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Comentários Bíblicos

Efésios 1 8,9 – GORDON CLARK

Efésios 1:8,9
Gordon Haddon Clark

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

“… com a qual ele abundou para conosco em [nos dando] toda a sabedoria e prudência, fazendo-nos conhecido o segredo da sua vontade, de acordo com o seu bom propósito, que demonstrou nele…” (Efésios 1:8,9, tradução do autor).

As palavras em colchetes certamente não são uma tradução, mas uma interpretação. Leia os versículos sem as palavras em colchetes e você pode pensar que o versículo tem algum significado diferente. Se a interpolação é aceitável depende de respostas a diversas questões. A frase “em toda a sabedoria e prudência” deve ser conectada ao que precede ou ao que se segue? Isto é o mesmo que perguntar: Deus, abundando em toda a sabedoria e prudência, revelou seus segredos para nós, ou Deus nos deu sabedoria e prudência revelando-nos seus segredos? Foi prudente Deus se  revelar a nós? A prudência pode ser chamada de uma característica de Deus, ou dos homens somente?

Que a graça de Deus foi abundante tem sido feito claro o suficiente nas áreas precedentes. O Novo Testamento como um todo, com seu ensino sobre a depravação total, deixa isso ainda mais claro. E que graça maior poderia ser imaginada além daquela do divino Filho de Deus se sacrificando na cruz? Mas até onde esse versículo diz respeito, essa graça abundou em prudência e sabedoria, isto é, a prudência e a sabedoria foram dons graciosos de Deus para nós, ou foi o próprio Deus quem foi sábio e prudente ao mostrar graça? A primeira visão, a saber, de que a graça de Deus produziu sabedoria e prudência nos eleitos, pode ser apoiada pelo fato de que a prudência é uma qualidade peculiar para atribuir a Deus. Os homens podem ser prudentes, mas não é um eufemismo embaraçador, inconsistente com a onipotência e onisciência, dizer que Deus é prudente? Em segundo lugar, embora sabedoria seja de fato um atributo divino, a frase “toda a sabedoria”, “cada sabedoria”, “todo tipo de sabedoria possível”, pelo menos permite a idéia de que Deus tem dado aos homens todo tipo de sabedoria que um homem pode receber. Isso não é tornado impossível por Colossenses 2:3, que diz que em Cristo “estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento”, pois, primeiro, sabedoria não tem nenhum modificador – é “todos os tesouros”, não “todos os tipos de sabedoria”, e, em segundo lugar, Colossenses não menciona prudência. Nem Efésios 3:10 torna essa interpretação impossível, pois ali a idéia parece ser as maneiras multiformes e intricadas nas quais Deus faz conhecida sua sabedoria. Uma pessoa pode enfatizar também o substantivo ao qual o pronome relativo se refere: sua graça com a qual ele nos deu todos os tipos de sabedoria e prudência. Se a ênfase cai sobre a graça, sobre o dom divino, é inteiramente apropriado identificar sabedoria e prudência como o dom. O Novo Testamento, por diversas vezes, diz que Deus tem dado sabedoria aos seus eleitos; e isso é confirmado pela negativa em 1 Coríntios 1:17. Portanto, as traduções da Revised Standard Version, New International Version, e New American Standard estão equivocadas. A King James é ambígua.

Esse dom de sabedoria e prudência veio através do ato de Deus de revelar ou nos fazer conhecido o segredo de sua vontade. Sabedoria e prudência é o conhecimento ou compreensão da mensagem bíblica. Isso é o que Paulo quer dizer em 1 Coríntios 2:9-13. Ele contrasta a sabedoria dos homens, que Deus destruirá como 1 Coríntios 1:19 diz, com a sabedoria que Paulo prega. Paulo, certamente, pregava o evangelho, e a parte do evangelho mais proeminente nos primeiros capítulos de Coríntios é a doutrina da expiação. Essa doutrina e tudo o que a acompanha é algo que os homens não podem descobrir na experiência: ela é um segredo que Deus revela. Deus a fez conhecida (gnorisas) e através disso, nos fez sábios.

Esses segredos, essas doutrinas, são os segredos de sua vontade. Por sua vontade ou decreto eterno ele as estabeleceu como verdade. “Estabeleceu” não é exatamente o termo correto, pois ele conota um tempo antes do processo de estabelecimento ser completado. Essas doutrinas, contudo, são a verdade eterna. Pregadores populares frequentemente repetem que Deus é amor; e isso, se entendido nesse contexto bíblico, como oposto ao amor de Joseph Fletcher,1 é correto. Mas muitos pregadores, e conseqüentemente, seus ouvintes também, falham em perceber quão definitivamente Deus é a verdade. Deus não é um ser corpóreo com uma mente; ele é um ser racional sem um corpo. As doutrinas da expiação e da graça são constituintes eternos da mente de Deus, isto é, de Deus.

