Agostinho: "Assim como somente o Filho de Deus se fez Filho do Homem para que consigo nos fizesse filhos de Deus, assim também por nós somente ele sofreu castigo sem maus merecimentos, a fim de que, através dele, sem bons merecimentos, conseguíssemos graça que não nos era devida".

Home Teologia 3 - DEUS - CURSO IPC - REVISÃO JAN-2012

TEOLOGIA – CURSO

vivendopelapalavra.com

Revisado em 01/2012

Por: Helio Clemente

3 – A NATUREZA E OS ATRIBUTOS DE DEUS

O estudo da natureza de Deus é o fundamento para se conhecer o universo, a estrutura e a origem de tudo o que existe, bem como as limitações do conhecimento humano. O ponto inicial do presente estudo é o pressuposto escriturístico, por este motivo não será colocada em questão a existência de Deus, Ele existe e se revela através da Escritura, mas serão vistos, a seguir, os argumentos seculares para existência de Deus e suas implicações filosóficas, considerando também as implicações teológicas resultantes destes argumentos.

Lembrete: Sempre que Deus for citado nestes estudos, a referência é ao Deus Triúno cristão conforme revelado na Escritura.

Por que conhecer a Deus?

O homem moderno perdeu completamente a noção de Deus em sua inteireza e isto se aplica principalmente aos religiosos, eles não conseguem perceber Deus como um ser simples na unidade de suas qualidades e atributos, mas tem uma noção completamente deficiente de Deus que se manifesta de várias maneiras.

As principais formas em que os cristãos professos falsificam o conhecimento do Ser de Deus e das pessoas da Trindade são as seguintes:

1 – Deus é amor: Para a grande maioria dos religiosos o amor se alteia e sobressai eclipsando todas as outras qualidades divinas, o amor supera a justiça, a santidade e a verdade de Deus, colocando em Deus emoções e sentimentos variáveis ao longo do tempo, incompatíveis com a Escritura e, principalmente, com a eternidade e imutabilidade de Deus.

2 – O plano de salvação: Para a grande maioria dos religiosos, a vida e o sacrifício de Jesus constituem meros exemplos a serem seguidos, sendo que o homem, por si mesmo deve escolher sua salvação e perseverar nela por suas próprias forças.

3 – Jesus é um homem como qualquer outro: Este é outro mito presente na igreja cristã, mesmo aqueles que dizem que Jesus é o Verbo encarnado não têm uma noção precisa do que se trata e a grande maioria continua pensando em Jesus como um homem de extrema virtude e piedade que conquistou, pelas suas obras, o favor de Deus.

4 – Deus é um poder supremo: Uma força impessoal que criou o universo e suas leis, deixando em seguida que todas as coisas corram de acordo com o curso da natureza.

5 – O panteísmo: O universo é uma extensão do ser de Deus, a matéria é eterna e todas as coisas no universo são sagradas, o homem pode, através da meditação e de uma vida ascética ou de sucessivas reencarnações tornar-se, um dia, igual a Deus.

6 – A universalidade da salvação: Jesus morreu por toda a humanidade, a queda de Adão ficou restrita somente a ele mesmo, desta forma o homem não perdeu sua capacidade de restaurar a comunhão com Deus e pode decidir e perseverar em sua própria salvação. Desta forma Deus fica reduzido a um ser impotente e ignorante à espera da decisão e cooperação do homem para realização de seus planos.

7 – A temporalidade da eternidade: A eternidade é um tempo infindável para o passado e para o futuro e Deus vive no tempo tanto quanto os homens, desta forma a onisciência de Deus fica limitada ao presente e ao passado e ele desconhece o futuro e suas implicações.

Estas são as principais ideias que os cristãos professos têm a respeito de Deus, mas que estão distantes da realidade do verdadeiro Deus revelado pela Escritura, como será visto neste estudo.

A EXISTÊNCIA DE DEUS: A bíblia não discute a possibilidade de Deus, ela simplesmente começa com a premissa indiscutível da existência de Deus, todavia, para efeito de conhecimento é útil proceder a uma análise breve dos argumentos filosóficos para a existência de Deus, tendo sempre em mente que estes argumentos visam provar a existência de um deus que não é o Deus cristão, triúno e pessoal. A questão teológica não é se Deus existe, mas o conhecimento da natureza e dos preceitos de Deus.

Na verdade, esta busca de provas científicas para a existência de Deus é fútil, antibíblica e totalmente condenável do ponto de vista cristão.

O argumento cosmológico (da causa ou do movimento):

O argumento cosmológico busca provar que deve haver uma causa final espontânea e pré-existente para todas as coisas. O argumento cosmológico faz exame de diversas proposições, mas é representado basicamente da seguinte forma: As coisas existem, contudo, seria possível para estas coisas não existir, qualquer coisa tem a possibilidade não existência, mas se existe foi causada a existir, algo não pode trazer a si próprio à existência, desde que, deve existir para se trazer à existência, o que é ilógico.

Também não pode haver um número infinito das causas para trazer algo à existência, porque um número infinito de causas significa um tempo infinito, que implica na extinção de qualquer coisa material criada, ademais, a ciência atual reconhece, tanto quanto a Escritura, que o universo tem uma origem no tempo, sendo, portanto, finito, e, uma vez que o universo existe deve haver uma causa primária de todas as coisas, a causa primária - não criada - deve ser obrigatoriamente pré-existente a tudo: Deus.

Tomas de Aquino desenvolveu cinco versões deste argumento, mas tão semelhantes uma à outra que podem ser resumidas em apenas uma: “O argumento do movimento”. Ele indicou que as coisas em movimento não poderiam ter-se colocado em movimento, mas deve existir obrigatoriamente uma causa para o movimento. Como não pode haver uma regressão infinita de causas motoras, consequentemente, deve haver uma causa motora pré-existente, esta causa motora imóvel é Deus.

Este argumento começa com a possibilidade do conhecimento da existência do mundo físico. As forças do argumento cosmológico se encontram em sua simplicidade e no conceito irrefutável que não pode haver um número infinito das causas a um evento.

Como já foi dito acima, este número infinito de causas implicaria na extinção das coisas criadas. Este argumento é básico e simples, é perfeitamente lógico afirmar que os objetos não se trazem à existência e devem, consequentemente, ter causa para sua origem. Uma das brechas do argumento é que se todas as coisas necessitarem uma causa para existir, então Deus, Ele mesmo, deve também, pela definição, necessitar uma causa para existir.

Não é assim conforme o ponto de vista escriturístico, pois somente as coisas criadas ou finitas necessitam uma causa pré-existente, Deus é infinito e eterno, desta forma, não poderia ter sido criado. Não existe causa para a existência de Deus, uma vez que Ele é a causa primária de tudo o que existe.

O ARGUMENTO TELEOLÓGICO (DO DESIGN OU PROJETO):

Este é o argumento do design, ou do projeto: O universo e os seres vivos se apresentam como consistentes e uniformes; todo processo científico é baseado na uniformidade da natureza, desta forma deve haver um designer (ou projetista) do universo e das coisas vivas. Uma analogia deste argumento foi feita por William Paley (1743-1805): Se um selvagem está caminhando por um campo e acha um relógio funcionando ele vai concluir que alguém construiu aquele objeto, o relógio obviamente não é o produto de uma formação aleatória. Da mesma forma, o universo e os seres vivos são infinitamente mais complexos que um relógio, donde se conclui a existência de um projetista que fez o universo.

Este é um argumento científico, que surgiu em complementação ao argumento cosmológico e que se choca violentamente com a teoria da evolução, pois o olho, por exemplo, tem diversas peças perfeitamente coordenadas que só podem funcionar em um projeto conjunto, eliminando completamente a possibilidade de desenvolvimento parcial, pois somente no total combinado elas exercem sua função; o mesmo ocorre com os ouvidos, coração e cérebro. A teoria da evolução não pode esclarecer estas ocorrências individuais e temporalmente simultâneas que concorrem juntamente para formar um todo e só funcionam como este todo.

Muitos teólogos atuais utilizam-se deste argumento teleológico, pois ele está de acordo com:

Romanos 1,20: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas”.

Os cristãos não devem buscar argumentos científicos para a existência de Deus, mesmo este argumento do design não irá revelar de forma alguma o Deus triúno da bíblia. A Escritura não se preocupa com o fato da existência de Deus, mas com o conhecimento de seu Ser, natureza e qualidades, por este motivo, o cristão deve, igualmente, proceder da mesma forma: buscar o conhecimento de Deus, ignorando argumentos fúteis e desnecessários.

O ARGUMENTO ONTOLÓGICO (DA NECESSIDADE):

Este argumento foi desenvolvido Anselmo (1033-1109), arcebispo de Canterbury e mais recentemente por Alvin Plantinga.

Deus é o Ser além do qual nada maior ou anterior pode ser concebido. Como nenhuma coisa pode ser a causa de si mesma, a existência deste Ser passa a ser uma necessidade para a existência de todas as outras coisas. O peso do argumento é indiscutível, como se pode ver no exemplo seguinte:

- Quando um ateu fala que Deus não existe, ele inevitavelmente imaginou este ser com todas as características próprias da divindade, por este motivo sua negação é contraditória, pois ele tem que formular primeiro a idéia das características e natureza de Deus para depois rebatê-la, mas então ele já admitiu o Ser acima do que nada maior pode ser concebido. Peça a um ateu para escrever – “Não creio em Deus” - ele certamente irá escrever Deus com maiúscula, é novamente a necessidade de se imaginar aquele acima do que nada maior pode ser concebido.

Greg Bahnsen: “Embora, em defendendo a fé para qualquer ímpio em particular, o Cristão deve estar ciente que seu oponente já acredita em Deus, e realmente está tomando emprestada a crença do próprio crente para a experiência fazer sentido ou para justificar e argumentar de alguma forma”.

Salmo 14,1: “Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação; já não há quem faça o bem”.

 

O ARGUMENTO MORAL (DAS LEIS UNIVERSAIS):

Para que existam leis morais com validade universal deve haver uma justiça universal, esta justiça universal não existe nesta vida, deve então haver uma vida além desta vida onde a justiça perfeita será executada. Para que isso aconteça deve haver um Juiz que executará essa justiça, para que ele seja justo e julgue retamente deve ser onisciente conhecendo todas as coisas e as razões de todas as criaturas vivas. Este princípio foi advogado por Immanuel Kant (1724 -1804) na sua Crítica da Razão Pura. Este conceito de Deus levantado por Kant era um conceito meramente ético e moral, mas bastante próximo à realidade da justiça divina.

Mesmo homens que negam a existência de leis morais universais, falam e agem como se esta moralidade existisse e reagem às ações de outros em relação a si mesmos como se estas leis universais existissem de fato. Moralidade e ética universais somente podem existir em função da existência de Deus, mesmo que os homens neguem, este é um fato imposto a todas as nações.

Romanos 2,14: “Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos”.

O ARGUMENTO REVELACIONAL (A ESCRITURA):

A tradição hebraica e a tradição cristã

O argumento transcendental ou revelacional é o conhecimento de Deus através de sua própria revelação. A tradição hebraica e também a tradição cristã admitem a existência de Deus pela sua própria revelação: A Bíblia Sagrada. Veremos abaixo que a tradição cristã admite a existência de um Deus diferente daquele admitido pelos judeus.

Até este momento, o que está em análise são as provas e meios para conhecimento de Deus. Não é correto referir-se à tradição hebraico-cristã como se tratasse da mesma coisa, apesar dos judeus utilizarem os mesmos livros do Velho Testamento da bíblia cristã, não quer dizer que eles acreditam no mesmo Deus do cristianismo, os judeus não acreditam em Cristo e na Trindade Divina, portanto o Deus cristão não é o mesmo do judaísmo.

A civilização hebraica sempre foi baseada no cumprimento da lei, pela qual ninguém jamais foi salvo, Jesus não veio para ab-rogar a lei, mas para cumpri-la em lugar dos eleitos de Deus e libertá-los da escravidão da lei, coisa que os judeus jamais admitiram. Desta forma, quando se fala em tradição hebraico-cristã, fala-se algo que só pode existir na mente de pessoas que não tem conhecimento ou respeito pela tradição cristã.

Muito ainda poderia ser dito sobre a busca de provas e argumentos para a existência de Deus, mas estas considerações são suficientes para este estudo, pois a finalidade da doutrina é centrada no conhecimento da natureza, das qualidades e do Ser de Deus e não nas provas de sua existência.

Jesus a respeito da necessidade de conhecer a Deus

Jesus quando inquirido sobre o maior dos mandamentos, responde com base nas palavras de Moisés no livro do Deuteronômio, conforme abaixo:

Deuteronômio 6,4-5: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”.

A resposta de Jesus está nos dois versos paralelos em Mateus e Marcos, conforme abaixo:

Mateus 22,36-37: “Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”.

Marcos 12,29-30: “Respondeu Jesus: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força”.

É notável nas respostas de Jesus que ele acrescenta o entendimento às requisições de Moisés.

Jesus, aqui, está ensinando que não é possível amar a Deus sem conhecê-lo, este é um fato inegável, é impossível amar algo ou alguém que não se conhece.

No evangelho de João Jesus vai muito além destes versos em Mateus e Marcos na necessidade do conhecimento de Deus, ele afirma que a vida eterna é o conhecimento de Deus, ou podemos dizer logicamente com base nesta afirmação que o conhecimento de Deus é a vida eterna, que mais se pode acrescentar a isto?

João 17,3: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”.

A NEGAÇÃO DE DEUS (ATEÍSMO):

A negação de Deus é o ateísmo, da mesma forma que a teologia o ateísmo apresenta alguns movimentos com características básicas.

Positivismo lógico:

Os adeptos deste movimento consideram a existência de Deus como absurda, os átomos e seus componentes no espaço constituem a soma total da realidade. Não partem de nenhum princípio, sua filosofia consiste apenas em negar a existência de Deus. Admitem a teoria da evolução como verdade científica sem preocupação com a existência primária dos materiais e condições para o desenvolvimento da vida.

Naturalismo ou humanismo:

Formado por pessoas preocupadas somente com o desenvolvimento social e econômico da humanidade, acreditam que o homem é bom por natureza, e em condições sociais e econômicas favoráveis serão sempre voltados para o bem.

Crêem firmemente que as religiões, principalmente a cristã, são falsas e constituem obstáculos para o desenvolvimento da sociedade, são os socialistas, comunistas, humanistas, iluministas etc.

Panteísmo:

Os aderentes deste movimento afirmam que Deus é o universo, tudo no universo é Deus e o homem um dia será como Deus. Filosofia extraída de religiões orientais, afirma, porém, como todas as outras correntes ateístas que nada além do universo físico existe.

Agnosticismo:

Afirma ser impossível saber ou conhecer qualquer coisa a respeito de Deus, pode-se definir o agnosticismo como estado de ignorância admitida. Não se julgam ateus, mas recusam a revelação de Deus através das escrituras, das sensações, das experiências, da lógica ou do irracionalismo. São ateus inegavelmente.

O ATEÍSMO PRÁTICO

Em contrapartida aos ateus positivistas ou humanistas existem os ateus práticos, são religiosos, declaram-se cristãos, acreditam em um deus criador, mas não admitem com integridade o Deus bíblico.

Para análise deste ateísmo prático, consideramos que a bíblia apresenta Deus como sendo tanto transcendente como imanente, ou seja, ao mesmo tempo em que é o Deus criador de todo o universo e suas criaturas, sendo onipotente, perfeito, santo e justo, é também o Deus imanente que cuida individualmente de cada uma das pessoas da humanidade, elegendo-as na eternidade para a salvação ou condenação.

Este ateísmo prático manifesta-se de três formas:

A – CONTRA A NATUREZA DE DEUS:

A1 – Um deus transcendente, mas não imanente: Este é um deus que criou o universo e o abandonou à sua própria sorte, não se importa com o homem ou com a natureza deixando que todas as coisas aconteçam sem intervenção. Esta é a heresia do deísmo, um deus criador, impessoal e indiferente que não se importa com a humanidade, é uma forma cruel de ateísmo.

A2 – Um deus imanente, mas não transcendente: Este é um deus que deseja ardentemente salvar toda a humanidade e mandou seu Filho para morrer pelos pecadores, mas não tem poder para salvar e depende do homem para realização do plano de salvação e construir um destino brilhante para a humanidade: A fé evangélica transformada em obras e todas as formas de arminianismo baseadas no livre-arbítrio do homem.

A3 – Um deus humanizado que não é transcendente nem imanente: Este é um deus derivado do panteísmo, um deus limitado ao universo físico, onde o homem e as coisas da natureza são todas sagradas e não existe distinção entre deus e o universo. Esta é uma situação característica das religiões orientais, adotada pelos modernos ministros carismáticos, que divinizam o homem e humanizam a Deus conseguindo, desta forma espúria, atrair multidões incontáveis às suas denominações.

A4 – Um Deus transcendente e imanente: Mas que decide deliberadamente contar com o trabalho do homem em sua própria salvação, por isso, ofereceu o seu plano de salvação a todas as pessoas da humanidade indistintamente e o homem fica responsável por conseguir e manter sua própria salvação. Esta situação se manifesta de várias formas sutis, admitindo uma ação parcial da graça de Deus, a graça preveniente, a graça cooperativa, o sacrifício de Cristo como oferta ao homem, ou ainda a vida de Jesus como exemplo a ser seguido pelos que desejam a salvação.

B – CONTRA A NATUREZA DE CRISTO

B1 – Negam a divindade de Cristo diretamente: Como consequência, negam também a Trindade divina, este é o caso das Testemunhas de Jeová, Adventistas, Mórmons, Espíritas e dispensacionalistas em geral; são os unitaristas. Jesus, neste caso, é transformado em um homem que viveu uma vida piedosa de alto padrão moral e foi elevado à divindade depois de sua morte, ou então, uma pessoa espiritualmente superior, um grande mestre ou um exemplo de vida a ser seguido.

B2- Negam a divindade de Cristo indiretamente: Este é o caso dos defensores da teologia relacional e do arminianismo que negam a graça de Deus e a suficiência do sacrifício de Cristo, afirmando que a justiça de Cristo é oferecida indistintamente a toda humanidade como uma ajuda e um exemplo para o homem decidir por si mesmo e conseguir sua própria salvação, volta-se neste caso ao livre arbítrio do homem.

B3 – Admitem a divindade de Cristo, mas aceitam outros intercessores entre Deus e os homens: Este é o caso típico do catolicismo romano, mas também, indiretamente, de grande parte das religiões pentecostais, que atribuem o poder de intercessão a seus ministros, que se propõem a realizar por si mesmos, atos próprios do Espírito de Deus, que procede unicamente do Pai e do Filho.

C- CONTRA O ESPÍRITO DE SANTO

C1 – O “batismo no (ou com) espírito”: Este é o caso das denominações pentecostais, onde os ministros julgam-se capazes de realizar “o novo nascimento” do crente através do que eles chamam de “batismo nas águas” ou “batismo no (ou com o) espírito”.

C2 – Atos de parapsicologia realizados em nome do Espírito Santo: Este é o caso de ministros carismáticos e pentecostais que atribuem seus atos de ilusionismo e parapsicologia à ação do Espírito: Batismo nas águas, falar em línguas, expulsar demônios, amarrar demônios, curas milagrosas, batalha espiritual, maldição hereditária e outros.

C3 – Conversão por técnicas seculares: Este é o caso dos ministros carismáticos e da igreja com propósitos, onde a conversão é baseada em técnicas gerenciais mundanas e atribuída a um trabalho programado de liderança conforme o modelo empresarial, onde os resultados são medidos por estatísticas e avaliações de resultados práticos visíveis, negando desta forma, a conversão pela graça de Deus em Cristo e a aplicação e preservação desta salvação pelo Espírito Santo.

OS NOMES DE DEUS

Na antiguidade os nomes pessoais tinham um significado muito mais intenso, o nome era a própria pessoa, que desta forma tinha uma identificação muito forte com o seu próprio nome. Muito mais com relação a Deus, a ligação de Deus com os seus nomes era tão forte que os hebreus proibiam qualquer pessoa de pronunciar o nome YAHWEH, que era escrito somente com consoantes para evitar a pronúncia do nome (YHWH).

Os nomes próprios de Deus

Os nomes próprios de Deus são aqueles que apresentam Deus como o Ser que transcende a todas as coisas criadas, sendo o único digno de veneração e adoração.

Elohim: Forte, todo-poderoso, criador de todas as coisas, digno de honra e veneração, que inspira temor. Este é o nome de Deus mais usado na bíblia, onde é citado por mais de duas mil e quinhentas vezes. Este nome, na língua hebraica está no plural e representa a diversidade das pessoas na essência do Deus único. Este é o primeiro nome de Deus encontrado na bíblia no primeiro verso do livro do Gênesis.

Elyon (El-Elyom): O Deus altíssimo, exaltado acima de todas as coisas criadas.

Estes nomes são representados no Novo Testamento, em grego, como THEOS, que representa as qualidades transcendentes de Deus.

Os nomes essenciais e pessoais de Deus

Estes são os nomes que denotam relacionamento com a criação.

YAHWEH (Jeová): O Deus que se revela, tanto como o Deus auto existente e imutável, e o Deus que se relaciona pessoalmente com a criação, por isso este nome é traduzido muitas vezes como: EU SOU! Ou EU SOU O QUE SOU! Esta é o nome pelo qual Deus se revelou a Moisés. Este é o nome pelo qual Jesus afirmou sua divindade aos fariseus: “Antes que Abraão existisse, EU SOU”. Este nome é representado no Novo Testamento, em grego, como a palavra Kurios, que pode ser traduzida como uma variante de YAHWEH (SENHOR).

Adonai: Governante, todo-poderoso, altíssimo, transcendente (este nome era usado em substituição ao nome YAHWEH, considerado impronunciável pelos hebreus), é representado na bíblia como “Senhor”.

El-Shadai: O Deus de muitos seios, este nome transmite a suficiência de Deus em prover todas as necessidades da criação em todos os aspectos, representa a plena suficiência e lembra o fato de que Deus é ilimitado e infinito em todas suas qualidades e atributos.

YAHWEH-Tsebaoth: “O Senhor dos Exércitos”, este nome também é bastante utilizado na bíblia e era um nome venerado pelos hebreus. Os exércitos aqui referidos são os anjos e seres espirituais que estão sob estrito controle de Deus, incluindo nesta relação os anjos caídos, que somente podem fazer as coisas determinadas no plano eterno de Deus.

Existem ainda dezenas de variações quanto ao nome de YAHWEH/Jeová, as principais são: Jeová-Jiré - o Deus que se revela; Jeová M’Kadesh – o Deus que santifica;
Jeová Nissi – o Deus vencedor; Jeová-Rafá – o Deus que cura; Jeová Shalom – o Deus da paz; Jeová Tsidekenu – Deus justiça nossa; Jeová Rohi – Deus nosso pastor;
Jeová Makke – o Senhor disciplina (fere); Jeová Gmolá – Senhor das bênçãos (recompensas); Jeová Eloenu – o Senhor é nosso Deus; El Eloé Israel – o Deus de Israel.

No Novo Testamento o nome de Deus é empregado também como variação do nome YAHWEH, com as seguintes designações, que servem tanto para Deus como para Cristo:

Alfa e Ômega; Princípio e Fim; O que era, que é e que haverá de ser.

COSMOVISÃO

Cosmovisão: Palavra de origem alemã que significa “visão do mundo” ou a forma como uma pessoa vê o mundo, a vida, os homens e os princípios que sustentam a crença global desta pessoa.

Serão apresentadas, a seguir, as principais crenças que definem as cosmovisões existentes entre os vários sistemas e conceitos, religiosos ou não. Podemos ver que todas as coisas são claramente explicadas dentro do pressuposto cristão.

Deus não é de confusão, mas de paz, desta forma Ele revela com muita clareza, através da Escritura, tudo o que se deve saber a respeito do mundo físico e espiritual.

COSMOVISÃO CRISTÃ - PRINCÍPIOS BÁSICOS

DEUS (EXISTÊNCIA E CONHECIMENTO) – proposições:

O ponto de partida do pensamento cristão é o pressuposto escriturístico, por este motivo a existência de Deus não é discutida ou colocada em dúvida: Ele existe e se revela através da Escritura. O cristão não deve se preocupar em provar a existência de Deus, mas em conhecê-lo e testemunhar este conhecimento.

Gênesis 1,1: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”.

CAUSAS PRIMEIRAS (METAFÍSICA) – proposições:

O universo foi criado a partir do nada (ex nihilo), sendo, portanto, finito e não é uma extensão do Ser de Deus. Um Deus, eterno, pessoal e poderoso criou o universo, desta forma existe um propósito para o universo e ele funciona de acordo com um plano pré-determinado e providencial.

