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Doutrina

A Soberania de Deus e a Oração – Arthur W. Pink

Se pedirmos alguma cousa segundo a sua vontade, ele nos ouve.

1 João 5.14

Por todo este livro, nosso principal propósito tem sido exaltar o Criador e humilhar a criatura. A tendência quase universal hoje em dia é a de magnificar o homem e desonrar e degradar a Deus. A todo instante verifica-se que, quando os assuntos espirituais estão sendo debatidos, os homens insistem sobre o lado e o elemento humanos; e o lado divino, quando não é totalmente ignorado, é relegado a segundo plano. Isso se aplica a considerável parcela dos ensinamentos modernos concernentes à oração. Na grande maioria dos livros escritos e dos sermões pregados acerca da oração, o elemento humano domina o cenário quase completamente; fala-se das condições que nós devemos preencher, das promessas que nós devemos “reivindicar”, das coisas que nós devemos fazer, para que os nossos pedidos sejam atendidos, mas as exigências de Deus, os direitos de Deus, a glória de Deus são freqüentemente deixados de lado.

Como exemplo típico do que está sendo divulgado hoje em dia, submetemos ao leitor um breve editorial (intitulado “Oração ou Fatalidade?”) que apareceu recentemente em um importante semanário religioso.

Deus, em sua soberania, ordenou que os destinos dos homens possam ser modificados e moldados pela vontade do homem. Este é o âmago da verdade de que a oração muda as coisas, ou seja, que Deus muda as  coisas quando os homens oram. Alguém expressou isso de maneira admirável, nos seguintes termos: “Há certas coisas que sucederão na vida de um homem, quer ele ore, quer não. Há outras coisas que acontecerão se ele orar e que não acontecerão se ele não orar”. Um cristão ficou de tal modo impressionado com essas afirmações, que, ao entrar em um escritório comercial, orou que o Senhor lhe desse a oportunidade de falar sobre Cristo a alguém, tendo em vista que as condições seriam favoráveis devido à sua oração. Então, sua mente se ocupou com outras coisas e acabou esquecendo-se de sua oração. Teve a oportunidade de falar de Cristo ao negociante com o qual estava conversando, mas não aproveitou a ocasião, e somente quando saía é que lembrou-se da oração e da resposta divina. Ele prontamente voltou e começou a conversar com o negociante, o qual, apesar de ser membro de uma igreja evangélica, nunca havia sido inquirido se era salvo ou não. Dediquemo-nos à oração, abrindo assim o caminho para que Deus mude as coisas. Cuidado para que não sejamos virtualmente fatalistas, deixando de exercer, através da oração, as disposições que nos chegam da parte de Deus.

Essa citação ilustra o que hoje em dia se ensina sobre o tema da oração; e o mais deplorável é que dificilmente uma voz se levanta em protesto. Dizer que “os destinos dos homens podem ser mudados e moldados pela vontade do homem

é  crassa  heresia;  não  há  outra  maneira  de  descrever  tal  aberração.  Se  alguém contestar  essa  classificação,  nós  o  desafiamos  a  descobrir  qualquer  descrente que  não  concorde  com  ela,  e  estamos  certos  de  que  nenhum  será  encontrado. Dizer  que  “Deus  ordenou  que  os  destinos  dos  homens  podem  ser  mudados  e moldados  pela  vontade  do  homem”  é  algo  completamente  falso.  O  destino humano  é  decidido,  não  pela  “vontade  do  homem”,  e,  sim,  pela  vontade  de Deus. O que determina o destino do homem é se o homem nasceu de novo ou não,  porquanto  está  escrito:  “Se  alguém  não  nascer  de  novo,  não  pode  ver  o reino de Deus” (Jo 3.3). E qualquer dúvida, se é a vontade de Deus ou a vontade do   homem   a   responsável   pelo   novo   nascimento,   é   esclarecida,   de   forma inequívoca, em João 1.13: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da  carne,  nem  da  vontade  do  homem,  mas  de  Deus”.  Dizer  que  o  destino humano pode ser mudado pela vontade do homem é tornar suprema a vontade da criatura, o que virtualmente significa destronar a Deus. Mas, que dizem as Escrituras? Que elas respondam: “O SENHOR o que tira a vida e a dá; faz descer à  sepultura  e  faz  subir.  O  SENHOR  empobrece  e  enriquece;  abaixa  e  também exalta.  Levanta  o  pobre  do  pó  e  desde  o  monturo  exalta  o  necessitado,  para  o fazer assentar entre os príncipes, para  o fazer herdar o trono de glória” (1 Sm 2.6-8).

