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A FÉ DOS HUMANISTAS – FRANCIS SAHAEFFER

A Fé dos Humanistas – Francis Schaeffer

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto (Monergismo)

Duas Colunas: Duas colunas distinguiam a Igreja cristã primitiva de qualquer outro sistema religioso.

– A autoridade da Escritura: A primeira dizia respeito ao fundamental problema da autoridade. Em tal Igreja só existia uma autoridade final: Bíblia, a Sagrada Escritura. Isto se depreende claramente dos ensinamentos de Jesus, de Paulo e da totalidade do Novo Testamento. Entre os leitores do presente tratado, muitos crerão que a Igreja primitiva estava certa em sustentar este conceito da Escritura; porém, até mesmo aqueles que não o aceitam, deveriam compreender que tal foi o conceito da Igreja, para assim entender intelectualmente a mesma. Os primeiros cristãos criam que a Sagrada Escritura lhes dava uma autoridade externa ao âmbito do relativista, mutável e limitado pensamento humano. Assim, com esta visão da Palavra, tinham o que consideravam uma autoridade não humanista.

– Cristo, o único mediador: A outra coluna da Igreja primitiva que a diferenciava de todos os demais sistemas religiosos era sua resposta à pergunta: Como se achegar a Deus? Se Deus existe e é santo, perfeitamente santo, vivemos num universo moral. Se Deus não existe ou se é amoral ou imperfeito, vivemos, conseqüentemente, num universo relativo com relação à moral. Por outro lado, se Deus é perfeito, e mantém sua total perfeição, então, como é óbvio que nenhum homem é moralmente perfeito, todos eles estarão condenados. A única coisa que poderia resolver este dilema, verdadeiramente básico, acerca de se o universo é moral ou amoral, seria o ensinamento da Bíblia e da Igreja primitiva. Tal ensinamento foi que Deus nunca diminuiu o nível de Suas normas, que Ele exige perfeição e que, portanto, Ele é completamente moral; e que, porém, por causa do amor de Deus, veio Jesus Cristo como Salvador, e realizou uma obra infinita e definitiva na cruz, de maneira que o homem já pode se achegar ao Deus totalmente santo e perfeito, apoiado nesta obra perfeita e consumada, pela fé e sem obras humanas relativas. Estamos tão acostumados a falar disto dentro de um contexto religioso, que esquecemos das implicações intelectuais. Diremos de novo que, tanto se se crê no que a Igreja primitiva e a Bíblia ensinaram, como se não se crê, deve-se entender este ponto que estamos tratando, ou não se poderá compreender a tal Igreja, nem seu caráter distintivo.

Uma vez que se ensina a exigência por parte de Deus de perfeição total, se mantém a existência de um universo moral; e ao se ensinar a obra perfeita do Salvador, segue-se que não necessariamente todos os homens sejam condenados. Assim, qualquer elemento humanista e egoísta é destruído. Até mesmo se o cristianismo não fosse verdade, e nós cremos que ele o seja, esta seria uma resposta titânica; jamais nenhum outro sistema — seja religioso, seja filosófico — deu semelhante resposta.

Duas colunas: Assim, pois, as duas colunas distintivas da Igreja primitiva eram um golpe combinado e completo contra o humanismo.

– A autoridade, provinda da Escritura, ficava fora da mutável jurisdição humana.

– O acesso pessoal de cada indivíduo ao Deus eternamente santo se baseava, não nos atos morais ou religiosos relativos do homem, mas na absoluta e definitiva obra de Jesus Cristo.

Tudo isto fazia que o homem fosse arrancado do centro do universo, donde havia intentado situar a si mesmo, quando se rebelou contra Deus na histórica queda no Éden, e destruía o humanismo, atacando-lhe no seu próprio coração.

Uma mudança:

Uma mudança apareceu nos tempo do imperador Constantino. Este fez paz com a Igreja, porém, começou a se intrometer nela. Esta mudança de direção progrediu lentamente no princípio, e logo com crescente velocidade. Tendo começado com Constantino, foi orientada em sua direção definitiva na época de Gregório o Grande; e não com respeito a questões incidentais, mas ao conceito básico.