Deus relevou essas doutrinas, os se gredos de sua vontade. Ele não relevou toda a sua vontade ou segredos. Mas ele escolheu alguns, de acordo com o seu bom propósito, e esses ele deu aos seus profetas e apóstolos para serem registrados para nossa edificação. Que Deus faz isso ou aquilo pelo bom propósito de sua vontade foi mencionado no versículo cinco. Agora é repetido. Isso merece um comentário adicional.

Em livros cristãos que fazem alguma reivindicação de conhecimento teológico, uma pessoa ocasionalmente encontra a declaração de que Deus não age “arbitrariamente”. A maioria desses livros, contudo, não explica o que eles querem dizer. Eles parecem não conhecer qual é o significado base de arbitrário. Agostinho escreveu um livro sobre De Libero Arbitrio: Sobre o Livre-Arbítrio. Erasmo usou o mesmo título, ao qual livro Lutero replicou com seu famoso De Servo Arbitrio. Arbitrium significa a vontade; e dizer que Deus não deseja, não decreta ou age por arbítrio é contradizer uma ampla parte da Escritura. O problema é que a palavra arbitrário tem pelo menos dois significados muito diferentes no inglês.

Para citar (verbatim, mas condensado) o Merriam Webster’s Unabridged Dictionary:
Arbitrário 1. Dependente da vontade ou discrição…
2. Fixado através do exercício da vontade, ou por capricho, sem

1 Nota do tradutor: Joseph Fletcher (1905-1991) – professor americano que criou a teoria de situações
éticas na década de 1960, e foi um pioneiro no campo de bioética. Fletcher foi um acadêmico importante
envolvido nos assuntos de aborto, infanticídio, eutanásia, eugenia e clonagem. Ordenado como um
sacerdote episcopal, mais tarde ele renunciou sua crença em Deus e se tornou um ateísta.

consideração ou ajuste com referência a princípios, circunstâncias… 3. Despótico; absoluto em poder; não limitado por nenhuma lei.

Consideremos esses três significados na ordem inversa. Suponho que muitos cristãos tremeriam diante do pensamento de Deus ser despótico. Todavia, seis vezes no Novo Testamento, tanto Deus o Pai como o Senhor Jesus Cristo são chamados de Déspota.2 Certamente Deus é “absoluto em poder e não limitado por nenhuma lei [externa]”. Então, nada de errado no terceiro significado de arbitrário. O segundo significado, como declarado, é uma mistura confusa. Certamente os atos de Deus são “fixados através do exercício da vontade”; mas capricho e sem ajuste são termos inapropriados. Deus controla o mundo de forma que os eventos históricos preparam os eventos futuros; por essa razão, uma circunstância aqui e agora se encaixa em outras circunstâncias não aqui, mas também agora, e outras aqui mas não também agora, incluindo eventos passados. Se arbitrário significa capricho, e se capricho, como usual, significa desorientado, sem propósito, não-teleológico, então mui enfaticamente Deus não é arbitrário. Mas no primeiro sentido da palavra, “Dependente da vontade ou discrição”, os atos de Deus são supremamente arbitrários. Ele age de acordo com o conselho de sua vontade e por seu bom propósito. Escritores religiosos não nos fazem nenhum bem se eles minimizam a soberania divina.

Agora, a última frase do versículo é “que ele proetheto nele”. Weymouth a traduz assim: “O propósito que ele tem abrigado em sua própria mente”. O pronome relativo que deve se referir a “bom propósito”, e “bom propósito que ele abrigou” é muito redundante. Em todo caso, abrigou é uma tradução virtualmente impossível de proetheto. O verbo literalmente significa “colocar diante”. Ele poderia significar “colocar a si mesmo como um projeto para ser realizado”; e aqueles que optam por essa tradução apontam que Cristo é mencionado depois e, portanto, não pode ser intentado aqui. Mas, primeiro, Paulo frequentemente repete o nome Cristo: três vezes nos primeiros dois versículos, duas vezes no versículo 3, e uma vez no versículo cinco. Repetição, portanto, não é uma boa razão para negar que esse pronome pode se referir a Cristo. Então, em segundo lugar, o verbo colocar diante na voz média (verbos gregos têm uma voz média assim como vozes ativas e passivas) também significa mostrar. Romanos 3:25 tem a mesma forma exata: a quem Deus proetheto, colocou diante, mostrou publicamente, como uma propiciação. Uma pessoa deve observar que o versículo começa com a idéia de revelação. Deus revelou certas doutrinas, que ele selecionou por escolha arbitrária ou bom propósito, cujo bom propósito ele demonstrou por Cristo. Essa interpretação também se encaixa muito bem com o versículo seguinte, o qual, sem nenhuma surpresa, é a continuação da mesma sentença.

Fonte: Ephesians, Gordon Clark, Trinity Foundation, páginas 17-22.
2 Nota do tradutor: O grego despotēs (δεσπότης) com referência à Deus, frequentemente
traduzido como Senhor, aparece nas seguintes passagens: Lucas 2:29, Atos 4:24, 2 Pedro 2:1,
Judas 1:4, Apocalipse 6:10 e 2 Timóteo 2:21.

 

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Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 66 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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