Aviso

Somos um site cristão, em conformidade com os padrões reformados, não concordamos obrigatoriamente com as opiniões emitidas nos livros postados, todavia, sabemos que um cristianismo saudável somente pode ser exercido através do conhecimento. Desta forma, sigamos o conselho do apóstolo: “Julgai todas as coisas, retende o que é bom”. Louvado seja Deus!

ESTATÍSTICAS

vivendopelapalavra.com
Na internet desde Outubro/2011
Total de visitas até maio de 2019:
1.086.374
Total de páginas visitadas até maio 2019:
2.895.104

Mais Baixados

Literatura clássica

JOSEFINA, A CANTORA OU O POVO DOS RATOS – KAFKA

Franz Kafka

Josefina, a cantora ou o Povo dos Ratos

NOSSA CANTORA SE CHAMA JOSEFINA. Quem não a ouviu não conhece o poder do canta . Não há quem não se deixe arrebatar por seu canto, prova maior de seu valor uma vez que, em geral, nossa raça não aprecia a música. A quietude  é nossa música preferida; nossa vida é dura, não somos mais capazes, mesmo quando tentamos nos livrar das preocupações do dia-a-dia, de nos elevar a algo tão distante de nossa rotina visual quanto a música. Mas não nos lamentamos muito, nem mesmo nos queixamos; uma certa astúcia prática, que admitimos nos ser praticamente indispensável, é o que consideramos ser nossa maior virtude, e com um sorriso proveniente dessa mesma astúcia pretendemos nos consolar de todos os problemas, mesmo quando nos invade — o que jamais acontece — a falta da felicidade que talvez produza a música. Josefina é a exceção; ela ama a música e sabe como transmiti-la; ela é a única; com sua more, também a música — quem sabe por quanto tempo — desaparecera de nossas vidas.

Já me perguntei muitas vezes o que realmente significa a sua música.

Porque somos totalmente não-musicais; como podemos então compreender o canto de Josefina ou pelo menos, já que Josefina afirma que não o fazemos. pensar que o compreendemos? A resposta mais simples seria que a beleza de seu canto é tão grande que nem mesmo os mais insensíveis podem ignorá-la, mas essa resposta é insuficiente. Se realmente assim fosse , seu canto deveria proporcionar a quem o ouve uma imediata e duradoura sensação de algo extraordinário, a sensação de que de sua garganta ressoa algo que nunca ouvimos antes e nem mesmo temos capacidade de ouvir, algo que somente Josefina, e ninguém mais, faz com que sejamos capazes de ouvir. Na verdade, minha opinião é outra, não é isso o que sinto e nunca percebi que outros o sentissem. Entre amigos, admitimos claramente que, como canto, o canto de Josefina nada tem de extraordinário.

Para começar, é de canto que se trata? Apesar de nossa falta de musicalidade, temos uma tradição de canto; em tempos remotos, nosso povo cantava; isso é mencionado em lendas e algumas canções chegaram a sobreviver, ainda que atualmente ninguém seja capaz de cantá-las. Temos então uma idéia do que seja o canto e é evidente que a arte de Josefina não corresponde a tal idéia. Assim, é de canto que se trata? Não seria talvez um simples chiado? E sabemos todos que o chiado é a real aptidão artística de nosso povo, ou, mais do que uma aptidão, nossa característica expressiva vital. Todos nós chiamos, mas evidentemente a ninguém ocorre que nosso chiado seja uma arte, chiamos sem pensar, até mesmo sem perceber, e há muitos entre nós que sequer sabem que chiar é uma de nossas características.

Então, se fosse verdade que Josefina não canta mas apenas chia e talvez, como parece pelo menos a mim, seu chiado não ultrapasse os limites de um chiado comum — talvez até sua força nem mesmo chegue a igualar nosso chiado habitual, enquanto um simples lavrador pode chiar o dia inteiro sem se cansar, mesmo fazendo o seu trabalho —; se tudo isso fosse verdade, seriam então de imediato refutadas as alegadas habilidades vocais de Josefina, o que apenas traria à luz o verdadeiro enigma a ser solucionado, a enorme influência por ela exercida.