Tal mudança de direção destruiu as duas únicas colunas, as quais nos referimos mais acima.

Primeira mudança – A autoridade da Escritura para a igreja: A Igreja viria a ser o centro da autoridade, no lugar da Palavra de Deus. Aqui é reintroduzido o elemento humanista.

Segunda mudança – as obras humanas: Com relação à segunda coluna, é agora afirmado que a salvação, em vez de descansar somente sobre a completa obra de Cristo — isto é, sua obra consumada no espaço e no tempo, na história — se sustenta também nas obras humanas.

No sistema católico romano, estas obras se acham em três importantes âmbitos:

– Primeiro –  a missa: Não se considera na missa que Jesus Cristo consumou sua obra no tempo histórico em que morreu na cruz, mas que Jesus Cristo está sofrendo constantemente. Ele sofreria, de novo, conforme esta liturgia, no sacrifício não sangrento, cada vez que se celebra uma missa.

A oferta da missa: Considera-se que aqueles que participam da missa estariam, também, oferecendo a Cristo em sacrifício no sentido ativo.

Basta ler o missal católico-romano para dar-se conta da força disto. Cristo é oferecido pelo sacerdote oficiante, porém quem participa da missa participa em seu oferecimento ativo de Cristo.

Segundo – a penitência: O segundo elemento humanista está no âmbito da penitência. Esta é o sofrimento na vida atual, seja religioso ou de maneira geral, para compensar a ausência de boas obras positivas. Assim, o sofrimento teria valor prático em acréscimo à obra de Cristo.

Terceiro – o purgatório: No qual o valor do sofrimento se projeta para o futuro. Sofrer-se-ia até adquirir mérito para a própria salvação.

Desta maneira se destroem totalmente as duas colunas básicas da Igreja primitiva: a autoridade da Escritura e a suficiência do sacrifício de Cristo, assim encontramos nesta mudança um retorno ao que está especificamente relacionado com os demais sistemas pagãos ou humanistas.

Os críticos da arte

Giulio Carlo Argan, italiano, crítico de arte, escreve:

“O fato é que, certamente, nos planos políticos e religiosos da igreja havia um grande futuro para o sincretismo da arte e da cultura pagã, uma vez que este sincretismo havia sido incorporado ao programa humanista estabelecido pela Igreja no final do século XIV. Este programa facilitava uma justificação histórica da fé cristã, admitindo a Antiguidade clássica como cristã e apresentando-a como a filosofia natural do homem, o prelúdio à revelação da verdade por Jesus Cristo”.

No exposto, Argan resume e explica o humanismo básico da Igreja Católica Romana.

O relacionamento entre a arte sacra e a igreja medieval:

I — A arte sacra patrocinada pela igreja romana foi um programa intencionalmente humanista.

II — A justificação histórica da fé cristã, perante os homens que estavam fora da Igreja, foi proporcionada por uma síntese sistemática voltada exatamente para esta finalidade: unir o paganismo ao pretenso cristianismo praticado pela igreja.

III — Através desta síntese, traçar-se-ia uma linha ininterrupta entre a antiguidade, a verdade revelada em Jesus Cristo e a igreja cristã.

Isto está escrito na história da arte; porém é verdade de modo geral. O catolicismo romano constitui um intento de síntese entre as noções humanistas e pagãs extra-Escritura e as não humanistas da Escritura.

A pintura do renascentismo deixa isto bastante claro. Rafael planejava pintar quatro habitações no Vaticano, uma delas pintadas pelo próprio Rafael proporciona uma claríssima prova do que foi afirmado acima, numa parede desta habitação pintou a Igreja, tal como a via em sua forma católico-romana, e na oposta, “A Escola de Atenas”. Isto não foi por casualidade, já que o fez assim de propósito. Trata-se de uma expressão artística do intento católico-romano de síntese entre a filosofia pagã e a Palavra de Deus.

