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Teológicos

A FORÇA OCULTA DOS PROTESTANTES – A. BIELER

Os Protestantes,
“Oportunidade ou Ameaça” para a Sociedade?
Os julgamentos emitidos sobre o papel dos protestantes na sociedade moderna são contraditórios. Para uns, o papel é benéfico, exemplar. Para outros, é detestável, perigoso. Para uns, ele está na origem das grandes democracias e do desenvolvimento econômico ocidental. Para outros, ele é responsável pelo individualismo destruidor da sociedade contemporânea e inspirador de todos os abusos do capitalismo.
Um colaborador da revista Esprit, J. -C. Eslin4, professor da Ecole Européenne des Affaires (EAP), questionava-se sobre as conseqüências da vigorosa penetração do modelo americano na Europa. Esse modelo, dizia ele, é tipicamente protestante.

 

Prefácio
A essência do homem, não seria ela ser um ente que pode testemunhar?
Ser e Ter, Gabriel Marcel
Na era pós-moderna do “fim das grandes narrativas”, da explosão do “mercado religioso” e da religiosidade oscilante tanto teórica quanto prática que o acompanha, a fé cristã tem ainda algo a dizer e a oferecer? Num contexto crescente de individualismo e determinação, onde se amplia a defasagem não só entre países ricos e países pobres, mas onde se multiplicam, nuns e noutros, sociedades a duas ou três velocidades, os trabalhadores desempenhando o papel de “amortecedores universais de crise”, o professor André Biéler desloca ou, melhor ainda, aprofunda o debate, tentando revelarlhe a face oculta. Longe de colocá-lo ao nível da oposição entre valores da direita, do centro e da esquerda, ele assume o risco de ancorá-lo, mais acima, e mediante a redescoberta deles, nos valores originais da Reforma, na exata medida em que estes derivam da revelação cristã.
O protestantismo: oportunidade ou ameaça?
Diagnóstico crítico, sem dúvida, mas também visão e esperança num presente onde as opiniões, muitas vezes paradoxais, que procedem de autores protestantes ou católicos, divergem e se questionam. Para o autor, elas todas contêm “uma parte de verdade”, mas outros não hesitam: se a sociedade moderna se constrói segundo um modelo individualista, este seria de origem calvinista; longe de ser uma oportunidade para a sociedade, os protestantes representariam antes uma ameaça.
Rude tarefa procurar no mundo de hoje os frutos da Reforma: uma democracia que funcione, um desenvolvimento cultural, econômico e social justo, vão cometimento sem dúvida, se é empreendido com desconhecimento de suas raízes. Ainda que ela se oponha às ideologias contemporâneas, é chegada a hora da “ética protestante”, do retorno, do recurso às fontes, mesmo se aqueles mesmos que delas procedem as tenham esquecido.
Ora, essas fontes acham-se na Palavra de Deus, aquela mesma que vai auxiliar o autor a engajar-se num empreendimento revelador de desmistificação das representações sociais, as mais bem ancoradas no momento, e talvez as mais perigosas. Daí sua decisão de passar pelo crivo os enunciados que se tornaram tradicionais, com o propósito de ou enaltecer as influências do espírito reformado sobre o curso do capitalismo ou de os denunciar.
O autor dirá o que pensa, tomando a cautela de esclarecer, desde o princípio, “que, ao constatar-se que o protestantismo favorece o desenvolvimento de certas virtudes, não se deve concluir que elas estão ausentes naqueles que não compartilham da mesma herança”. Isso não impede que para ele a oposição permaneça pertinente entre a hierarquia sagrada e vertical do catolicismo tradicional de um lado, e, do outro, a afirmação da Reforma quanto à autoridade única da Escritura sagrada, à vocação individual endereçada por Deus a cada indivíduo, a liberdade que flui da liberação pessoal e da vida nova recebida na comunhão e perdão de Cristo. A responsabilidade assim compreendida e vivida conduz ao exercício do sacerdócio universal na Igreja, base da concepção democrática na Igreja em primeiro lugar, na Cidade depois, “as liberdades intelectuais, sociais e política estando implicitamente contidas, consoante o pastor Boegner, na liberdade individual”. É proclamar que, se a elaboração da resposta é sempre graciosa e nunca satisfatória, será também firme e solidamente embasada, sem excluir totalmente, longe disso, os riscos inerentes a uma Reforma “deformada” e igualmente consagrada, ideologizada, como as estruturas do catolicismo.