Porque, afinal, é um chiado o som que ela produz. Se nos pomos à escuta bem longe dela, ou melhor, se colocamos à prova nosso discernimento tentando identificar sua voz quando seu canto nos chega misturado a outras vozes, só conseguimos perceber, sem sombra de dúvida, um vulgar chiado que, no máximo, difere dos outros por sua delicadeza ou sua fragilidade. Se, entretanto, estamos diante dela, já não ouvimos um mero chiado; para compreender sua arte é necessário não apenas ouvi-la mas também vê-la.

Ainda que se tratasse de nosso habitual chiado cotidiano, haveria, antes de tudo, esta peculiaridade a considerar, o fato de estarmos diante de alguém que se prepara solenemente para executar um ato cotidiano. Quebrar uma noz não é exatamente um grande feito, portanto ninguém se atreveria a reunir uma platéia a fim de entretê-la com quebra-nozes. Mas se ainda assim alguém o faz e com isso consegue entre ter a platéia, então já não se trata de simplesmente quebrar nozes. Ou talvez se trate simplesmente de quebrar nozes, mas então descobrimos que havíamos negligenciado por completo a arte de quebrar nozes porque nela éramos mestres e que esse recém-chegado quebrador de nozes nos está mostrando pela primeira vez sua verdadeira essência, chegando até a considerar importante aparentar ser menos hábil em quebrar nozes do que a maioria de nós.

Talvez aconteça o mesmo com o canto de Josefina; admiramos nela o que não admiramos em nós mesmos; a respeito disso, devo dizer, ela concorda inteiramente conosco. Eu estava presente, uma vez, quando alguém, como muitas vezes acontece, referiu-se ao chiado popular que se ouvia por toda parte, referência aliás bastante tímida, mas para Josefina aquilo era mais que o suficiente. Eu nunca tinha visto sorriso mais sarcástico e arrogante do que o seu naquele instante; ela, que aparenta ser a personificação da delicadeza, destacando-se mesmo em meio a nosso povo tão rico de tais tipos femininos, chegou naquele momento a parecer realmente vulgar; aliás, com sua extrema sensibilidade, ela imediatamente se deu conta do que fazia e se controlou. A qualquer preço ela nega qualquer relação entre sua arte e o prosaico chiado. Por aqueles cuja opinião é contrária, sente apenas desprezo e, provavelmente, um ódio inconfesso. Não se trata de simples vaidade, porque tais opositores, com os quais de certa forma concordo, com certeza não a admiram menos do que a multidão, mas Josefina não se conforma com a simples admiração, quer ser admirada exatamente do modo que determina, a simples admiração a  deixa indiferente. E, quando nos sentamos diante dela, podemos compreendêla; a oposição só é possível à distância; quando se está diante dela, sabe-se: seus chiados não são chiados.

Como chiar é um de nossos hábitos inconscientes, poder-se-ia supor que as pessoas na platéia de Josefina também chiariam; sua arte faz com que nos sintamos felizes e, quando estamos felizes, chiamos; mas sua platéia nunca chia, ficam todos quietos como ratos; como se nos tornássemos parte da paz que tanto desejamos, da qual nosso próprio chiado nos afastaria, nos calamos. É seu canto que nos encanta ou será ainda mais o solene silêncio que envolve sua voz pequenina e frágil? Uma vez, enquanto Josefina cantava, uma criaturinha começou inocentemente a chiar também. Ora, era exatamente o mesmo que Josefina nos fazia ouvir; diante de nós o som do chiado que, apesar de todos os ensaios, era ainda inseguro, e na platéia o involuntário chiado de uma criança; teria sido impossível distinguir a diferença; mas ainda assim saiamos e assobiamos para calar o intruso, embora na verdade isso não fosse necessário, pois o mesmo teria imediatamente se retirado com medo e vergonha, enquanto Josefina lançava suas notas mais triunfais e chegava a ficar fora de si, abrindo os braços e esticando o pescoço até não poder mais.

Ela é sempre assim, qualquer ninharia, qualquer incidente Inesperado, qualquer aborrecimento, um estalo no assoalho, um ranger de dentes, um defeito na iluminação, tudo lhe serve de pretexto para ressaltar o efeito de seu canto; ela de algum modo acredita que canta para ouvidos surdos; aprovação e aplauso não lhe faltam, mas há muito aprendeu a não esperar pela verdadeira compreensão, do modo como a concebe. Por isso toda perturbação lhe é bemvinda; qualquer interferência externa que ofusque a pureza de seu canto, a ser superada com um pequeno esforço, até mesmo sem esforço algum, pelo simples confronto, pode ajudar a acordar as multidões, a ensinar-lhes talvez não a compreensão mas um respeito intimidado.