Ao mesmo tempo, Miguelângelo pintava a Capela Sixtina, no teto pintou uma série de figuras que correspondem alternadamente a um homem e uma mulher. Os homens representam os profetas do Antigo Testamento. As mulheres, as antigas sibilas ninfas da mitologia grega. Colocou a todos como iguais. Nesta abóbada, assim decorada, achamos a representação pictórica do cristianismo medieval.

Assim, a Igreja Católica Romana se esforçava para realizar a síntese entre o antigo humanismo e o cristianismo bíblico. A pintura da parede do fundo da Capela Sixtina mostra a mesma coisa. Representa o Juízo Final, o figura central é Maria, mas logo se observa a existência de um pequeno barco na parte inferior direita no qual os mortos eram conduzidos através da lagoa Estigia, segundo a mitologia grega. Esta cena não procede da Bíblia, mas do “Inferno de Dante” que já havia executado um trabalho sobre a base da mencionada síntese.

O teólogo mais importante

O teólogo mais importante da Igreja Católica Romana é Tomás de Aquino, a leitura de sua Summa manifesta claramente a ênfase na mencionada síntese. O catolicismo romano está edificado específica e centralmente sobre o intento de síntese entre os pensamentos pagão e bíblico.

Este elemento humanista explica o desenvolvimento da mariologia e dos santos do catolicismo romano. O homem, individualmente não alcançou a vitória, porém, Maria venceu, do mesmo modo, os santos católico romanos representam também uma humanidade vicária, vitoriosa: O homem triunfou!

Seguindo a atual tendência ecumênica que intenta apagar as diferenças entre as diversas religiões, se diz frequentemente que:

O catolicismo romano adora ao mesmo Deus que a Igreja primitiva e a Reforma protestante.

Desgraçadamente, a resposta é: NÃO!

O catolicismo romano não adora ao mesmo Deus.

A entrada do elemento humanista no sistema católico fez com que Deus seja considerado como um Deus distinto daquele apresentado na Bíblia.

O Deus bíblico é inteiramente santo, ele não pode aceitar nem a menor imperfeição moral. Se o Deus totalmente santo quiser tratar com algum homem, depois da rebelião deste, sobre qualquer elemento da obra moral humana, só poderia condená-lo. Por isso, no sistema bíblico, Deus permanece inteiramente santo, e nós vivemos num universo absolutamente moral.

No sistema católico-romano, Deus não é totalmente santo, já que aceita a imperfeição.

Tal sistema afirma que somos salvos pelo mérito de Jesus Cristo, porém introduzindo o elemento humanista, porque o homem deve merecer o mérito de Jesus Cristo.

A saída definitiva do purgatório se baseia no merecimento. Este se obtém:

1) Pelas boas obras nesta vida, tanto religiosas como morais;

2) pelo valor dos sofrimentos experimentados na vida presente, que compensam o que faltou com relação às boas obras;

3) pelo valor do sofrimento que se experimenta no purgatório, o qual compensa o que faltou nos sofrimentos da vida na terra.

Quando se tem alcançado isto, o mérito de Cristo é merecido.

Tudo isso significa que o homem triunfou, mas, também, que se adora a um Deus que não é completamente santo. Para alcançar uma compreensão intelectual disso, deve-se entender também que significa que o cristianismo bíblico conduziria  finalmente a um Deus humanista, não absoluto.

Com pesar deve-se entender e afirmar que o Deus do sistema católico-romano não é o da Sagrada Escritura. Esse Deus seria imperfeito; e o universo não seria absolutamente moral.

Nada novo

A Reforma não reconheceu nem ensinou nada novo. Isto é, nada novo em referência ao ensinamento da Igreja primitiva. A Reforma voltou simplesmente às duas colunas básicas a que nos referimos no início:

A Palavra de Deus era a única autoridade, e a salvação tinha como base única, a obra definitiva do Senhor Jesus Cristo.

Tudo isso significava a remoção dos elementos humanistas. A Reforma foi revolucionária porque se apartou tanto do humanismo católico-romano, como do secular.