Hebreus 1,3: “Ele (Cristo), que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas”.

TEORIA DO CONHECIMENTO (EPISTEMOLOGIA) – proposições:

O homem possui em si a consciência inata do Deus criador do universo, por isso, o conhecimento de Deus é possível pela observação das obras da natureza, mas, revelações emocionais e experiências não são suficientes para a salvação, a única possibilidade de conhecimento real de Deus é através da revelação especial que Ele fez de si mesmo e de seus preceitos para o homem – a Escritura.

Romanos 1,20: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis”.

NATUREZA DO HOMEM (ANTROPOLOGIA) - proposições:

O homem é composto de corpo e alma, porém como uma unidade psicossomática, a morte física não finaliza a existência do homem, pois a alma é imortal e continua existindo em seu destino final após a morte física.

Na segunda volta de Cristo a alma se une novamente ao corpo ressurreto, retomando a unidade psicossomática (*), para ser submetida ao juízo final como o mesmo indivíduo que viveu na terra, de forma consciente e responsável.

Em sua vida terrena homem age de forma determinada previamente pelos Decretos Eternos de Deus.

(*) - Psicossomática: Que diz respeito simultaneamente ao corpo e alma (alma e espírito são sinônimos neste sentido).

Eclesiastes 12,7: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”.

ÉTICA E MORAL - proposições:

COSTUMES OU DOUTRINA?

Ética religiosa: A maioria das pessoas tem a religião como um tratado de ética e moral mundanos, adotam o comportamento social e as boas obras como a base formadora da sua cosmovisão resumindo suas religiões em normas sociais e comportamentais sem fundamento doutrinário.

Ética cristã: A religião cristã propõe que o comportamento do homem é continuamente mau, ditado pela sua natureza corrompida pela queda, até o momento em que Deus justifica os seus eleitos, unicamente pela sua graça, imputando a eles a justiça perfeita de Cristo.

Desta forma, os torna aptos através da operação contínua do Espírito, a ter uma vida piedosa e digna, caminhando nas boas obras que foram preparadas para eles antes da criação do mundo, todavia, sem jamais atingir a santidade nesta vida terrena.

Efésios 2,10: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”.

Esta soma de concepções relacionadas constitui a cosmovisão de uma pessoa cristã. Todos têm uma cosmovisão, consciente ou inconsciente, desde o selvagem da Nova Guiné até o cientista mais avançado.

Toda cosmovisão tem obrigatoriamente um princípio primeiro a partir do qual ela é construída, o princípio primeiro da cosmovisão cristã é a Escritura.

Conforme Francis Schaeffer, em seu livro “Manifesto Cristão”, existem apenas duas cosmovisões no mundo: A cosmovisão cristã e a cosmovisão humanista.

F. Schaeffer: “Infelizmente o cristianismo foi enclausurado em uma parte isolada na vida dos cristãos enquanto que os humanistas perceberam há muito tempo, o que os cristãos relutam em compreender até o dia de hoje, que estes dois enfoques do mundo representam uma realidade total contra outra realidade total. O “Manifesto Humanista” publicado em 1933, demonstrou claramente a compreensão global que eles tinham a respeito do que estava envolvido nisso, não somente que haviam dois conceitos totalmente antagônicos, mas que estes conceitos levariam a resultados completamente diferentes para a sociedade como um todo”.

Infelizmente, o que vemos hoje é que esta cosmovisão humanista abrange grande parte, senão a grande maioria, das denominações cristãs. O resultado disso se vê hoje no ecumenismo, no politicamente correto, na negação dos atributos divinos e no inclusivismo dentro moderna igreja cristã.

Isto tem resultados irreversíveis e consequências trágicas, como por exemplo: A islamização da Europa, a secularização da América e o avanço do socialismo nos Países Latino-Americanos, além do sistema educacional ocidental totalmente dominado pelos organismos internacionais e afastado compulsoriamente da lei de Deus.

A NATUREZA E OS ATRIBUTOS DE DEUS

Já foi visto, em capítulo anterior, a possibilidade do conhecimento de Deus, a sua cognoscibilidade, segue-se agora o estudo dos atributos e da natureza de Deus, o que levará à definição do Ser de Deus conforme a revelação que Ele faz de si mesmo.

O Ser de Deus deve ser definido como o conjunto total de suas qualidades e atributos, que são todos perfeitos individualmente, mas que existem somente de forma inseparável e inalienável na totalidade e completude destes atributos. Desta forma, não existe a possibilidade da manifestação de um destes atributos aparte do conjunto completo de todos eles.

Esta é a perfeição do Ser de Deus, pois se houvesse a simples possibilidade de manifestação de uma de suas qualidades em detrimento de qualquer outra, ou em contradição com o conjunto de todos os atributos, Deus não seria perfeito, pois deixaria de ser justo. Se houvesse a possibilidade de que algumas qualidades tivessem preeminência sobre outras, Deus deixaria de ser santo, pois perderia o equilíbrio que o mantém acima e além de todas as criaturas.

Assim, se o conhecimento exaustivo de Deus é impossível, o conhecimento adquirido através da Escritura é verdadeiro e suficiente para todos os desígnios do homem. Não se deve confundir a incompreensibilidade com incognoscibilidade; se o conhecimento exaustivo do Deus infinito é impossível aos homens finitos, cabe humildemente, conhecer a Deus conforme a revelação recebida através da Escritura.

Romanos 11,33: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!”

Não existem mistérios ou paradoxos em Deus, se algumas doutrinas bíblicas não são entendidas de imediato, o entendimento do homem é deficiente, a revelação não é falha, mas, o que acontece usualmente é que as pessoas entendem as doutrinas, mas não as aceitam.

As doutrinas reveladas não constituem mistérios a não ser para aqueles que as repudiam voluntariamente, as doutrinas reveladas são claras e exigem aceitação universal de todos os homens, cristãos ou não cristãos. A revelação é infinitamente superior à possibilidade de compreensão e a recusa em aceitá-la nada mais é que demonstração clara de afastamento e rebeldia voluntária contra Deus.

Como exemplos dessas doutrinas reveladas apresentam-se as doutrinas da eleição, da trindade, da encarnação e da ressurreição; ao mesmo tempo em que escapam do entendimento, são doutrinas claramente expressas na Escritura e sua aceitação é exigida universalmente de todos os homens, crentes ou não.

Romanos 1,18: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça”.

Os atributos de Deus

Os atributos incomunicáveis de Deus:

- O infinito:

É a característica de Deus pela qual Ele não tem princípio nem fim, é a auto-existência de Deus que é antes de todas as coisas por si mesmo e em si mesmo. Como foi visto acima, o infinito é possível em sequências matemáticas, mas impossível com relação às coisas materiais existentes no universo criado, pois nenhuma coisa material subsiste a uma sequência infinita de fatos que exige um tempo infinito para sua realização.

- A eternidade:

Esta é uma característica exclusiva do ser de Deus, não é possível entender a eternidade de nenhuma forma através do tempo, pois a eternidade é a ausência do tempo, não pode ser medida pelo tempo, mas todos os momentos que existiram, existem ou virão a existir estão presentes de forma permanente e imutável na eternidade.

Não existe na mente de Deus uma sequência de pensamentos ou de raciocínio, pois ele conhece todas as coisas de forma completa e absoluta, em si mesmo e por si mesmo, a onisciência, a imutabilidade e a impassionalidade de Deus são consequências de sua eternidade e isto não pode jamais ser mudado.

- A Trindade Divina:

É a existência de Deus em uma única essência que subsiste em três substâncias ou pessoas espirituais, distintas entre si, porém iguais em sua essência e natureza: Auto-existentes e co-eternas, constituindo um único Deus.

- A simplicidade:

É a qualidade decorrente da natureza espiritual de Deus e implicação das características anteriores, Deus não pode ser dividido em partes como os seres criados, mas existe como um todo, eterno e imutável, sendo todos os seus atributos inseparáveis e igualmente perfeitos.

Toda a essência do Ser divino está presente em cada uma das pessoas da Trindade de forma plena, a simplicidade de Deus implica na indivisibilidade da essência divina.

Os atributos incomunicáveis de Deus são exclusivos da natureza divina, por isto, ininteligíveis aos homens, todavia são lógica e perfeitamente cognoscíveis através da Palavra revelada, pela qual o conhecimento e aceitação destes atributos são, não somente possíveis, mas exigidos de todos os homens.

Apesar da espiritualidade de Deus, várias passagens bíblicas referem-se a Deus como possuindo órgãos humanos, trata-se de uma linguagem antropopática, destinada à comunicação com os homens; esta é uma linguagem figurada, destinada ao entendimento poético das passagens bíblicas e não pode nem deve ser entendido literalmente, pois como está escrito:

João 4,24: “Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”.

- O ABSOLUTO:

Deus é o absoluto divino, ou seja, todas as leis, normas e regras que regem as relações entre os seres espirituais, os povos e os homens são derivadas das qualidades e atributos de Deus, não existe padrão superior a Deus para que sejam julgadas ou avaliadas suas ações, sua vontade e seu plano eterno.

Este absoluto não é o absoluto lógico da filosofia ou da matemática desprovidos de personalidade, Deus é o absoluto primeiro e último sobre todas as coisas, mas se relaciona com o mundo criado, pois todo o homem traz em si a consciência inata de Deus, além do que, Ele se deu a conhecer através da Escritura.

Desta forma Deus é a causa e a razão da existência de todas as coisas, mas não é causado nem adquire conhecimento de absolutamente nada, tendo a origem em si mesmo de todo o conhecimento simultâneo do passado, presente e futuro e todo o poder criador e mantenedor do universo.

A pessoalidade do Ser absoluto de Deus está completamente fora da capacidade racional da compreensão humana, e somente se torna possível através da revelação que Deus decidiu fazer de si mesmo pela Escritura, pois Deus é o único absoluto existente no universo, sendo todas as outras coisas dependentes dele.

Ao mesmo tempo este absoluto único existe em três personalidades distintas, agindo constantemente de forma interativa e consensual em uma só mente, conhecida exaustivamente por cada uma destas pessoas, que apesar disto constituem três centros de consciência distintos dentro desta mente absoluta (ver: “A triunidade intelectual de Deus”).

Estes atributos de Deus, a seguir, não são exaustivos, Deus pode ter e certamente tem muitos outros atributos e qualidades que são desconhecidos dos homens, todavia, todo estudo sério de Deus está limitado pela Palavra, não devendo e não podendo ultrapassar a revelação da Escritura.

O CÉU – A MORADA DE DEUS: Esta é uma apreciação bastante complexa: O que é o céu? Jesus disse aos apóstolos que iria preparar-lhes lugares na morada de seu Pai, que lá existem muitas moradas, o que é esta morada de Deus, ela é eterna? Nada é eterno senão o próprio Deus. Então o que é esta morada que não é eterna e não é suscetível às variações do tempo? Agostinho abordou este fato em suas “Confissões”:

Agostinho: “Tua morada, que nunca se afastou de ti, embora não te sendo co-eterna, graças à sua incessante e ininterrupta união contigo, não padece de vicissitudes do tempo”.

Agostinho já havia afirmado que o tempo somente pode ser medido pelo espaço, Einstein desenvolveu esta teoria em tempos recentes confirmando os pensamentos de Agostinho - onde não há movimento não há tempo. Como todos os seres na morada de Deus serão espirituais, não haverá movimento físico que propicie a sucessão do tempo.

Este é um assunto fascinante cujo estudo está em aberto até os dias de hoje, não existe uma posição teológica definida, mas é correto imaginar o céu como um lugar.

Os atributos comunicáveis de Deus são:

- Sua glória, que se manifesta através das obras da criação.

- Sua soberania, que se manifesta através de sua vontade.

- Sua santidade, que se manifesta através de sua justiça.

- Seu amor, que se manifesta através de sua graça.

Confissão de Fé Batista (1689): “Deus tem em si mesmo e de si mesmo toda a vida, glória, bondade e bem-aventurança. Somente ele é auto-suficiente, em si e para si mesmo; e não precisa de nenhuma das criaturas que fez, nem delas deriva glória alguma; mas somente manifesta, nelas, por elas, para elas e sobre elas a sua própria glória. Ele, somente, é a fonte de toda existência: de quem, através de quem e para quem são todas as coisas, tendo o mais soberano domínio sobre todas as criaturas, para fazer por meio delas, para elas e sobre elas tudo quanto lhe agrade”.

Todos os atributos e qualidades de Deus são igualmente perfeitos e não existe nenhuma característica melhor ou pior que outra. É uma atitude bastante comum na igreja, salientar as virtudes do amor de Deus acima de suas outras qualidades, isto é fácil para o pregador e agradável à natureza depravada do homem, porém falha completamente na transmissão do conselho de Deus e no entendimento de seu Ser perfeito. Como se pode ver na declaração de Paulo, abaixo, estes falsos mestres carregarão sobre si o sangue de seu rebanho.

Atos 20, 26-27: Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus”.

OS ATRIBUTOS COMUNICÁVEIS DE DEUS

1 - A Glória de Deus:

Glória é a manifestação do Ser de Deus. Sua glória representa a essência de seu Ser, sua majestade, sua divindade total. A glória de Deus também pode ser considerada como sua transcendência, Ele está acima e além de todas as coisas criadas no universo.

Êxodo 24, 17: “O aspecto da glória do SENHOR era como um fogo consumidor no cimo do monte, aos olhos dos filhos de Israel”.

A glória de Deus compreende:

1.1 - infinidade:

DEUS NÃO TEM LIMITAÇÕES EM NENHUM SENTIDO, TODO O SEU SER E QUALIDADES SÃO INFINITOS E PERFEITOS

A infinidade de Deus significa que ele é perfeito em cada uma de suas qualidades e não tem limite algum em nenhum aspecto, sendo infinito e perfeito em todas suas vontades, ações e qualidades. Os atributos divinos são ilimitados em uma extensão ilimitada, assim é a infinidade divina.

Salmo 119,96: “Tenho visto que toda perfeição tem seu limite; mas o teu mandamento é ilimitado”.

As qualidades de Deus são reais e excelentes, o que não quer dizer que as qualidades do homem são irreais, o conhecimento do homem é limitado, mas real. Assim, todo o conhecimento e qualidades do homem vêm pela graça de Deus em Cristo.

Colossenses 2,3: “(Cristo), em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos”.

A infinidade de Deus denota uma característica presente em todos os atributos de Deus bem como no seu Ser, sua essência é infinita, ilimitada e imutável, o Breve Catecismo de Westminster define Deus como sendo:

Espírito Infinito, Eterno e Imutável, primeiro em seu ser essencial e em sua sabedoria , poder, santidade, justiça, bondade e verdade”.

è muito difícil, senão impossível, definir e isolar cada uma das qualidades de Deus, pois elas se entrelaçam e são abrangentes não existindo individualmente à parte da sua totalidade, por este motivo, alguns dos atributos serão citados de forma repetida e juntamente com outros para melhor compreensão de todos eles.

1 Timóteo 6,16: “O único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém!”

A infinidade de Deus pode ser descrita através das seguintes qualidades:

- A perfeição absoluta de Deus:

Esta é a infinidade de Deus considerada em relação à qualidade de seus atributos, não existem defeitos, falhas ou limitações de qualquer espécie em nenhum de seus atributos, todos são igualmente perfeitos.

Jó 11,7-9: “Porventura, desvendarás os arcanos de Deus ou penetrarás até à perfeição do Todo-Poderoso? Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás fazer? Mais profunda é ela do que o abismo; que poderás saber? A sua medida é mais longa do que a terra e mais larga do que o mar”.

- Eternidade:

A eternidade foi tratada acima como uma das qualidades incomunicáveis de Deus, mas a eternidade também pode ser considerada como a infinidade de Deus com relação ao tempo, pois o tempo e o universo foram criados a partir do nada, fora do Ser de Deus, desta forma Deus está fora e além de todos os conceitos temporais imagináveis e ao mesmo tempo presente em todos os tempos existentes.

2 Pedro 3,8: “Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia”.

- Imensidade:

Esta é a infinidade de Deus com relação ao espaço, Deus transcende a todas as limitações de espaço existentes, mas ao mesmo tempo, pela sua onipresença, encontra-se em todos os lugares do espaço e do tempo concomitantemente com todo o seu Ser. Desta forma, a imensidão de Deus caracteriza sua transcendência, ao passo que sua onipresença caracteriza sua imanência.

Salmo 139,7-8: “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também”.

1.2 – ASSEIDADE – a auto-existência de Deus

DEUS EXISTE POR si MESMO, ELE NÃO TEVE PRINCÍPIO E NÃO TERÁ FIM

Asseidade ou auto-existência de Deus: esta qualidade também pode ser conhecida como independência. Deus tem um propósito único para todas as coisas e seus desejos nunca se contradizem ou são conflitantes, não exerce jamais uma permissão passiva, pois Ele é o autor de todas as coisas sem exceção; Ele nunca está em conflito consigo mesmo, não muda sua vontade nem pretende querer o que não quer.

A vontade de propósito de Deus é sua determinação em executar tudo o que planejou, Deus determina o mal e a iniquidade para a justa realização de seu plano eterno, ao passo que os homens as praticam para sua própria condenação sob sua inteira responsabilidade.

Isaías 45,7: Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas”.

A asseidade de Deus, também pode ser vista como aquela qualidade a partir da qual, ao mesmo tempo em que Ele é absolutamente independente, todas as outras coisas se fazem dependentes dele.

Deus existe por si mesmo, existir é a própria natureza de Deus, Ele não necessita de nada fora de si para sua existência, o Pai tem vida em si mesmo, assim como o Filho e o Espírito.

Quanto ao homem, este depende totalmente do poder de Deus para sua existência e continuidade da vida. A criação do universo e das criaturas não representa obrigação ou falta alguma em Deus, mas são atos de pura graça que não consistem em necessidade ou exigência do ser de Deus.

Atos 17,28: “Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração”.

1.3 - IMUTABILIDADE:

DEUS É IMUTÁVEL, NADA PODE MUDAR NA VONTADE E REALIZAÇÃO DO PLANO DE DEUS

- A espiritualidade de Deus:

deus não é um espírito, mas, Deus é espírito, esta diferença é fundamental, isto significa que Ele é um ser próprio, distinto e separado do universo material, biológico ou espiritual, estando acima e além de todas as coisas criadas. Esta é a qualidade pela qual se define a eternidade e a imutabilidade de Deus.

1 Timóteo 6,16: “O único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém!”.

Deus é eterno e como consequência, imutável; não apenas conhece todas as coisas como este conhecimento é fruto da determinação do acontecimento de todas estas coisas. A imutabilidade de Deus manifesta-se em seus planos e propósitos, ou seja, além de não mudar em seu Ser ou atributos, Ele é imutável em seus planos e propósitos.

O que Deus faz no tempo, determinou na eternidade, o que determinou na eternidade, executa no tempo através de sua providência. Deus é o mesmo perpetuamente em todo seu ser, natureza e atributos, assim como em suas determinações, a fidelidade de Deus junto a seu povo é fruto de sua imutabilidade.

Salmo 33,11: “O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações”.

- Impassionalidade:

Uma característica decorrente da imutabilidade de Deus é sua impassionalidade, Ele não está sujeito a mudança nenhuma porque seu ser e natureza são eternos e infinitos, o que ele é hoje sempre foi e sempre será, Deus não pode evoluir, melhorar, piorar ou mudar de forma alguma.

Tiago 1,17: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança”.

- Imutabilidade:

A imutabilidade de Deus não deve ser vista como imobilidade, Deus está constantemente em ação e entra em contato com suas criaturas de formas diversas ao longo da história.

As mudanças existem em função das variações determinadas eternamente no relacionamento entre Deus e suas criaturas, permanecendo Deus imutável, mas em constante movimentação em seus relacionamentos com a criação, e apesar destas constantes mudanças no relacionamento com o homem e com a natureza, o Ser de Deus permanece o mesmo ao longo de todo o tempo.

A criação, a queda, a encarnação, a ressurreição e a redenção não implicam em mudança alguma em Deus, seu Ser, sua natureza e suas qualidades e atributos permanecem os mesmos, pois todas estas coisas existem na mente de Deus eternamente e todas fazem parte de seu propósito eterno, imutavelmente determinado.

A imutabilidade de Deus é aquela qualidade através da qual se pode garantir que a doutrina (pelagiana ou arminiana) do livre-arbítrio, mesmo em suas manifestações mais sutis, que sustentam que Deus apesar de não apresentar mudanças em seu Ser, pode apresentar mudanças em seu conhecimento ou sua vontade é impossível e absurda.

A visão de um Deus glorioso e independente é intolerável para o homem natural, mas este mesmo Deus, triúno, independente e glorioso, é o Deus da graça que planejou na eternidade a salvação em Cristo. Esta ideia é a base para todo pensamento humano sobre Deus.

O “arrependimento” de Deus na bíblia:

Alguns versos bíblicos trazem, em sua linguagem explicativa, o arrependimento de Deus:

Gênesis 6, 6: “Então, se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração”.

Êxodo 32, 14: “Então, se arrependeu o SENHOR do mal que dissera havia de fazer ao povo”.

Estes versos devem ser entendidos como uma mudança em um curso de ação prevista por Deus em seu plano eterno, para outro curso de ação também previsto em seu plano. Não se pode jamais imaginar mudanças no pensamento e no ser de Deus em função de atitudes dos homens ou de qualquer coisa no universo, isso é negar a onisciência e onipotência de Deus, negando desta forma o próprio Deus, pois todos os atributos de Deus somente existem em sua totalidade.

Toda e qualquer circunstância, coisa ou ser que existiu, existe ou venha a existir, foram determinados no plano eterno de Deus e somente vêm à existência mediante a vontade e pleno conhecimento de Deus.

Daniel 4,35: “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?”

Provérbios 21,1: “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR; este, segundo o seu querer, o inclina”.

2 - A Soberania de Deus

A soberania de Deus se expressa em sua vontade, o mundo todo é governado de acordo com a vontade soberana de Deus expressa em seus decretos, todas as coisas acontecem e são motivadas por esta vontade. A soberania de Deus inclui todos os atos da providência, que nada mais é que a realização dos Decretos Eternos ao longo do tempo. Agostinho declara com firmeza que a vontade de Deus é a razão de todas as coisas.

Apocalipse 4,11: “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas”.

Confissão de Fé de Westminster – Os Decretos Eternos:

Capítulo III, Seção I - A eterna pré-ordenação de Deus: Desde toda eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, decretou, livre e inalteravelmente, tudo quanto acontece; todavia, o fez de tal maneira, que Deus nem é o autor do pecado (*), nem faz violência à vontade de suas criaturas; e nem tira a liberdade e a contingência das causas secundárias, antes as confirma.

(*) Nada se pode afirmar, na verdade, contra o fato de Deus ser o determinador da existência do mal no mundo, se alguém entende isto como Deus sendo o autor do pecado, isto não torna Deus pecador, pois Ele mesmo se declara o criador do mal e de todas as coisas que existem sem exceção. Deus não nomeou advogados na terra para defendê-lo daquilo que Ele mesmo declara sem rodeios na sua Palavra, esta é uma pretensão do homem religioso que busca humanizar a Deus e divinizar o homem, adorando a criatura no lugar do criador.

Isaías 45,7: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas”.

Capítulo III, Seção II - A presciência de Deus: Ainda que Deus saiba tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não ordena coisa alguma por havê-la previsto como futura (*), ou como coisa que havia de acontecer sob alguma circunstância.

(*) Muitos religiosos usam a presunção da presciência de Deus para justificar o livre-arbítrio do homem, afirmando que Deus salvou aqueles que Ele previu que, no futuro, iriam aceitar a Cristo e perseverar em sua salvação. Esta é uma pretensão absurda, pois se Deus conhece o futuro é porque todas as coisas estão determinadas de forma imutável, uma pequenina mudança no presente implicaria em mudanças de nível cósmico no futuro, tornando-o totalmente imprevisível.

Romanos 8,29-30: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”.

A soberania de Deus

2.1 - A onipotência:

ele é todo-poderoso, A ÚNICA FONTE DE PODER EM TODO O UNIVERSO

O poder absoluto: É a capacidade de Deus em criar e fazer tudo o que Ele fez, mas também, a capacidade de criar ou fazer qualquer outra coisa que tenha a simples possibilidade de vir a existir ou ser feita, mesmo que não aconteça.

Jeremias 32,27: “Eis que eu sou o SENHOR, o Deus de todos os viventes; acaso, haveria coisa demasiadamente maravilhosa para mim?”.

O poder ordenado: É o poder pelo qual são realizadas todas as coisas conforme determinadas em seus Decretos Eternos – A providência divina.

