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Doutrina

A CRUZ DE CRISTO – JOHN STOTT

Prefácio

Tenho como um enorme privilégio o ter sido convidado para escrever um livro sobre o maior e mais glorioso de todos os temas, a cruz de Cristo. Dos vários anos de trabalho despendidos neste tarefa, emergi espiri­tualmente enriquecido, com minhas convicções acla­radas e fortalecidas, e com uma firme resolução de gastar o restante dos meus dias na terra (assim como sei que toda a congregação dos redimidos passará a eternidade no céu) no serviço liberador do Cristo crucificado.

É oportuno que um livro sobre a cruz faça parte das celebrações do Jubileu de Ouro da Inter-Varsity Press, a quem o público leitor muito deve. Pois a cruz é o centro da fé evangélica. Deveras, como argu­mento neste livro, ela jaz no centro da fé histórica, bíblica, e o fato de que esta verdade não é sempre reconhecida em toda a parte em si mesmo é justificativa suficiente para preservar um testemunho distintamente evangélico. Os cristãos evangélicos crêem que em Cristo e através do Cristo crucificado Deus substituiu a si mesmo por nós e levou os nossos pecados, morrendo em nosso lugar a morte que merecíamos morrer, a fim de que pudéssemos ser restaurados em seu favor e adotados na sua família. O Dr. J. I. Packer com acerto escreveu que esta crença “é o marco distintivo da fraternidade evangélica mundial” (embora ‘muitas vezes seja mal compreendida e caricaturada por seus críticos’); ela “nos leva ao próprio coração do evangelho cristão”.1

É necessário que se esclareça a distinção entre uma compreensão “objetiva” e “subjetiva” da expiação em cada geração. Segundo o Dr. Douglas Johnson, esta descoberta foi um momento decisivo no mi­nistério do Dr. Martyn Lloyd-Jones, que ocupou uma posição singular de liderança evangélica nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Ele confidenciou a vários amigos que “uma mudança fundamental ocorreu em sua perspectiva e pregação no ano de 1929”. Ele tinha, é claro, dado ênfase, desde o princípio do seu ministério à necessidade indispensável do novo nascimento. Mas, certa noite, de­pois de pregar em Bridgend, South Wales, o ministro local desafiou-o dizendo que “parecia que a cruz e a obra de Cristo” ocupavam um pequeno lugar em sua pregação. Imediatamente ele foi a uma livraria que vende livros usados e pediu ao proprietário os dois livros padrão sobre a Expiação. O livreiro. . . apresentou a Expiação de R. W. Dale (1875) e A Morte de Cristo de James Denney (1903). Tendo voltado para casa, ele se entregou totalmente ao estudo, recusando o almoço e o chá, e causando tal ansiedade à esposa que esta telefonou a seu irmão perguntando se devia chamar um médico. Porém, ao emergir da reclusão, Lloyd-Jones dizia ter encontrado “o verdadeiro coração do evangelho e o segredo do significado interior da fé cristã”. De sorte que o conteúdo de sua pregação mudou, e com esta mudança o seu impacto. Nas próprias palavras dele, a questão básica não era a pergunta de Anselmo “por que Deus se tornou homem?” mas “por que Cristo morreu?”2

Por causa da importância vital da expiação, e de uma compreensão dela que retire toda falsa informação dos grandes conceitos bíblicos de “substituição”, “satisfação” e “propiciação”, duas coisas têm-me grandemente surpreendido. A primeira é a tremenda impopularidade em que a doutrina permanece. Alguns teólogos demonstram relutân­cia estranha em aceitá-la, mesmo quando compreendem claramente sua base bíblica. Penso, por exemplo, naquele notável erudito me­todista, Vincent Taylor. Sua erudição aprimorada e abrangente en­contra-se exemplificada em seus três livros sobre a cruz — Jesus e Seu Sacrifício (1937), A Expiação no Ensino do Novo Testamento (1940) e Perdão e Reconciliação (1946). Ele, ao descrever a morte de Cristo, emprega muitos adjetivos como “vicária”, “redentora”, “reconciliadora”, “ex­piatória”, “sacrificial” e especialmente “representativa”. Mas não con­segue chamá-la de “substitutiva”. Depois de um exame rigoroso do primitivo ensino e crença cristã de Paulo, de Hebreus e de João, escreve ele o seguinte acerca da obra de Cristo: “Nenhuma das pas­sagens que examinamos descreve-a como a de um substituto. . . Em lugar algum encontramos apoio para tais conceitos.”3 Não, a obra de Cristo foi um “ministério realizado em nosso favor, mas não em nosso lugar”. Contudo, embora Vincent Taylor tenha feito estas espantosas afirmativas, fê-las com grande desconforto. Sua veemência nos deixa despreparados para as concessões que mais tarde ele se sente obrigado a fazer. “Talvez o aspecto mais admirável do ensino do Novo Tes­tamento referente à obra representativa de Cristo”, escreve ele, “seja o fato de chegar bem perto dos limites da doutrina substitutiva sem, na realidade, atravessá-los. O paulinismo, em particular, encontra-se a uma distância mínima da substituição”. Ele até mesmo confessa a respeito de teólogos do Novo Testamento que “com demasiada fre­qüência nos contentamos em negar a substituição sem substituí-la”, e que é uma noção que “talvez estejamos mais ansiosos a rejeitar do que a examinar”. Entretanto, o que procurarei mostrar neste livro é que a doutrina bíblica da expiação é substitutiva do princípio ao fim. O que Vincent Taylor não quis aceitar não foi a doutrina em si, mas as cruezas de pensamento e expressão das quais os advogados da subs­tituição têm, com bastante freqüência, sido culpados.