Para entender o que sucedeu depois, deve-se ter em conta que, há três séculos atrás, o humanismo foi introduzido nas igrejas reformadas da Alemanha. Isto foi o nascimento do que se chama atualmente liberalismo protestante. A alta crítica alemã, e tudo quanto teve origem nela, é simplesmente a entrada do pensamento humanista na Igreja protestante, exatamente como, o humanismo entrou na corrente da Igreja primitiva após Constantino.

Nunca se enfatizará suficientemente que a alta crítica não sobreveio porque fosse necessária, mas porque a filosofia humanista sobreveio primeiro. Aceitou-se em primeiro lugar a filosofia humanista, e logo foram adicionados “fatos” que pareciam poder prover uma base conforme a perspectiva humanista.

A alta crítica não foi a causa, mas o resultado do humanismo dentro da igreja protestante.

Os teólogos protestantes de tal época permitiram a entrada do conceito humanista, as duas colunas básicas da Igreja foram destruídas de novo. O que devemos entender agora é que, tanto o humanismo do sistema católico-romano como o do protestantismo liberal não diminui, mas que é um movimento irreversível na igreja cristã em uma âmbito universal.

Talvez a maior revolução atual seja a mudança acontecida no catolicismo romano com relação à criação.

– Em primeiro lugar, é um fato que até poucos anos atrás Roma havia insistido que os três primeiros capítulos de Gênesis deveriam ser interpretados literalmente. Hoje em dia, quando os cientístas católico-romanos se reúnem com os seculares, isto é deixado de lado. Estes homens da ciência romano-católicos são membros de diversas ordens religiosas.

Afirma-se, nos círculos católico-romanos liberais atuais, que tudo o que devemos aprender nos três capítulos iniciais do Gênesis é que, no processo evolutivo de animal a homem, a única coisa que se necessitou é que Deus introduzisse em certo momento uma alma racional. Isto é totalmente revolucionário em relação ao que Roma havia ensinado e significa um fortalecimento definido do humanismo.

– Em segundo lugar, Roma mudou radicalmente na questão de quem se salva. No passado, o catolicismo romano ensinava, como, todavia o faz na Espanha ou no Sul da Itália, por exemplo, que não havia salvação possível fora da Igreja Católica Romana. Hoje em dia, a ênfase recai em que todos os homens sinceros, e de boa vontade, são salvos.

Na Igreja primitiva e na Reforma se enfatizou o ensinamento bíblico de que quem não estivesse na Igreja de Cristo estaria condenado. Segundo o antigo sistema católico romano,aqueles que permaneciam fora da organização da Igreja Católica Romana estavam  perdidos.

Em ambos os casos, nos encontramos com o fato de que havia alguém que estaria perdido. No novo ensinamento católico-protestante é muito difícil saber quem está perdido; e com respeito aos círculos liberais, não se pode estar seguro se alguém se perde.

Assim, nos achamos ante o velho humanismo, que começou na época de Constantino, da Igreja Católica Romana, porém aumentado agora com o humanismo do moderno catolicismo-romano e dos protestantes/evangélicos em todo o mundo.

Deve-se notar, por conseguinte, que o novo conceito liberal católico-romano não constitui um rompimento com o antigo catolicismo romano, já que este tem sido sempre humanista. Constitui simplesmente uma confluência das diversas correntes de um mesmo canal.

O humanismo nas igrejas protestantes:

Ao mesmo tempo, o protestantismo humanista, que se iniciou com a erupção da alta crítica alemã está se movendo, por sua parte, cada vez mais na mesma direção.

Existe um notável paralelo entre o que sucede no campo liberal católico-romano, e o que se passa no protestantismo.

Assim como o antigo catolicismo romano humanista está se transformando no catolicismo liberal, também o antigo protestantismo liberal está desenvolvendo um novo liberalismo. Desde Kierkegaard a neo-ortodoxi utiliza mais a palavra “Deus”, assim como outros termos religiosos, porém estas palavras significam cada vez menos.