Hebreus 1,3: “Ele (Cristo), que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas”.

Onipotência:

Todo o poder no universo pertence a Deus e tão somente a Ele, este poder de Deus é inerente ao seu Ser e não é adquirido nem depende do reconhecimento de qualquer criatura, pertence a Ele de forma auto-existente e auto-sustentada. Deus é a única fonte de energia do universo, as obras da criação dão testemunho do poder de Deus, e ao mesmo tempo, da inteira independência de Deus com relação às coisas criadas, pois todas as coisas foram criadas a partir do nada, assim, a onipotência de Deus é completamente independente das coisas criadas.

Jó 38,4-6: "Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento. Quem lhe pôs as medidas, se é que o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases ou quem lhe assentou a pedra angular”.

O Poder em Deus é tão preeminente que às vezes é usado como o nome de Deus.

Marcos 14,62 (versão RC): “E Jesus disse-lhe: Eu o sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu”.

Existe mais poder na natureza de Deus do que revelam as obras da criação, e jamais será possível sequer imaginar a grandiosidade e a natureza de qualquer das qualidades da natureza divina.

S. Charnock : “O poder de Deus é aquela capacidade e força pela qual Ele pode realizar tudo que Lhe agrade, tudo que a Sua sabedoria dirija, tudo que a infinita pureza da Sua vontade resolva... Assim o poder é aquilo que dá vida e movimento a todas as perfeições da natureza divina. Como seriam vãos os conselhos eternos, se o poder não interviesse para executá-los! Sem o poder, a Sua misericórdia seria apenas uma débil piedade, as Suas promessas um som vazio, as Suas ameaças mero espantalho. O poder de Deus é como Ele mesmo: Infinito, eterno, incompreensível; não pode ser refreado, nem restringido, nem frustrado pela criatura”.

Salmo 62,11: "Uma vez falou Deus, duas vezes ouvi isto: Que o poder pertence a Deus”.

2.2 - A onipresença:

ele está em todos os lugares DO ESPAÇO E DO TEMPO, PRESENTE COM TODO O SEU SER

A onipresença de Deus significa que ele está presente em todos os lugares do espaço e em todos os momentos do tempo, isso significa que Deus transcende o espaço e o tempo, ele está fora do universo e encontra-se ao mesmo tempo em todos os lugares e tempos com a totalidade do seu ser. Esta qualidade não implica em localização visto que Deus é espírito puro e incorpóreo.

Jeremias 23,24: “Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? — diz o SENHOR; porventura, não encho eu os céus e a terra? — diz o SENHOR”.

Deus não está presente no universo fazendo parte dele como afirmado pelo panteísmo característico das religiões orientais. Também não está presente no universo apenas com seu poder, de forma impessoal e indiferente à criação como afirmam os deístas.

Deus está presente no universo com todo o seu Ser e sua natureza, e apesar de não fazer parte do universo, relaciona-se com a natureza e com todas as suas criaturas de modo pessoal e diferenciado com cada uma delas: Com os eleitos de uma forma, com os réprobos de outra; com os animais de uma forma, com os homens de outra; com os anjos caídos de uma forma, com os anjos eleitos de outra; com a natureza inorgânica de uma forma e com a natureza orgânica de outra.

Ao mesmo tempo em que Deus é transcendente, Ele também é imanente, ou seja, a comunicação pessoal com Ele é possível, Deus decidiu se revelar e se envolver na vida dos homens através da Palavra, que contém todas as instruções e preceitos para esta comunhão com seus filhos, que foi determinada por Deus na eternidade.

Salmo 139, 7-12: “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá. Se eu digo: as trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma coisa”.

A onipresença tem a sua contraparte tanto no espaço quanto no tempo, não existe momento antes ou depois dele.

Salmo 90,2: “Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus”.

2.3 - A onisciência:

- o conhecimento de deus:

Deus conhece todas as coisas de forma perfeita: Elas estão concebidas em sua mente, antes de virem à existência, em sua existência temporal ou depois de não mais existirem. Todo o conhecimento de Deus é próprio dele mesmo, não é aprendido, apreendido ou deduzido de absolutamente nada, mas existe em sua mente de forma eterna, infinita e imutável, ou seja, de forma perfeita.

Nenhum pensamento novo entra na mente de Deus, ele não esquece e não aprende nada, pois conhecendo todas as coisas é impossível para Deus aprender, ignorar, esquecer ou deduzir o que quer que seja.

Este conhecimento próprio de Deus é chamado de simples e necessário: Simples porque precede de forma lógica todos os acontecimentos no mundo material e espiritual; necessário porque não depende de nenhum ato ou voluntariedade externo a Deus para sua existência.

- A sabedoria de deus:

Ao passo que o conhecimento é a soma de todas as coisas presentes na mente, a sabedoria é a forma como este conhecimento é utilizado no planejamento e execução das ações necessárias à realização daquilo que se pretende.

Ora, tanto o conhecimento como a sabedoria de Deus são perfeitos, o que resulta na sua glorificação em todos os eventos do universo, uma vez que estes eventos são conduzidos pela sabedoria perfeita de Deus, usualmente através das causas naturais, contingentes e secundárias, dirigidas e determinadas de forma absoluta pela vontade e presciência de Deus. Todavia Deus não tem a necessidade de usar as causas naturais para realização da sua vontade, podendo agir sem elas ou contra elas conforme sua vontade.

Salmo 19,2: “Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite”.

- A VERDADE DE DEUS:

Vê-se aqui uma situação semelhante à espiritualidade; neste caso, Deus não é verdade, mas Deus é “A Verdade”, a única fonte da verdade e do conhecimento em todo o universo. Por esta qualidade de Deus, pode-se afirmar que:

- A revelação que Deus faz de si mesmo através da Escritura é plenamente confiável e suficiente para orientar e conduzir o homem ao conhecimento da verdade a ele destinada por Deus.

- A justiça de Deus é perfeita, visto que ela é baseada na verdade absoluta e na sabedoria perfeita de Deus, não existindo desta forma, nada acima desta verdade com o que possa ser confrontada a justiça de Deus.

- Pela sua onisciência, Deus não apenas conhece todas as coisas, mas conhece todas estas coisas como elas realmente são, sendo que todas as coisas são presentes na mente de Deus antes do princípio. Desta forma, a onisciência de Deus implica na determinação e providência de todas as coisas e fatos que aconteceram, estão acontecendo e acontecerão em todos os tempos e locais do universo.

- A Verdade é privativa de Deus, por este fato, todo o conhecimento que o homem tem em si mesmo, ou adquire, provém desta única fonte que é Deus, esta verdade pode ser chamada de Verdade Lógica de Deus, e com muita propriedade, pois toda a transmissão desta verdade provém do Logos de Deus, Cristo, que distribui como lhe convém a todos os homens, porém de forma pessoal e diferenciada a cada um deles: Eleitos ou réprobos, cientistas ou religiosos, bons ou maus, homens ou anjos, racionais ou irracionais.

João 1,9: “A saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem”.

Não se deve pensar que Cristo é a luz que ilumina somente os eleitos destinados à salvação, mas ele é a luz que ilumina todos os homens do mundo, de forma diferenciada a cada um, a quem salvação, salvação, a quem condenação, condenação, mas todos dentro da estrita realização do plano eterno de Deus.

Complementando este tema, pode-se dizer, também, que a verdade de Deus é a base de sua fidelidade em relação a seu povo.

2 Timóteo 2,13: “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo”.

Calvino: “Se reputarmos ser o Espírito de Deus a fonte única da verdade, a própria verdade, onde quer que ela apareça, não a rejeitaremos, nem a desprezaremos, a menos que queiramos ser insultuosos para com o Espírito de Deus”.

- Deus conhece todas as coisas por si mesmo E EM SI MESMO

Esta perfeição de Deus é assustadora para a grande maioria dos homens: Deus tudo vê e tudo sabe. Isto não está ligado ao decorrer do tempo, Deus sabe tudo por si mesmo desde toda eternidade, por suas perfeições não pode aprender nada de ninguém nem ser surpreendido por qualquer eventualidade, pois na mente de Deus todas as coisas estão presentes, determinadas em todos os tempos e em todos os lugares pela sua vontade expressa nos Decretos Eternos. É possível ver revelado, no verso abaixo do livro do Apocalipse, que todos os eleitos de Deus foram inscritos no Livro da Vida do Cordeiro desde a eternidade.

Apocalipse 20,12: “Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros”.

É preciso lembrar, sempre, que o Livro da Vida está escrito antes da fundação do mundo, não existem mudanças no Livro da Vida, o número dos eleitos e dos réprobos jamais será alterado.

Confissão de Fé de Westminster, Capítulo III, Seção III - Eleitos e não eleitos: Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna.

Atos 13,48: “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna.

Romanos 9,22: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição”.

Os Decretos Eternos de Deus:

Os Decretos Eternos são determinações procedentes da onisciência e do poder absoluto de Deus, que através de sua sabedoria e conhecimento perfeito determinou, antes da criação do mundo, um plano estabelecido para a criação e manutenção de todas as coisas e eventos que acontecem ao longo do tempo. Todas estas coisas fazem parte de um decreto único que engloba todos os acontecimentos na história do mundo, mas para efeito de melhor entendimento estes decretos são divididos em partes componentes do todo.

As determinações constantes destes decretos são originadas unicamente pela vontade soberana de Deus sem motivo ou causa externa de nenhuma origem. Deus tem definida em sua mente, desde toda eternidade, sua escolha entre todas as causas, efeitos e consequências possíveis na criação e manutenção do universo e todas as suas criaturas, por este conhecimento perfeito Ele trouxe à existência o melhor dos mundos possíveis para manifestação de sua glória nas obras da natureza e no destino de suas criaturas.

O decreto de Deus não depende de sua presciência, sendo mais correto dizer o inverso: Que sua presciência está ligada diretamente às suas determinações eternas. Dizer que os decretos dependem da presciência de Deus significa uma completa inversão na mente lógica de Deus, uma vez que, por este raciocínio, a coisa deveria ser prevista antes, para então causar a determinação do decreto de seu acontecimento, o que é ilógico e absurdo, está escrito: “Deus não é de confusão”.

Não existe dúvida, surpresa ou improviso no plano de Deus, todos os seus decretos têm sua origem em uma vontade soberana e inquestionável, fruto de deliberação inteligente e imutável determinada na eternidade.

Os decretos de Deus têm uma ordem lógica, visto que um decreto segue a outro, mas esta ordem lógica não implica na decorrência de tempo na mente de Deus. Não existe uma ordem temporal nos Decretos Eternos, mas uma ordem lógica que se manifesta na execução temporal de coisas predeterminadas, como se Deus trouxesse o mundo à existência desde o início até o fim, sendo a decorrência do tempo uma visão do homem e a visão presente e simultânea de todas as coisas abrangidas neste período, própria de Deus.

Tiago 1,17: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança”.

Confissão de Fé de Westminster, Capítulo III, Seção II - A presciência de Deus: Ainda que Deus saiba tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não ordena coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer sob alguma circunstância.

Salmo 139,1-4: “SENHOR, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos. Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda”.

Romanos 9,11-13: “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú”.

O plano de Deus é eterno e imutável, de maneira que todas as coisas acontecem no tempo de acordo com a determinação eterna de Deus. Todo o propósito deste plano é destinado à glória de Deus e independe da vontade, pensamento ou atos das criaturas. Esta predestinação, ou determinação prévia de todas as coisas, não retira do homem sua responsabilidade perante Deus.

Quanto às coisas contidas nos Decretos Eternos, é preciso salientar que as qualidades e atributos de Deus são inerentes à sua própria natureza e não fazem parte dos Decretos Eternos, pois são próprios do Ser de Deus. O plano de Deus refere-se, de maneira geral, ao relacionamento com o universo e particularmente ao plano de salvação dos homens.

Confissão de Fé de Westminster, Capítulo III, Seção IV - O número dos predestinados: Esses homens e esses anjos, assim predestinados e preordenados, são particular e imutavelmente designados; o seu número é tão certo e definido, que não pode ser nem aumentado nem diminuído.

João 10,27-28: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão”.

O nome de Deus, EU SOU, indica sua auto-existência e eternidade, o pensamento de Deus é total e simultâneo, ao passo que o pensamento das criaturas é sequencial e circunstancial.

Todas as coisas que aconteceram, acontecem e acontecerão já existem na mente de Deus; para a realidade das criaturas estas coisas antes determinadas por Deus se realizam ao longo do tempo, mas nunca fora do conhecimento e determinação de Deus. Pode haver mistérios em relação a Deus, jamais erros.

Isaías 45,6: “Para que se saiba, até ao nascente do sol e até ao poente, que além de mim não há outro; eu sou o SENHOR, e não há outro”.

A onisciência é fundamental à revelação e ao juízo de Deus, se Ele conhecesse em parte sua verdade seria provisória e o seu julgamento injusto. A respeito de Nosso Senhor, a onisciência de Deus garante que não existirá uma revelação posterior, Jesus Cristo é a revelação final e definitiva da verdade e da salvação.

Hebreus 10,12: “Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus”.

A pessoa de Jesus é o Verbo de Deus, por isso ele também tem a qualidade da onisciência, a plenitude dos tempos foi manifesta nele, que é a revelação perfeita e final de Deus e da redenção, em quem, justamente pela sua onisciência, se acham ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.

Colossences 2,3: “Em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos”.

A verdade de Deus revelada na Escritura é consequência e fruto de sua onisciência, revelada através do Espírito Santo na vida dos profetas, escolhidos na eternidade e preparados no tempo devido, garantindo dessa forma a confiabilidade e autoridade final da Escritura.

2.4 – A VONTADE DE DEUS

A VONTADE DE DEUS É ÚNICA E IRRESISTÍVEL, TUDO O QUE ELE DETERMINOU SERÁ REALIZADO

A soberania de Deus se manifesta através de sua vontade e poder, a vontade de Deus é um atributo próprio de sua natureza, assim como a santidade, a onipotência ou a onisciência, ela existe de forma completa e imutável eternamente no Ser de Deus e se manifesta aos homens ao longo do tempo conforme os Decretos Eternos que se realizam pelas obras da providência.

A vontade de Deus:

Várias palavras são empregadas na bíblia para expressar a vontade de Deus, que se manifesta de várias formas na Escritura, seguem abaixo alguns exemplos:

- A causa primeira e última de todas as coisas e acontecimentos no universo:

Salmo 135,6: “Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos”.

- A única causa ou motivação para a salvação ou reprovação de anjos e homens:

Romanos 9,15-16: “Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia”.

- A determinação da morte de Cristo:

Atos 2,23: “Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos”.

A vontade de Deus expressa o produto da sua natureza e de todos os seus atributos na determinação dos Decretos Eternos, sendo a soberania e autoridade da vontade divina procedentes do poder infinito e absoluto de Deus. Desta forma a vontade de Deus é soberana e todos os seus planos e determinações procedem exclusivamente de sua vontade sem interferência alguma de suas criaturas ou de nada que exista no universo material, biofísico ou espiritual.

A liberdade da vontade de Deus:

Como foi visto acima, a vontade de Deus é sempre conforme o seu Ser e sua natureza, o que se traduz na mais plena liberdade e independência desta vontade. Sua vontade é completamente livre de qualquer influência externa, procedente das criaturas ou da natureza.

Tendo sua origem na eternidade, a vontade de Deus é completamente livre das contingências resultantes do decorrer do tempo. Não se deve confundir a liberdade da vontade de Deus com indiferença, da mesma forma como não se deve confundir a imutabilidade e impassionalidade de Deus com imobilidade.

A vontade de Deus é regida por seu conhecimento e sabedoria, que são perfeitos, e é sustentada pelo poder infinito de autodeterminação eterna de todas as coisas, bem ou mal, que apesar de não serem todas boas aos olhos do homens, são necessárias e perfeitamente adequadas à universalidade do plano de Deus.

Agostinho (Confissões): “E que por isso ele não quer ora isto, ora aquilo, mas quer o que sempre quis, simultaneamente e para sempre. Sua vontade não se exerce repetidas vezes, não se propõe a ora esta, ora aquela finalidade, não quer o que antes não queria, nem deixa de querer o que antes queria, uma vez que tal vontade seria mutável, e o que é mutável não é eterno; ora, nosso Deus é eterno”.

Por tudo o que foi dito, fica claro que não é lícito ou permitido às criaturas procurar fundamento ou razão para a vontade e os decretos de Deus fora de seu
próprio Ser, pois Ele é perfeito e não existe nenhum padrão de moral, bondade ou justiça acima do Ser de Deus pelo qual Ele possa ser julgado ou contestado.

A primeira criatura a contestar a vontade de Deus foi Lúcifer, veja abaixo os versos de Isaías referentes a este fato:

Isaías 14,12-15: "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo”.

Algumas distinções foram levantadas para caracterizar a vontade de Deus: Antecedente e consequente ou absoluta e condicional, mas nenhuma destas distinções tem fundamento bíblico. A distinção que será usada neste estudo será entre a “vontade de propósito” e a “vontade de preceito”.

A vontade de propósito:

A soberania de Deus manifesta-se aos homens através de sua vontade, que une em si todas as qualidades próprias da soberania e determinação divina.

O que Deus tem ordenado acontecerá de maneira absolutamente imutável, esta é a vontade de propósito, ou vontade decretiva, que se refere a tudo que engloba seu plano divino, de acordo com o que Ele predestinou nos seus Decretos Eternos.

Jó 42,2: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado”.

Deus manifesta duas vontades contraditórias? Em certos trechos, a bíblia apresenta Deus como se arrependendo ou se emocionando com as atitudes dos homens; trata-se mais uma vez de linguagem poética e antropopática (destinada ao entendimento humano), a vontade de Deus não pode ser resistida ou frustrada, pelo simples fato de que ela foi planejada e determinada na eternidade para execução no tempo previsto.

Salmo 115,3: “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada”.

A vontade de preceito:

Por outro lado, sua vontade de preceito refere-se às ordens e proibições nas Escrituras, que nem sempre serão realizadas pelos homens, e nem sempre correspondem à sua vontade de propósito. Deus não planeja causar tudo o que ele valoriza, mas ele nunca falha em causar tudo o que ele planejou.

Oferta universal da salvação?

Seguem abaixo alguns versos que pretensamente afirmam a ideia da oferta universal da salvação, dependendo da aceitação do homem, mas, será que é isto mesmo?

O primeiro deles está na segunda carta do apóstolo Pedro:

- 2 Pedro 3,9: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”.

Decompondo este verso em frases separadas, fica bastante claro a quem se refere esta salvação:

Ele (sujeito) é longânimo para convosco (convosco – objeto: os destinatários da carta)...

A frase seguinte constitui-se obrigatoriamente na sequência da ideia, desta forma não é possível a mudança nem do sujeito ou do objeto, que são os crentes a quem se destina a carta:

(Ele) ...não querendo que nenhum (de vós) pereça, senão que todos (vós - os destinatários da carta) cheguem ao arrependimento.

Nenhuma das cartas dos apóstolos foi dirigida aleatoriamente a todos os homens, mas sempre a comunidades específicas conhecidas pelo autor, como se pode constatar pelos prefixos e saudações das cartas, assim como nas recomendações finais.

Desta forma, é possível ver que a vontade de propósito de Deus prevalece, na salvação somente dos eleitos naquelas comunidades cristãs que constituem os destinatários das cartas.

O segundo verso está no livro do Apocalipse:

- Apocalipse 3,20: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo”.

Em primeiro lugar, o sentido principal deste verso está no “ouvir a voz de Cristo - a Palavra de Deus” e não no “bater à porta” que é somente para chamar a atenção, “ouvir a Palavra” é algo destinado apenas aos eleitos de Deus através do Espírito.

Marcos 4,12: “Para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles”.

Por outro lado, esta é uma carta extremamente particular, e foi escrita para a igreja de Laodicéia com as mais duras advertências encontradas na bíblia, no verso anterior Jesus está propondo disciplinar alguns dos membros desta igreja: “aqueles a quantos ama”.

Apocalipse 3,19: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te”.

Da mesma forma o verso em questão é a sequência da ideia anterior, aqueles dentre esta igreja que são amados por Cristo serão disciplinados para o arrependimento e serão salvos por Cristo, pelo único motivo que - “ele os ama” - e por nenhum outro motivo inerente ou próprio à capacidade do homem.

O apóstolo João, escritor do Apocalipse, é bastante claro quanto a isso em sua primeira carta:

1João 4,19: “Nós amamos (somente) porque ele nos amou primeiro”.

Estes versos são os mais abusados por aqueles que defendem o livre-arbítrio, há que se notar, além do claro sentido da construção das frases, que estas cartas foram escritas para comunidades cristãs específicas e fazem referência aos cristãos já convertidos, destinatários das cartas.

A resposta é encontrada na distinção entre o propósito eterno de Deus e sua vontade de preceito, pois nem mesmo todos os crentes daquelas comunidades seriam salvos, somente aqueles: “a quantos (Ele) ama”.

Exemplos da vontade de preceito em contraposição à vontade de decreto de Deus:

Deus, através de Moisés, pede que Faraó deixe o povo ir, esta é a vontade preceptiva de Deus, isto é, sua vontade de preceito ou ordem, mas Deus também diz que ordenará o endurecimento no coração de Faraó, de sorte que Faraó recusará a ordem de deixar o povo ir, esta é a vontade decretiva de Deus, ou seja, sua vontade de decreto ou propósito.

Êxodo 4,21: “Disse o SENHOR a Moisés: Quando voltares ao Egito, vê que faças diante de Faraó todos os milagres que te hei posto na mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo”.

No livro de Atos dos Apóstolos, Lucas expressa seu entendimento da soberania de Deus registrando a oração dos santos de Jerusalém: Herodes, Pilatos, os soldados, e o grupo de judeus levantaram suas mãos para se rebelar contra o Altíssimo somente para provar que a rebelião deles era um serviço nos inescrutáveis planos de Deus.

Atos 4,27-28: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios as pessoas de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”.

O que Deus tem eternamente decretado acontecerá segundo sua vontade soberana. A responsabilidade do homem é obedecer à vontade de Deus revelada na Palavra e não fazer especulação sobre o que está oculto. A vontade de decreto de Deus não é revelada, a não ser nos casos das profecias.

Deuteronômio 29,29: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei”.

Exemplos da vontade preceptiva ou revelada incluem:

Deus espera que seus filhos conheçam a sua natureza, qualidades e os preceitos revelados na Escritura, seja pelo estudo diligente ou pelo ouvir a Palavra.

Efésios 5,17: “Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor”.

Os eleitos, já regenerados, são separados do mundo e destinados à humildade e ao serviço na obra de Deus, e, apesar de não conseguirem nesta vida a real santificação, caminham neste sentido, conduzidos pela comunhão do Espírito, buscando melhorias em si mesmo a cada dia de sua vida.

1 Tessalonicenses 4,3: “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição”.

Esta vontade preceptiva de Deus se refere às instruções e preceitos contidos na Escritura, esta é a vontade moral para os homens, mas não significa de forma alguma que eles serão capazes de cumpri-la, pois não existe no homem esta capacidade, somente os filhos de Deus irão andar em boas obras, porque foram destinados a isso, na eternidade, pela exclusiva vontade soberana de Deus, mesmo assim nenhum homem conseguirá a santidade perfeita nesta vida.

Efésios 2,10: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”.

O filho de Deus tem a humildade de se reconhecer pecador, pois nenhum homem consegue cumprir rigorosamente toda a vontade de preceito de Deus, o homem não é pecador porque peca, mas peca porque é pecador.

1 João 1,8: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós”.

Exemplos da vontade decretiva de Deus incluem:

Apesar dos planejamentos humanos, todas as coisas somente irão acontecer conforme a vontade de decreto de Deus; cabe ao crente reconhecer com alegria e humildade sua dependência total desta vontade de Deus.

Tiago 4,15: “Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo”.

1 Coríntios 4,19: “Mas, em breve, irei visitar-vos, se o Senhor quiser, e, então, conhecerei não a palavra, mas o poder dos ensoberbecidos”.

Esta vontade decretiva de Deus abrange todas as áreas da vida do homem, mesmo o conhecimento não é adquirido através do esforço e perseverança do homem, a não ser que esta diligência seja dirigida pela vontade de propósito do Criador.

Mateus 11,25-26: “Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado”.

O plano eterno de Deus e sua realização:

No Livro do Apocalipse Deus ordena que os reis se unam à besta para empreender a guerra contra o Cordeiro.

Apocalipse 17,17: “Porque em seu coração incutiu Deus que realizem o seu pensamento, o executem à uma e dêem à besta o reino que possuem, até que se cumpram as palavras de Deus”.