Voltando ao editorial citado anteriormente, lemos: “Este é o âmago da verdade de que a oração muda as coisas, ou seja, que Deus muda as coisas quando os homens oram”. Em quase todos os lugares para onde se vai, hoje em dia, vêem- se cartazes com a seguinte declaração: “A Oração Muda as Coisas”. O significado que se quer emprestar a essas palavras vê-se com clareza na atual literatura sobre a oração — nós temos de persuadir Deus a mudar o seu propósito. Quanto a isso, adiante diremos mais alguma coisa.

Diz-nos ainda o editorial: “Alguém expressou isso de maneira admirável, nos seguintes termos: ‘Há certas coisas que sucederão na vida de um homem, quer ele ore, quer não”. Que certas coisas sucedem, quer a pessoa ore, quer não, é diariamente exemplificado na vida dos não-regenerados, e a maior parte deles nunca ora. Mas a afirmativa de que “Há outras coisas que acontecerão se ele orar” precisa ser definida. Se um crente orar com fé e pedir coisas que estão de acordo com a vontade de Deus, certamente obterá aquilo que pediu. Da mesma forma, que outras coisas acontecerão se ele orar também é verdade no que diz respeito aos benefícios resultantes da oração: Deus se tornará mais real para quem orar, e suas promessas tornar-se-ão mais preciosas. Que outras coisas “não acontecerão se ele não orar” é verdadeiro quanto vida da própria pessoa — vida sem oração é uma vida desfrutada sem a comunhão com Deus e com tudo quanto está envolvido nessa falta de comunhão. Porém, afirmar que, se não orarmos, Deus não cumprirá o seu eterno propósito é incorrer em grande erro, porque o mesmo Deus que decretou os fins também decretou os meios pelos quais suas finalidades serão alcançadas; e um desses meios é a oração. Quando Deus determina conceder uma bênção, também outorga o espírito de súplica que Lhe solicita essa mesma bênção.

O exemplo citado no editorial (o caso do obreiro e do negociante) é muito infeliz. Segundo os termos da ilustração, a oração do obreiro não foi respondida de modo algum, visto que, conforme parece, não foi aberto o caminho para este falar ao negociante acerca de sua alma. Entretanto, quando já deixava o escritório, ao lembrar-se da oração feita, o obreiro (talvez por motivo carnal) resolveu responder a oração por si mesmo e, ao invés de permitir que o Senhor lhe “abrisse a oportunidade”, tomou o caso em suas próprias mãos.

Citamos agora um trecho de um dos últimos livros publicados sobre a oração,  no qual o autor declara: “As possibilidades e a necessidade da oração, seu poder e seus resultados se manifestam no refrear e alterar os propósitos de Deus e no aliviar o impacto do seu poder”. Uma afirmação tal como esta é uma horrível consideração sobre o caráter do Deus Altíssimo, o qual, “segundo a sua vontade.., opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). Não há a mínima necessidade de Deus modificar os seus desígnios ou alterar os seus propósitos, e isso por uma razão mais do que suficiente: foram elaborados sob a influência de perfeita bondade e de infalível sabedoria. Os homens podem ter motivos para alterarem os seus propósitos, porquanto, em sua pequena capacidade de ver as coisas, são incapazes de antecipar o que pode suceder depois de traçados os seus planos. Com Deus, entretanto, não é assim, pois Ele conhece o fim desde o princípio. Afirmar que Deus altera os seus propósitos ou é impugnar a sua bondade, ou é negar a sua eterna sabedoria.

No mesmo livro, lemos ainda: “As orações dos santos de Deus são o patrimônio, no céu, por meio do qual Cristo leva adiante a sua grande obra sobre a terra. Os grandes  espasmos  e  as  poderosas  convulsões  que  há  na  terra  resultam  dessas orações. O mundo é alterado, revolucionado; os anjos se movimentam com vôos mais poderosos e mais rápidos; a política de Deus é moldada na medida em que as orações se tornam mais numerosas, mais eficientes”. Se possível, esse trecho é  ainda  pior  que  o  anterior,  e  não  hesitamos  em  declarar  que  foi  escrito  em desafio ao ensino bíblico. Em primeiro lugar, nega diretamente Efésios 3.11, que se refere ao “eterno propósito” de Deus. Se o propósito de Deus é eterno, segue- se  que  sua  “política”  não  está  sendo  “moldada”  em  nossos  dias.  Segundo, contradiz o trecho de Efésios 1.11, o qual declara expressamente que Deus “faz todas  as  cousas  conforme  o  conselho  da  sua  vontade”.  Segue-se,  pois,  que  a “política   de   Deus”   não   está   sendo   “moldada”   pelas   orações   dos   homens. Terceiro,  uma  asserção  como  essa  dá  posição  de  supremacia  à  vontade  da criatura humana, porque, se as nossas orações moldam a política de Deus, então o  Altíssimo  está  subordinado  aos  vermes  da  terra.  Com  exatidão  perguntou  o Espírito Santo, através do apóstolo: “Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Rm 11.34).