No velho protestantismo liberal, as coisas eram certas ou erradas de um modo que qualquer um poderia entender. No novo protestantismo liberal, a imprecisão que se pode notar nas obras do jesuíta Teilhard de Chardin, é praticamente a mesma. Novos líderes protestantes têm levado o novo liberalismo a suas conclusões lógicas, de maneira que o lendário do novo mundo religioso do liberalismo tem substituído a historicidade da bíblia.

Em todos os casos, a palavra “Deus” veio significando cada vez menos, até ao extremo de que uma pessoa deve se perguntar assombrada se nessa teologia há algum Deus.

Esta é exatamente a direção que segue o catolicismo romano humanista em sua nova forma liberal, mostrada por Teilhard de Chardin.

Devemos afirmar novamente, desta vez referindo-nos ao protestantismo liberal, que seu Deus não é o Deus bíblico.

No pensamento oriental, a “justificação da vida” é a meditação, a meditação como tal, dá à vida humana um aparente propósito e significado. No novo liberalismo se encontra a fé como um passo nas trevas, como a justificação da vida. Isto está mais em consonância com a mente ocidental que a meditação, porque o passo nas trevas incumbe à ação e, portanto, à vontade de sofrer pela própria ação.

O passo nas trevas traz a justificação da vida, e a terminologia religiosa vem sempre sendo usada cada vez mais para que pareça dar um propósito à vida. Porém, nunca se está seguro se nela há realmente algum significado, e a própria palavra “Deus” se torna mais e mais vaga, até desaparecer até mesmo a distinção entre um Deus pessoal ou impessoal.

Neste ponto, o catolicismo romano e o protestantismo liberal humanista, ambos em sua nova forma, estão perto de se unirem; e em termos de humanismo, ambos estão relacionados com o conceito clássico grego de idéias e ideais, assim como com os conceitos orientais.

É significativo

É significativo que “O Fenômeno do Homem”, obra do jesuíta Teilhard de Chardin, mostre a marca desta união. Teilhard de Chardin era jesuíta, Julian Huxley, ateu, escreveu a introdução do livro. E tanto na Europa como na América, são os protestantes liberais que o recomendam.

Tudo isso não é senão o desenvolvimento do antigo catolicismo romano humanista transformando-se no novo catolicismo romano liberal; e o velho liberalismo humanista protestante movendo-se progressivamente na mesma direção, no novo liberalismo da neo-ortodoxia.

Assim, em nossos dias, a diferença entre o catolicismo romano e o novo protestantismo liberal é de detalhe, e não básica.

Isto leva a perceber que não existe atualmente uma verdadeira razão para que não haja um movimento em direção à união entre o catolicismo romano e o protestantismo liberal.

Quando o arcebispo de Canterbury visitou o Papa, disse: “Já não há necessidade de nos estorvarmos um ao outro. Pois, se já não estamos um contra o outro, estamos um pelo outro”.

Isto é simplesmente um exemplo do que temos estado dizendo: O catolicismo romano e o novo protestantismo liberal descansam sobre a mesma base, e não existe nenhuma razão em absoluto, exceto com respeito a detalhes, para que não se unam. Qualquer conceito de verdade absoluta foi expulso em ambos campos.

Teólogos católicos instam para que os países ocidentais de tradição reformada, comecem a se desenvolverem sobre a base do conceito católico-romano de “lei natural”, mas o motivo pelo qual os países ocidentais não têm ainda uma base ou consenso para atuar no âmbito do direito moral e social, é que, tendo renunciado ao que a Reforma ensinou, tornaram-se abruptamente humanistas, e não têm absolutamente ao que se referir, ou sobre o que fundamentar suas ações.

Porém, o conceito católico-romano de lei natural é igualmente humanista e sem um absoluto em relação ao qual atuar.

A lei natural: A noção de lei natural é pré-cristã, anterior até mesmo aos antigos gregos, e foi Tomás de Aquino que modelou e poliu este conceito.