Não é a vontade de preceito de Deus que os reis entreguem seu reino à besta e empreendam guerra ao Cordeiro, mas isso faz parte do plano eterno de Deus, onde a besta e os reis serão derrotados.

É possível ver esta mesma negação da vontade de preceito de Deus no pedido de Moisés para que os israelitas pudessem passar através da terra de Seom, rei de Hesbom:

Deuteronômio 2,26-27: “Então, mandei mensageiros desde o deserto de Quedemote a Seom, rei de Hesbom, com palavras de paz, dizendo: deixa-me passar pela tua terra; somente pela estrada irei; não me desviarei para a direita nem para a esquerda. A comida que eu coma vender-me-ás por dinheiro e dar-me-ás também por dinheiro a água que beba; tão-somente deixa-me passar a pé”.

Porém, ele não permitiu, porque o SENHOR endureceu o seu coração.

Deuteronômio 2,30: “Mas Seom, rei de Hesbom, não nos quis deixar passar por sua terra, porquanto o SENHOR, teu Deus, endurecera o seu espírito e fizera obstinado o seu coração, para to dar nas mãos, como hoje se vê”.

Assim, foi a vontade de Deus que Seom agisse de uma forma que fosse contrária à sua vontade preceituada a fim de realizar sua vontade de propósito.

Muito do mesmo é encontrado em Josué onde o Senhor endureceu os corações de todos aqueles reis em Canaã para resistir à Israel, de maneira que Ele pudesse destruí-los assim como disse que o faria.

Josué 11,20: “Porquanto do SENHOR vinha o endurecimento do seu coração para saírem à guerra contra Israel, a fim de que fossem totalmente destruídos e não lograssem piedade alguma; antes, fossem de todo destruídos, como o SENHOR tinha ordenado a Moisés”.

Outro episódio, no mesmo sentido, refere-se ao rei Acabe, ele estava procurando formar uma aliança com Josafá, rei de Judá, de forma que juntos pudessem atacar Ramote-Gileade a qual estava sob o controle da Síria. Josafá consultou o profeta Micaías, o qual lhe contou a visão que teve, nesta visão Deus perguntou quem enganaria Acabe para que caísse em Ramote-Gileade, um espírito se apresentou para ser o espírito mentiroso na boca de todos os profetas de Acabe, Deus concordou, o espírito foi e assim o fez; Acabe ouviu a voz destes profetas e foi para a batalha aonde veio a morrer.

2 Crônicas 18,22: “Eis que o SENHOR pôs o espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas e o SENHOR falou o que é mau contra ti”.

O importante para este estudo é o fato óbvio de que Deus ordena que suas criaturas não mintam ou enganem, o que é contrário à vontade preceituada de Deus, todavia, aqui se apresenta um exemplo no qual Deus coloca um espírito enganador nos lábios daqueles homens para que mintam e enganem. Estes fatos não se constituem em algo fora de propósito, mas destinam-se à realização do plano eterno de Deus, cuja compreensão foge ao raciocínio das criaturas.

Outras citações são encontradas em:

Romanos 11,32: “Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos”.

O endurecimento de Israel por Deus não é um fim em si mesmo, mas é parte de um propósito salvador que irá abranger todas as nações.

No texto de Marcos, abaixo, Deus ordena que uma condição repreensível prevaleça sobre outra nobre, com o fim de alcançar os resultados previstos no seu plano, então ele age de forma a restringir a realização da mensagem do evangelho.

Marcos 4,12: “Para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles”.

Aqui, na história de José, a vontade revelada de Deus para os irmãos de José era que os mesmos deveriam amá-lo e não vendê-lo como escravo, ou ainda, intentar o plano de matá-lo. Mas a vontade decretiva de Deus foi que, na desobediência dos irmãos de José, uma grande coisa seria feita quando José ganhasse autoridade sobre toda a terra e fosse capaz de salvar sua família e dar origem ao povo hebreu.

Gênesis 50,20: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida”.

A revelação da Escritura não é sempre a vontade decretiva de Deus, sua vontade de decreto é voltada à conjunção universal de todas as coisas na realização de seu plano eterno; embora odeie uma coisa pelo que ela é, pode determiná-la no cumprimento do seu plano. Deus odeia o pecado em si, todavia Ele o determina para cumprimento de seus decretos, que são eternos e inatingíveis pela compreensão finita das criaturas, Deus se inclina para excelência, que é harmonia, todavia pode determinar o sofrimento, que não é harmonioso em si, para a promoção da harmonia na universalidade do seu plano eterno.

Não há inconsistência ou contrariedade entre a vontade revelada e o propósito eterno de Deus: a coisa em si, e a finalidade da coisa diante da realização do plano de Deus constituem eventos diferenciados, a coisa em si pode ser má, todavia, necessário que aconteça. Cabe ao cristão se orientar e viver pelos preceitos bíblicos, pois a compreensão dos Decretos Eternos pertence somente a Deus.

3 - A Santidade de Deus

A santidade é aquele atributo pelo qual Deus faz de si mesmo o padrão absoluto e incontestável por quaisquer argumentos, pois Deus é a lei para si mesmo e para toda criação, esta é a base de todas as distinções morais: O bem é aquilo que Deus quer, o mal é aquilo que contraria e resiste à sua vontade.

Romanos 9,19-21: “Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade? Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?”.

Deus é totalmente puro e perfeito, não existe mancha ou pecado no Ser de Deus, por isso Deus odeia o pecado e não pode deixar impune o pecador, este é o motivo pelo qual decretou a salvação dos eleitos através da vida perfeita e do sacrifício expiatório de Jesus Cristo, perfeito homem e perfeito Deus, apto para realizar o plano de salvação determinado por Deus antes da fundação do mundo.

Isaías 6,3: “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”.

Muitos sentem a necessidade de separar a santidade do amor de Deus, acham que existe uma relação não resolvida entre o Deus santo e o Deus amoroso. Alguns se apegam com extremo rigor à santidade de Deus; ele é visto como um deus austero, colocando pesados fardos sobre suas criaturas e exigindo esforço moral incessante através da ameaça do juízo futuro. Outros se apegam em uma falsa piedade firmada somente no amor de Deus, transformando-o em um deus fraco, indulgente e sentimental, desprovido de força moral.

A santidade e o amor de Deus:

O Deus bíblico é tanto santo como amoroso, em unidade inseparável e em cada pessoa da Trindade, a misericórdia somente pode se manifestar uma vez cumprida a justiça, esta é a necessidade da redenção que há em Cristo, pois o homem, por si mesmo, jamais teria condições de satisfazer a justiça perfeita de Deus.

3.1- A retidão de Deus:

sua conformidade consigo mesmo, DEUS JAMAIS SE CONTRADIZ

Deus jamais contradiz a si mesmo, jamais executa o que não planejou, jamais age contra sua própria natureza, os Decretos Eternos provém muito justamente da retidão de Deus, toda execução da providência ao longo do tempo foi determinada por Deus na eternidade, e nada é passível de mudança no tempo da execução, esta é a retidão de Deus.

Mateus 10,29: “Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai”.

A eternidade de Deus se traduz nas qualidades de imutabilidade e impassionalidade, e se refletem na execução da providência ao longo do tempo, que se realiza de maneira exata no tempo previsto e determinado para cada evento, sem possibilidade de mudança ou variação, no sentido de compor cada movimento individual, que por sua vez, se encaixa perfeitamente na globalidade de todos os movimentos previstos no plano divino.

Tiago 1,17-18: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas”.

A falta de retidão é um problema moral do homem diante de Deus, a provisão para retidão do homem é feita somente em Cristo e somente para os eleitos de Deus.

Romanos 6,4: “Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida”.

3.2- A justiça de Deus:

a santidade DE DEUS SE MANIFESTA ATRAVÉS DE SUA JUSTIÇA

A justiça de Deus é derivada de sua santidade e não existe lei moral ou padrão superior a Ele para que seja julgado, Ele é perfeito e eterno, mas, para o homem a lei moral foi revelada na Escritura.

 

Deus e o homem estão em dois extremos infinitamente distantes: Um Deus eterno e perfeito que odeia o pecado e o homem pecador, depravado e incapaz de cumprir a Lei de Deus.

 

Este impasse foi resolvido por Deus antes da criação do mundo, quando definiu não apenas os que seriam salvos, mas também a forma da salvação através do sacrifício substitutivo de Jesus Cristo e a aplicação e operação desta salvação através do Espírito; assim a ira de Deus foi propiciada por seu próprio Filho, satisfazendo plenamente a justiça divina no lugar de seus eleitos; quanto aos réprobos, a justiça reserva a ira de Deus no julgamento final.

 

Isaías 45,21: “Declarai e apresentai as vossas razões. Que tomem conselho uns com os outros. Quem fez ouvir isto desde a antiguidade? Quem desde aquele tempo o anunciou? Porventura, não o fiz eu, o SENHOR? Pois não há outro Deus, senão eu, Deus justo e Salvador não há além de mim”.

 

Existe uma diferença entre a justiça governativa, que tem abrangência universal no plano divino, e a justiça distributiva, pela qual Deus concede recompensas e inflige castigos aos homens em sua vida terrena; mas, tanto a justiça governativa quanto a justiça distributiva nada têm a ver com o mérito próprio das criaturas, mas somente com as determinações eternas de Deus.

 

Deuteronômio 32,4: “Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto”.

A justiça governativa ou rectoral:

A justiça rectoral é aquela pela qual Deus impõe aos homens uma lei justa que obriga o cumprimento a todos estes homens em todos os tempos da humanidade sem exceção e independente do conhecimento da lei. Pelo estabelecimento da Lei, Deus assume o governo total e absoluto do universo, sendo o seu domínio sobre o bem e o mal; não existe outro poder no universo além de Deus.

 

Isaías 45,7: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas”.

 

A justiça distributiva:

- A justiça remunerativa: pela qual Deus distribui recompensas a todos os homens durante sua vida terrena, sejam eles eleitos ou réprobos, justos ou ímpios, não conforme o mérito de cada um, pois ninguém possui mérito perante Deus, mas conforme sua vontade e propósito.

 

Mateus 5,45: “Para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”.

 

Desta forma, uma pessoa ímpia pode ser recompensada e receber muitas bênçãos nesta vida, enquanto um filho de Deus pode receber, pela disciplina do Criador, doenças e dificuldades sem causa ou razão aparente aos homens, mas a bíblia diz que os justos serão recompensados na somatória final de todas as coisas.

 

Salmo 58,11: “Então, se dirá: Na verdade, há recompensa para o justo; há um Deus, com efeito, que julga na terra”.

 

- A justiça punitiva: A justiça punitiva é a justiça vindicativa de Deus, não se refere à disciplina e correção de seus filhos, mas à punição e castigo dos réprobos, incluindo o inferno de fogo após a morte.

 

Jó 41,11: “Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe? Pois o que está debaixo de todos os céus é meu”.

 

- A IRA DE DEUS:

A APLICAÇÃO DA JUSTIÇA DE DEUS REVELA SUA IRA

 

A ira de Deus é a manifestação da sua justiça e santidade no mundo criado, a natureza de Deus é odiar o pecado com persistência e rejeitar tudo que se opõe à sua santidade.

 

O Ser de Deus somente existe pela soma e combinação de todos seus atributos conjuntamente, porém a santidade de Deus é central em sua natureza e sua ira é voltada contra todos os que rejeitam o plano de salvação divino, conhecendo ou não este plano.

 

O plano de salvação divino é baseado em Cristo eternamente, por isso, em todos os tempos da história da humanidade a salvação acontece somente em Cristo, e todo aquele que rejeita a salvação, ou, julgando ter mérito próprio, procura aceitar ou cooperar de alguma forma com esta salvação, incorre na justa ira de Deus.

 

J. Murray: “A ira é a rejeição santa do ser de Deus contra aquilo que contradiz a sua santidade”.

 

Todos pecaram e carecem da glória de Deus, todos são pecadores e somente podem ser salvos pela justiça perfeita de Cristo imputada ao crente pela graça justificadora de Deus, sem mérito ou colaboração alguma da criatura.

 

Salmo 2,12: “Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam”.

 

Muitos cristãos imaginam a ira de Deus como algo indigno e evitam a todo custo abordar este tema em palestras, sermões ou ensinamentos. Outros ainda afirmam que a ira de Deus não é coerente com a sua bondade, mas, o que dizem as escrituras?

 

Deuteronômio 32,39-41: “Vede, agora, que Eu Sou (YAHWEH), Eu somente, e mais nenhum deus além de mim; eu mato e eu faço viver; eu firo e eu saro; e não há quem possa livrar alguém da minha mão. Levanto a mão aos céus e afirmo por minha vida eterna: se eu afiar a minha espada reluzente, e a minha mão exercitar o juízo, tomarei vingança contra os meus adversários e retribuirei aos que me odeiam”.

 

Existem na Escritura muito mais referências à indignação, à cólera e à ira de Deus, do que ao seu amor. Porque Deus é santo, ele odeia todo pecado; e porque ele odeia todo pecado, a sua ira se inflama contra o pecado e o pecador.

 

Salmo 7,11: “Deus é justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias”.

 

É muito comum ouvir, em pregações do evangelicalismo moderno, que Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. Nada pode ser mais estúpido que isso, todos os homens estão sob o justo juízo de Deus e são merecedores unicamente da ira e do castigo eterno, e todo aquele que não estiver inscrito no Livro da Vida do Cordeiro, antes da fundação do mundo, será lançado no lago de fogo eterno juntamente com o diabo e seus anjos.

 

Apocalipse 20,15: “E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo”.

 

A ira de Deus é uma perfeição divina tanto como sua fidelidade, seu poder, seu amor ou sua misericórdia, não há imperfeição alguma em Deus, e não há qualidade menor ou maior que outra, visto que todas são perfeitas. Só pode ser assim, pois não há mácula nem o mais ligeiro defeito no caráter de Deus, haveria se nele não houvesse ira, pois a indiferença para com o pecado é indesculpável.

 

1 João 1,5: “Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma”.

A ira de Deus e a tolerância do crente:

 

A tendência da moderna igreja, dita “cristã”, é a pregação de que o pecado apresenta-se sempre de forma ativa, consistindo somente em atos realizados ou concebidos mentalmente. Desta forma, a igreja prega a tolerância, a submissão e o politicamente correto, sendo que esta tendência beira a conivência, trazendo ao crente uma falsa ideia de Deus e do cristianismo.

 

A exemplo de Deus, o crente não pode ser passivo e tolerar falsos mestres e atitudes de conivência com relação às heresias e falsas doutrinas na igreja, pois aquele que tolera as obras das trevas torna-se cúmplice delas.

 

Efésios 5,11: “E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as”.

 

Se as crianças, jovens e crentes imaturos da igreja perecem, na pregação de falsas doutrinas por falta de coragem ou conhecimento dos oficiais e membros antigos que se calam por comodismo, ignorância ou conformidade social, estes levarão sobre si o sangue da alma destas pessoas, e muito merecidamente, pois o livro do Apocalipse diz que os covardes encabeçam a lista daqueles que serão lançados no lago de fogo eterno, e pode-se ver m Ezequiel, que o atalaia desatento ou conivente leva sobre si o sangue daquele que pereceu por falta de seu aviso.

 

Ezequiel 33,6: “Mas, se o atalaia vir que vem a espada e não tocar a trombeta, e não for avisado o povo; se a espada vier e abater uma vida dentre eles, este foi abatido na sua iniquidade, mas o seu sangue demandarei do atalaia”.

 

É importante lembrar que os pecados na passividade do crente não serão perdoados aos oficiais da igreja e aos crentes maduros, que tiveram a oportunidade de ouvir e estudar a Palavra, pois Deus demanda de seus filhos que O conheçam, e para isto deu a Escritura, contendo todos os preceitos para o homem que ama o Criador. Por este motivo, não se fiem estes crentes preguiçosos em sua pretensa inocência e boa vontade, veja o destino dos covardes no verso do Apocalipse abaixo.

 

Apocalipse 21,8: “Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte”.

 

A ira de Deus é uma qualidade que determina sua santidade, sem esta qualidade Ele deixaria de ser verdadeiramente santo e seu amor degeneraria em sentimentalismo. Sua ira, como todos seus atributos e qualidades é perfeita, justa e racional, não sendo sujeita à emoção, pois Deus é impassional. A ira de Deus é a revelação do que está destinado ao homem no julgamento final.

 

Romanos 1,18: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça”.

3-3- A SEPARAÇÃO:

DEUS está separado e TRANsCENDE a TODAS AS COISAS CRIADAS

 

Deus é transcendente, está separado e acima de todos os outros seres; só Ele é Deus, só Ele é eterno, só Ele é infinito. A santidade de Deus envolve esta característica de separação de tudo o que resiste e se opõe a Ele. Esta qualidade divina é também associada ao Filho e ao Espírito Santo, como se pode ver na fórmula tríplice de adoração no Velho Testamento e também no Livro do Apocalipse.

 

Isaías 6,3: “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”.

 

Apocalipse 4,8: “E os quatro seres viventes, tendo cada um deles, respectivamente, seis asas, estão cheios de olhos, ao redor e por dentro; não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir”.

 

O Amor de Deus

 

Para apresentar uma correta noção do amor de Deus é preciso primeiramente considerar o que é a bondade de Deus.

 

A BONDADE DE DEUS

A bondade de Deus é uma qualidade que reflete e provém da perfeição de todas as qualidades e atributos divinos em seu conjunto total, não deve ser confundida com o amor, que é um atributo isolado. Desta forma “só há um que é bom, que é Deus”, pois pela totalidade de seus atributos e qualidades perfeitas, Deus é o único Ser intrinsecamente bom.

 

Esta bondade de Deus se manifesta às suas criaturas, Deus é
o “sumum bonum” - o bem supremo - para suas criaturas. Não se deve, também, confundir a bondade de Deus com a sua misericórdia, pela qual ele distribui bênçãos, recompensas e consolação a todas as criaturas durante sua vida terrena.

 

A bondade de Deus envolve a universalidade do seu plano eterno e resulta infalivelmente na glorificação do seu nome. Assim sendo, é bom que Deus discipline seus filhos através de doenças e dificuldades e é necessário que exista o mal no mundo, pois isto redunda na manifestação suprema da bondade de Deus no julgamento final, quando Ele irá finalmente erradicar o mal e a morte de forma cabal e definitiva.

 

1 Coríntios 15,26: “O último inimigo a ser destruído é a morte”.

 

É tanto bom que Deus salve os seus eleitos, quanto destine os réprobos ao sofrimento infindável no inferno, da mesma forma que é bom e justo que Ele distribua suas bênçãos e recompensas a injustos durante esta vida terrena. Deus faz todas a coisas como lhe aprouver, e não cabe ao homem questionar a sabedoria e bondade de Deus, pois conforme o Breve Catecismo de Westminster: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e encontrar prazer nele para sempre”.

A santidade, a misericórdia, o amor, a justiça e a ira de Deus resultam conjuntamente na bondade de Deus.

O AMOR DE DEUS

 

É preciso lembrar novamente que nenhuma das qualidades e atributos de Deus podem ser considerados isoladamente, todos os atributos de Deus existem conjuntamente e nenhum deles se manifesta individualmente em detrimento ou à parte de todos os outros. O amor de Deus é considerado como parte integrante da bondade de Deus.

 

O amor de Deus se manifesta aos homens de diversas maneiras, como se pode ver abaixo:

 

- A graça de Deus:

 

A graça de Deus é a concessão de seu amor de forma especial e redentora a determinados homens e anjos que não possuem mérito ou direito algum a este amor. A graça de Deus é o aspecto particular da bondade de Deus aos seus eleitos, escolhidos na eternidade para a redenção e salvação em Cristo.

 

Efésios 2,89: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”.

- A misericórdia de Deus:

 

Ao contrário da graça, a misericórdia é manifesta de forma universal, em forma de provimento e sustentação da vida e da natureza, e, além disto, a distribuição de bênçãos, consolação e recompensas, pelas quais ele minimiza e alivia o sofrimento de suas criaturas e restringe a realização do mal, impedindo que ele se realize na forma plena desejada pelas criaturas.

 

Mateus 5,45: “Para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”.

A misericórdia de Deus se manifesta de forma especial aos eleitos através da graça salvadora em Cristo.

- A longanimidade de Deus:

 

A longanimidade ou paciência de Deus é o aspecto da bondade pelo qual ele tolera os homens rebeldes e desobedientes durante toda sua vida terrena, muitas vezes cumulando-os de bênçãos e recompensas imerecidas.

 

Romanos 9,22: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição”.

- O amor de Deus:

 

O amor de Deus manifesta-se através da sustentação da natureza e de todas as suas criaturas, bem como na sua misericórdia, pela qual Ele distribui bênçãos, consolação e recompensas a todas as suas criaturas durante sua vida terrena, mas de forma especial na redenção e salvação de seus eleitos.

 

Romanos 5,5: “Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado”.

 

Deus é eterno, como tal é imutável e impassional, por este motivo, todas as manifestações do amor de Deus estão presentes em sua mente antes da criação do mundo, manifestando-se em atos práticos desprovidos de paixão ou parcialidade.

 

Nenhuma ação, atitude ou pensamento das criaturas pode mudar as manifestações do amor de Deus, pois todas as ações, atitudes ou pensamentos das criaturas estão presentes eternamente na mente de Deus e foram determinadas conforme seu propósito e vontade soberana para o mundo e todas as suas criaturas.

 

Êxodo 33,19: “Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do SENHOR; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer”.

 

O amor redentor de Deus, somente pode se manifestar através do cumprimento rigoroso da justiça divina, o que é impossível ao homem, mas possível para Deus em Cristo Jesus.

 

“Deus é amor”, esta é a definição bíblica mais conhecida de Deus. É preciso, todavia, definir com clareza este amor de Deus.

 

No contexto humano o amor é uma forte inclinação emocional em relação à outra pessoa, no caso de Deus trata-se de outra ideia, relacionada às qualidades de imutabilidade e impassionalidade, o amor de Deus não pode se manifestar em ternura ou emoção, o amor salvador de Deus é um ato prático que se revela somente na redenção que há em Jesus Cristo.

 

1 João 4,9: “Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele”.

 

O termo grego usado para ‘amor’ nestes versos é ‘agapê’ e tem pouco uso além do Novo Testamento. A palavra grega comum – erõs, fala de um amor associado a alguém digno, enquanto agapê é o amor pelos indignos, por alguém que não tem merecimento à devoção do amado.

 

O Antigo Testamento tem um testemunho disto no amor de Deus por Israel e no amor de Oséias pela sua mulher:

 

Deuteronômio 7.7: “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos”.

Romanos 10,21: “Quanto a Israel, porém, diz: Todo o dia estendi as mãos a um povo rebelde e contradizente”.

 

Oséias 3,1: “Disse-me o SENHOR: Vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo e adúltera, como o SENHOR ama os filhos de Israel, embora eles olhem para outros deuses e amem bolos de passas”.

 

Bolos de passas – usados pelas religiões cananitas para adoração da deusa da fertilidade, ou “Rainha do Céu”.

 

Como conciliar o Deus santo que age somente para sua glória com o Deus de amor da bíblia? A santidade de Deus é a fonte de todo o bem; assim, a santidade é a base de seu amor, somente Deus pode amar a alguém com o amor ágape, amor este que procede do amor eterno e mútuo das pessoas da Trindade.

 

A santidade e o amor de Deus somente se tornam possíveis e se realizam na pessoa e na obra de Jesus Cristo, sua vinda é o propósito da graça, este é o amor de Deus:

 

1 João 4,10: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados”.

 

O amor de Deus continua se manifestando após a justificação, através do ministério do Espírito Santo em cumprimento do propósito do amor, pois somente o Espírito pode preservar o povo de Deus, incapaz por si mesmo de manter sua salvação.

 

O amor de Deus está intimamente ligado com a graça, este amor é sua decisão de salvar mulheres e homens pecadores através de Jesus Cristo, renová-los no Espírito Santo e preservá-los eternamente, um milagre realizado pela Trindade divina.

 

2 Coríntios 13,14: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”.

Assim seja!

As manifestações do amor de Deus

 

1 - O amor ágape:

 

É o amor cujo objeto é indigno, é principalmente expresso na redenção dos pecadores e em tudo que está ligado a isso, mas é também manifesto no cuidado de Deus pela criação

 

Atos 14,17: “Contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria”.

2          - A misericórdia:

 

É o ato de Deus em que ele imputa a justiça perfeita de Cristo aos pecadores eleitos, propiciando desta forma a manifestação de seu amor, pela sua misericórdia ele perdoa definitivamente a transgressão do seu povo através do sacrifício expiatório de Jesus Cristo.

