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Doutrina

CONSOLO NO SOFRIMENTO – Martinho Lutero

Apresentação

Martim Lutero foi pastor, e um pastor busca no Evangelho resposta para questões que afligem o ser humano: morte, dor e sofrimento. Foram muitas as oportunidades nas quais, ao longo de toda a sua vida, teve que aconselhar pessoas que se debatiam com o medo da morte, com a dor e o sofrimento. Aqui são apresentados dois exemplos: Um sermão sobre a preparação para a morte e Um sermão sobre a contemplação do santo sofrimento de Cristo.

No primeiro dos sermões, Lutero conversa com uma pessoa, cuja principal preocupação é a morte. Seu mundo, aliás, estava impregnado pela realidade da morte. Muitos artistas pintaram, ao longo da Idade Média, cenas nas quais o “último inimigo” do ser humano vem para ceifar-lhe a vida. A própria realidade da morte estava muito presente. Seguidas vezes, irrompia a peste; depois, os exércitos turcos representavam uma constante ameaça. Por todas as partes, literalmente, via-se a presença da morte. Nos hinos, dizia-se que em meio à vida estamos cercados pela morte. Indo de encontro às preocupações dos crentes, muitos teólogos escreveram livros nos quais se fala da ars moriendi, da arte de morrer. Em 1519, um conselheiro do príncipe-eleitor da Saxônia de nome Marcos Schart também se dirigiu a Lutero, pedindo-lhe orientação sobre como nos devemos preparar para a morte.

Lutero procurou transmitir consolo a partir da cruz de Jesus Cristo. Neste sentido, afastou-se de uma tendência da época que era a de descrever às pessoas a morte com suas mais cruéis faces. De maneira muito sóbria, ele aponta para Jesus Cristo, aquele que na cruz venceu pecado, inferno e morte. Quem conhece Jesus Cristo em sua vida e com ele vive pode com ele viver também na morte. Durante toda a vida, temos sinais visíveis da presença de Cristo. Nestes sinais visíveis está documentada a sua presença: trata-se dos sacramentos. Como Lutero, em 1519, ainda não rompera com a doutrina sacramental da Idade Média, menciona o Batismo, a Eucaristia, a Confissão e Absolvição dos pecados e a Extrema-unção. Através do Batismo temos parte em Cristo, na Santa Ceia recebemos a Cristo, através da Confissão e da Absolvição experimentamos perdão e reconciliação, na Extrema-unção somos fortalecidos. Os sacramentos são evidências de que com sua vida, sua obediência e seu amor Jesus assumiu sobre si morte, pecado e inferno. Nos sacramentos, aprendemos a confiar na promessa de Deus. Quando os recebemos, não nos devemos deixar dominar pela questão relativa a nossa dignidade, mas pela palavra e pelo sinal que nos oferecem. A fé nos sacramentos é que torna sua recepção digna e seu recebimento adequado. Neles experimentamos a comunhão com todos os santos e anjos. Ela nos fortalece. Na hora derradeira, dependemos da fé na promessa e não de nossas forças. Notamos nas palavras e na intenção de Lutero que ele soube pensar toda a problemática da morte a partir da justificação. Quem experimenta através dos sacramentos que é aceito por Deus assim como é, este é libertado de seus medos e conflitos e aferra-se a Cristo. Isso é o que importa, tudo o mais não importa, quando a morte se coloca diante de nós. A certeza da justificação não só nos deixa viver, mas também morrerem Cristo.

No Sermão sobre a contemplação do santo sofrimento de Cristo, Lutero exercita o que poderíamos denominar de piedade luterana. Esta se centra no sofrimento (paixão), morte e ressurreição de Jesus. Conseguimos entender sua novidade quando lembramos que a contemplação foi para muitas ordens religiosas da Idade Média uma fonte inspirada da fé, tornando-se, afinal, a mais popular das devoções cristãs. Em época de muito sofrimento, cristãos contemplavam o sofrimento de Cristo e identificavam seus sofrimentos com os do Salvador. Contemplando os sofrimentos de Cristo, eram superados os próprios, e o cristão chegava a se tornar imitador de Cristo em seus sofrimentos.

Na época da Paixão de 1519, Lutero pôde posicionar-se contra a piedade e encenações da Paixão muito superficiais, afirmando que a meditação da Paixão deve levarão reconhecimento e à confissão do pecado daquele que medita. Ele deve reconhecer que é co-responsável pelo sofrimento de Cristo. Tal conhecimento, porém, é graça que nos é concedida por Deus. Lutero, porém, não pára no reconhecimento e na confissão do pecado. Num segundo momento, quem contempla deve lançar, em fé, sobre Cristo todo o pecado descoberto, pois foi Ele e não o ser humano quem o venceu na Páscoa. A certeza, porém, de que fomos libertados de todos os nossos pecados nos é dada por Deus. Libertos de nossos pecados, podemos viver seguindo o exemplo do Cristo sofredor. Aqui, novo acento do Evangelho da graça e do amor de Deus permitiu que uma velha prática fosse reinterpretada e significasse consolo evangélico. Em Cristo podemos ser libertados da fixação em nosso sofrimento para viver a partir do sofrimento de Cristo.Martin N. Dreher

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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