Isto está especificamente relacionado com as pinturas de Rafael e Miguel Ângelo no Vaticano. Faz parte do intento católico-romano para alcançar a síntese entre o pensamento pagão/humanista e o bíblico.

O coletivo substituindo o individual:

No âmbito do governo, o direito e a moral social, deve finalmente dar como resultado sempre conclusões humanistas e, portanto, relativas. Assim, por exemplo, a revista “Time”, de 12 de dezembro de 1960, tratando sobre o conceito de lei natural afirmou:

“O critério de bom e mal deve ser achado na natureza do homem; o homem é, de maneira natural, um ser social; e por isso, o bem da sociedade é o bem do homem”.

Do ponto de vista bíblico, o pecado é tal porque é contra Deus, não porque seja contra a sociedade.

O prejuízo a um ou vários homens é pecado, não porque tenhamos causado o prejuízo, mas porque lhes ocasionar danos contradiz o caráter e a lei de Deus. Assim, pois, o sistema bíblico é absoluto. Porém, o sistema católico-romano é humanista e relativo, primeiro em sua teologia — inclusive em sua visão de Deus — e logo em sua aplicação prática da lei natural. O conceito católico-romano de lei natural é parte da “sistemática síntese” totalmente contrária às verdades absolutas da Escritura.

Consequências:

Na teologia católica-romana, bem como no protestantismo liberal, achamos uma linha ininterrupta entre o homem tal como foi criado, o homem pecador, e o homem redimido.

No pensamento católico-romano, bem como no protestantismo liberal, a queda do homem não foi realmente total; e a salvação consiste unicamente na adição de uma justiça infundida ou não no indivíduo.

Esta linha ininterrupta é a base de seu conceito de lei natural.

O ensinamento bíblico é radicalmente diferente: existe um rompimento total na queda de homem, e outra vez o mesmo rompimento na justificação.

Por causa da queda, o homem permanece verdadeiramente morto. Na justificação, este passa do estado da morte para a vida. Segundo a Escritura, o homem, depois da queda, ainda é verdadeiramente “imagem” de Deus, no sentido de que permanece como criatura moral e racional. Ser uma criatura moral e racional depois da queda quer dizer, segundo a Bíblia, três coisas:

I — O homem não redimido, todavia, pode desejar significância porque se acha ainda no universo para o qual foi criado; ela ainda é moral e racional. O pintor não redimido ainda pode pintar, o que ama ainda pode amar, etc.

II — O fato de que o homem permanece como um ser moral e racional o condena, porque dentro de si, em sua consciência, e na criação que o rodeia, tem testemunhas que lhe dizem que vivemos num universo moral-pessoal e que há um Criador.

Que tenha ainda uma consciência, que continue amando, que continue anelando e buscando a beleza, o condena, porque estas coisas lhe indicam e deveriam levar numa direção exatamente oposta à que constitui a conclusão lógica de toda crença não cristã de que o universo é impessoal e amoral.

Romanos 1,19-20: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis”.

III — O existencialismo secular reconhece e afirma que o homem está morto, eles estão de acordo com a Bíblia neste ponto básico. Todavia, a bíblia diz o porque o homem se acha nesta condição, e mostra a solução.

Depois da queda histórica no Éden, a culpa do homem o separa totalmente de Deus, e todas as relações secundárias estão pervertidas: as relações do homem consigo mesmo, com os demais, e com a criação.

A noção bíblica é absolutamente diferente da opinião de que existe uma linha ininterrupta, através da queda, desde a criação até a salvação.

O homem, em sua rebelião contra Deus, destruiu o propósito primário para o qual foi criado e, portanto, todas as coisas estão pervertidas.

Gênesis 3,17: “E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida”.

De acordo com a noção bíblica, o homem justificado, sobre a base da justiça perfeita de Cristo, se torna, na salvação, uma nova criatura, ainda que não de modo perfeito nesta vida, todavia real, todas as relações secundárias ocupam assim seu lugar devido.