Os pensamentos mencionados acima, sobre a oração, são frutos de conceitos mesquinhos e inadequados quanto à pessoa de Deus. Deve ser óbvio que pouco ou nenhum consolo se pode alcançar em orar a um Deus que é como um camaleão, que muda diariamente de cor. Que encorajamento poderia haver em elevarmos diariamente o coração a um ser cuja atitude de ontem já não é a de hoje? Que vantagem haveria em mandarmos uma petição a um monarca terreno, se soubéssemos ser ele tão mutável, que atende petições em um dia, somente para revogá-las no dia seguinte? Não é a imutabilidade de Deus nosso maior encorajamento para orarmos? Visto que Deus não sofre “variação ou sombra de mudança” temos a certeza de que seremos ouvidos. Mui correta foi a observação de Lutero: “Orar não é vencer a relutância de Deus, mas é apropriar- se do beneplácito dele”.
Isso nos leva a fazer algumas observações quanto ao desígnio da oração. Por que ordenou Deus que orássemos? A vasta maioria das pessoas responderia: a fim de obtermos de Deus as coisas que necessitamos. Mas, embora este seja um dos propósitos da oração, não é o principal, sob hipótese alguma. Além disso, esse ponto de vista considera a oração somente pela perspectiva humana, quando há tremenda necessidade de considerá-la pelo lado divino. Examinemos, portanto, algumas das razões por que Deus nos mandou que orássemos.

Em primeiro e máximo lugar, a oração foi instituída para que o próprio Senhor Deus seja honrado. Deus requer que reconheçamos que Ele é, de fato, “o Alto, o Sublime, que habita a eternidade” (Is 57.15). Deus requer que reconheçamos o seu domínio universal. Quando Elias orou para que chovesse, reconheceu que Deus  exerce  controle  sobre  os  elementos  da  natureza;  ao  orarmos  que  Deus liberte um miserável pecador da ira vindoura, reconhecemos que “ao SENHOR pertence  a  salvação!”  (Jn  2.9);  ao  suplicarmos  que  Ele  abençoe  a  pregação  do evangelho  até  aos  confins  da  terra,  declaramos  que  Ele  é  quem  rege  o  mundo inteiro.

Além disso, Deus requer que O adoremos. A oração, a verdadeira oração, é um ato de adoração. Assim é, pois a oração consiste em prostrar-se a alma perante Ele; a oração é o invocar o grandioso e santo nome de Deus; a oração é o reconhecimento da bondade, do poder, da imutabilidade e da graça de Deus; também é o reconhecimento da soberania divina, confessada quando nossa vontade se submete à dEle. E de elevada significação notarmos, a esse respeito, que Cristo não chamou o templo de Jerusalém de Casa de Sacrifício, e, sim, de Casa de Oração.

Igualmente, a oração redunda na glória de Deus, pois, ao orarmos, reconhecemos que dependemos dEle. Ao dirigirmos humildemente as nossas súplicas a Deus, nos entregamos ao seu poder e à sua misericórdia. Ao buscarmos bênçãos da parte de Deus, reconhecemos que ele é o Autor e a Fonte de toda boa dádiva e todo dom perfeito. Que a oração glorifica a Deus também se vê no fato que ela promove o exercício da fé. E nada, da nossa parte, honra e agrada tanto a Deus como a confiança que Lhe votam os nossos corações.