E, se os pequenos contratempos lhe prestam tal serviço, o que não fazem os grandes! Nossa vida é muito agitada, cada novo dia nos traz surpresas, apreensões, esperanças e terrores, tanto que seria impossível para um único indivíduo suportá-la se não puder contar, dia e noite, com o apoio de seus companheiros; mas ainda assim tudo fica às vezes muito difícil; com freqüência, pelo menos mil pares de ombros tremem sob uma carga na verdade destinada a um só. Josefina, então. acredita que sua hora chegou.

Então se ergue, a delicada criatura, abalada por vibrações sobretudo debaixo do osso esterno, a tal ponto que nos preocupamos com ela, como se ela tivesse concentrado toda a sua força em seu canto, como se toda a energia tivesse sido retirada de tudo nela que não seja diretamente destinado ao canto, quase toda a força vital, como se ela se tivesse desnudado, abandonado, entregue apenas aos cuidados dos anjos da guarda, como se então, estando ela tão inteiramente absorvida e vivendo apenas em seu canto, um sopro frio lançado sobre ela pudesse matá-la.

Mas exatamente quando ela assim se apresenta, nós que nos declaramos seus oponentes costumamos dizer:

— Ela nem mesmo consegue chiar; tem que fazer um esforço tão terrível para conseguir emitir um canto — não podemos chamar aquilo de canto — mas algo parecido com nosso habitual chiado comum.

Assim nos parece, mas tal impressão, ainda que, como eu já disse, inevitável, é efêmera e fugaz. Mergulhamos nós também no sentimento da multidão que, corpos calorosamente comprimidos uns contra os outros, a escuta com a respiração suspensa.

E para reunir ao seu redor esse nosso povo que está quase sempre com pressa e correndo de um lado para outro por razões nem sempre muito claras. Josefina praticamente nada precisa fazer além de se levantar, cabeça jogada para trás, boca semi-aberta, olhos voltados para cima, na posição que revela sua intenção de cantar. Ela pode fazer isso onde quiser, não é preciso que seja um lugar visível de longe, qualquer cantinho escondido escolhido no capricho do momento fará o mesmo efeito. A notícia de que ela vai cantar corre imediatamente e logo para lá acorrem procissões inteiras. Mas às vezes, do mesmo modo, obstáculos aparecem. Josefina prefere cantar exatamente quando as coisas estão mais agitadas, diversas preocupações e perigos nos forçam então a seguir por caminhos errados, nem com a maior boa vontade do mundo poderíamos nos reunir tão depressa quanto quer Josefina, e nessas ocasiões ela fica lá, solene, por um bom tempo, à espera de um público suficiente — então ela fica realmente furiosa, sapateia, xinga de um modo nada virginal, chega até a morder. Mas nem mesmo tal comportamento mancha sua reputação; em vez de refrear um pouco suas exageradas exigências, as pessoas se empenham em satisfazê-las; mensageiros são enviados para convocar novos ouvintes; ela é mantida na ignorância do que está sendo feito; pelas estradas vizinhas podem ser vistas sentinelas lá postadas, acenando aos recém-chegados para apressá-los; isso continua até que se consegue reunir uma platéia razoavelmente numerosa.

O que leva o povo a fazer tanto esforço por Josefina? Pergunta tão difícil de responder quanto a que se referia ao canto de Josefina, à qual está intimamente ligada. Poderíamos suprimi-la e combinar ambas numa nova pergunta, se seria possível garantir que por causa de seu canto as pessoas eram tão incondicionalmente devotadas a Josefina. Mas não é o caso; a devoção incondicional é muito pouco conhecida entre nós; somos um povo que ama a astúcia acima de tudo, sem qualquer malícia, certamente, e os cochichos ingênuos e a tagarelice inocente, uma tagarelice superficial, certamente, mas gente desse tipo não se entrega à devoção incondicional, e isso Josefina com certeza percebe, e é contra isso que luta com toda a força de sua frágil garganta. Ao fazer declarações tão generalizadas, é claro, não deveríamos ir longe demais, nosso povo é realmente devotado a Josefina, só que não incondicionalmente. Por exemplo, ninguém seria capaz de rir de Josefina. É preciso admitir, há muita coisa em Josefina capaz de provocar o riso; e o riso em si mesmo nunca está distante de nós; apesar de toda a miséria de nossas vidas, o riso tranqüilo está sempre, por assim dizer, nos rondando; mas de Josefina não rimos. Tive muitas vezes a impressão de que nosso povo interpreta sua relação com Josefina desta maneira, como se ela, essa frágil criatura, precisando de proteção e de certo modo notável — notável pela sua força lírica, na opinião dela —, fosse sua responsabilidade e como se devessem cuidar dela; a razão de tal sentimento não é clara, mas o fato parece indiscutível. Mas o que é responsabilidade de alguém não pode ser motivo de riso; rir seria faltar ao dever; a maledicência maior de que o mais maledicente entre nós é capaz em relação a Josefina é dizer de vez em quando: “A visão de Josefina já basta para fazer alguém parar de rir.”