 

Não se pode incorrer no erro de imaginar este amor como adição ao caráter de Deus após a existência do homem, pois Deus é eterno e nada de novo pode ser acrescido ou omitido em sua mente onisciente, a misericórdia de Deus existe eternamente, assim como o amor pelos pecadores escolhidos, que tem origem na eternidade através do decreto da eleição e reprovação de homens e anjos.

 

Efésios 2,4-5: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos”.

 

3          - A aliança:

 

É uma noção bíblica indispensável em torno da qual se concentra grande parte do ensino sobre o amor de Deus: O pacto de Deus com o homem. Este pacto se revela no Velho Testamento através do Pacto de Obras e pelo Novo Testamento como o Pacto de Graça, onde a plena revelação de Deus é feita em Jesus Cristo. A salvação é conferida gratuitamente aos eleitos, e somente a eles em todos os pactos divinos.

 

Não se pode confundir, existe um só pacto e uma forma única de salvação em toda bíblia, todas as pessoas salvas em todos os tempos da humanidade foram eleitas na eternidade e salvas em e por Jesus Cristo, pois como está escrito: Ninguém será salvo pelas obras da lei.

 

Gálatas 3,10: “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las”.

 

A aliança ou o pacto de Deus, que começa no Antigo Testamento com Adão, e continua em Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi e os profetas é sempre um único e mesmo pacto que alcança plena revelação na nova aliança em Cristo. Por meio deste pacto único, Deus promete libertar seu povo e ser o seu Deus.

 

A graça de Deus (chen~chesed) é uma palavra hebraica que passa a ideia de amor leal (ágape) ou misericórdia. A promessa de Deus traz segurança para o cristão, pois ele não depende de sua própria capacidade inexistente, mas da graça divina, que é eterna.

 

2 Timóteo 2,13: “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo”.

 

4 - O amor de complacência: É o amor por algo realmente digno – o amor de Deus para com sua glória, seus propósitos e o amor eterno entre as pessoas da Trindade. Este é um amor sobre o qual é impossível formar ideia ou sequer imaginar, mas é algo recebido somente como revelação, pois está além da capacidade de raciocínio do homem.

 

João 10,17: “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir”.

 

5 - O amor de afeição: é o amor que se manifesta através da graça de Deus, após a justificação do pecador eleito: O amor aos seus filhos por adoção, pela qual eles recebem o Espírito e clamam: ABBA, PAI! Desta forma, a graça é o favor imerecido ao homem pecador, que procede da afeição de Deus aos seus filhos, eleitos na eternidade.

 

2 Tessalonicenses 2,16-17: “Ora, nosso Senhor Jesus Cristo mesmo e Deus, o nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança, pela graça, consolem o vosso coração e vos confirmem em toda boa obra e boa palavra”.

 

TEMPO E ETERNIDADE

 

Louis Berkoff: “A eternidade de Deus pode ser definida como a perfeição de Deus pela qual Ele é elevado acima de todos os limites temporais e de toda sucessão de momentos, e tem a totalidade da sua existência num único presente indivisível”.

Esta definição da eternidade foi, na verdade, formulada por Agostinho, no século V d.C. O texto de Berkoff foi escolhido pela maior clareza na apresentação.

O propósito de Deus foi determinado na eternidade e se manifesta no tempo através da providência, pela qual Ele executa no mundo criado o seu propósito eterno. Os Decretos Eternos tem uma ordem lógica e não temporal, porém sua execução no mundo é feita nos tempos determinados, conforme o plano divino, que é eterno e imutável.

 

Deus tem um só propósito, neste propósito estão todas as coisas e seres, por este motivo os Decretos Eternos podem ser considerados como um único decreto que abrange todas as coisas, antes do tempo, durante o tempo e depois do tempo.

 

Não existe sombra de variação na vontade de Deus, nenhum novo ato pode entrar na sua mente e nunca poderá haver reversão no propósito divino. Deus não criou nenhum ser que não esteja absolutamente dentro de seu controle, todas as coisas foram criadas por Deus para sua própria glória,

Isaías 14,24: “Jurou o SENHOR dos Exércitos, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e, como determinei, assim se efetuará”.

 

Na eternidade não há nenhuma imperfeição ou movimento, incluindo nisto todo e qualquer movimento mental ou intelectual, Deus não raciocina ou deduz nada a partir de alguma coisa, Deus não aprende ou esquece, todo o conhecimento está presente na mente imutável de Deus, de forma que ele não constrói ideias a partir de imagens ou situações como os homens; sua mente é imutável e contém todo o conhecimento do universo criado e da eternidade de forma plena e imutável, todo o ser de Deus é plena e completamente realizado.

 

Na eternidade não existe o decorrer do tempo, mas a eternidade contém todos os tempos que existiram, existem existirão, como também todos os tempos possíveis de existência.

 

A eternidade é apenas ser, nunca estar, a eternidade é propriedade de Deus, o ser infinito cuja realização é simultânea e eterna. A eternidade é a natureza de Deus e mais nada possui esta natureza, a tal ponto que é possível afirmar que Deus é a eternidade, ou que a eternidade é Deus.

 

Agostinho: “Precedeis, porém, todo o passado, alteando-vos sobre ele com a vossa eternidade sempre presente”.

A eternidade é a simultaneidade de todas as coisas e não se pode medir ou comparar por intermédio do tempo, a eternidade não está sujeita a mudanças, tudo ali é presente, simultâneo e completamente realizado, somente Deus é eterno, pois a eternidade é sua essência.

 

A existência das coisas e a eternidade

 

Nada existe por si mesmo, portanto, nada tem existência própria, a vontade de Deus é que as coisas existam e não a existência das coisas, desta forma, todas as coisas vêm à existência apenas no momento em que foram criadas, não são preexistentes à criação, mas são eternamente existentes na mente de Deus.

 

Estas idéias das coisas criadas estão na mente de Deus desde toda eternidade, desta forma, o mais correto seria dizer que o mundo foi trazido à existência, e não criado, pois o mundo já existia, antes da criação, na mente de Deus, e só veio a existir pela vontade de Deus, não tendo existência própria, e será totalmente destruído no dia do Julgamento Final.

 

Isaías 46, 9-10: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade”.

 

O princípio da criação é o princípio do tempo, o propósito de Deus na criação está sendo completado no decorrer deste tempo, porém o conselho de Deus permanece para sempre, Ele conhece tudo ao mesmo tempo, de nada pode ser informado, pois conhece de antemão todas as coisas.

 

Salmo 33,11: “O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações”.

Não é lícito especular sobre os tempos do fim ou do princípio, pois tudo isto está além da capacidade de entendimento do homem. Quando os discípulos perguntaram a Jesus sobre quando se dariam estes tempos, foram repreendidos e não receberam a revelação.

 

Atos 1,7: “Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade”.

O profeta Amós também faz séria advertência para aqueles que desejam conhecer antecipadamente o Dia do Senhor.

 

Amós 5,18: “Ai de vós que desejais o Dia do SENHOR! Para que desejais vós o Dia do SENHOR? É dia de trevas e não de luz”.

Quando foi o princípio? O que existia, de fato no princípio?

 

Segue abaixo uma meditação inspiradíssima de Charles Spurgeon a este respeito:

 

Charles Spurgeon:

 

“Anos atrás pensávamos que o princípio desse mundo foi quando Adão veio; mas temos descoberto que milhares de anos antes de Deus preparar a matéria do caos para formá-la como habitação humana, antes de tentar a mão no homem, colocou nela raças de criaturas que morreriam e deixariam as marcas de seus trabalhos e de suas maravilhosas habilidades. Mas aquilo não era o princípio: por revelação nos aponta para um longo período anterior no qual esse mundo foi moldado, para os dias nos quais as estrelas matutinas surgiram; quando, tal como gotas de orvalho, dos dedos da manhã, estrelas e constelações pingaram das mãos de Deus; quando, por seus próprios lábios, ele lançou órbitas ponderadas; quando com sua própria mão ele estabeleceu cometas, como raios, vagueando através do céu, para um dia descobrir sua própria esfera. Voltamos há anos nos quais mundos foram feitos e sistemas moldados, mas mesmo assim não nos aproximamos ainda do princípio. Até vamos ao tempo no qual todo o universo adormecia na mente de Deus como ainda não nascido, até que entramos na eternidade quando Deus o Criador vivia só, tudo repousando dentro dele, toda a criação descansando em seu pensamento grandioso e poderoso, mas ainda não imaginamos o princípio. Poderíamos ir mais e mais e mais para trás, eras após eras. Poderíamos ir para trás, se usássemos tais mundos estranhos, eternidades completas, e ainda assim nunca chegaríamos ao princípio. Nossas asas estariam cansadas, nossa imaginação pouco a pouco desapareceria; poderia ultrapassar o brilho dos raios na sua majestade, poder e velocidade, mas isso seria dentro em breve enfadonho para atingir o princípio. Mas Deus, desde o princípio, escolheu seu povo; quando o etéreo não navegado ainda não tinha sido revolvido pela asa de um anjo sequer, quando o espaço era sem limites, ou ainda não nascido quando a quietude universal reinava e nenhuma voz ou suspiro quebrava a solenidade do silêncio; quando não havia nem começo, nem gesto, nem tempo, nada, apenas Deus, só em sua eternidade; sem a canção de um anjo, sem a assistência de um simples querubim, muito antes das criaturas vivas nascerem ou que as rodas da carruagem de YAWEH tivessem sido moldadas, mesmo assim, “no princípio era o Verbo”, e no princípio o povo de Deus era um com o Verbo, e “no princípio ele os escolheu para a vida eterna. Nossa eleição, então, é eterna”.

Nesta meditação, Spurgeon leva a compreender o absurdo de tentar interpretação dos tempos previstos por Deus e de confiar na própria justiça para escolher ou rejeitar uma salvação que está decidida antes da existência de todas as coisas, descansando na eternidade inimaginável.

 

O que existe, na mente humana, é a impressão do tempo presente, deve-se fazer tudo o que está ao alcance do homem para aproveitar este tempo, acreditando firmemente na eficiência absoluta providência divina.

A eternidade e o tempo presente

 

Efésios 5,15-16: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus”.

 

Remir: palavra grega (exagoradzo), significa reter para si mesmo ou impedir a perda. O tempo presente coexiste juntamente com a eternidade, por este motivo o homem tem dificuldade em diferenciá-los. A eternidade é entendida erradamente, como um tempo infinito no sentido do passado e no sentido do futuro, como pressupôs Aristóteles, mas o universo, tendo sido criado, não pode existir eternamente; a criação do universo a partir do nada é uma realidade bíblica corroborada atualmente pela ciência, não existem mais dúvidas sobre o fato de que o universo foi criado.

 

Recentemente foi divulgada a notícia de que o telescópio espacial Hubble captou sinais das ondas de choque resultantes da criação do universo: A teoria do Big-Bang. Não é correto imaginar-se a eternidade como uma extensão do tempo, não existe passado ou futuro na eternidade, apenas o eterno presente imutável, que engloba todos os acontecimentos no universo e fora dele.

 

Agostinho sobre o tempo:

 

Agostinho: “O que agora parece claro e evidente para mim é que nem o futuro, nem o passado existem, e é impróprio dizer que há três tempos: passado, presente e futuro. Talvez fosse mais correto dizer: há três tempos: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro. E essas três espécies de tempos existem em nossa mente, e não as vejo em outra parte. O presente do passado é a memória; o presente do presente é a percepção direta; o presente do futuro é a esperança”.

 

A teoria da relatividade – Agostinho ou Einstein?

 

Agostinho sobre o tempo e o espaço:

 

“Disse há pouco que medimos o tempo que passa; de modo que podemos afirmar que um lapso de tempo é o dobro de outro, ou igual, e apontar entre os intervalos de tempo outras relações, mediante esse processo comparativo. Portanto, como eu dizia, medimos o tempo no momento em que passa. E se me perguntarem: Como o sabes? – eu responderia: Sei porque o medimos, e porque é impossível medir o que não existe; ora, o passado e o futuro não existem. Quanto ao presente, como podemos medi-lo, se não tem duração? Portanto, só podemos medi-lo enquanto passa; e quando passou, não o medimos mais, porque não há mais nada a medir. Mas de onde se origina, por onde passa, para onde vai o tempo quando o medimos? De onde vem senão do futuro? Por onde passa, senão pelo presente? Para onde vai senão para o passado? Nasce pois do que ainda não existe, atravessa o que não tem duração, e corre para o que não existe mais. No entanto, o que é que medimos, senão o tempo relacionado ao espaço? Quando dizemos de um tempo que é simples, duplo, ou triplo, ou igual, ou quando formulamos qualquer outra relação dessa espécie, nada mais fazemos do que medir espaços de tempo”.

A eternidade e os decretos divinos

 

Não existe tempo na eternidade, porém existe uma ordem lógica nos decretos de Deus; apesar de simultâneos um decreto é fundamento de outro decreto: O decreto da manifestação da glória de Deus precede o decreto da salvação, o decreto da salvação precede o decreto da redenção, o decreto da redenção precede o decreto da eleição, o decreto da eleição resulta no decreto da reprovação, todos estes decretos precedem o decreto da queda e somente depois segue o decreto da criação.

 

Esta ordem dos decretos eternos chama-se supralapsarianismo, que supõe uma ordem planejada, ou teleológica, na execução dos decretos. Ao contrário o infralapsarianismo supõe que Deus decretou a salvação depois da queda, o que é uma idéia antibíblica e herética, porque nega a soberania e a onisciência de Deus.

 

Apocalípse 13,8: “E adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.

A ordem dos decretos:

 

1 – Deus decidiu revelar sua glória na criação do mundo.

 

2 - Para isto elegeu uma parte da humanidade para a salvação e outra para a condenação.

 

3 – O concerto referente ao plano de salvação é estabelecido entre as pessoas da Trindade.

 

4 – A queda é determinada.

 

5 – O mundo é trazido à existência.

 

6 – Na plenitude do tempo, o Verbo de Deus encarna e se torna o Filho, adquirindo a redenção para os eleitos de Deus.

 

Isaías 43,3-4: “Porque eu sou o SENHOR, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador; dei o Egito por teu resgate e a Etiópia e Sebá, por ti. Visto que foste precioso aos meus olhos, digno de honra, e eu te amei, darei homens por ti e os povos, pela tua vida”.

 

7 – Por fim, todas as coisas são direcionadas para o cumprimento da eleição e reprovação para a glória de Deus e realização da função de sua igreja.

 

1 Coríntios 3,21-23: “Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus”.

 

A providência de Deus no tempo são os atos da sua vontade decretada na eternidade, os Decretos Eternos podem ser entendidos em uma ordem lógica como sendo na mesma ordem em que eles ocorrem no tempo. Conforme Martinho Lutero a eternidade é: “a coisa completa ao mesmo tempo”.

 

Ou ainda, como a eternidade é própria somente de Deus, ela pode ser expressa como uma sequência de ideias relacionadas a esta qualidade divina:

 

A eternidade: Aquilo que não teve princípio nem terá fim, ou seja, a auto-existência de Deus e o presente simultâneo e imutável, em sua mente, de todos os acontecimentos e coisas que existiram, existem e existirão, ou mesmo ainda, todos aqueles acontecimentos e coisas que tiveram, têm ou teriam a simples possibilidade de existência”.

Este conhecimento de Deus se manifesta pela soberania de sua vontade na determinação de todos os acontecimentos e de todas as coisas criadas, que não existem por si mesmas, mas somente conforme o poder e o plano eterno de Deus.

 

Agostinho: “A vontade de Deus é a razão de todas as coisas”.

 

A eternidade e o tempo

 

Quando Deus se refere à sua eternidade ele diz: EU SOU. Se disser Eu Era, Ele teria sido e já não seria, se Ele disser Eu Serei, Ele ainda não seria. Se a eternidade fosse medida através do passado uma parte dela já teria terminado, se a eternidade fosse medida através do futuro uma parte dela ainda não existiria. Ora, qualquer destas afirmações é absurda, portanto a eternidade é o permanente, total e imensurável presente de todas as coisas e acontecimentos.

 

Êxodo 3,14: “Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós outros”.

 

EU SOU O QUE SOU, este é o nome pessoal do Deus de Israel (hyh - hayah: existir, estar em existência), o verbo repetido reforça seu significado e intensidade, desta forma, EU SOU O QUE SOU significa: “Eu sou aquele que existe realmente e somente por mim mesmo”.

O verbo hebraico hayah não significa meramente existência, mas uma presença viva e ativa que existe e estará sempre presente. Os Israelitas consideravam este nome tão sublime e poderoso que nenhuma palavra poderia expressar esta declaração, por este motivo os judeus eram proibidos de falar este nome de Deus (YAHWEH).

 

Se for considerado o significado bíblico da eternidade, vê-se que a duração temporal nunca deve ser usada em sua descrição, a eternidade não tem princípio nem fim. A vida dada por Deus a seus eleitos deve ser vista da mesma forma, os eleitos de Deus são criaturas do tempo, que possuem vida em corpos mortais, mas dotados de uma alma que é imortal, por isso, a vida que começa no novo nascimento vem de Deus e é eterna, pois foi determinada na eternidade, antes da existência do mundo.

 

2 Timóteo 1,9: “Que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos”.

 

João 6,47: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna”.

Os Decretos Eternos são tão presentes hoje como o foram ontem ou como serão amanhã, o pacto da graça é eterno porque Deus o fez unilateralmente. Somente Deus o fez e o mantém, se dependesse do homem jamais poderia ser mantido e não seria eterno de forma alguma.

 

2 Timóteo 2,13: “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo”.

A TRINDADE DIVINA

A doutrina da Trindade na igreja

A doutrina da trindade trouxe grandes dificuldades para a igreja nos primeiros séculos da era cristã, só veio a ser constituída em sua formulação definitiva no século V, por intermédio de Agostinho, em sua obra: “De Trinitatis”.

 

A doutrina da Trindade conforme formulada por Agostinho foi integralmente aceita pelos reformadores, não tendo sofrido nenhuma mudança durante mil anos que separam Agostinho da Reforma Protestante, mas, após a reforma, surgiram formulações errôneas da Trindade, visando defender heresias antibíblicas e posições doutrinárias pessoais que não encontram apoio na Escritura.

 

Agostinho (Confissões): “Pelo vocábulo “Deus” eu já entendia o Pai, que criou essas coisas; na palavra “princípio” eu entendia o Filho, em quem ele as criou. E, como eu acreditava na Trindade de meu Deus, eu a procurava em tuas santas palavras. E vi em tuas Escrituras que teu Espírito pairava sobre as águas. Eis tua Trindade, meu Deus, Pai, Filho, Espírito Santo, Criador de toda criatura!”.

 

O conceito da Trindade Divina foi firmado na igreja através dos conceitos agostinianos pelo Credo de Atanásio, que foi estabelecido em caráter definitivo somente no século VIII d.C. e tem este nome em homenagem a Atanásio, Pai da Igreja que viveu no século IV d.C. O Credo Atanasiano é bastante longo, mas, para efeito deste estudo, estão transcritos abaixo seus itens 3 a 12.

 

Credo Atanasiano, itens 3 a 12: “Mas a fé universal é esta, que adoremos um único Deus em Trindade, e a Trindade em unidade. Não confundindo as pessoas, nem dividindo a substância. Porque a pessoa do Pai é uma, a do Filho é outra, e a do Espírito Santo outra. Mas no Pai, no Filho e no Espírito Santo há uma mesma divindade, igual em glória e co-eterna majestade. O que o Pai é, o mesmo é o Filho, e o Espírito Santo. O Pai é não criado, o Filho é não criado, o Espírito Santo é não criado. O Pai é ilimitado, o Filho é ilimitado, o Espírito Santo é ilimitado. O Pai é eterno, o Filho é eterno, o Espírito Santo é eterno. Contudo, não há três eternos, mas um eterno. Portanto não há três (seres) não criados, nem três ilimitados, mas um não criado e um ilimitado”.

 

João Calvino: “Entretanto, não convém passar em silêncio a distinção que observamos expressa nas Escrituras, e esta é que ao Pai se atribui o princípio de ação, a fonte e manancial de todas as coisas; ao Filho a sabedoria, o conselho e a própria dispensação na operação das coisas; mas ao Espírito se assinala o poder e a eficácia da ação”.

Os principais movimentos de negação da trindade divina após a Reforma, e que persistem até os dias atuais forma os seguintes:

 

- Arminianismo (livre-arbítrio): Os defensores desta corrente atribuem ao Pai, autoridade e preeminência sobre as outras duas pessoas, negam direta ou indiretamente a divindade de Cristo ao reduzir o valor de sua obra perfeita, tornando-a um mero auxílio à salvação do homem que deverá decidir pela sua própria salvação, e trazem mérito e justiça própria ao homem para perseverar em sua salvação à parte da ação do Espírito.

 

Ainda em uma vertente mais sutil, os arminianos admitem a graça de Deus e a operação do Espírito como início do processo de salvação, ficando a cargo do homem a aceitação ou rejeição de Cristo e a perseverança na salvação, que poderá ser perdida e recuperada ao longo da vida.

 

Negam, sem dúvida, a Trindade, a graça de Deus, a suficiência do trabalho de Cristo e a operação do Espírito na salvação. Ao negar a operação exclusiva do Espírito de Deus na aplicação e operação da salvação e perseverança dos santos, cometem o pecado imperdoável, pois estão atribuindo ao homem caído uma obra que pertence unicamente ao Espírito Santo.

 

Historicamente, os grandes movimentos arminianos, tanto na Inglaterra como nos EUA acabaram conduzindo seus aderentes ao unitarismo, que é uma heresia mais coerente com o desejo do homem valorizar a si mesmo.

 

- Unitarianismo ou unitarismo: Não existe uniformidade nesta doutrina, existe em comum a negação da Trindade e a afirmação da existência de um deus constituído de uma só pessoa, os seguidores desta outra heresia adotaram algo próximo ao arianismo ou ainda ao modalismo, conforme Sabelius, mas em geral, negando abertamente a divindade de Cristo e afirmando existir somente uma pessoa em Deus, que se manifesta de diferentes modos ao longo da história bíblica, e ainda, que Jesus é um mero homem piedoso que serve de exemplo para a humanidade.

 

- Modernistas (dispensacionalistas): Para estes Jesus é um simples homem e o Espírito uma manifestação, ou emanação, do poder de Deus; não acreditam na divindade de Cristo ou na Trindade Divina. Incluem-se neste caso os Adventistas do Sétimo Dia, as Testemunhas de Jeová, os unitaristas e dispensacionalistas em geral.

 

- Irracionalismo: Deus é incognoscível, não existe possibilidade de se conhecer a Deus de nenhuma forma, o que vale na adoração é a paixão e os sentimentos do homem (Kierkegaard, Karl Barth, Emil Bruner). Karl Barth assume que Deus se revela pela Escritura, mas continua da mesma forma sendo “O Totalmente Outro”, do qual não se pode apreender nenhuma verdade, mas isto não é importante, pois conforme os aderentes desta heresia, a bíblia contém paradoxos e contradições não possuindo um caráter histórico, é apenas um livro de fé (?). Este movimento pode ser identificado com o agnosticismo e não deixa de ser ateísmo prático.

 

A TRINDADE ECONÔMICA – o pacto de paz (ou o pacto eterno)

Na natureza de Deus, coexistem eternamente três distinções espirituais não criadas, que se manifestam como pessoas distintas quanto às ações, mas, igualmente participantes da substância divina, formando um único Deus.

A Trindade Econômica: Este nome é utilizado para referência às obras da Trindade na redenção dos homens. Toda a redenção é obra do Deus Triúno, mas as pessoas da Trindade possuem voluntariamente e em absoluto consenso algumas fases da redenção:

Definição:

 

- O Pai: Fonte, origem e autoridade.

 

- O filho: Manifestação, dispensação e revelação.

 

- O Espírito Santo: Iluminação, operação e realização.

 

Atuação:

 

- O Pai: Origem das ações, autoridade.

 

- O Filho: Revelação exterior, redenção, intercessão.

 

- O Espírito santo: Revelação interior, regeneração, preservação.

Serão apresentados a seguir, detalhes sobre a operação da Trindade econômica:

1 - Opera ad intra (operação interna): Pai - geração; Filho - filiação; Espírito - processão.

Esta operação interna caracteriza a relação de filiação e de processão eternamente existentes no relacionamento das pessoas da Trindade, desta forma, o Verbo não se torna o Filho no ato da encarnação, mas esta relação de filiação é eterna entre o Pai e o Filho.

2 - Opera ad extra (operação externa): Eleição, redenção, regeneração.