Uma maneira de ser profeta: um método, uma visão, valores.
Desde o princípio do jogo, a dramatização da análise mobiliza o leitor de um texto que, longamente estudado e amadurecido, está continuamente em movimento (eco dos movimentos e dos ritmos da história), claro, estimulante, simultaneamente regressivo e progressivo, remetendo o passado histórico às interrogações e aos significados do presente. Bela maneira de ser profeta no duplo sentido de colocar os homens diante de Deus e de pensar o futuro, ou melhor ainda, de pensar o futuro posicionando os homens diante de Deus. Uma problemática ao menos parcialmente inscrita na história pessoal do autor que, hesitante primeiramente entre matemática, economia, teologia e carreira militar, percebe, em seguida a um acidente de avião, o sentido que vai dar a uma vida salva, e subitamente descobre que Deus lhe oferece, aos vinte e três anos, uma segunda vida (tema recorrente na obra) para responder a sua verdadeira vocação. Formação teológica e em ciências econômicas e sociais ensejar-lhe-á, conjuntamente com sua carreira pastoral, tentar responder à questão: qual a nova ética social para a nova sociedade que se instalará após o fim das hostilidades? Sua tese de doutorado em ciências econômicas, intitulada “O Pensamento Econômico e Social de Calvino”, fornecer-lhe-á as primeiras chaves de uma resposta elaborada, através de numerosas obras, no decurso de mais de um quarto de século.
Restava extrair desse conjunto de estudos o balanço prospectivo que ele hoje nos expõe. O método e o intento estão claramente explicitados: é sempre partindo de considerações teológicas particulares, que André Biéler define uma ética concreta, associando a ética social à ética individual. Assim procede no tocante ao salário por exemplo, expressão tangível do salário gracioso e imerecido com que Deus distingue a obra de cada indivíduo. Profano, o salário remete antes de tudo à obra de Deus, de sorte que desse significado espiritual e ético atribuído ao salário decorre que o produto do trabalho não pertence, portanto, mais ao patrão que ao operário, ambos sócios de uma atividade comum.
Quanto ao “intento”, ele se inscreve numa mediação essencial, talvez se devesse escrever “uma chave”, “a chave”, sempre a mesma: o novo nascimento em Jesus Cristo, a aceitação da graça de um Deus sensível ao coração, se não à razão como pretendia Pascal, mas que, para André Biéler, “se torna razão”, razão que se inscreve na história mediante a escuta, o testemunho e o engajamento dos homens. Renovado, transformado por uma vida nova, tal é o efeito primeiro da proclamação do Evangelho, base de uma Reforma na qual o autor descobrirá, no seu primeiro capítulo, as “raízes da democracia”, sublinhando todavia que “o regime democrático não é gerador por si próprio dos valores que o fazem viver”, que ele estará incessantemente ameaçado por todas as formas de perversão social prestes a se manifestarem, e que “só conseguirá sobreviver até o fim como produto de uma ética que deve ser permanentemente renovada por uma fé, a única capaz de transformar e reconstruir a vida individual e coletiva”. Esses valores, por certo, não são “naturais ao homem atualmente desnaturado. São o fruto de transformação prévia deste quando aceita ser interpelado pelo Evangelho”.
Após e antes do advento das grandes democracias: um fator espiritual e teológico.