Assim cuida o povo de Josefina, como cuidaria um pai da criança cuja mãozinha — não se pode afirmar se para pedir ou exigir — lhe é estendida. Poder-se-ia pensar que nosso povo não é feito para desempenhar tais funções paternas, mas na verdade ele as desempenha, pelo menos nesse caso, admiravelmente bem; nenhum indivíduo poderia fazer o que a esse respeito é capaz de fazer a totalidade do povo. Em verdade, a diferença em força entre o povo e o indivíduo é tão enorme que basta ao protegido ser envolvido pelo calor de sua proximidade para estar suficientemente protegido. Com Josefina, sem dúvida, ninguém se atreve a mencionar tais idéias. “Sua proteção não vale uma velha canção”, diz ela. Está bem, está bem, velha canção, pensamos nós. E além do mais, seu protesto não é bem uma teimosia, é mais um jeito infantil de ser e uma gratidão infantil, enquanto o jeito de ser de um pai é não dar muita atenção a isso. Mas há algo mais por trás disso que não é tão fácil de explicar através da relação entre o povo e Josefina. Josefina, é preciso que se diga, pensa exatamente o contrário, acredita que é ela quem protege o povo. Quando estamos numa crise política ou econômica, seu canto é nossa salvação, nada menos do que isso, e, se não a fasta o mal, ao menos nos dá forças para enfrentá-la. Ela não o diz com essas palavras ou com quaisquer outras, de qualquer modo ela fala muito pouco, fica calada entre os tagarelas, mas o que pensa jorra de seus olhos, e em sua boca fechada — poucos dentre nós conseguem manter a boca fechada. mas ela consegue — tudo é perfeitamente legível. Sempre que recebemos más notícias — e em muitos dias as más notícias chegam umas atrás das outras, mentiras e meias-verdades incluídas — ela de imediato se levanta, já que em geral fica sentada distraída no chão, se levanta e estica o pescoço e tenta ver por sobre as cabeças de seu rebanho como um pastor antes da tempestade.

É sem dúvida um hábito das crianças, no seu jeito indomado e impulsivo, fazer tais alegações, mas as de Josefina não são tão infundadas quanto as das crianças. Por certo ela não nos salva e não nos dá forças, é fácil para alguém posar de salvador do nosso povo, habituado que ele está ao sofrimento, temerário, rápido nas decisões, familiarizado com a morte, acanhado apenas na aparência, na atmosfera de despreocupada audácia que respira sem cessar, e além disso tão prolífico quanto corajoso; é fácil, digo, alguém posar, a posteriori, de salvador do nosso povo, que de algum modo sempre conseguiu se salvar, mesmo a custo de sacrifícios que deixam os historiadores — em geral ignoramos por completo a pesquisa histórica — horrorizados. É também verdade, entretanto, que exatamente nas emergências prestamos mais atenção do que em outros tempos à voz de Josefina. As ameaças suspensas sobre nós nos tornam mais quietos, mais humildes, mais submissos à dominação de Josefina; gostamos de ficar juntos, gostamos de nos amontoar uns contra os outros, sobretudo em momentos que nada têm a ver com os problemas que nos preocupam; é como se estivéssemos bebendo com muita pressa — sim, é preciso pressa. Josefina com freqüência se esquece — de uma taça de paz em comum antes da batalha. Trata-se menos de um espetáculo de canto do que de uma assembléia do povo, e uma assembléia onde, exceto pela vozinha que chia à frente de todos, reina um absoluto silêncio; o momento é grave demais para que o desperdicemos em conversas.