Em  segundo  lugar,  a  oração  foi  designada  por  Deus  a  fim  de  ser  uma  bênção espiritual  para  nós,  um  meio  para  o  nosso  crescimento  na  graça.  Quando procuramos entender o desígnio da oração, isso deve sempre nos impressionar, ao  invés  de  considerarmos  a  oração  como  um  mero  instrumento  pelo  qual obtemos o suprimento de nossas necessidades. A oração foi planejada por Deus para  nos  humilhar.  A  oração  autêntica  consiste  em  chegarmos  à  presença  de Deus,  tendo  consciência  de  sua  sublime  majestade,  o  que  produz  em  nós  o reconhecimento  de  nossa  insignificância  e  indignidade.  Também,  a  oração  foi destinada por Deus para o exercício de nossa fé. A fé é gerada pela Palavra (Rm 10.17), mas é exercida quando oramos. Por isso é que lemos sobre a “oração da fé”. Da mesma forma, a oração aciona o amor. No tocante ao hipócrita, indaga- se:  “Deleitar-se-á  o  perverso  no  Todo-poderoso  e  invocará  a  Deus  em  todo  o tempo?”  (Jó  27.10).  Porém,  os  que  amam  o  Senhor  não  podem  ficar  muito tempo longe dEle, porque se deleitam em falar-Lhe dos seus pesares. Além de despertar   nosso   amor,   as   respostas   diretas,   concedidas   às   nossas   preces, incrementam nosso amor a Deus:

“Amo o SENHOR, porque ele ouve a minha voz e as minhas súplicas” (Sl 116.1). E  há  mais:  a  oração  foi  designada  por  Deus  para  nos  ensinar  o  valor  das bênçãos  que  procuramos  da  parte  dEle,  o  que  nos  dá  ainda  maior  regozijo, quando Ele nos concede aquilo que pedimos.

Em terceiro lugar, a oração foi designada por Deus a fim de que procuremos, da parte dEle, as coisas de que precisamos. Mas, pode surgir aqui uma dificuldade para  quem  leu  cuidadosamente  os  primeiros  capítulos  deste  livro.  Se  Deus predestinou  tudo  quanto  acontece  na  história,  desde  antes  da  fundação  do mundo, qual é a utilidade da oração? Se é verdade que “dele, e por meio dele, e para  ele  são  todas  as  cousas”  (Rm  11.36),  então,  por  que  orar?  Antes  de respondermos  diretamente  a  essas  perguntas,  devemos  salientar  que  há  um justo motivo para a indagação: Qual é a utilidade de chegar-se alguém a Deus para  dizer-Lhe  aquilo  que  Ele  já  sabe?  Para  que  eu  Lhe  apresentaria  a  minha necessidade, se Ele já tem conhecimento do que preciso? E também há motivos para  a  objeção:  Qual  é  o  valor  da  oração  por  alguma  coisa,  se  tudo  já  foi predestinado  por  Deus?  A  oração  não  tem  o  propósito  de  dar  informações  a Deus,  como  se  Ele  ignorasse  as  coisas.  O  Salvador  declarou  expressamente: “Porque  Deus,  vosso  Pai,  sabe  o  de  que  tendes  necessidade,  antes  que  lho peçais”    (Mt    6.8).    A    finalidade    da    oração    é    expressar    a    Deus    nosso reconhecimento  pelo  fato  que  Ele  já  sabe  aquilo  que  necessitamos.  A  oração jamais   se   destinou   a   proporcionar   a   Deus   o   conhecimento   daquilo   que precisamos;  antes,  visa  a  ser  o  meio  de  Lhe  confessarmos  nosso  senso  da necessidade que temos. Nisto, como em tudo o mais, os pensamentos de Deus não   são   os   nossos   pensamentos.   Deus   requer   que   as   suas   dádivas   sejam buscadas. Seu desígnio é ser Ele honrado através de nossas petições e ser Ele o alvo de nossa gratidão, depois de haver concedido as bênçãos que buscávamos.

Entretanto, a pergunta ainda exige resposta: Se Deus predestinou tudo quanto sucede  e  regula  todos  os  acontecimentos,  não  será  a  oração  um  exercício  sem nenhum proveito? Uma resposta suficiente para essa pergunta é o fato que Deus nos manda orar: “Orai sem cessar” (1 Ts 5.17). E também temos “o dever de orar sempre e nunca esmorecer” (Lc 18.1). E mais ainda, as Escrituras declaram que “a oração da fé salvará o enfermo”, e também: “Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5.15,16). E o Senhor Jesus Cristo — nosso perfeito exemplo em  todas  as  coisas  —  foi,  preeminentemente,  um  homem  de  oração.  E  claro, pois, que a oração não é sem significado e poder. Mas isso ainda não remove a dificuldade  nem  responde  à  pergunta  em  foco.  Qual  é,  pois,  a  relação  entre  a soberania divina e a prece feita por um crente?