- Deus o Pai:

 

- Planejamento da predestinação eterna de homens e anjos, escolha dos eleitos e réprobos incluindo a eleição e impecabilidade do Verbo Encarnado;

 

Salmo 2,7-9: “Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei”.

 

- O início da obra da criação;

 

- A representação da Trindade como a pessoa ofendida pelo pecado.

 

- Deus o Filho:

- A existência de todas as coisas;

- A execução da obra de redenção dos homens através da encarnação;

 

- A revelação: O Logos de Deus – a revelação suprema e definitiva de Deus, a luz dos homens, a única fonte de conhecimento para todos os homens do mundo, eleitos ou réprobos;

 

João 1,9: “A saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem”.

 

- A mediação: O único mediador entre Deus e os homens, o único caminho pelo qual os homens são salvos;

 

- A providência: O Verbo de Deus, por intermédio de quem o mundo veio a existência e é mantido através da providência.

 

Hebreus 1,3: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas”.

 

- A encarnação: A encarnação do Verbo, apesar de se realizar no tempo, como vista por olhos humanos, foi decidida na eternidade, por isto se diz que o Filho é eternamente gerado do Pai. A encarnação não envolve a criação de uma nova pessoa ou substância no Ser de Deus, mas refere-se à concepção milagrosa da natureza humana (corpo e alma) de Jesus no ventre de Maria, obra do Deus triúno através do Espírito Santo.

- Deus o Espírito Santo:

- O consolador: É o consolador enviado pelo Filho aos eleitos de Deus, o Pai, o Espírito é quem aplica a salvação aos eleitos justificados por Deus, e preserva-os durante toda sua vida terrena, de forma que jamais percam esta salvação concedida pela graça de Deus.

 

- A procedência: O Espírito procede do Pai e do Filho, mas isto não indica subordinação ou preeminência, mas apenas funções assumidas de forma voluntária e consensual no planejamento da redenção.

 

- Operação da salvação: O Espírito é chamado no Novo Testamento de Parakletos, esta palavra grega denota pessoalidade, vemos desta forma que o Espírito fala, vivifica, se entristece, vela, agindo sempre em conjunto dentro da Trindade, mas aplicando a justificação e operando continuamente a regeneração como uma pessoa distinta dentro da unidade trina de Deus.

Salmo 51,11: “Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito”.

A Trindade econômica

Desta forma, Deus é revelado como o Pai e o Filho e o Espírito Santo, cada um com atributos pessoais distintos, mas sem divisões de natureza, essência ou ser. Isto não significa que Deus se manifesta em três diferentes maneiras, mas sim que existem três distinções presentes na divindade.

 

Estas distinções são eternas, pois do contrário Deus não seria imutável, e consequentemente não seria eterno. Está claramente implícita na Escritura a eternidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

 

João 1,1-3: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez”.

Apocalipse 22,13: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim”.

 

Hebreus 9,14: “Muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!”

 

2 Coríntios 3,17: “Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”.

 

Existem na Escritura, os termos gerado, origem e procedência com relação às pessoas da trindade. Isto não significa existência anterior ou posterior, mas são termos de linguagem antropopática, destinados a explicar de forma plausível ao entendimento humano ações divinas de difícil entendimento referentes às características da divindade.

 

Não existem, entre as pessoas da trindade, diferenças quanto à natureza ou essência, pois os atributos de cada pessoa da trindade são derivados dos atributos de Deus e não poderiam existir sem estes atributos do Deus único. Existem funções que existem em pleno consenso por cada uma das pessoas, mas a qualidades de atributos divinos são exatamente iguais para cada uma das pessoas.

Confissão de Fé de Westminster, Capítulo II, Seção III:

 

Na unidade da Divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade - Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo”.

As proposições da doutrina:

 

Louis Berkhof: “A doutrina da Trindade depende decisivamente da revelação, é uma doutrina que não teríamos conhecido, nem teríamos sido capazes de sustentar com algum grau de confiança somente com base na experiência, e que foi trazida ao nosso conhecimento unicamente pela auto-revelação especial de Deus, portanto é de máxima importância reunir suas provas escriturísticas”.

 

Seguem abaixo as proposições da doutrina acompanhadas das provas escriturísticas de cada uma delas:

 

1 – Existe um só Deus, eterno, imutável e indivisível

 

Deuteronômio 6,4: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR”.

 

2 – As três pessoas da Trindade são de forma individual, plena e igualmente Deus

 

Não existe contradição na doutrina da Trindade, pois Deus é um de uma forma e três em uma formulação diferente.

 

O Filho é Deus:

 

João 20,17: “Recomendou-lhe Jesus: Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus”.

 

Jesus é Deus encarnado:

 

João 1,14: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”.

 

O Espírito é Deus:

 

Atos 5,3-4: “Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus”.

Isaías 63,10: “Mas eles foram rebeldes e contristaram o seu Espírito Santo, pelo que se lhes tornou em inimigo e ele mesmo pelejou contra eles”.

2 Coríntios 3,17: “Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”.

 

3 – O Pai, o Filho e o Espírito Santo constituem-se em três pessoas distintas.

 

Marcos 1,10-11: “Logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito descendo como pomba sobre ele. Então, foi ouvida uma voz dos céus: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo”.

 

João 15, 26: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim”.

 

Hebreus 9,14: “Muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!”.

Isaías 61,1: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados”.

 

A revelação da Trindade

 

A trindade divina é uma doutrina revelada, como tal não é recebida por sensações ou experiência, somente pela Escritura. Nestes dois versos abaixo no Novo Testamento a pluralidade das pessoas é claramente revelada.

1 João 5,7: “Pois há três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um”.

 

Gálatas 4,6: “E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!”.

Nestes trechos abaixo do Velho Testamento Deus é manifesto em pessoas distintas como se pode comprovar pelos nomes diferentes no texto hebraico. Isso acontece com frequência nos salmos e em outras passagens.

 

Oséias 1,7: “Porém da casa de Judá me compadecerei e os salvarei pelo SENHOR (YAHWEH), seu Deus (ELOHIM), pois não os salvarei pelo arco, nem pela espada, nem pela guerra, nem pelos cavalos, nem pelos cavaleiros”.

 

Salmo 110,1: “Disse o SENHOR (YAHWEH) ao meu senhor (ADONAI): Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés.

 

Deuteronômio 6,4: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR”.

 

Ou seja: “YAHWEH, nosso Elohim é o único YAHWEH”.

 

A subordinação aparente na Trindade

 

A bíblia apresenta o Filho como subordinado ao Pai e o Espírito como subordinado ao Pai e ao Filho, mas esta aparente subordinação é funcional e não hierárquica. Visto que as três pessoas são iguais em sua essência, essa divisão de funções dentro da divindade acontece por consenso recíproco.

 

João 14,28: “Ouvistes que eu vos disse: vou e volto para junto de vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que eu vá para o Pai, pois o Pai é maior do que eu”.

Neste verso de João, cabe uma explicação: Durante seu tabernáculo aqui na terra, Jesus assumiu a forma de servo, prestando ao Pai a obediência total, até a morte na cruz, obediência esta que Adão não houvera sido capaz de cumprir. Por esta submissão voluntária, Jesus Cristo cumpriu toda a obediência devida e morreu em lugar dos eleitos de Deus, possibilitando, desta forma a aquisição da redenção para seu povo que lhe foi dado pelo Pai na eternidade.

 

João 15, 16: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda”.

 

Isaías 48,16: “Chegai-vos a mim e ouvi isto: não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que isso vem acontecendo, tenho estado lá. Agora, o SENHOR (YAWEH) Deus (ELOHIM) me enviou a mim e o seu Espírito”.

 

 

A TRINDADE NO LIVRO DE PROVÉRBIOS

 

A personificação da “Sabedoria” em Provérbios é equivalente ao Verbo no evangelho de João, pode-se comprovar este fato nos versos abaixo:

 

Provérbios 8,22-31: “O SENHOR me possuía no início de sua obra, antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes do começo da terra. Antes de haver abismos, eu nasci, e antes ainda de haver fontes carregadas de águas. Antes que os montes fossem firmados, antes de haver outeiros, eu nasci. Ainda ele não tinha feito a terra, nem as amplidões, nem sequer o princípio do pó do mundo. Quando ele preparava os céus, aí estava eu; quando traçava o horizonte sobre a face do abismo; quando firmava as nuvens de cima; quando estabelecia as fontes do abismo; quando fixava ao mar o seu limite, para que as águas não traspassassem os seus limites; quando compunha os fundamentos da terra; então, eu estava com ele e era seu arquiteto, dia após dia, eu era as suas delícias, folgando perante ele em todo o tempo; regozijando-me no seu mundo habitável e achando as minhas delícias com os filhos dos homens”

Estes versos deixam esclarecida a pessoalidade da “Sabedoria”, nos versos anteriores, esta sabedoria é entendida como um efeito literário, mas a partir do verso vinte e dois, a “Sabedoria” está claramente personificando o Logos de Deus, que pode ser entendido como um sinônimo desta palavra, o diálogo é claro e pessoal: Eu estava com Ele, eu era arquiteto, eu era suas delícias, regozijando-se em seu mundo habitável.

 

Estes versos, além de trazer uma clara revelação da pluralidade do Ser de Deus, nos trazem também uma ideia da felicidade de Deus resultante de sua pluralidade.

 

A sabedoria, nestes versos, representa claramente o Logos de Deus, o Verbo, como já foi visto acima, mas pode ser entendido por estes versos, que ele foi gerado, significaria isto que o Verbo foi criado? Está escrito: “O Senhor me possuía no início de sua obra”.

A palavra “criar” (barah) não é utilizada neste verso, a palavra utilizada é “quanah”, isto significa somente o início da participação do Filho na obra da criação. Nos versos posteriores, encontram-se: Eu nasci, ou gerado em outras versões, mas também não se utiliza a palavra hebraica correspondente para a criação - barah - mas a palavra “chuwl” que significa uma espera ansiosa ou a manifestação: O chamado ao Filho para participar na obra da criação (“Faça-se a luz”). Neste momento o Verbo começa a agir na ação criadora do universo.

 

As analogias comparativas da Trindade

Não se devem fazer analogias comparativas da Trindade, pois todas elas são falhas e trazem uma ideia deformada deste fato: A árvore com a raiz, o tronco e as folhas; a água em seus três estados; um trevo de três folhas; um homem que exerce três atividades distintas e outras.

 

Agostinho sugere uma analogia interessante, pois não se tratam de exemplos, mas da própria natureza do homem: Ser, conhecer e querer. Estas três coisas apresentam a unidade da vida, da inteligência e da essência da pessoa, elas subsistem em unidade indivisível em uma única pessoa, todavia, a compreensão desta analogia não leva ao conhecimento da Trindade, pois o ser, conhecer e querer da criatura é mutável e não é próprio da criatura, pois somente Deus é auto-existente, onisciente e todo-poderoso, de forma que somente Ele existe por si mesmo, conhece todas as coisas e pode todas as coisas.

 

Agostinho: “Eis as três coisas: ser, conhecer, querer. Porque existo, conheço e quero. Eu sou aquele que conhece e quer. Sei que existo e que quero, e quero existir e conhecer. Repare, quem puder, como nessas três coisas a vida é indivisível, a unidade da vida, a unidade da inteligência, a unidade da essência; veja a impossibilidade de distinguir elementos inseparáveis e, contudo, distintos. O homem está diante de si mesmo; que ele se examine, veja e me responda. Contudo, por ter encontrado e reconhecido esta analogia, não julgue por isso ter compreendido a essência do Ser imutável, que transcende tais movimentos da alma, que existe imutavelmente, conhece imutavelmente e quer imutavelmente”.

 

Todas as analogias falham em definir e explicar a Trindade, pois nada no mundo material pode se comparar à complexidade do Ser de Deus, o pregador deve colocar os princípios da doutrina, mas a compreensão virá fatalmente da aplicação do entendimento pelo Espírito, nenhum pregador tem, em si mesmo, o poder de convencer e converter pessoas, somente o chamado de Deus em Cristo e através do Espírito pode fazer isto, portanto, limite-se o pregador, o evangelista e o missionário a pregar a palavra, de forma fiel, todo o resto é obra do Espírito.

A TRINDADE NO VELHO TESTAMENTO

O Velho Testamento não contém a plena revelação da Trindade, mas contém muitas referências e indicações. A doutrina da Trindade é tratada, na bíblia, como uma realidade e se revela com os fatos descritos. A doutrina da Trindade parte sempre do monoteísmo judaico para a definição da pluralidade do Ser de Deus.

 

A Trindade na criação:

O Velho Testamento revela em seus primeiros versos a existência e funções da Trindade divina, no livro do Gênesis, os três primeiros versos se referem ao Pai como origem e autoridade na criação, o Espírito como operador e o Filho como a Palavra de Deus pela qual todo o universo veio à existência.

 

Deus o Pai - Gênesis 1,1: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”.

 

Deus o Espírito - Gênesis 1,2: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas”.

Deus a Palavra - Gênesis 1,3: “Disse Deus: Haja luz; e houve luz”.

Pluralidade:

Deus fala de si mesmo no plural, o que sugere a existência de distinções pessoais que não indicam a triplicidade propriamente dita, mas a indicam uma pluralidade no Ser de Deus que não tem o significado de um plural simples ou majestático como se pode imaginar, mas indicam a diversidade de pessoas, ou centro de consciências, na essência do Deus único de Israel.

Gênesis 1,26: “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra”.

O que se pode ver neste verso não é somente a pluralidade do ser de Deus, mas também sua unidade que se alterna com a pluralidade, pois o verso começa com: “Disse Deus” – a unidade, em seguida: “Façamos o homem à nossa imagem” – a pluralidade.

 

No próximo verso, volta-se à unidade de Deus:

 

Gênesis 1,27: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem...”.

 

Vê-se novamente o mesmo caso nos versos do Gênesis abaixo, referentes à construção da Torre de Babel:

 

Gênesis 11,7: “Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro”.

Vemos neste verso a pluralidade do ser de Deus: “desçamos e confundamos”.

Logo em seguida, no próximo verso vemos novamente a unidade de Deus: “confundiu o SENHOR” – “o SENHOR os dispersou...”.

 

Gênesis 11,8: “Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os dispersou por toda a superfície dela”.

Este plural, na língua hebraica não significa um plural majestático ou deliberativo ou ainda numérico, estas possibilidades não existiam no antigo hebraico, mas este plural aponta para a diversidade na unidade, como a água que pode se apresentar em gotas de chuva, neve, riachos ou o oceano, ou ainda o céu, que pode ser o céu atmosférico, a imensidão do espaço ou o céu habitação de Deus. Esta mesma diversidade pode ser observada na palavra Elohim, que apresenta Deus no plural, mas não numérico ou majestático, porém indicando a diversidade na unidade do Ser de Deus.

 

A fórmula tripla de adoração em Isaías:

Na visão de Deus de Isaías assim como no livro do Apocalipse os seres celestes adoram a Deus de forma tripla: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos”.

 

Isaías 6,3: “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória”.

 

Apocalipse 4,8: “E os quatro seres viventes, tendo cada um deles, respectivamente, seis asas, estão cheios de olhos, ao redor e por dentro; não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir”.

 

Nota: Os autores do Velho Testamento são totalmente insuspeitos ao escrever nesta forma, pois não existia nesta época a mínima possibilidade de discussão ou questionamento a respeito da Trindade.

 

A triunidade intelectual de Deus:

 

Uma mente única, de uma única natureza e propósito, pertencente a uma única essência e simultaneamente própria a três individualidades oniscientes, imutáveis e eternas que constituem um único Ser – Deus.

Pericorese: Termo criado por João Damasceno no século VIII d.C. que indica a comunhão imutável, recíproca e contínua entre as três pessoas da Trindade. Desta forma, Agostinho afirma que toda a criação é realizada a um só tempo pelas três pessoas, não há nada que seja realizado individualmente por uma delas, todas as coisas são trazidas à existência ou realizadas pelo Pai, através do Filho no dom do Espírito.

A onisciência: A onisciência, tanto quanto a imutabilidade das pessoas divinas abrange o conhecimento mútuo exaustivo e permanente da mente de cada uma delas pelas outras duas caracterizando, desta forma uma mente única, todavia esta mente comum às pessoas da Trindade não interfere nos pensamentos, também imutáveis e eternos, próprios a cada uma das pessoas em função da participação de cada uma delas na execução do Decreto de Deus, pensamentos estes, que apesar de próprios de cada uma das pessoas, sendo exaustivamente conhecidos pelas outras duas, fazem parte da mente única e onisciente de Deus.

 

Mateus 11,27: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.

 

1 Coríntios 2,10: “Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus”.

A imutabilidade: A consideração da imutabilidade de Deus é de extrema importância nesta definição, pois desta forma, tanto o conhecimento objetivo que define a onisciência de Deus quanto o conhecimento subjetivo de cada uma das pessoas divinas são eternamente existentes, imutáveis e exaustivamente conhecidos por todas as três pessoas, não implicando em aprendizado, esquecimento, aquisição ou perda de conhecimento objetivo ou subjetivo, geral ou particular, pois é inviável a existência comum de centros de consciência mutáveis dentro da onisciência divina.

 

O tempo: Outra consideração é a respeito do tempo, ele não existe na eternidade, logo, não são tomadas, por Deus ou pelas pessoas divinas, decisões, não existe pensamento sequencial na mente das pessoas divinas, mas todas as determinações e propósitos existem simplesmente de forma eterna e imutável na mente única e nos centros individuais de consciência em um presente todo abrangente e simultâneo, de forma consensualmente estabelecida e imutável desde toda a eternidade sendo executadas ao longo do tempo através das obras da providência.

 

A vontade: Assim como foi feita uma consideração fundamental a respeito da imutabilidade da mente divina, tanto quanto dos centros de consciência, cabe agora fazer mais uma consideração a respeito da vontade divina: A vontade de Deus pertence à sua essência e desta forma a mesma vontade dirige a mente objetiva do Deus único tanto quanto dirige os centros de consciência individuais, de forma que todo o pensamento existente nos centros de consciência individuais são os pensamentos do Deus único, uma vez que são movidos pela mesma vontade, que é eterna e imutável.

 

Incomunicabilidade: Cada uma das pessoas da Trindade se distingue das outras por propriedades e funções específicas, desta forma tudo o que é peculiar a cada uma das pessoas individualmente não pode ser transferido às outras pessoas. O Pai é o Pai, não é o Filho ou o Espírito, o Filho é o Filho, não é o Pai ou o Espírito, o Espírito é o Espírito, não é o Pai ou o Filho.

 

Institutas, livro I, Capítulo XIII: Em um terceiro aspecto, afirmo ser incomunicável tudo quanto é peculiar a cada um individualmente, porquanto não pode competir com, ou transferir-se ao Filho, o que quer que se atribui ao Pai como característica de diferenciação.

 

A distinção entre as pessoas: Assim, as pessoas da Trindade, ao mesmo tempo em que têm a mente divina em sua plenitude, também possuem formas subjetivas e distintas de pensamentos concernentes às funções existentes na economia da Trindade, constituindo três centros de consciência, também plenamente abrangidos pelas pessoas divinas dentro da mente única onisciente pertencente à essência divina.

 

Uma mente única: Todavia, como todos os pensamentos divinos, comuns ou individuais, são imutáveis e atemporais, sendo originados na mesma vontade e de conhecimento exaustivo de todas as pessoas da Trindade, estes pensamentos individuais, também fazem parte da mente de cada uma das outras pessoas, pelo que todas estas pessoas possuem uma única mente que é própria da essência da divindade.

 

Portanto, estes centros de consciência fazem parte da uma única mente de Deus, que abrange o conhecimento geral (ou objetivo) e os centros de consciência individuais
(ou subjetivos), justamente por serem eles eternos, imutáveis e frutos de uma única vontade.

 

Por todos estes motivos, repetimos: O Pai não é o Filho ou o Espírito, o Filho não é o Pai ou o Espírito e o Espírito não é o Pai ou o Filho, mas todos constituem um único Deus conforme revelado pela Escritura.

 

Estes três centros de consciência são as três pessoas da Trindade, apesar de distintos são absolutamente consensuais, e também exaustivamente conhecidos por cada uma das pessoas em relação às outras duas dentro da divindade única.

 

Sendo permanentes e imutáveis, constituem desta forma, partes indivisíveis de uma única mente onisciente, própria ao mesmo tempo, às três pessoas da Trindade e contendo todos os pensamentos gerais e individuais da divindade única de forma plena, absoluta, imutável e eternamente existente na essência de Deus.

 

Desta forma, as três pessoas divinas pertencem umas as outras e suas disposições são sempre unas e indivisíveis, pois estas pessoas constituem uma essência absolutamente simples, sendo movidas pela mesma vontade eterna e imutável.

 

Este conhecimento recíproco imenso, eterno e imutável, derivado de uma vontade única e inquestionável que é comum ao Pai e ao Filho e ao Espírito é a base do amor de complacência: O amor infinito, eterno, recíproco e inalterável entre as pessoas da trindade divina.

 

Avalie, você mesmo, se é possível comparar este amor entre as pessoas da trindade com o amor de sentimentos que move o homem.

 

O ANJO DO SENHOR

 

O anjo de Deus no Velho Testamento recebe um tratamento e veneração que sugere que ele seja YAHWEH, mas ao mesmo tempo distinto de Deus, ele aparece em forma de um Anjo a Agar, Abraão, Moisés, Balaão, Gideão, Manoá, Josué e Davi.

 

Assim ele diz a Abraão:

 

Gênesis 16,10: “Disse-lhe mais o Anjo do SENHOR: Multiplicarei sobremodo a tua descendência, de maneira que, por numerosa, não será contada”.

Quando o Anjo do SENHOR aparece a Manoá e sua esposa para anunciar o nascimento de Sansão, eles percebem claramente que se trata de YAHWEH, e temem pela sua vida. Neste episódio o Anjo aceita o sacrifício e quando perguntado pelo seu nome ele responde que o seu nome é maravilhoso, o que é próprio somente do nome de Deus.

 

Juízes 13,18: “Respondeu-lhe o Anjo do SENHOR e lhe disse: Por que perguntas assim pelo meu nome, que é maravilhoso?”.

Quando Davi e os anciãos de Jerusalém têm a visão do Anjo de SENHOR eles se prostram ao solo e adoram ao Anjo que aceita a adoração, provando mais uma vez que se trata de uma manifestação do Verbo de Deus, Cristo, exercendo previamente seu papel de intermediário entre Deus e os homens.

 

1 Crônicas 21,16: “Levantando Davi os olhos, viu o Anjo do SENHOR, que estava entre a terra e o céu, com a espada desembainhada na mão estendida contra Jerusalém; então, Davi e os anciãos, cobertos de panos de saco, se prostraram com o rosto em terra”.

 

Nestes versos de Malaquias o Anjo da Aliança é apresentado como o Senhor (Adonai) que é uma designação que os judeus usavam para YAHWEH cujo nome não deveria ser pronunciado.

 

Malaquias 3,1: “Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o Anjo da Aliança, a quem vós desejais; eis que ele vem, diz o SENHOR dos Exércitos”.

Institutas, Livro I, Capítulo XII: Ainda mais clara e taxativa é a passagem de Malaquias [3.1] em que promete que o Dominador, que era então buscado, haveria de vir a seu templo. Sem dúvida que somente ao Deus supremo foi sagrado o templo, o que, no entanto, o Profeta reivindica para Cristo. Do que se segue que Cristo é o mesmo Deus que foi sempre adorado entre os judeus.

Nestes versos abaixo de Zacarias, ele conversa com o anjo que vai medir Jerusalém, o outro anjo que sai a falar com ele se identifica como SENHOR (YAHWEH) de forma clara e indiscutível:

 

Zacarias 1-5: “Tornei a levantar os olhos e vi, e eis um homem que tinha na mão um cordel de medir. Então, perguntei: para onde vais tu? Ele me respondeu: Medir Jerusalém, para ver qual é a sua largura e qual o seu comprimento. Eis que saiu o anjo que falava comigo, e outro anjo lhe saiu ao encontro. E lhe disse: Corre, fala a este jovem: Jerusalém será habitada como as aldeias sem muros, por causa da multidão de homens e animais que haverá nela. Pois eu lhe serei, diz o SENHOR, um muro de fogo em redor e eu mesmo serei, no meio dela, a sua glória”.

Façamos agora um paralelo entre a passagem de Isaías onde Deus jura por si mesmo e diz que todo joelho se dobrará e toda língua jurará. Vejamos a quem Paulo compara este Deus (YAHWEH) que jura desta forma:

Isaías 45,23: “Por mim mesmo tenho jurado; da minha boca saiu o que é justo, e a minha palavra não tornará atrás. Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua”.