Inscrevendo-se na cadeia dos grandes estudos consagrados à longa história das mentalidades, o estudo de André Biéler não se contenta, como outros, de pôr em evidência o papel cultural como determinante de base, ou melhor ainda, de um “terceiro fator” (A . Peyrefitte) decorrente do religioso. Impõe-se ir mais a fundo nesse fator religioso para nele descobrir, “após e antes”, a “qualidade do fator espiritual e teológico”. A primeira parte (Os Protestantes e o Advento das Grandes Democracias) dedica-se ao exame de como o “cristianismo reformado” suscitou o surgimento, não da democracia no Ocidente, que existiu bem antes da Reforma, mas das grandes democracias modernas. Ele demonstrará, com efeito, que os herdeiros da Reforma Calvinista se acham precisamente na raiz da democracia, na origem das três grandes revoluções que moldaram o mundo moderno, a revolução democrática ocidental, a primeira revolução anti-colonialista importante, e muito particularmente a revolução industrial da qual o autor acentua o papel na transformação radical e permanente da ordem social, dos hábitos, dos costumes, das mentalidades, das estruturas econômicas e políticas das sociedades humanas. Mas, a investigação vai mais longe: é essa reforma portadora de esperança? Caso afirmativo, em que ela se radica? Não residiria exatamente, de certo modo, em que a uma Igreja sentinela, vanguardeira, sofredora e combatente seja inerente compreender a natureza e os riscos de uma autêntica ética cristã, reportando-se ao Evangelho, como “fonte permanente de renovação espiritual e política”? Essa é a tese do autor, que vai indagar o passado à luz daquilo em que ele se transformou e dos significados que assumiu, mantendo cautela para não cair na armadilha do dogmatismo e dos anacronismos, mas sem nada ocultar do que julgue ser a contribuição e as responsabilidades comuns ou respectivas dos cristãos de todas as confissões.
Ocasião única para identificá-las ao ensejo da leitura deste sobrevôo histórico de cinco séculos, mediante a ênfase dada a “certos pontos de referência significativos” (mas que trabalho para lhes resgatar o valor e a pertinência!), repondo as discrepâncias entre católicos e protestantes no seu contexto histórico e ideológico. Incrível deparar no herdeiro de J. Alvin, do “liberal” S. Sismondi como do “radical” J. Fazy, mas igualmente de D. Boehnhoeffer, K. Barth e M. Boegner, e num mesmo trabalho, tão vasta cultura sobre as raízes de nossa transformação coletiva, de seu sentido e de seus significados.
Dessa forma, a descoberta da historicidade de nossas práticas, “conduzindo a divergências de opinião sobre a estrutura da sociedade”, e o esclarecimento das tensões, que elas implicam para o futuro, mantêm-se aquém e vão além de práticas protestantes, bem como católicas.
Nascido na Europa, transportando-se depois de Plymouth para New Plymouth, o “fermento democrático” reformado chegará à América, onde uma vez mais, nova interpretação da Palavra de Deus conduzirá a novas relações entre os homens e a novo tipo de sociedade. Uma ou outra dessas expressões da idéia de renovação das coisas e das gentes reapresentam-se ao menos em uma de cada três das quarenta primeiras páginas, e as animam todas. Mas, que subsiste do equilíbrio preconizado por Alvin? A necessidade de subordinar a vida econômica às exigências e obrigações de uma ética social rigorosa? A proclamação da solidariedade econômica dos homens e das nações? A necessidade de certa redistribuição permanente das riquezas e do trabalho em favor dos mais  desfavorecidos, principalmente dos desempregados. A legitimidade, teologicamente estabelecida, das intervenções legislativas do Estado nesse domínio, para disciplinar o jogo indispensável de uma sã liberdade, nas relações entre cidadãos de uma cidade, de um país e da comunidade universal? Evidentemente, esse equilíbrio assim concebido não foi perseguido em seguida nas sociedades democráticas industriais, para cujo desenvolvimento a Reforma havia contribuído intensamente.
Um desenvolvimento de cor protestante?
Analisando os protestantes no desenvolvimento das sociedades modernas, a segunda parte permite ao autor questionar-se: em que medida os próprios protestantes são solidariamente responsáveis por esta evolução? Tentaram eles modificá-la? Em que sentido? A análise histórica está apta para pôr em evidência as conseqüências imprevistas e os efeitos perversos, inclusive no poder protestante, no trânsito da “moral calvinista para o moralismo calvinista”.