Em primeiro lugar, diríamos enfaticamente que a oração não tem a finalidade de alterar os desígnios de Deus, nem de movê-lo a formular novos propósitos. Deus já decretou que certas coisas hão de suceder, mas também decretou que sucederão através dos meios que Ele mesmo determinou para levá-las a efeito. Deus escolheu certas pessoas para a salvação, mas também decretou que sejam salvas através da pregação do evangelho. O evangelho, pois, é um dos meios determinados para a concretização do conselho eterno do Senhor. A oração é outro desses meios. Deus decretou os fins, mas igualmente os meios, e entre esses está a oração. Até as orações do seu povo fazem parte dos seus decretos eternos. Portanto, longe de serem vãs, as orações são instrumentos, entre outros, por meio dos quais Deus cumpre os seus decretos. “Se, na verdade, tudo sucede pelo cego acaso ou por necessidade fatal, não haveria qualquer eficácia moral nas orações, e nenhuma utilidade; mas, sendo reguladas pela orientação da sabedoria divina, as orações têm um lugar na ordem dos acontecimentos” (Haldane).

As   Escrituras   ensinam   claramente   que   as   orações   em   favor   das   coisas decretadas  por  Deus  não  são  destituídas  de  significado.  Elias  sabia  que  Deus estava prestes a conceder chuva, mas isso não o impediu de dedicar-se à oração. Daniel  entendeu,  pelos  escritos  dos  profetas,  que  o  cativeiro  não  haveria  de durar  mais  de  setenta  anos.  Mas,  quando  esse  período  já  chegava  ao  fim,  a Bíblia relata que ele voltou o “rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas,  com  jejum,  pano  de  saco  e  cinza”  (Dn  9.2,3).  Deus  disse  ao  profeta Jeremias:   “Eu   é   que   sei   que   pensamentos   tenho   a   vosso   respeito,   diz   O SENHOR, pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais”. Porém, ao invés de acrescentar que não havia nenhuma necessidade do profeta solicitar essas coisas, determinou-lhe: “Então me invocareis, passareis a orar a mim, e eu vos ouvirei” (Jr 29.11,12).

Lemos    também,    em    Ezequiel    36,    evidentes,    positivas    e    incondicionais promessas  feitas  por  Deus  quanto  à  futura  restauração  de  Israel.  Todavia,  o versículo  37  declara:  “Assim  diz  O  SENHOR  Deus:  Ainda  nisto  permitirei  que seja eu solicitado pela casa de Israel, que lhe multiplique eu os homens como rebanho”. Eis, pois, o desígnio da oração: não para que seja alterada a vontade do Senhor, mas, antes, para que seja ela cumprida, dentro do prazo e dos meios estabelecidos por Ele. Visto que Deus prometeu certas coisas, podemos pedi-las com  plena  certeza  de  fé.  Faz  parte  do  propósito  de  Deus  que  sua  vontade  se realize através dos meios por Ele determinados e que possa Ele fazer o bem a seu  povo,  segundo  as  suas  condições,  a  saber,  pelos  “meios”  e  “condições”  da petição  e  da  súplica.  Porventura  o  Filho  de  Deus  não  sabia  com  certeza  que depois de sua morte e ressurreição seria exaltado pelo Pai? Certamente o sabia. Contudo,  Ele  pediu  exatamente  isso:  “E  agora,  glorifica-me,  ó  Pai,  contigo mesmo,  com  a  glória  que  eu  tive  junto  de  ti,  antes  que  houvesse  mundo”  (Jo 17.5)!  Não  sabia  Cristo  que  nenhum  dos  seus  poderia  perecer?  Mas,  apesar disso, pediu ao Pai que os guardasse (Jo 17.11)!

Finalmente, deve-se dizer que a vontade de Deus é imutável, não podendo ser alterada  por  nossos  clamores.  Quando  a  mente  divina  não  se  inclina  a  fazer o bem a determinado povo, a vontade dEle não pode ser alterada através das mais fervorosas e importunas orações, até mesmo daqueles que desfrutam da maior comunhão  com  ele  —  “Disse-me,  porém,  o  SENHOR:  Ainda  que  Moisés  e Samuel  se  pusessem  diante  de  mim,  meu  coração  não  se  inclinaria  para  este povo;  lança-os  de  diante  de  mim,  e  saiam”  (Jr  15.1).  A  oração  de  Moisés  para entrar na Terra Prometida é um caso semelhante.

Nossos pontos de vista sobre a oração carecem de revisão para se harmonizarem com os ensinos das Escrituras, quanto a esse aspecto. Parece que a idéia que atualmente prevalece é esta: apresento-me a Deus para pedir algo que quero e passo a ter a certeza de que Ele me dará aquilo que Lhe pedi.

