e a habilidade podem expressarse,

como praticar esportes, cozinhar, escrever, e assim por diante. Além disso, Deus nos dá a

capacidade de apreciar a beleza em muitas áreas da vida. E nessa área, assim como na esfera física

e intelectual, as bênçãos da graça comum são às vezes derramadas sobre os descrentes até mais

abundantemente que sobre os crentes. Todavia, em todos os casos, ela é resultado da graça de

Deus.

5. A esfera da sociedade. A graça de Deus também é evidente na existência de várias organizações e

estruturas na raça humana. Vemos isso primeiramente na família humana, ressaltado pelo fato de

que Adão e Eva permaneceram marido e mulher após a queda e então tiveram filhos, homens e

mulheres (Gênesis 5:4). Os filhos de Adão e Eva casaram-se e formaram famílias para si mesmos

(Gênesis 4:17,19,26). A família humana permanece ainda hoje, não simplesmente como instituição

para os crentes, mas para todas as pessoas.

O governo humano é também resultado da graça comum. Ele foi instituído no princípio por Deus

após o dilúvio (ver Gênesis 9:6) e, segundo Romanos 13 claramente afirma, foi estabelecido por

Deus: “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não

venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas”. Está claro que o governo é

dom de Deus para a raça em geral, pois Paulo diz que a autoridade “é serva de Deus para o seu

bem” e que ela é “serva de Deus, agente de justiça para punir quem pratica o mal” (Romanos 13:4).

Um dos principais meios que Deus usa para refrear o mal no mundo é o governo humano. As leis

humanas, as forças policiais e os sistemas judiciais proporcionam poderosa repressão às más ações,

e esses são freios necessários, pois há muito mal no mundo que é irracional e pode ser restringido

somente pela força, já que ele não será impedido pela razão ou pela educação. Obviamente a

pecaminosidade das pessoas pode também afetar os governos em si mesmos, de forma que o

governo humano, igual a todas as outras bênçãos da graça comum que Deus dá, pode ser usado

tanto para o propósito do bem como do mal.

6. A esfera religiosa. Mesmo na esfera da religião humana, a graça comum de Deus traz algumas

bênçãos para as pessoas incrédulas. Jesus nos diz: “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que

os perseguem” (Mateus 5:44), e desde que não há qualquer restrição no contexto para que se ore

simplesmente pela salvação deles e como a ordem de orar pelos que nos perseguem é combinada

com a ordem de amá-los, parece razoável concluir que Deus pretende responder a nossas orações

pelos que nos perseguem em muitas áreas de suas vidas. De fato, Paulo especificamente ordena que

oremos “pelos reis e por todos os que exercem autoridade” (1 Timóteo 2:2). Quando procuramos o

bem dos descrentes, isso é coerente com a própria prática divina de conceder sol e chuva a “maus e

bons” (Mateus 5:45) e também está de acordo com a prática de Jesus durante o Seu ministério

terreno, quando Ele curou cada pessoa que lhe era trazida (Lucas 4:40). Não há indicação alguma

de que ele tenha exigido que todos cressem nele ou concordassem que ele era o Messias antes de

lhes conceder cura física.

Deus responde às orações dos descrentes? Embora Deus não tenha prometido responder às

orações dos descrentes como prometeu responder às orações dos que vêm a Ele em nome de Jesus,

e embora Ele não tenha obrigação de responder às orações dos descrentes, mesmo assim Deus

pode por Sua graça comum ouvir e responder positivamente às orações deles, demonstrando dessa

forma Sua misericórdia e bondade de outro modo ainda (cf. Salmos 145:9,15; Mateus 7:22; Lucas

6:35,36). Esse é provavelmente o sentido de 1 Timóteo 4:10, que diz que Deus é o “Salvador de

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todos os homens, especialmente dos que crêem”. Aqui “Salvador” não significa restritamente

“quem perdoa pecados e dá vida eterna”, porque tais coisas não são dadas aos que não crêem.

“Salvador” deve ter aqui um sentido mais geral — a saber, “quem resgata da miséria, quem liberta”.

Em caso de pobreza e miséria, Deus muitas vezes ouve as orações dos descrentes e os livra

graciosamente de seus problemas. Além disso, mesmo os descrentes muitas vezes possuem um

senso de gratidão para com Deus pela bondade da criação, pela libertação em meio ao perigo e

pelas bênçãos da família, do lar, das amizades e do país.