Certamente, hoje, mais se analisa do que se fundamenta o mito. Mas, na medida que ele for revelado enquanto tal, o mito estabelecido em ideal sagrado, erigindo-se em absoluto independente de toda referência à fé que o engendrou, transformado em ideologia independente, poderá ser esvaziado e substituído pelo retorno às origens, à ascese na sociedade, ao invés de vivido na segregação do mundo como na Idade Média.
Assim é essa ideologia que A . Weber denomina “o espírito capitalista”, utilitarista, individualista, despreocupado com a ética global, a ética social, transfigurado em moral burguesa secularizada, orientado para a poupança e o lucro, mas negligente quanto às preocupações sociais importantes que inspiravam a ética do cristianismo reformado original, tão distante da religião que por vezes se voltou contra si mesmo.
Nutrindo sua tese pelo estudo da origem protestante de certo liberalismo econômico moderno e da evolução das sociedades ocidentais, André Biéler está particularmente habilitado para detectar os valores essenciais da tradição cristã, inclusive junto aos utopistas, mesmo que esses valores, destacados do contexto teológico global, hajam alimentado as ideologias profanas dos séculos subseqüentes. Fé na razão, na consciência e na ciência, transmudada em “verdadeira religião secular” segundo a expressão de R. Aron, visão otimista do homem que esquece as verdades evangélicas que afirmam ser o homem uma criatura decaída que necessita, como toda a criação, ser transformada para encontrar sua identidade. Demonstrando como se constituíram as ideologias econômicas, que ocuparam o lugar da ética cristã, e como elas dividiram o mundo em clãs políticos hostis, ele nos enseja assistir aos combates travados pelos cristãos em prol da justiça na aurora de uma era nova industrial, participar dos mais recentes esforços que as Igrejas têm empreendido no intuito de que a ética cristã seja respeitada, graças particularmente ao movimento ecumênico. Antes de enunciar a exigência de um “dever urgente e de longo fôlego”: “democratizar as decisões no setor da economia, mediante melhor harmonia entre o capital e o trabalho, respeitando tanto a liberdade quanto a dignidade de todos os parceiros”.
A esperança como ato de fé: a igreja, sentinela da democracia ?
Longe das ideologias tornadas crenças secularizadas, impregnadas de esperanças ilusórias, repensando de novo e por nós, hoje como no tempo de seu aparecimento e cristalização, a Eterna Palavra de Deus que ressoa nas Escrituras (a grande lição da Reforma), o trabalho visionário do Professor Biéler se inscreve numa só e mesma perspectiva: a da esperança que é ato de fé, própria de sua condição de “artesão da paz”, prático de uma “cidadania ativa”, exercitando o direito à resistência, numa Igreja que ele quer, ele crê ser, – em otimismo trágico à moda de Mounier, ou em pessimismo ativo à maneira de Rougemont – teologicamente fundada como “sentinela da democracia” num mundo certamente sempre ambivalente mas destinado ao Reino de Deus, única realidade última para a qual marcha o conjunto da humanidade e toda a criação.
Compreende-se então que a empreitada de desmistificação ultrapassa largamente a encenação, mesmo dinâmica, do passado. O método faz irresistivelmente pensar na distinção, cara aos biólogos, entre fenótipos e biótipos, aqueles mero reflexo e realização destes. O estudo do papel dos protestantes no desenvolvimento das sociedades modernas atualiza, passando-os no crivo, os enunciados tradicionais visando ou enaltecer as influências do espírito reformado sobre o desenvolvimento do capitalismo, ou denunciar o protestantismo como responsável por seus abusos recolocando as duas perspectivas no contexto dos patrimônios históricos.