Porém, essa é uma idéia que avilta e degrada a Deus. As crenças populares reduzem Deus à função de servo, nosso servo — cumprindo nossas ordens, executando nossa  vontade,  atendendo  nossos  desejos.  Não!  Orar  é  vir  a  Deus, contando-Lhe   a   minha   necessidade,   entregando-Lhe   os   meus   caminhos, deixando-O  agir  conforme  melhor  Lhe  aprouver.  Isto  torna  minha  vontade sujeita à dEle, ao invés de, como no caso anterior, procurar que a vontade dEle se  sujeite  à  minha.  Nenhuma  oração  agradará  a  Deus  se  não  for  movida  pelo espírito  que  diz:  “Não  se  faça  a  minha  vontade,  e,  sim,  a  tua”  (Lc  22.42). “Quando  Deus  concede  bênçãos  àqueles  que  oram,  não  o  faz  por  causa  das orações  deles,  como  se  Ele  tivesse  sido  influenciado  e  mudado  por  elas;  é  por causa de Si mesmo, por sua própria vontade e beneplácito soberanos. Se alguém perguntar:  Qual,  pois,  é  o  propósito  da  oração?,  a  resposta  deve  ser:  esse  é  o meio  e  o  método  que  Deus  ordenou  para transmitir  a  seu  povo  as  bênçãos  de sua própria bondade. Porque, embora tenha determinado, provido e prometido as bênçãos, Ele deseja que Lhe sejam solicitadas; é nosso dever e privilégio pedi- las.  Quando  os  crentes  são  abençoados  com  o  espírito  de  súplica,  isso  prediz coisas  boas,  e  parece  provável  que  Deus  tem  em  mira  conceder  essas  boas coisas,  as  quais  sempre  devem  ser  pedidas  com  a  atitude  de  submissão  à vontade  de  Deus,  dizendo-se:  ‘Não  se  faça  a  minha  vontade,  e,  sim,  a  tua’” (John Gill).

A distinção que acaba de ser notada tem grande importância prática em relação à nossa paz de coração. Talvez nada há que deixe os crentes tão perplexos como o problema das orações não respondidas. Eles pediram algo da parte de Deus; segundo a sua capacidade de discernir as coisas, acham que pediram com fé, crendo que receberiam aquilo que era alvo de suas súplicas ao Senhor; pediram com seriedade, por repetidas vezes, mas a resposta não veio. Em muitos casos, o resultado é que vai diminuindo a confiança na eficácia da oração, até que a esperança termina por ceder lugar ao desespero, quando, então, já não buscam mais o trono da graça. Não é assim que acontece?

Ora, os nossos leitores ficariam surpresos se disséssemos que cada oração confiante e verdadeira, apresentada a Deus foi respondida? Sem hesitação o afirmamos. Porém, ao assim dizermos, precisamos voltar à nossa própria definição de oração. Repetiremos: Orar é vir perante Deus, contando-Lhe a nossa necessidade (ou a necessidade de outrem), entregando-Lhe os nossos caminhos, deixando-O agir conforme melhor Lhe aprouver. Isso deixa nas mãos de Deus o responder à oração do modo que Lhe agrade; e, por muitas vezes, sua resposta pode ser exatamente o oposto daquilo que seria mais aceitável à carne. Porém, se realmente tivermos deixado nas mãos de Deus a nossa necessidade, não deixará de haver resposta da parte dEle. Examinemos dois exemplos.

Em  João  11,  lê-se  acerca  da  enfermidade  de  Lázaro.  O  Senhor  Jesus  o  amava, mas   achava-se   ausente   de   Betânia.   As   irmãs   do   enfermo   mandaram   um mensageiro  ao  Senhor,  para  informá-Lo  sobre  o  estado  de  Lázaro.  Notemos, especialmente, como formularam o apelo: “Senhor, está enfermo aquele a quem amas”. Apenas isso. Não pediram que Jesus curasse a Lázaro. Não pediram que Ele  se  apressasse  a  vir  a  Betânia.  Simplesmente  Lhe  apresentaram  a  sua necessidade,  deixando  o  caso  aos  cuidados  dEle,  permitindo  que  Ele  agisse conforme Lhe parecesse melhor! Qual foi a resposta do Senhor? Respondeu-lhes o  silencioso  apelo?  Com  certeza  Ele  o  respondeu,  embora  talvez  não  do  modo como esperavam. Sua resposta foi demorar-se “dois dias no lugar onde estava” (Jo 11.6), permitindo que Lázaro falecesse! O caso, porém, não parou aí. Mais tarde, Jesus foi a Betânia e ressuscitou a Láza-ro. Nossa finalidade, ao mencionarmos esse incidente, é ilustrar a atitude correta que o crente deve assumir perante Deus, na hora da necessidade. O próximo exemplo dará ênfase ao método de Deus para responder às necessidades de seus filhos.