Em outras palavras: segundo a Escritura, o humanismo não-regenerado não chega a ser humano e conduzirá ao infra-humano em todos os aspectos da vida, incluindo um consenso no direito moral e social. Assim, pois, edificar sobre o conceito católico-romano de lei natural, ou do protestantismo liberal, ou ainda sobre qualquer outro conceito humanista é reduzir progressivamente o homem à condição de máquina ou animal.

Sendo a Igreja Católica Romana basicamente humanista, deve tratar sempre com o relativo, isto é o oposto à Escritura, seja no entendimento, seja na moral. Na noção bíblica, todos os elementos humanistas estão eliminados. Nas modernas religiões cristãs todos os elementos humanistas básicos estão presentes.

O homem vive hoje num vazio total, busca desesperadamente uma base, e o cristianismo religioso está recomendando que aceite seu conceito de lei natural: não houve a queda e não haverá justificação pela graça de Deus. A oferta da salvação é universal e o homem deverá conquistar seus méritos.

Este conceito possui um atrativo especial para os religiosos e intelectuais, porém quando é examinado, se vê que não é uma base absoluta de maneira alguma, e que na realidade está relacionado com todas as demais formas de humanismo que nos assediam.

Existe o humanismo protestante liberal e o mais recente, o “socialismo”. Este último é a nova variedade comunista de humanismo. O humanismo católico-romano é só uma parte deste quadro, e não provê solução alguma — todas estas vozes juntas se acham no âmbito de um retorno do mundo pagão que existia antes de Cristo, porém tanto mais grave visto que seus componentes são universais.

O catolicismo romano, tanto como o protestantismo atual não diferem basicamente das outras formas humanistas.  A base de tudo isso o fato de que ambas religiões  adoram a um Deus imperfeito e este conceito está hoje disseminado na igreja protestante da mesma forma que no catolicismo romano.

Transladar-se do vazio do pensamento geral de nosso século ao pensamento religioso atual com relação ao governo, o direito e a sociedade é passar de um vazio para outro vazio. No caso do catolicismo, a norma é a arbitrária e totalitária voz da igreja, no caso do protestantismo, a igreja com propósitos, a salvação universal, a teologia da prosperidade, o neo-pentecostalismo e a dialética substituindo as verdades bíblicas.

A Igreja primitiva e a Reforma descansavam sobre duas colunas não humanistas, quando um número suficiente de homens criam nestas coisas eles proviam uma base absoluta para o direito moral e social, porém agora que o mundo ocidental pós-cristianismo não crê mais nestas coisas, não existe uma base, e o caminho que se segue conduz ao caos, ou ao totalitarismo.

Este caminho será trilhado inexoravelmente até que Jesus Cristo volte para o julgamento final, é o que está escrito. Jamais haverá um número suficiente de homens que creiam e atuem com base nas duas colunas não-humanistas tantas vezes mencionadas, e detenham essa marcha.

Portanto: Os verdadeiros evangélicos devem permanecer sobre a base das duas colunas não-humanistas sem vacilar, ainda que isso signifique permanecer sozinhos.

O cristianismo tem algo para dizer no século XXI no que diz respeito ao direito, ao governo, à vida social e às artes, porém, não pode dizê-lo se compromete as duas colunas da igreja primitiva: a Escritura e a suficiência do sacrifício de Cristo.

Tudo isso significa permanecer claramente apartado do chamado para a lei natural do catolicismo romano, ou do chamado das conclusões sociológicas da moderna igreja protestante, ou ainda do humanismo popular ocidental.

Isto só pode ser feito no poder do Espírito Santo à medida que nosso complexo religioso-cultural se torna cada vez menos cristão. Em breves palavras, conforme vem a ser cada vez mais como o paganismo que circundava a Igreja primitiva, mas sem perspectiva de mudança.

Não existe mais possibilidade de reversão nesta situação, e não há lugar para onde ir, mas restam aos verdadeiros cristãos as duas colunas que jamais serão abaladas: A autoridade da Escritura e a justiça perfeita de Cristo como suficiente para a salvação de seu povo, e creiam: isto basta!

Revisão livre e atualização por Helio Clemente.

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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