7. A graça comum não salva pessoas. A despeito de tudo isso, devemos perceber que a graça comum

é diferente da graça salvadora. A graça comum não muda o coração humano nem traz pessoas ao

genuíno arrependimento ou à fé — ela não pode salvar e não salva pessoas (embora na esfera

intelectual e moral ela possa preparar as pessoas para torná-las mais dispostas a aceitar o

evangelho). A graça comum refreia o pecado, mas não muda a disposição fundamental de pecar

nem purifica a natureza humana decaída.

Devemos também reconhecer que as ações que os descrentes realizam por causa da graça comum

não merecem a aprovação ou o favor de Deus. Essas ações não procedem da fé (“tudo o que não

provém da fé é pecado”, Romanos 14:23) nem são motivadas pelo amor a Deus (Mateus 22:37), e

sim pelo amor ao ego sob uma ou outra forma. Portanto, embora possamos prontamente dizer que

as obras dos descrentes que se conformam externamente às leis de Deus são “boas” em algum

sentido, contudo elas não são boas em termos de merecer a aprovação de Deus nem de tornar Deus

endividado para com o pecador em sentido algum.

Finalmente, devemos reconhecer que os descrentes muitas vezes recebem mais graça comum que

os crentes — eles podem ser mais habilidosos, trabalhar com mais esforço, ser mais inteligentes,

mais criativos ou ter mais dos benefícios materiais desta vida para desfrutar. Isso não indica de

forma alguma que eles são mais favorecidos por Deus no sentido absoluto ou que eles vão ganhar

qualquer coisa relativa à salvação eterna, mas significa somente que Deus distribui as bênçãos da

graça comum de vários modos, muitas vezes concedendo bênçãos bastante significativas a

descrentes. Em tudo isso, obviamente, eles devem tomar consciência da bondade de Deus (Ateus

14:17) e reconhecer que a vontade revelada de Deus é que essa “bondade de Deus” finalmente os

conduza “ao arrependimento” (Romanos 2:4).

C.  Razões para a graça comum

Por que Deus concede graça comum a pessoas imerecedoras que nunca virão à salvação? Podemos

sugerir ao menos quatro razões.

1. Para redimir os que serão salvos. Pedro diz que o dia do juízo e da execução final de punição está

sendo retardado porque há ainda mais pessoas que serão salvas. “O Senhor não demora em

cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Ao contrário, ele é paciente com vocês, não querendo

que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.” (2 Pedro 3:9,10). De fato, essa

razão foi verdadeira desde o princípio da história humana, pois, se Deus quisesse salvar qualquer

pessoa entre todos que compõem a humanidade pecaminosa, Ele não poderia destruir todos os

pecadores imediatamente (nesse caso não sobraria ninguém da raça humana). Ao contrário, Ele

resolveu permitir que seres humanos pecaminosos vivessem algum tempo de modo a ter uma

oportunidade de arrependimento e também para que pudessem gerar filhos, capacitando gerações

subseqüentes a viver, a ouvir o evangelho e se arrepender.

2. Para demonstrar a bondade e a misericórdia de Deus. A bondade e a misericórdia de Deus não

são vistas somente na salvação dos crentes, mas também nas bênçãos que Deus dá aos pecadores

que não as merecem. Quando Deus “é bondoso para com os ingratos e maus” (Lucas 6:35), essa

bondade é revelada no universo, para a Sua glória. Davi diz: “O Senhor é bom para todos; a sua

compaixão alcança todas as suas criaturas” (Salmos 145:9). Na história de Jesus conversando com

o moço rico, lemos: “Jesus olhou para ele e o amou” (Marcos 10:21), embora o homem fosse um

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descrente que no mesmo instante afastou-se de Jesus porque possuía muitas riquezas. Berkhof diz

que Deus “derrama incontáveis bênçãos sobre todos os homens e também indica claramente que

elas são expressões de uma disposição favorável de Deus que, contudo, fica muito aquém da volição

positiva exercida para lhes perdoar, suspender a sentença a eles imposta e assegurar-lhes a

salvação”.

Não é injusto Deus retratar a execução da punição do pecado e dar temporariamente bênçãos aos

seres humanos, porque a punição não é esquecida, mas apenas retardada. Retardando a punição,

Deus mostra claramente que não tem prazer em executar o juízo final, mas, ao contrário, Ele se

deleita na salvação de homens e mulheres. “Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o

SENHOR, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem

dos seus caminhos e vivam” (Ezequiel 33:11). Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e

cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Em tudo isso o tempo de espera da

punição dá uma evidência clara da misericórdia, bondade e amor de Deus.