Abra  sua  Bíblia  em  2  Coríntios  12.  Ao  apóstolo  Paulo  fora  conferido  um privilégio   inédito.   Ele   havia   sido   arrebatado   ao   paraíso.   Os   seus   ouvidos ouviram e os seus olhos contemplaram o que nenhum outro ser humano já vira ou  ouvira  nesta  vida.  A  maravilhosa  revelação  foi  mais  do  que  o  apóstolo poderia   suportar.   O   perigo   era   o   de   ensoberbecer-se   pela   extraordinária experiência.   Por   isso,   foi-lhe   posto   um   espinho   na   carne,   mensageiro   de Satanás,  para  esbofeteá-lo,  a  fim  de  que  ele  não  se  exaltasse.  Então,  Paulo deixou na presença do Senhor a sua necessidade; por três vezes rogou ao Senhor que afastasse dele o espinho na carne. Essa oração foi respondida? Sim, embora não segundo a maneira desejada por Paulo. O “espinho” não foi removido, mas ao apóstolo foi concedido graça para suportá-lo. O fardo não foi retirado, mas Paulo recebeu forças para carregá-lo.

Haverá quem objete que é nosso privilégio fazer algo mais do que meramente deixar nossa necessidade perante Deus? Haverá quem nos lembre que Deus, por assim  dizer,  nos  deu  um  cheque  em  branco,  convidando-nos  a  preenchê-lo? Haverá quem diga que as promessas divinas abragem tudo e que podemos pedir ao  Senhor  o  que  quisermos?  Nesse  caso,  também  precisamos  chamar  atenção para o fato que é mister comparar a Escritura com a própria Escritura para que conheçamos  a  plena  vontade  de  Deus  em  qualquer  questão;  e  que,  ao  assim fazermos, descobriremos que Deus condicionou as suas promessas, ao dizer: “Se pedirmos  alguma  cousa  segundo  a  sua  vontade,  ele  nos  ouve”  (1  J0  5.14).  A verdadeira   oração   é   a   comunhão   com   Deus,   de   tal   maneira   que   surgem pensamentos comuns à mente dEle e à nossa, O que necessitamos é que Ele nos encha  o  coração  com  os  pensamentos  dEle;  e  então  os  desejos  dEle  serão nossos,  a  fluir  em  direção  a  Ele.  Aqui,  pois,  está  o  ponto  de  encontro  entre  a soberania de Deus e a oração cristã: se pedirmos alguma coisa segundo  a  sua vontade,  Ele  nos  ouve;  mas,  se  não  Lhe  pedirmos  assim,  não  nos  ouve.  E, conforme   disse   Tiago:   “Pedis   e   não   recebeis,   porque   pedis   mal,   para esbanjardes em vossos prazeres” (Tg 4.3).

Mas, não disse o Senhor Jesus a seus discípulos: “Em verdade, em verdade vos digo, se pedirdes alguma cousa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome” (Jo 16.23)?  Sim,  disse.  Mas  essa  promessa  não  concede  carta  branca  àqueles  que oram.  Essas  palavras  de  nosso  Senhor  estão  em  perfeito  acordo  com  as  do apóstolo  João:  “Se  pedirmos  alguma  cousa  segundo  a  sua  vontade,  ele  nos ouve”. O que vem a ser pedir “em nome de Cristo”? Certamente é muito mais do que mera fórmula de oração, mais do que simplesmente concluir nossas súplicas com  as  palavras  “em  nome  de  Jesus”.  Solicitar  algo  de  Deus,  em  nome  de Cristo,  quer  dizer  solicitar-lhe  algo  em  harmonia  com  a  natureza  de  Cristo! Pedir  algo  a  Deus  em  nome  de  Cristo  é  como  se  o  próprio  Cristo  estivesse formulando a petição. Só podemos pedir a Deus aquilo que Cristo pediria. Pedir em  nome  de  Cristo,  pois,  significa  deixar  de  lado  nossa  vontade  própria, aceitando a vontade de Deus!
Ampliemos agora nossa definição de oração. O que é oração? Oração não é tanto um ato, mas uma atitude — atitude de dependência, dependência de Deus. Orar é uma confissão feita pela criatura, reconhecendo sua própria fraqueza, sua total incapacidade. Orar é reconhecer nossa necessidade e expô-la diante de Deus. Não estamos dizendo que isto é tudo que está envolvido na oração; não é. Apenas dizemos que esse é o elemento essencial e primário da oração. Reconhecemos, sem hesitação, que somos totalmente incapazes de dar uma definição completa da oração no espaço de uma breve frase ou até mesmo no âmbito de qualquer número de palavras. A oração é tanto uma atitude como um ato, um ato humano; todavia, há também o elemento divino, e é isso que impossibilita fazer uma análise exaustiva, o que, aliás, seria uma irreverente tentativa. Ainda que reconheçamos isso, voltamos a insistir em que a oração é, fundamentalmente, uma atitude de dependência de Deus. Por conseguinte, a oração é o oposto de imposição a Deus. Visto que a oração é uma atitude de dependência, aquele que realmente ora é submisso, submisso à vontade divina; e submissão à vontade divina quer dizer que ficamos satisfeitos quando o Senhor supre nossas necessidades de acordo com os ditames de seu soberano beneplácito. E por essa razão que dizemos que toda oração feita a Deus com esse espírito traz a certeza de receber resposta da parte dele.