Minha segunda surpresa, em vista da centralidade da cruz de Cristo, é que nenhum livro sobre este tópico foi escrito por um escritor evangélico para leitores sérios (até dois ou três anos atrás) por quase meio século. É verdade, surgiram vários livros pequenos, e apare­ceram algumas obras de peso. Gostaria de prestar tributo especial aos notáveis labores neste campo do Dr. Leon Morris, de Melbourne, Austrália. O seu livro Pregação Apostólica da Cruz (1955) deixou-nos todos em dívida, e alegro-me de que ele tenha trazido o conteúdo da obra ao alcance dos leigos em A Expiação (1983). Ele se tomou mestre da vasta literatura de todas as épocas sobre este tema, e seu livro A Cruz no Novo Testamento (1965) permanece, provavelmente, o exame mais completo hoje disponível. Dessa obra cito com caloroso endosso sua afirmativa de que “a cruz domina o Novo Testamento”.

Todavia, até à recente publicação do livro de Ronald Wallace inti­tulado A Morte Expiatória de Cristo (1981) e do de Michael Green A Cruz Vazia de Jesus (1984), não conheço outro livro evangélico para os leitores que tenho em mente, desde a obra de H. E. Guillebaud Por que a Cruz? (1937), que foi um dos primeiros livros editados pela IVF. Foi um livro corajoso, que enfrentou diretamente os críticos da ex­piação substitutiva com três perguntas: (1) “é cristã?”; (isto é, com­patível com os ensinos de Jesus e seus apóstolos); (2) “é imoral?” (isto é, compatível ou incompatível com a justiça); e (3) “é incrível?” (isto é, compatível ou incompatível com problemas como o tempo e a transferência da culpa.

Meu interesse é um pouco mais abrangente, pois este não é um livro apenas sobre a expiação, mas também sobre a cruz. Depois dos três capítulos introdutórios que formam a Primeira Parte, chego, na Segunda Parte, ao que chamei de “o coração da cruz”, na qual ar­gumento em favor de uma compreensão verdadeiramente bíblica das noções de “satisfação” e “substituição”. Na Terceira Parte passo a três grandes realizações da cruz, a saber, salvar os pecadores, revelar a Deus e vencer o mal. A Quarta Parte, porém, trata de áreas que muitas vezes são omitidas nos livros sobre a cruz, isto é, o que significa a comunidade cristã “viver sob a cruz”. Procuro mostrar que a cruz a tudo transforma. Ela dá um relacionamento novo de adoração a Deus, uma compreensão nova e equilibrada de nós mesmos, um incentivo novo para nossa missão, um novo amor para com nossos inimigos e uma nova coragem para encarar as perplexidades do sofrimento.

Ao desenvolver o meu tema, conservei em mente o triângulo Es­critura, tradição e mundo moderno. Meu primeiro desejo foi ser fiel à Palavra de Deus, permitindo que ela diga o que tem para dizer e não pedindo que ela diga o que eu gostaria que ela dissesse. Não há alternativa à exegese textual cuidadosa. Em segundo lugar, procurei partilhar alguns dos frutos das minhas leituras. Ao procurar com­preender a cruz, não podemos ignorar as grandes obras do passado. Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a igreja em todos os séculos. Então, em terceiro lugar, tentei compreender a Escritura, não apenas à sua própria luz e à luz da tradição, mas também com relação ao mundo contemporâneo. Perguntei o que a cruz de Cristo diz para nós que vivemos no final do século vinte.

Ao ousar escrever (e ler) um livro a respeito da cruz, há, é claro, um grande perigo de presunção. Isto, em parte, advém do fato de que o que realmente aconteceu quando “Deus estava reconciliando consigo mesmo o mundo em Cristo” é um mistério cujas profundezas passaremos a eternidade examinando; e, em parte, porque seria mui­tíssimo impróprio fingir um frio desprendimento à medida que con­templamos a cruz de Cristo. Quer queiramos, quer não, estamos envolvidos. Nossos pecados o colocou aí. De sorte que, longe de nos elogiar, a cruz mina nossa justiça própria. Só podemos nos aproximar dela com a cabeça curvada e em espírito de contrição. E aí perma­necemos até que o Senhor Jesus nos conceda ao coração sua palavra de perdão e aceitação, e nós, presos por seu amor, e transbordantes de ação de graças, saíamos para o mundo a fim de viver as nossas vidas no serviço dele.

Sou grato a Roger Beckwith e a David Turner por terem lido porções do manuscrito e por terem feito úteis comentários. Agradeço a par­ticipação de meus quatro assistentes mais recentes — Mark Labberton, Steve Ingraham, Bob Wismer e Steve Andrews. Steve Andrews, como é sua característica, foi meticuloso na leitura do manuscrito, na com­pilação da bibliografia e dos índices, e na leitura e correção das provas.

Reservo, porém, para o final, meus agradecimentos sinceros a Fran­ces Whitehead, que em 1986 completou trinta anos como minha se­cretária. Este livro é um dos muitos que ela datilografou. Jamais poderei elogiar em demasia sua eficiência, ajuda, lealdade e entu­siasmo constante pela obra do Senhor. Com grande gratidão dedico­-lhe este livro.

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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