3. Para demonstrar a justiça de Deus. Quando repetidamente Deus convida os pecadores a virem à

fé e repetidamente eles recusam os Seus convites, a justiça de Deus em condená-los é vista muito

mais claramente. Paulo adverte que quem persiste na incredulidade está simplesmente

acumulando a ira para si mesmo: “Contudo, por causa da teimosia e do seu coração obstinado, você

está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo

julgamento” (Romanos 2:5). No dia do juízo todas as bocas serão silenciadas (Romanos 3:19), e

ninguém será capaz de contrapor que Deus foi injusto.

4. Para demonstrar a glória de Deus. Finalmente, a glória de Deus é mostrada de muitas formas

pelas atividades dos seres humanos em todas as áreas nas quais a graça comum está em operação.

No desenvolvimento e no exercício do domínio sobre a terra, homens e mulheres demonstram e

refletem a sabedoria do seu Criador, comprovam as qualidades dadas por Deus, as virtudes morais

e a autoridade sobre o universo, e coisas semelhantes. Embora todas essas atividades sejam

contaminadas por motivos pecaminosos, elas apesar disso refletem a excelência de nosso Criador e,

portanto, trazem a glória a Ele, não de forma plena e perfeita, mas ainda assim significativa.

C.  Nossa resposta à doutrina da graça comum

Pensando sobre as várias espécies de bondades vistas na vida dos descrentes por causa da graça

comum que Deus dá abundantemente, devemos ter em mente três pontos.

1. Graça comum não significa que quem a recebe será salvo. Mesmo uma porção excepcional de

graça comum não significa que quem a recebe será salvo. Até as pessoas mais habilidosas, mas

inteligentes, mais ricas e poderosas no mundo ainda carecem do evangelho de Jesus Cristo ou

serão condenadas eternamente! Os nossos vizinhos mais bondosos e de moral mais elevada ainda

carecem do evangelho de Jesus Cristo ou serão condenados eternamente! Exteriormente pode

parecer que eles não têm necessidade algumas, mas a Escritura ainda diz que os descrentes são

“inimigos de Deus” (Romanos 5:10; cf. Colossenses. 1:21; Tiago 4:4) e são “contra” Cristo (Mateus

12:30). Eles são “inimigos da cruz de Cristo” e “só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3:18,19),

sendo “por natureza merecedores da ira” (Efésios 2:3).

2. Devemos ser cuidados em não rejeitar as coisas boas que os descrentes fazem, considerando-as

totalmente más. Pela graça comum os descrentes fazem algumas coisas boas, e devemos ver a mão

de Deus nelas, sendo agradecidos por elas, como por exemplo nas amizades, em cada ato de

bondade, no que elas trazem de bênçãos para outras pessoas. Tudo isso — embora o descrente não

o saiba — procede em última análise de Deus, e Deus merece a glória por tudo.

3. A doutrina da graça comum deveria estimular nosso coração à gratidão muito maior a Deus.

Quando descemos uma rua e vemos casas, jardins e famílias vivendo em segurança, ou quando

negociamos no mercado e vemos os resultados abundantes do progresso tecnológico, ou quando

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andamos pelos bosques e vemos a beleza da natureza, ou quando somos protegidos pelas

autoridades, ou quando somos educados no vasto conhecimento humano, devemos perceber não

somente que Deus, em Sua soberania, é o responsável último por todas essas bênçãos, mas também

que Deus as tem concedido aos descrentes, embora eles não tenham absolutamente nenhum

mérito com relação a elas! Essas bênçãos no mundo não são apenas evidências do poder e

sabedoria de Deus, mas a manifestação contínua da Sua graça abundante. A percepção deste fato

deveria fazer nosso coração se encher de gratidão a Deus em cada atividade de nossa vida.

Autor: Wayne Grudem

Fonte: Teologia Sistemática do autor, Editora Vida Nova, págs. 297-304. Compre este livro em

http://www.vidanova.com.br .

A Providência

Jó 38-1 a 41.34; Dn 4.34,35; At 2.22-24; Rm 11.33-36

A maior cidade de Rhode Island [um estado americano] chama-se Providência. Existe algo de

extraordinário neste nome. Ele chama a nossa atenção para a grande lacuna na maneira de pensar

entre as gerações passadas e a nossa sociedade atual. Quem iria chamar uma cidade de

Providência, hoje em dia? A própria palavra soa arcaica e fora de moda.