Oportunidade, sobretudo, de assim observar de mais perto o que encobre este outro lugar comum relacionado com a prosperidade das sociedades protestantes e o contraste Norte-Sul no desenvolvimento da Europa. O leitor sabe muito bem, a essa altura do desdobramento da obra, que haverá, como ao longo da primeira parte, iniciando por Genebra e Alvin, alargando depois a análise com a indagação sobre as relações posteriores entre o protestantismo e a sociedade ocidental, “certas nuanças” a subministrar de modo reflexivo e crítico. O autor não hesita em submeter à consideração as explicações propostas, quer provenham de sociólogos quer de teólogos. Ultrapassaos, todavia, mediante análise teórica e prática dos fundamentos de um desenvolvimento justo, reconhecendo a legitimidade do comércio, das trocas e da divisão do trabalho, mas apelando para o controle dos preços nas situações de penúria e de monopólio e para a repulsa aos abusos do poder do dinheiro, à hegemonia do capital sobre o trabalho e à supremacia da economia. Mas, o cristão sabe muito bem que o essencial não está nessa controvérsia. E o autor evita subverter a ordem dos valores e de inverter as causas e as conseqüências: seu pensamento vai além do princípio dialético, que ele contudo domina admiravelmente.
Retorno e recurso às fontes: também e sempre, o Evangelho no cerne do debate de hoje.
O autor crê fundamentalmente no caráter imutável, independente do tempo, do que é revelado na Palavra de Deus, autoridade suprema. Daí, essa reivindicação, única, pelo retorno ao patrimônio original, à Boa Nova, ao Evangelho. Mas, esta é percebida como fonte permanente de renovação espiritual e política, incrustando em nós uma atitude de contestação, antípoda do ópio do mundo, pela volta à igualdade, à justiça, à simplicidade. Ele espera desse “ímpeto regenerador” que se crie um liame entre renovação da religião e novo estatuto da sociedade. Bem longe das repressões cruéis, seja populares seja artísticas, que sempre pretenderam reprimi-lo na história, mas fundado no princípio chave de renascimento e de novo nascimento, e sob a condição de que a Palavra não seja confiscada pelo poder. Sabemos que numerosíssimos católicos, o que o autor não revela muito claramente, estão dispostos a segui-lo nesta via, e já o comentam tanto na prática religiosa como nas homilias dominicais.
Ser-se-á enfim sensibilizado pela arte que tem o autor de suscitar em sua análise histórica ecos absolutamente contemporâneos. Não se trata mais somente de dirigir críticas ao princípio e à prática atuais da confusão dos poderes políticos e religiosos, ainda cara ao catolicismo como entendido por Roma, e obstáculo à ação ecumênica contemporânea, nem mesmo de estigmatizar certas decisões recentes relativas a problemas de população. A respeito, primeiro, da “grande surpresa do desenvolvimento louco” e de seus efeitos perversos, o autor uma vez mais mira mais longe ainda, e mais profundo. Assim é que o texto é todo adornado de notas e proposições incidentes interpelando o indivíduo ao explicar-lhe as intenções originais e ao procurar evidenciar as dúvidas de significado às quais elas hoje se reportam, exatamente quando são largamente deformadas ou esquecidas. Significado do sabat ou significado do trabalho por exemplo, a respeito dos quais o leitor logo entenderá que eles podem contribuir para a construção da personalidade humana e para a maneira de viver em seu tempo. Nem por isso o coletivo é esquecido. Partindo da questão “que Igreja hoje, por que sociedade?”, André Biéler situa finalmente o imperativo da ética cristã na democratização da economia.
Sem dúvida alguma que através deste trabalho consagrado ao que outros poderiam denominar estudo sobre a “analogia da fé”, o autor auxiliará todos aqueles que, de forma absolutamente atual, desejariam esclarecer o debate essencial hoje, e muito recentemente gerado pelo relatório Minc1 dirigido a Edouard Balladur, opondo uma “nova palavra mestre”, o princípio da equidade, ao princípio da igualdade, princípio que teria caído da moda depois de “ter embalado toda a história social do pós-guerra”.