Aqui, em Romanos, Paulo primeiramente apresenta Cristo como Senhor, e na sequência atribui a ele o juramento feito no Velho Testamento.

Romanos 14,9-11: “Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos. Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus”.

Na Carta aos Filipenses, Paulo coloca o nome de Jesus Cristo clara e diretamente como sendo aquele que fez o juramento no Velho Testamento.

 

Filipenses 2,10: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra”.

 

Conclusão: O SENHOR (YAHWEH), a quem os Judeus adoravam no Velho Testamento não é ninguém menos que Cristo: É o que afirmam os profetas, é o que afirma Calvino e corrobora com eles o apóstolo Paulo.

Alternância:

 

Em outras passagens a sabedoria de Deus é personalizada, alternando-se as pessoas que se manifestam ou são mencionadas:

 

Salmo 33,6: “Os céus por sua palavra (Verbo) se fizeram, e, pelo sopro de sua boca (Espírito), o exército deles”.

 

Salmo 33,12: “Feliz a nação cujo Deus (Elohim) é o SENHOR (YAHWEH), e o povo que ele escolheu para sua herança”.

Isaías 61,1: “O Espírito (Espírito Santo) do SENHOR (YAHWEH) Deus (Elohim) está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados”.

Isaías 63,9-10: “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado, e o Anjo da sua presença (YAHWEH) os salvou; pelo seu amor e pela sua compaixão, ele os remiu, os tomou e os conduziu todos os dias da antiguidade. Mas eles foram rebeldes e contristaram o seu Espírito Santo, pelo que se lhes tornou em inimigo e ele mesmo (Elohim) pelejou contra eles”.

 

Salmo 45,7: “Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus (YAHWEH), o teu Deus (Elohim), te ungiu com o óleo de alegria (Espírito), como a nenhum dos teus companheiros”.

 

Provérbios 8,12: “Eu, a Sabedoria (o Logos – Verbo), habito com a prudência (Espírito) e disponho de conhecimentos e de conselhos”.

Ageu 2,5: “Segundo a palavra da aliança que fiz convosco, quando saístes do Egito, o meu Espírito habita no meio de vós; não temais”.

Nota: A Sabedoria de Deus no livro de Provérbios é o mesmo Logos joanino, o Verbo de Deus no evangelho de João.

 

Redentor:

 

Deus, YAWEH é apresentado no Velho Testamento como o redentor e salvador do povo escolhido.

 

Jó 19,25: “Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra”.

 

Salmo 19,14: “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu!”

 

Isaías 41,14: “Não temas, ó vermezinho de Jacó, povozinho de Israel; eu te ajudo, diz o SENHOR, e o teu Redentor é o Santo de Israel”.

 

A TRINDADE NO NOVO TESTAMENTO

O Novo Testamento apresenta a Trindade revelada, de forma que as três pessoas são expostas com clareza no texto bíblico.

Deus o Pai envia seu filho ao mundo:

 

João 3,16: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

 

Gálatas 4,4: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”.

 

O Pai e o Filho enviam o Espírito:

 

João 14,26: “Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”.

 

João 16,7: “Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei”.

Gálatas 4,6: “E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!”

O Pai dirige-se ao filho:

 

Marcos 1,11: “Então, foi ouvida uma voz dos céus: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo”.

O Filho dirige-se ao Pai:

 

Mateus 11,25: “Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos”.

 

O Pai e o Filho dialogam:

 

João 12,28: “Pai, glorifica o teu nome. Então, veio uma voz do céu: Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei”.

 

O batismo de Jesus:

 

Deus Pai e Deus filho e Deus Espírito Santo manifestam-se clara e individualmente.

 

Mateus 3,16-17: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”.

 

A bênção apostólica:

Revela também, com bastante clareza, a ação conjunta das pessoas da Trindade.

 

2 Coríntios 13,14: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”.

 

A Grande Comissão:

 

A Grande Comissão é de grande importância na discussão da Trindade, nela pode se ver claramente a definição das pessoas individuais pelo artigo definido colocado antes de cada pessoa e ao mesmo tempo a unicidade de Deus pela colocação da palavra “nome” no singular.

 

 

 

Os evangelistas também são completamente insuspeitos nesse assunto, pois que a controvérsia sobre a Trindade Divina somente surgiria muito tempo depois.

 

Mateus 28,19: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

A trindade e a obra de redenção:

Na primeira carta do apóstolo Pedro há um texto onde não somente são indicados os membros da Trindade, como também o desígnio de cada um na obra da redenção.

 

1 Pedro 1,2: “Eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo, graça e paz vos sejam multiplicadas”.

 

Textos que confirmam a personalidade e divindade do Espírito Santo.

 

O Espírito é Deus:

 

Atos 5,3-4: “Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus”.

 

O pecado imperdoável:

 

Mateus 12,31: “Por isso, vos declaro: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada”.

 

O Espírito na criação:

 

Gênesis 1,2: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas”.

 

A divindade de Jesus será tratada com detalhes no capítulo específico sobre Cristologia.

Como é o Deus bíblico:

 

1- Glorioso em sua majestade;

 

2- Exaltado sobre todas as coisas;

 

3- Santo e separado do pecado e do mal;

 

4- Justo, gracioso e redentor;

 

5- O Deus de amor e ira, misericórdia e justiça.

 

Deus deve ser adorado pelo que Ele é, por todas as suas perfeições em conjunto, na evangelização, na oração e em toda vida do cristão. Isso se chama Cosmovisão, o mundo deve ser visto estritamente de acordo com a Palavra revelada, as convicções que se tem sobre Deus irão afetar todas as coisas na vida da pessoa, é preciso vê-lo na plenitude de seu Ser divino: Pai e Filho e Espírito, perfeito em glória, senhorio, santidade e amor.

Adorando a Deus pelo que ele é:

 

A única resposta adequada a Deus é servi-lo. A adoração faz parte desse serviço, que se estende a todas as áreas da vida.

 

A. W. Tozer: “O que nos vem à mente quando pensamos em Deus é a coisa mais importante a nosso respeito”.

Servindo a Deus:

No sentido positivo: Significa reconhecer que todas as coisas existem e se mantêm pela vontade de Deus, e por causa dele, desta forma, o cristão se dedica deliberadamente a viver para sua glória e honra em todos os setores de sua vida.

 

1 Coríntios  8,6: “Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele”.

 

Colossences 3,17: “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai”.

De maneira negativa: O serviço a Deus implica em renunciar a todo o direito a si mesmo e reconhecer que todas as coisas acontecem unicamente pela vontade de Deus. Esta é a cruz que o crente deve carregar ao seguir a Cristo, não significa penitência, vida de alto padrão moral ou esforço próprio, mas ao contrário, a completa negação de si mesmo.

 

1 Coríntios 6,19: “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?”

 

2 Coríntios 5,15: “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou”.

 

A PROVIDÊNCIA DIVINA

Deus é transcendente, está acima e além de todas as coisas, que foram criadas por Ele a partir do nada, mas também é imanente e se relaciona com os seres criados de forma pessoal, o cuidado de Deus com as coisas criadas se realiza através das obras da providência.

 

Apocalipse 4,11: “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas”.

 

O universo não subsiste por si mesmo, a doutrina bíblica afirma que Deus sustenta continuamente o universo e as suas criaturas por intermédio de Cristo, que ativamente governa e sustenta a operação do mundo.

 

Hebreus 1,3: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas”.

A providência nada mais é que a ordenação e administração dos Decretos Eternos em sua decorrência no tempo.

 

A doutrina da providência surgiu no início da era cristã em contraposição às ideias oriundas da filosofia grega, que variam em dois extremos: Os filósofos epicuristas afirmam que o mundo é governado pelo acaso, ao passo que os estoicos acreditam que o mundo é governado pelo destino bruto, desprovido de razão ou finalidade.

 

A providência e a predestinação:

A doutrina da providência somente faz sentido de acordo com a doutrina da predestinação, e os pais da igreja não conseguiram uma definição clara neste aspecto nos primeiros séculos da nossa era, mais uma vez, somente através de Agostinho esta doutrina teve sua definição e estrutura apresentada de forma clara e definitiva.

 

Agostinho afirmou de forma decisiva o governo e domínio absoluto de Deus sobre todo o bem e todo o mal que há no mundo.

 

Ele afirmou também que este controle é realizado, de forma geral, através do controle das causas secundárias e contingentes que dão origem a todas as ações e pensamentos dos homens.

 

Foi dito acima, de forma geral, porque a utilização das causas não é uma limitação de Deus, mas uma escolha, sendo que Ele não está limitado a isto, podendo agir de qualquer outra forma conforme sua livre escolha.

 

A providência e o livre-arbítrio:

Pelágio admitia a providência somente para as causas naturais e afirmava que Deus não interfere na vida ética e moral dos homens, esta suposição é baseada na negação dos efeitos universais da queda, e resulta de forma inequívoca na negação da Escritura e de todo o cristianismo.

 

Esta doutrina espúria ressurgiu no século XVII através dos remonstrantes, seguidores de Tiago Armínio, sendo atualmente a mais devastadora e desagregadora heresia dentro da igreja cristã.

 

O erro pelagiano, e depois arminiano, é baseado na suposição que Deus realiza uma parte da providência e o homem realiza outra parte em cooperação, agindo em complementação à providência divina. A providência é uma criação contínua, e tal como no princípio a Criação é obra do Deus triúno, pois onde estava o homem quando Deus criava o mundo?

 

Jó 38,4: “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento”.

 

A providência e o tempo:

Assim como os Decretos Eternos, a providência tem uma ordem lógica, mas não temporal, pois Deus é eterno e imutável, e assim são todas as coisas que dele procedem. A providência executa no decorrer do tempo, as coisas que foram determinadas por Deus na eternidade.

A providência e os homens:

A providência, como já foi dito acima, não está limitada às causas secundárias e contingentes, mas Deus capacita homens e anjos a executarem as tarefas que lhes são destinadas, dando-lhes energia, coragem, conhecimento e forças muitas vezes além da capacidade natural, com o fito de realizar as obras determinadas em seus decretos.

 

Deus opera todas as coisas em todas as criaturas conforme o beneplácito de sua vontade, que é soberana e está acima de todas as coisas criadas. O homem jamais pode agir contra a vontade de Deus, tanto para o bem, como para o mal, porém, é preciso deixar claro que o homem é sempre o sujeito de seus atos, e responsável por eles perante o juízo de Deus.

 

Vários teólogos tentam definir as causas secundárias e contingentes, pode-se resumir desta forma: as causas secundárias e contingentes são o agrupamento de situações, pessoas e objetos em torno dos homens, dirigidos conforme a sabedoria de Deus, de forma que ele será levado de forma eficaz a realizar, conforme sua vontade e natureza, o plano eterno de Deus.

 

Ora, especular sobre este assunto é tanto fútil como fora de propósito, pois quem conheceu a mente de Deus? Ou ainda, quem antes lhe deu conselho? Está claramente expresso na Escritura que Deus cria tanto o bem, quanto o mal e não cabe ao homem questionar ou justificar os atos divinos.

 

Isaías 45,7: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas”.

 

Esta é a providência divina, que pode ser de duas formas:

 

A Providência Geral:

 

A manutenção do universo pelos meios ordinários, conforme as leis da natureza e as causas secundárias e contingentes controladas por Deus, de forma que esta providência segue o curso natural do universo sem alteração nas leis da natureza, que são estabelecidas na eternidade, antes da existência do mundo e das criaturas.

 

A Providência Especial:

 

A intervenção direta e sobrenatural de Deus em eventos causados de forma extraordinária, reconhecidos como milagres. Estes milagres de Deus somente ocorrem em manifestações especiais e destinadas a um propósito definido, não existem milagres aleatórios ou imprevistos, da mesma forma que a providência geral que se rege pelas leis da natureza, os milagres também são determinados na eternidade conforme o propósito implícito no plano eterno de Deus.

 

A providência e a responsabilidade do homem:

 

Como disse Agostinho: A vontade de Deus é a razão de todas as coisas. A providência é a manifestação desta vontade soberana que ordena e determina todos os acontecimentos. Todavia e apesar disto, a responsabilidade do homem permanece, pois a lei moral de Deus é eterna e o homem estará sempre sujeito a esta lei moral em todas as épocas da humanidade.

 

Esta responsabilidade não pressupõe a liberdade neutral do homem, pois o homem é escravo de sua natureza depravada e corrompida pela queda: A responsabilidade é um fato, a liberdade é um mito. A responsabilidade pressupõe somente a existência da lei e de um Juiz supremo com poderes e capacidade para o julgamento.

 

Mesmo nos cuidados com a vida o homem terá que ser zeloso e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para preservar sua vida e de outras pessoas.

 

Calvino:

 

Agora, pois, salta à vista qual é nosso dever, isto é, se o Senhor nos confiou a proteção de nossa vida, então que a cerquemos de cuidados; se oferece recursos, então que os usemos; se nos previne dos perigos, então não nos lancemos temerariamente a eles; se fornece remédios, não os negligenciemos. Com efeito, dirão que nenhum perigo nos fará mal, se não lhe é ordenado que nos prejudique, pois isso de maneira nenhuma se pode evitar, mas, ao contrário, que sucederá se os riscos não são fatais, que o Senhor já destinou remédios para repeli-los e superá-los?

Esses desvairados não consideram o que lhes está debaixo dos olhos, que as artes de se aconselhar e se acautelar foram inspiradas pelo Senhor aos homens, as quais se tornam subservientes à providência na conservação da própria vida, da mesma forma que, em sentido contrário, por negligência e inércia, atraem sobre si os males que lhes impôs. Pois, donde acontece que o homem providente, enquanto cuida bem de si, se desvencilha até de males iminentes, o insipiente pereça levado por temeridade, senão que tanto a insipiência quanto a prudência são instrumentos da divina administração para um e outro desses dois aspectos?

Mais um fato relacionado à responsabilidade do homem é reconhecer em primeiro lugar todas as coisas como sendo originadas na vontade soberana de Deus, mas como Deus se utiliza de outras pessoas para conceder seus favores e bênçãos sobre o homem, este deve honrar e agradecer com humildade a estas pessoas escolhidas por Deus, lembrando sempre que a origem destes bens está na vontade divina, mas sem desprezar aqueles a quem Deus escolheu para ministrá-los.

 

Mais ainda, apesar de reconhecer em Deus a fonte e origem de todas as coisas o homem deve zelar com entendimento pelo seu trabalho, pela sua vida e pela sua família, usando diligentemente todos os recursos que estão colocados ao seu alcance: Sua inteligência, sua cultura, seu vigor, seus conhecimentos e amizades não relegando nenhum fator que conduza à realização perfeita de suas empreitadas, sejam elas quais forem.

 

Mesmo sabendo que todas as coisas serão realizadas conforme a determinação divina, cabe ao homem todos os esforços e recursos disponíveis para sua realização a bom termo, cabendo a ele esta responsabilidade.

 

2 Samuel 10,12: “Sê forte, pois; pelejemos varonilmente pelo nosso povo e pelas cidades de nosso Deus; e faça o SENHOR o que bem lhe parecer. Então, avançou Joabe com o povo que estava com ele, e travaram peleja contra os siros; e estes fugiram de diante deles”.

 

Desta forma, conhecendo estas coisas, o homem não deve se ensoberbecer quando realiza os seus feitos de forma a confiar nos recursos materiais e nem tampouco deve se desesperar quando não consegue realizar aquilo que pretendeu, pois tudo provém de Deus e não sabemos sequer o que irão significar em nossas vidas o sucesso ou o fracasso. Deus ergue o pobre do monturo e rebaixa os ricos à miséria conforme sua vontade.

 

1 Samuel 2,8: “Levanta o pobre do pó e, desde o monturo, exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória; porque do SENHOR são as colunas da terra, e assentou sobre elas o mundo”.

 

Calvino:

 

“E uma vez que está incerto quanto a que resultado tenham os afazeres que empreende, exceto que em todas as coisas sabe que o Senhor haverá de velar por seu bem, aspirará com diligência, quanto pode alcançar pela inteligência e pelo entendimento, àquilo que considere ser para sua conveniência. Nem contudo, ao tomar deliberações, se deixará levar pelo próprio senso; antes, se confiará e se submeterá à sabedoria de Deus, para que seja por sua orientação dirigido ao alvo certo. Além disso, tampouco temos de pôr nossa confiança no auxílio e nos meios terrenos, de tal maneira que quando os possuímos nos sintamos plenamente tranquilos, e quando nos faltam desfaleçamos, como se já não tivéssemos remédio algum.

VER A DEUS

Conforme a Escritura, corroborada pela Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster, Deus é espírito puro, imaterial e invisível, é simples e não se constitui de partes, está escrito que homem algum viu a Deus; está escrito também que Deus não deve ser representado em imagens ou esculturas.

 

As formas visíveis de Deus no Velho Testamento são denominadas de “teofanias”, que se referem sempre a manifestações visíveis de Cristo, o Verbo de Deus, que se revela desta forma aos homens em ocasiões especiais da história. Da mesma forma o Anjo do Senhor, que se apresenta a Josué, por exemplo, também é uma manifestação de Cristo, o que se pode perceber pela honra e dignidade atribuídas a ele, que não são próprias de anjos, mas somente de Deus.

 

As visões dos profetas não se constituem em manifestações físicas de Deus, mas aparições espirituais em sonhos ou estado de êxtase.

 

Serão vistos a seguir, versos que descrevem visões de Deus sempre se referindo à glória, ao trono ou à face de Deus. A dúvida que se apresenta é: Se no estado de glória os filhos de Deus verão a sua face. Não está revelado como Deus será visto, mas provavelmente na pessoa de Cristo ou em manifestações de sua glória.

 

Neste verso do livro do Êxodo, Moisés e os sacerdotes e anciãos vêem uma manifestação da glória de Deus, certamente através da pessoa de Cristo.

 

Êxodo 24,9-10: “E subiram Moisés, e Arão, e Nadabe, e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, sob cujos pés havia uma como pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade”.

Neste outro verso, pode-se ver mais claramente como parecia a visão da glória de Deus ao povo de Israel.

 

Êxodo 24, 17: “O aspecto da glória do Senhor era como um fogo consumidor no cimo do monte, aos olhos dos filhos de Israel”.

 

Este verso de Daniel refere-se a uma visão:

 

Daniel 7,13: “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele”.

 

Estes outros versos no livro do Apocalipse, que seguem abaixo, mostram o Cordeiro junto ao trono de Deus. O apóstolo João vê o Cordeiro em uma manifestação visual clara, mas quanto ao Pai, só aparece a forma de uma mão que segura o livro, o Pai somente é visto pela manifestação do trono de Deus. O Espírito também é figurado nos sete olhos do Cordeiro, não é visto pessoalmente em nenhuma ocasião.

 

Apocalipse 5,1-7: Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono (Theos), um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos. Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos? Ora, nem no céu, nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele; e eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele. Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos. Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro (Arnion) como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra. Veio, pois (o Cordeiro), e tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono (Theos)”.

 

Novamente neste outro verso do livro do Apocalipse, a referência da visão é ao trono de Deus, aqui a face de Deus é mencionada, mas não é vista, a manifestação
física da ira aplicada neste dia do Juízo é atribuída ao Cordeiro.

 

Apocalipse 6,16: “E disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono (Theos) e da ira do Cordeiro (arnion)”.

 

Novamente nestes versos do livro do Apocalipse a visão de Deus refere-se ao trono e a visão do Cordeiro é direta.

 

Apocalipse 7,9-10: “Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus (Theos), que se assenta no trono, e ao Cordeiro (arnion), pertence a salvação”.

 

Neste outro verso o apóstolo vê os anjos, mas não vê a Deus.

 

Apocalipse 8,2: “Então, vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus (Theos), e lhes foram dadas sete trombetas”.

Novamente Deus é referido pelo trono, não é visualizado neste verso.

 

Apocalipse 22,3-4: “Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus (Theos) e do Cordeiro (arnion). Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face (face do Cordeiro), e na sua fronte está o nome dele”.

 

Neste próximo verso de Mateus está escrito que os limpos de coração verão a Deus. Conforme as notas explicativas da Bíblia de Genebra eles verão a luz de Deus, em seu estado glorificado. Ainda conforme John Gill, eles verão a Deus nesta vida terrena, através da comunhão que passam a ter com Ele através de Jesus Cristo.

 

Mateus 5,8: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus (Theos)”.

 

Neste verso do salmo, ainda segundo John Gill, Davi contempla a beleza do Senhor na igreja local, através da liturgia poderosa do templo: A visão dos sacerdotes e das oferendas e sacrifícios dedicados a Ele.

 

Salmo 27,4: “Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo”.

 

Aqui neste verso a primeira frase refere-se à vida terrena, a tua face é a glória do templo.

 

A segunda frase refere-se à ressurreição, a semelhança é com Cristo ressurreto.

 

Salmo 17,15: “Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face; quando acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança (YAHWEH)”.

 

Aqui, em Atos, Estevão vê a glória de Deus e vê Jesus fisicamente ao lado da glória de Deus, que não é visto além da manifestação da sua glória.

 

Atos 7,55: “Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus (Theos) e Jesus (Ieosous), que estava à sua direita”.

 

Neste verso, novamente a glória de Deus se refere à comunhão que os crentes terão com ele através de Cristo.

 

João 11,40: “Respondeu-lhe Jesus: Não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus (Theos)?”

 

Neste verso, no evangelho de João, o Espírito aparece em forma de uma pomba, João sabe que é o Espírito porque lhe foi revelado previamente que o Espírito apareceria em forma de pomba, caso contrário ele não saberia que se tratava do Espírito. Quanto ao Pai, somente sua voz é ouvida.

 

João 1,32: “E João testemunhou, dizendo: Vi o Espírito descer do céu como pomba e pousar sobre ele”.

 

Neste verso, o SENHOR é YAHWEH, que é Cristo. Os retos lhe contemplarão a face tem dois sentidos: Na vida terrena através da comunhão, e na glória, a verdadeira face do Cristo ressurreto.

 

Salmo 11,7: “Porque o SENHOR (YAHWEH) é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face”.

 

O PACTO DE DEUS COM OS HOMENS

O pacto de Deus com os homens é estabelecido de forma unilateral na eternidade, sendo consequência da sabedoria e vontade soberana do Criador. Este pacto não tem razão em qualquer necessidade ou carência de Deus, mas é feito exclusivamente em benefício de seus eleitos, e apesar da determinação divina, a responsabilidade do homem é inalienável em toda sua existência terrena.

 

Rev. Herman Hoeksema: “É então evidente que o pacto de Deus não pode ser apresentado como um mero caminho de salvação, ou como um caminho para a vida, mas como a forma mais alta possível de toda vida e bem-aventurança... O pacto não pode ser apresentado como algo incidental, mas como o mais alto propósito da revelação de Deus ao redor do qual todas as coisas no conselho de Deus se concentram e para o qual todas elas são adaptadas”.

Confissão de Fé de Westminster - Capítulo VII, seção I - Os benefícios do pacto:

Tão grande é a distância entre Deus e a criatura, que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência como ao seu Criador, nunca poderiam fruir nada dele como bem-aventurança e recompensa, senão pela voluntária condescendência da parte de Deus, a qual foi ele servido significar por meio de um pacto.

Isaías 40,13-14: “Quem guiou o Espírito do SENHOR? Ou, como seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou ele conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de entendimento?”

O protótipo do pacto encontra-se na relação perfeita entre as pessoas da Trindade, a relação pactual entre Deus e o homem foi estabelecida por Deus na eternidade e existe antes da criação do mundo.

 

O PACTO DE PAZ

 

Os pactos para redenção e salvação do homem são estabelecidos entre o Deus triúno e as pessoas individuais da Trindade. O Pai é o representante da Trindade ofendida, o Filho provê a aquisição da redenção e o Espírito aplica e opera a salvação: Este é o Pacto de Paz, que precede (em ordem lógica e não temporal) todos os outros.

 

A aliança da Redenção (Pactum Salutis):

É a aliança realizada entre o Pai e o Filho, o Pai representando a Trindade ofendida, e o Filho representando os pecadores eleitos com vistas à sua redenção. Baseada nesta Aliança da Redenção é estabelecida a Aliança da Graça entre Deus e os pecadores eleitos.

 

As várias alianças são expostas separadamente em vista das épocas e pessoas diferentes participando de forma direta, mas a aliança de Deus com os homens é eterna e única, baseada sempre na graça de Deus e não na capacidade do homem, toda e qualquer separação teológica das alianças visa somente o melhor entendimento por parte dos homens.

 

A posição de Cristo na aliança:

Pela Aliança da Redenção, Cristo se torna o fiador de todas as alianças, que na verdade constituem uma única aliança ministrada de formas diversas conforme a época de sua revelação.