Quando leio os escritos de cristãos de séculos atrás, fico surpreso com a enorme quantidade de

referências à providência de Deus. É como se antes do século XX os cristãos fossem muito mais

conscientes e sensíveis para com a providência de Deus em sua vida. O espírito do naturalismo, que

interpreta todos os eventos na natureza como sendo governados por forças independentes, causou

um impacto em nossa geração.

O significado fundamental da palavra providência é “ver antes ou com antecedência”, ou “prover

algo para”. Com tais sentidos, a palavra fica longe de conseguir cobrir o profundo significado da

doutrina da providencia, a qual significa muito mais do que Deus ser um espectador dos eventos

humanos. Contém muito mais o que mera referência à providência de Deus.

A Confissão de Fé de Westminster, feita no século XVII, definida providência da seguinte maneira:

“Pela mui sábia e santa providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável

conselho de sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória

de sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as

criaturas, todas as ações delas e todas as coisas, desde a maior até a menor”.(CAP VI)

Aquilo que Deus cria, ele também sustenta. O universo não só depende de Deus para sua origem,

mas depende dele também para continuar existindo. O universo não pode existir nem operar por

seu próprio poder. Deus sustente todas as coisas por seu poder. Nele nós vivemos, nos movemos

existimos.

O ponto central da doutrina da providência é a ênfase no governo de Deus sobre o universo. Ele

governa sua criação com absoluta soberania e autoridade. Ele governa aquilo que acontece, desde

os maiores eventos até os menores. Nada jamais acontece além do âmbito do seu governo soberana

e providencial. Ele faz a chuva cair e o sol brilhar. Levanta e derruba reinos. Ele conta os cabelos da

nossa cabeça e os dias da nossa vida.

Existe uma diferença fundamental entre a providência de Deus e fortuna[aquilo que sucede por

acaso], destino ou sorte. A chave para esta diferença está no caráter pessoal de Deus. A fortuna é

cega, enquanto Deus vê todas as coisas. O destino é impessoal enquanto Deus é nosso Pai. A sorte é

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muda enquanto Deus pode falar. Não existem forças cegas e impessoais na história humana. Tudo

se passa por meio de mão invisível da providência de Deus.

Num universo governado por Deus não existem eventos casuais. De fato, não existe algo como

acaso. O acaso não existe. Não passa de uma palavra que usamos para descrever possibilidades

matemáticas, mas que não tem nenhum poder em si, porque não tem existência. O acaso não é uma

entidade capaz de influenciar a realidade. Acaso não é algo real. Não é nada.

Outro aspecto da providência chama-se concorrência. Concorrência refere-se às ações conjuntas de

deus e seres humanos. Mesmo assim, o poder causal que exercemos é secundário. A soberana

providência de Deus está acima e além das nossa ações. Ele opera sua vontade por meio das ações

da vontade humana, sem violar a liberdade dessa vontade humana. O exemplo mais claro de

concorrência encontrado nas Escrituras é o caso de José e seus irmãos. Apesar de os irmãos de

José serem verdadeiramente culpados pela traição que fizeram contra ele, a providência de Deus

estava operando até mesmo através do pecado deles. José disse aos irmãos: “Vós bem intentastes

mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar

muita gente com vida.” (Gn 50.20).

A providência redentora de Deus pode operar através das ações mais diabólicas. A pior ofensa que

já foi cometida por um ser humano foi a traição de Jesus Cristo por Judas Iscariotes. Mesmo assim,

a morte de Cristo não foi um acidente na História. Aconteceu de acordo com o conselho

determinado por Deus. O ato de perversidade de Judas ajudou a promover a melhor coisa que já

aconteceu na História, a Expiação. Não é fortuito quando nos referimos àquele dia histórico com

sexta-feira “santa”.

Sumário

1. O conceito da providência divina geralmente não é entendido em nossos dias.

2. A providência inclui a obra de Deus em sustentar sua criação.

3. A providência se refere principalmente ao governo de Deus sobre a criação.

4. À luz da providência divina, não existem forças impessoais tais como fortuna, destino ou acaso.

5. A providência inclui a concorrência, por meio da qual Deus opera sua vontade divina por

intermédio da vontade de suas criaturas.

Autor: R. C. Sproul

Fonte: 1º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre

este livro em http://www.cep.org.br .

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