O dilema, com efeito, está no cerne de qualquer política econômica, social, territorial2 : trata-se de orientar-se exclusivamente em função das correlações da 1 Alain Minc, La France de l’an 2000, Paris, Odile Jacob, Documentation française, novembro de 1994 2 Mercedes Bresso et Claude Raffestin, L’économie de l’environnement: idéologie ou utopie? L’espace géographique, no. 2, 1979; Jean-Bernard Racine, La ville entre Dieu et les hommes, Presses bibliques sociedade produtivista, maximizando unicamente a eficiência, implicando certamente o crescimento, mas também e correlativamente, os grandes princípios da comunicação, da hierarquia, da dissimetria, da superioridade, da desigualdade, do valor de troca, da produção, da temporalidade, do custo econômico e da concentração, ou de considerar antes uma sociedade mais existencial, valorizando a comunhão, a simetria e a solidariedade, o valor de uso, a territorialidade, o custo social e a regulamentação, a economia como meio e não como fim? Trata-se de opor, em nome da “teoria da justiça” proposta pelo filósofo americano John Rawls, a ambição republicana de igualdade, a novo modo de reflexão sobre a ética social pretendendo que as instituições básicas sejam apenas justas na medida que contribuam para tornar a situação dos mais desfavorecidos – os hoje excluídos do trabalho – a melhor possível?
As proposições do Professor Biéler vão além de meras medidas circunstanciais para uma classe também ela circunstancial, um mesmo princípio de justiça podendo traduzir-se, no tempo e no espaço, por políticas muito diferentes. Mas então, se uma política econômica e social incarna mal um princípio de justiça e conduz a resultados aberrantes, é a política ou o princípio que se deve incriminar? Resta saber o que é igualdade, o que é realmente equidade, uma e outra enredadas na própria dinâmica muito contraditória por vezes. André Biéler não intervém explicitamente no debate, ou antes ele se situa acima do princípio e das definições categóricas. Procurando definir as condições de um liberalismo social “ou” de um “socialismo liberal” inteligentes, ele remonta uma vez mais às fontes mesmas do problema, deparando nos princípios da Reforma com a idéia e a força de uma igualdade como equidade, da mesma forma que encontrará na equação entre meta econômica e meta social a razão mesma da economia.
“Uma economia que tem portanto por finalidade não só a satisfação das necessidades solváveis, mas também a satisfação das necessidades essenciais de cada indivíduo, sendo a solidariedade tão essencial quanto a produtividade. Porque tais são efetivamente certos preceitos evangélicos importantes traduzidos para termos econômicos e sociais”. Visto que, como o dizia F. Mitterand por ocasião da Reunião de Cúpula Mundial do Desenvolvimento Social em Copenhague, “o homem deve ser o objetivo último de toda estratégia política ou econômica”. E se assim é, “isso passa portanto pelo social”. Mas, qual é o homem do social para André Biéler, senão essa criatura divina cujas relações com as outras, por exemplo com a Terra, não serão boas, justas e equitativas, a não ser na medida que se radiquem no Plano de Deus para Sua criação? Cristianismo social protestante e catolicismo social podem e devem convergir.
Fá-lo-ão tanto mais facilmente quanto mais, no engajamento ecumênico, o apelo à juventude e aos leigos contribuir para demolir o isolamento das Igrejas.
“As más relações que os homens mantêm com a terra são apenas a expressão das más relações que eles nutrem entre si”, dizia Marx. Esperamos que como o prefaciador, o leitor da última obra de André Biéler ficará convencido de que justamente as más relações entre os homens são antes de tudo a expressão das más relações que eles mantêm com Deus e Aquele a quem as religiões cristãs, em respeito às diferenças legítimas e às diversas culturas, e renunciando a encerrar Deus no seu empreendimento humano, prestam homenagem de forma única e específica: Cristo de quem falam as Universitaires, Genebra, 1993.
Escrituras. Nesse sentido, o apelo da Reforma é mais do que nunca oportuno e se dirige a todos os cristãos. Um apelo que renovou intensamente a ambição de um universitário geógrafo desejoso de colocar seus conhecimentos e experiências ao serviço de uma ética que se situa no espaço em cujo seio vivemos. “Ethos: simultaneamente morada e modo de viver”, lembrava Bernard Rordorf.
Jean-Bernard Racine
Professor da Unversidade de Lausanne

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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