Aqui, pois, encontramos resposta para nossa pergunta inicial, bem como a solução bíblica para a aparente dificuldade. A oração não consiste em insistir, do Senhor Deus, para que Ele altere seus propósitos ou formule novos propósitos. Orar é assumir uma atitude de dependência para com Deus, é expor-lhe a nossa necessidade, é pedir-lhe coisas que estejam em conformidade com a sua vontade; não há, pois, absolutamente nada que seja incoerente entre a  soberania divina e a oração cristã.

Ao encerrar este capítulo, queremos proferir uma palavra de advertência, a fim de evitar que o leitor tire uma conclusão falsa daquilo que foi dito. Não temos procurado sumariar todo o ensino bíblico acerca desse assunto, nem temos procurado discutir, de modo geral, o problema da oração. Pelo contrário, temos confinado nossa atenção, mais ou menos, a uma consideração sobre o relacionamento entre a soberania de Deus e a oração cristã. O que escrevemos acima tenciona ser, principalmente, um protesto contra certos aspectos de ensinos modernos que ressaltam a tal ponto o elemento humano na oração, que o lado divino quase se perde inteiramente de vista.

Lemos,  em  Jeremias  10.23:  “Eu  sei,  Ó  SENHOR,  que  não  cabe  ao  homem determinar  o  seu  caminho,  nem  ao  que  caminha  o  dirigir  os  seus  passos” (compare Pv 16.9). O homem, entretanto, em muitas de suas orações, propõe- se, irreverentemente, a dirigir o Senhor quanto ao caminho que Ele deve seguir, quanto àquilo que Ele deve fazer, dando a entender até mesmo que, se o homem fosse  o  responsável  pelos  acontecimentos  do  mundo  e  da  igreja,  modificaria totalmente as coisas. Isso é algo inegável; porque qualquer pessoa dotada de um pouco  de  discernimento  espiritual  não  deixaria  de  perceber  tal  atitude  em muitas reuniões de oração onde impera a carne. Quão lentos somos todos nós em  aprender  a  lição  de  que  a  criatura  altiva  precisa  ser  posta  de  joelhos, humilhada até ao pó. É exatamente nessa situação que o próprio ato da oração procura colocar-nos. Mas o homem, com sua usual perversidade, transforma o escabelo em trono, de onde procura dirigir o Deus Altíssimo quanto àquilo que Ele deveria fazer! Isso deixa no espectador a impressão de que, se Deus tivesse a metade da compaixão daqueles que estão orando, logo tudo ficaria em ordem! Tal é a arrogância da velha natureza, até mesmo em um filho de Deus.

Nosso   principal   propósito,   neste   capítulo,   é   salientar   a   necessidade   de submetermos nossa vontade à vontade de Deus, em nossas orações. Contudo, também se deve acrescentar que a oração é mais do que um exercício piedoso, sendo  muito  diferente  da  realização  mecânica  de  um  dever.  A  oração,  na verdade, é um meio escolhido por Deus pelo qual podemos obter dEle o que Lhe pedimos,  sob  a  condição  de  pedirmos  coisas  que  estejam  de  acordo  com  a vontade dEle. Estas páginas terão sido escritas em vão se não levarem tanto seu autor  como  seus  leitores  a  instarem  com  maior  zelo  do  que  antes:  “Senhor, ensina-nosa orar” (Lc 11.1).

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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