 

Cristo assumiu na eternidade, antes da fundação do mundo, a responsabilidade pelo cumprimento das obrigações legais de seu povo e da propiciação da ira de Deus em lugar dos pecadores eleitos, sofrendo em si mesmo a punição devida a estes pecadores.

 

Nesta situação ele é o representante de todos os que lhe foram dados pelo Pai, sendo que o seu trabalho como fiador de um povo é de redenção incondicional, tanto para os que morreram antes de sua exaltação, como depois. A Aliança da Redenção é eterna, assim como todos os pactos firmados por Deus.

 

O cumprimento da lei:

A Aliança da Graça não veio destituir a lei, por este motivo, Jesus cumpriu rigorosamente toda a lei que Adão não fora capaz de cumprir, através de uma vida de perfeita obediência, conseguindo desta forma cumprir o pacto da lei em lugar de seu povo, adquirindo para os pecadores eleitos a possibilidade da vida eterna em comunhão com Deus.

 

A redenção limitada:

O Decreto da Eleição precede em ordem lógica a Aliança da Redenção. Desta forma, a obra de Cristo, apesar de ter validade infinita, é limitada pelo decreto anterior, que é o da eleição, sendo, como consequência, aplicada somente aos eleitos. Da mesma forma, a aliança da graça precede à fé, que passa a ser uma exigência desta aliança, mas em vista da incapacidade do homem, Deus provê todas as condições e circunstâncias a fim de que o seu povo escolhido participe eternamente da aliança.

 

Assim, ao mesmo tempo em que a fé passa a ser uma exigência da aliança, Deus provê aos seus eleitos a fé necessária à participação segura na aliança como um dom eterno e inalienável, de modo que o crente possa gozar de todos os benefícios provindos da aliança.

 

A participação do homem na aliança:

A participação na aliança é uma relação legal, estabelecida unilateralmente por Deus no Decreto da Eleição, esta relação, todavia, não se constitui em uma série de normas e exigências a serem cumpridas, mas ela resulta em uma fé eficaz que conduz o pecador a uma comunhão viva e real com Deus. O fato de todos os meios conducentes a isso serem providos por Deus não invalida a condição da aliança, mas ao contrário, por este motivo a aliança se torna eterna e incorruptível por estar livre da infidelidade e inconstância própria do homem.

 

A aliança e a igreja:

Embora os filhos dos crentes e os religiosos não regenerados participem das atividades litúrgicas e dos trabalhos da igreja, não significa que eles fazem, ou venham um dia a fazer parte da aliança. Não existem, de forma alguma, direitos ou méritos estabelecidos por quaisquer condições que provenham dos homens ou da igreja, somente Deus conhece os seus eleitos e o momento em que serão chamados.

A quebra da aliança:

Não existe possibilidade do pecador eleito, chamado por Deus, romper a aliança, pois o chamado é eficaz e a aliança eterna, aqueles que apostatam da fé em caráter definitivo, nunca foram chamados, nunca foram conhecidos por Deus.

 

Este verso abaixo, em Hebreus, retrata o destino daqueles que recebem uma iluminação parcial e que trabalham de forma infiel e temporária na obra de Deus (conforme alguns comentaristas este verso também pode estar se referindo à total impossibilidade de alguém que já recebeu a justificação vir a perdê-la).

 

Hebreus 10,29: “De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça?”.

AS REVELAÇÕES DA ALIANÇA

Adão e Eva:

O pacto existe, na verdade, desde a criação do homem, representado por uma relação de amizade entre Deus e o homem, ao expulsar o casal primevo do Éden, Deus faz a primeira revelação formal do pacto, colocando inimizade entre o homem e a serpente e prometendo o redentor (Cristo) na semente da mulher.

 

Gênesis 3,15: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência
(do demônio) e o seu descendente (Cristo). Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”.

 

Deus aplica aqui, sua graça regeneradora ao transformar o relacionamento de Eva com Satanás em inimizade. Esta relação de amizade/inimizade estende-se às descendências dos homens. Aqui Deus estabelece claramente dois povos em função desta aliança: Os filhos do demônio e os filhos de Deus.

 

João 8,44: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira”.

 

1 João 3,10: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão”.

Noé:

Em Noé, Deus faz a aliança da natureza, prometendo bênçãos temporais que garantem a subsistência do homem na terra. É preciso ver que, como as obras estão debaixo da aliança da graça, também a aliança da natureza é fruto da graça de Deus.

 

Abraão:

Antes de Abraão não havia uma formalização da aliança, aqui a aliança é estabelecida de maneira formal e representada fisicamente pela ordenança da circuncisão. Esta aliança define um povo separado e a promessa do redentor, que seria da semente de Abraão.

 

Desta forma pode-se comparar a aliança abraâmica com a criação da igreja: O povo separado por Deus, sendo a circuncisão o equivalente primário do batismo e o redentor, eternamente o mesmo - o Verbo encarnado - através do qual os crentes de todos os tempos podem alcançar a redenção.

 

Nesta aliança, a fé passa a ser exercida como penhor da aliança por parte do homem. Pode-se ver, desta forma, que a aliança estabelecida com Abraão foi a aliança da graça, onde as bênçãos espirituais são transmitidas aos descendentes espirituais de Abraão, sejam eles judeus ou gentios.

 

Gênesis 15,5-6: “Então, conduziu-o até fora e disse: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse: Será assim a tua posteridade. Ele creu no SENHOR, e isso lhe foi imputado para justiça”.

 

O homem é incapaz de exercer o penhor da aliança por sua própria capacidade, criando em si a fé salvadora, por este motivo, Deus provê para o homem todos os meios que conduzem à redenção, infundindo, pelo Espírito, a fé nos seus escolhidos que são justificados e destinados à salvação.

O Pacto de Obras:

A lei moral de Deus foi dada ao homem primeiramente como pacto: Adão recebeu a lei de Deus como o pacto de obras. Por meio deste pacto, Adão e todos os seus descendentes por geração ordinária estão obrigados à obediência pessoal, integral, exata e perpétua; a vida foi prometida mediante a condição do cumprimento do pacto e a morte no caso da violação do pacto.

 

Gênesis 2,16-17: “E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”.

 

O primeiro pacto foi o Pacto de Obras e exigiu de Adão o cumprimento da ordem divina, ele foi estabelecido por Deus e trouxe a Adão a obrigação da obediência sem questionamento: Pela obediência foi prometida a vida e pela quebra do pacto a morte.

 

A ameaça de morte não se referia à morte física, a partir da queda Adão foi excluído da comunhão divina; a vida consistia na comunhão com Deus, e a morte provinda deste ato de desobediência, constitui-se na culpa e na vocação natural ao pecado e ao encerramento da única fonte de vida: A comunhão com Deus.

 

Romanos 5,12: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”.

 

O pacto de obras serve para mostrar que todos os homens e mulheres, geneticamente presentes em Adão e Eva, viveriam de acordo com as leis do mundo, conforme a natureza pecaminosa resultante da queda, e por este motivo, desprovidos do desejo e da capacidade para restabelecer a comunhão perdida.

 

Oséias 6,7: “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim”.

 

Este pacto de obras se desenvolve ao longo de toda a história do povo judeu, e se cristaliza na Lei de Deus que foi dada a Moisés, todavia, todas as formas e manifestações do pacto de obras somente mostram a total incapacidade do homem em cumprir a Lei de Deus. Pela lei, o homem só veio a conhecer o pecado, Adão não tinha pecado, somente veio a pecar através do mandamento.

 

Romanos 3,20-21: “Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas”.

O estabelecimento da Lei:

A aliança mosaica é fundamentalmente a mesma aliança firmada desde o princípio, sendo a continuidade da aliança com Abraão, agora em forma de um pacto nacional, em forma de lei, que envolve todo o povo hebreu.

 

Esta aliança foi mal interpretada pelos sacerdotes e pelo povo, resultando em uma religião formal e legalista, apegada aos detalhes e minúcias da lei, quando na verdade, a lei deveria estar completamente subordinada à aliança da graça: O amor a Deus precede todas as normas da lei.

 

Deuteronômio 11,1: “Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, e todos os dias guardarás os seus preceitos, os seus estatutos, os seus juízos e os seus mandamentos”.

 

A lei é aquilo que obriga a consciência e impõe obrigação moral em todas as suas exigências, a lei de Deus impõe obrigação moral e exigência para toda a humanidade.

 

As leis dos homens são válidas dentro das limitações políticas, históricas e geográficas existentes de forma natural, todavia, em todos os casos a única base das leis é a moralidade que provém da vontade de Deus, pois não existe outra exigência moral que obrigue a consciência inata do homem.

 

Em qualquer dos casos a lei representa uma série de regras estabelecidas de forma autoritativa por um poder acima de todas as coisas a ele submetidas, afim de ordenar, regular e direcionar o relacionamento das pessoas com este poder estabelecido e entre si mesmas.

 

Deste modo, o cumprimento da lei, tanto de Deus quanto dos homens, não depende da capacidade, liberdade ou conhecimento das pessoas a ela submetidas, mas à simples existência da lei e de um poder capaz de legislar e julgar os infratores.

 

Ora, se o homem é obrigado a aceitar a responsabilidade sem questionamento diante da lei civil, porque o homem religioso, em geral, se recusa a aceitar o mesmo fato com relação à lei de Deus, que é em todas as circunstâncias superior à lei dos homens?

 

Não adianta procurar subterfúgios, negando os efeitos da queda ou a soberania absoluta e cabal de Deus, o fato é um só: A responsabilidade não pressupõe liberdade em nenhuma situação, seja na lei civil, militar, trabalhista, ou, infinitamente com mais razão, na lei de Deus.

 

Por todos estes motivos, a autoridade da Lei moral tem origem unicamente na soberania de Deus, motivo que a eleva acima de toda e qualquer legislação política, civil, social ou religiosa proveniente de governos, sociedades ou religiões específicas, ou seja:

 

A tradição, autoridade ou justiça proveniente de homens, governos ou religiões não se sobrepõe em nenhuma hipótese à lei moral preconizada na Escritura:

 

A obediência do cristão às leis civis, militares, políticas e principalmente religiosas é sempre limitada à lei moral revelada na Escritura.

 

Atos 5,29: “Então, Pedro e os demais apóstolos afirmaram: Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”.

A lei moral obriga todos a lhe prestar obediência para sempre, tanto as pessoas justificadas como as reprovadas, tanto quanto à matéria nela contida, como pelo respeito à autoridade de Deus que a deu. O cumprimento da lei de Deus não pressupõe a liberdade de escolha do homem, mas a simples existência da lei.

 

Cristo não desfaz a lei, antes, cumpre de forma perfeita toda a lei moral em lugar dos eleitos.

 

Mateus 5,18: “Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra

 

Os animais irracionais agem por instinto, eles não tem noção de moralidade, bondade ou maldade em seus atos, não conseguem imaginar a presença de um ser superior através das obras da natureza, mas agem por instinto ou necessidade. Em contrapartida ao que é chamado de criação inferior, Deus trouxe o homem ao mundo como uma criatura moral, esta foi a razão do pacto - o estabelecimento da lei moral.

 

Este pacto de obras, como todos os outros pactos estabelecidos em forma de lei ou obras vieram somente demonstrar a total incapacidade do homem para cumprir a lei de Deus.

 

Já foi visto anteriormente o significado do pacto de Deus com o homem, o pacto é o princípio da lei de Deus, por esta lei é exigida a perfeita e absoluta obediência do homem.

 

O estabelecimento da lei nunca visou a salvação, pois no caso de Adão e Eva eles não tinham pecado algum, mas através da lei eles vieram a conhecer o pecado, a praticá-lo e a sofrer o castigo devido, além de propagar os efeitos catastróficos da queda à toda humanidade.

 

Romanos 3,20: “Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”.

 

Esta lei foi apresentada a Moisés de forma detalhada, porém o princípio da lei é o mesmo eternamente: A perfeita obediência do homem. A lei serviu, desde o início, para mostrar a fragilidade e incompetência do homem, que jamais conseguirá a perfeita obediência; ao longo de todo Velho Testamento ninguém foi justificado por obras da lei.

 

Podemos ver isto claramente no Velho Testamento, uma vez que todas as propiciações e perdão de pecados eram feitas através de ofertas, sacrifícios e aspersões, nunca através de exigência de obras ou penitências.

 

Qual então a utilidade da lei? Toda a lei moral e cerimonial aponta para Cristo, para a necessidade de uma nova aliança, onde o próprio Deus proverá a salvação do homem, a finalidade da lei foi conduzir a história do povo de Deus para esta nova aliança da graça.

 

Gálatas 3,24-25: “De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao aio”.

 

Como Deus considera a lei cumprida pelos homens?

O apóstolo Pedro diz em sua primeira carta:

 

1 Pedro 1,16: “Porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo”.

Este verso de Pedro traz um decreto de Deus, um decreto impossível de ser cumprido pelo homem quando se encara a santidade como desenvolvimento de qualidades morais perfeitas.

 

Felizmente, esta santidade é corretamente traduzida do grego com o sentido de separação e não de qualificação moral.

Desta forma a santidade do povo de Deus se torna possível, pois representa um povo separado por Deus, mas não um povo dotado de perfeição moral.

Amós 3,2: “De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos escolhi; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniquidades”.

 

Mas, apesar desta incapacidade moral do homem o decreto continua válido eternamente pela única e suficiente vontade soberana de Deus, os réprobos, incapazes de cumprir a lei serão condenados ao castigo eterno, os eleitos, igualmente incapazes de cumprir a lei, serão justificados pela vida de perfeita obediência de Cristo e separados para Deus que os justifica e adota como filhos em nome de Cristo, que cumpriu a lei rigorosamente em lugar de seu povo.

 

O Pacto da Graça

 

O homem é incapaz de cumprir a Lei de Deus. Ninguém jamais foi salvo pelas obras da lei, desta forma aprouve a Deus colocar, em seu devido tempo, uma nova aliança que não dependesse da cooperação do homem, que é falho e mutável em seus propósitos. Este novo concerto mantém todos os compromissos estabelecidos no pacto das obras e na lei mosaica, não apresentando redução dos compromissos, pois Deus é perfeito e eterno, assim o pacto deveria ser cumprido de forma perfeita.

 

Somente Deus poderia realizar este feito, assim, o Verbo de Deus, a segunda pessoa da Trindade, assumiu a natureza humana através da encarnação e tornou-se perfeito homem e perfeito Deus, capaz de cumprir de forma cabal e definitiva a perfeita obediência em lugar de seu povo, livrando-o da culpa do pecado, e pela sua morte vicária e sacrificial propiciar a ira de Deus que pesava sobre este povo, quitando a dívida de forma absoluta e reatando, desta forma, a comunhão perdida em Adão.

 

João 19,30: “Quando, pois, Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado! E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito”.

 

O Novo Testamento:

A aliança da graça na dispensação do Novo Testamento vem corrigir o erro em que os judeus incorreram ao criar uma religião formal e legalista totalmente destituída da graça de Deus.

 

O Novo Testamento traz aos homens a revelação suprema de Deus na encarnação do Verbo - Jesus Cristo - que pela sua vida de perfeita obediência cumpriu todas as formalidades da lei em lugar de seu povo, mas, tendo sempre em primeiro lugar a graça de Deus, que sem ab-rogar a lei, sobrepõe-se às obras da lei.

 

Além de cumprir rigorosamente todas as normas legais em benefício de seu povo, Cristo também propiciou a ira de Deus pela sua morte vicária e sacrificial, e de tudo teve de Deus a aceitação pela sua ressurreição e exaltação.

 

A aliança da graça nada mais é que a realização do pacto de obras por Cristo, que se ofereceu em lugar do seu povo, e assim, tornou-se o fiador da nova aliança.

 

1 Coríntios 15,22: “Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo”.

 

O ponto de vista arminiano (o livre-arbítrio), considera que os efeitos da queda ficaram restritos a Adão e afirma que o homem é capaz, por si mesmo, de escolher e conseguir a salvação, ou ainda, de uma forma mais sutil, que a graça de Deus é oferecida indistintamente a todos os homens, sob a condição de desenvolvimento da fé e obediência evangélica por estes mesmos homens. Desta forma, transformam o Pacto da Graça, novamente, em pacto de obras, onde a fé e a obediência substituem as obras da lei na condição de mérito próprio atribuído ao homem.

 

Efésios 2,5: “E estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos”.

 

A pá de cal que reduz esta ideia arminiana ao absurdo é o raciocínio lógico: Através do pecado de Adão, o homem, tendo demonstrado sua incapacidade de cumprir o pacto de obras, por esta incapacidade, fica livre deste pacto. Desta forma, o homem consegue obter a liberdade de suas obrigações para com Deus através do pecado, assim sendo, o homem, escravo do pecado, irá pecar mais e mais se tornando completamente incapaz de fazer o bem, e por este motivo tornar-se-ia, por este argumento, completamente livre de toda responsabilidade moral.

 

Pelo raciocínio arminiano, o pacto da graça é transformado em uma simples continuidade do pacto de obras excluindo a responsabilidade do homem, onde Jesus é visto como um mero exemplo de vida a ser imitado. Esta é uma heresia cruel que surgiu no quinto século da era cristã através de Pelágio, um monge inglês que veio para Roma, e apesar de condenada pela igreja, persistiu em várias forma mais sutis e ressurgiu após a reforma através de Tiago Armínio e seus seguidores, os remonstrantes, persistindo e crescendo assustadoramente até os dias atuais, onde se constitui na maior ameaça à igreja de Cristo.

 

Todavia, a Escritura revela de forma incontestável que a fé salvífica, resultante do Pacto da Graça, é um dom de Deus que provém da salvação e não constitui mérito humano.

 

Efésios 2,8-9: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”.

Esta pretensa fé dos arminianos, que se origina no esforço humano, nada representa para a salvação destes falsos religiosos, mas servirá certamente para condená-los e torná-los indesculpáveis perante Deus.

 

No capítulo sete de Mateus, Jesus faz um paralelo claro entre os eleitos e os réprobos comparando a boa árvore e a má árvore; os bons frutos somente provém da árvore que foi destinada por Deus a produzi-los, e os maus frutos, igualmente, da árvore destinada por Deus para este fim. Uma árvore não pode mudar sua natureza e por consequência a natureza de seus frutos, esta é uma comparação inequívoca aos escolhidos de Deus.

 

Mateus 7,17-18: “Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons”.

Na sequência deste capítulo, Jesus continua neste assunto, referindo-se ao que aguarda estes crentes vaidosos e cheios de justiça própria no Juízo Final.

 

Mateus 7,22-23: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade”.

O apóstolo Paulo explica claramente na carta aos Efésios o que são as boas obras do crente, e elas são muito obviamente atribuídas a Deus e não aos homens.

 

Efésios 2,10: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”.

 

A. A. Hodge: “A fé não é uma obra que Cristo condescende, no evangelho, aceitar no lugar da perfeita obediência como base da salvação”.

O pacto é eterno

O pacto de Deus com os homens foi realizado na eternidade, envolvendo todas as pessoas da Trindade conforme a atribuição de cada um na realização deste plano. Na redenção prevista no Pacto da Graça, todos os fatos relativos ao plano de redenção existem de forma imutável e eterna na mente do Pai e do Filho e do Espírito.

 

Deus determina o plano de redenção: Como seria realizada e aplicada a salvação, uma vez que o homem é incapaz. Desta forma, o Pai é o representante da Trindade ofendida e escolhe os seus eleitos antes da criação do mundo, o Verbo é o redentor dos eleitos e o Espírito é o operador da salvação nos eleitos.

 

Qualquer adição ou supressão nesta sequência da salvação, seja minimizando os fatos bíblicos, tais como a queda, a divindade de Cristo, a soberania de Deus ou a operação do Espírito, visando conceder ao homem a participação ou cooperação no plano eterno de Deus, constitui-se em abominação e na maioria dos casos na ocorrência do pecado imperdoável, onde é substituída a operação do Espírito pela perseverança do homem.

 

Os homens vivem em um mundo temporal e não conseguem definir e aceitar as coisas que procedem fora do tempo. Todavia, na eternidade o tempo não existe, lá, tudo está realizado plenamente em um presente único, abrangendo todas as coisas e acontecimentos em todos os tempos, incluindo os acontecimentos no tempo de duração do universo criado e todos os acontecimentos além do tempo de duração deste universo e todas as coisas que não aconteceram, mas teriam sido possíveis de acontecer no universo ou fora dele.

 

Assim, as determinações eternas de Deus não estão sujeitas a mudança ou variação, permanecendo ao longo do tempo exatamente como determinadas na eternidade.

 

Tiago 1,17: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança”.

 

Desta forma, a redenção não depende da aceitação, cooperação ou justiça própria do homem, pois os Decretos Eternos, que se realizam no tempo, foram estabelecidos na eternidade e não estão sujeitos a mudanças ou variação. Aliás, nada, no universo criado ou fora dele, está sujeito a variação em seu acontecimento, pois não existe o acaso, todas as coisas foram determinadas por Deus na eternidade e não poderia jamais ser diferente, pois Deus é imutável e onisciente, e assim têm que ser os seus Decretos, pois Deus não pode negar a si mesmo.

 

2 Timóteo 2,13: “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo”.

 

O pacto da Graça e a Lei

 

Resta ainda analisar a relação existente entre o Pacto da Graça e a lei. Pode-se ver pela Confissão de Fé de Westminster que o Pacto da Graça e a lei estão completamente interligados pela presença de Cristo, seja nas promessas e símbolos do Velho Testamento quanto nas afirmações de Jesus no Novo Testamento.

 

Confissão de Fé de Westminster - Capítulo VII, Seção V – O pacto e a Lei: Este pacto, no tempo da lei, não foi administrado como no tempo do Evangelho (1). Sob a lei foi administrado por promessas, profecias, sacrifícios, pela circuncisão, pelo cordeiro pascal e outros tipos e ordenanças dadas ao povo judeu, todas estas coisas prefigurando Cristo que havia de vir (2); por aquele tempo essas coisas, pela operação do Espírito Santo, foram suficientes e eficazes para instruir e edificar os eleitos na fé do Messias prometido (3), por quem tinham plena remissão dos pecados e a vida eterna: essa dispensação chama-se Velho Testamento (4).

1 - Hebreus 1,1-2: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo”.

 

2 - Romanos 4,11: “E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça”.

 

3 - Gálatas 3,6-9: “É o caso de Abraão, que creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão”.

 

4 - Atos 15,10-11: “Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós? Mas cremos que fomos salvos pela graça do Senhor Jesus, como também aqueles o foram”.

 

A Escritura afirma que todas as pessoas salvas em todos os tempos do mundo, seja na dispensação do Pacto de Obras ou na Nova Dispensação foram salvas pela graça de Deus, através da fé em Cristo. Isto se manifestou no Velho Testamento através de tipos e sombras que prefiguravam a Cristo, sendo que pelas obras da lei ninguém jamais foi ou será salvo.

 

Colossences 2,17: “Porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo”.

 

O Novo Testamento apresenta o pacto claramente como sendo executado somente através da graça de Deus, e somente pela fé em Cristo, que também é um dom de Deus.

 

Os tipos do Velho Testamento na Nova Aliança da Graça:

 

Jesus é visto, na nova aliança, como representando as figuras e tipos usados no Velho Testamento:

 

1 - O cordeiro do sacrifício:

 

João 1,29: “No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”.

 

2 - O sumo-sacerdote:

Hebreus 4,14: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão”.

3 - O sacerdócio levítico:

Hebreus 7,23-24: “Ora, aqueles (descendentes de Levi) são feitos sacerdotes em maior número, porque são impedidos pela morte de continuar; este, no entanto, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável”.

4 - O tabernáculo:

Hebreus 9,11-12: “Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação, não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção”.

O pacto, que foi administrado de formas diversas no Velho e Novo Testamento, é sempre o mesmo em suas formas básicas, existe um único pacto, fruto exclusivo da graça de Deus e da justiça de Cristo. Todas as pessoas salvas durante a história da humanidade foram, são ou serão salvas pela obra perfeita de Cristo, não existe outra forma de salvação em nenhum tempo da história.

2 Coríntios 3,10-11: “Porquanto, na verdade, o que, outrora, foi glorificado, neste respeito, já não resplandece, diante da atual sobreexcelente glória. Porque, se o que se desvanecia teve sua glória, muito mais glória tem o que é permanente”.

Gálatas 3,24: “De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé”.

A Trindade Econômica: O quadro a seguir apresenta as qualidades, formas e funções próprias das pessoas da Trindade no relacionamento com os homens para realização do plano de salvação eterno.

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