Uma relação desse tipo, certamente, jamais satisfaria Josefina. Apesar de todo o estado de nervos que toma conta de Josefina devido ao fato de que sua posição nunca ficou muito clara, ainda há muita coisa que ela não vê, cega por sua presunção, e ela pode com muita facilidade ser levada a desconsiderar muitas outras: um enxame de aduladores está sempre cuidando disso, prestando assim um serviço público — para ser apenas uma intérprete incidental e despercebida, num cantinho, em meio a um agrupamento do povo, ainda que em si não fosse pouca coisa, por isso ela não faria por nós o sacrifício de cantar.

Nem precisa fazer, pois sua arte não passa despercebida. Ainda que estejamos no fundo preocupados com muitas outras coisas e não seja em absoluto porque ela canta que a quietude prevalece e embora mais de um ouvinte sequer olhe para cima e esconda a cara no pêlo de seu vizinho, de tal modo que Josefina de pé lá na frente pareça estar se esforçando à toa, ainda assim há algo — não se pode negar — que irresistivelmente nos atinge a partir do chiado de Josefina. Esse chiado, que se eleva quando todos os demais estão entregues ao silêncio, chega quase como uma mensagem de todo o povo a cada indivíduo; o tênue chiado de Josefina em meio às graves decisões é quase como a precária existência de nosso povo em meio ao tumulto de um mundo hostil. Josefina se esforça, uma coisinha de nada em voz, uma coisinha de nada em interpretação, ela se impõe e nos chega à alma; pensar nisso nos faz bem. Nesses momentos, não conseguiríamos suportar um cantor realmente experiente, supondo que pudesse haver algum entre nós, e unânimes daríamos as costas à insensibilidade de semelhante espetáculo. Que Josefina nunca descubra que o simples fato de a escutarmos é a prova de que não é uma cantora. Alguma idéia a respeito ela deve ter, ou não afirmaria com tanta veemência que não a ouvimos, mas continua cantando e chiando para afastar essa idéia.

Há outras coisas, porém, que poderiam consolá-la: nós realmente a ouvimos, num certo sentido, talvez do mesmo modo que se ouve uma cantora experiente; ela consegue efeitos que um grande artista tentaria em vão conquistar entre nós e que só são alcançados exatamente por serem seus recursos tão inadequados. Para tanto, sem dúvida, contribui sobretudo nosso modo de viver.

Em nosso povo não se conhece a juventude e a muito custo há uma curta infância. Regularmente, é verdade, surgem projetos para que se concedam às crianças uma liberdade especial, uma proteção especial, para que seu direito de ser um pouco despreocupadas, de ter um pouco de fantasia inconsistente, um pouco de brincadeira, para que tal direito seja respeitado e encorajado o exercício do mesmo; tais projetos são apresentados e quase todos os aprovam, nada merece maior aprovação, mas nada também, na realidade de nossa vida diária, tem menos probabilidades de ser aprovado; tais projetos são aprovados, tentativas são feitas para pô-los em prática, mas bem depressa estão de volta os velhos tempos. Nossa vida é tal que uma criança, tão logo pode correr um pouco e perceber um pouco da diferença entre uma coisa e outra, já deve ganhar a vida, como um adulto; as regiões nas quais, por razões econômicas, precisamos viver dispersos, são vastas demais, nossos inimigos numerosos demais, os perigos à espreita por toda parte incalculáveis demais — não podemos manter nossas crianças ignorantes da luta pela sobrevivência, se assim fizéssemos, isso as levaria à morte prematura. Tais deprimentes considerações são reforçadas por outra, que não é deprimente: a fertilidade de nossa raça. Uma geração — e cada uma é maior que a anterior — vem nos calcanhares da outra, as crianças não têm tempo de ser crianças.

Outras raças podem criar seus filhos com cuidado, escolas podem ser construídas para suas crianças, dessas escolas podem fluir diariamente crianças, o futuro da raça, e são sempre as mesmas crianças que delas saem, todos os dias, por muito tempo. Não temos escolas, mas de nossa raça brotam a brevíssimos intervalos nossos inúmeros bandos de crianças, alegremente ciciando ou chilrando enquanto não sabem ainda chiar, rolando ou girando sob a pressão geral enquanto não podem correr, arrastando desajeitadamente tudo a sua frente enquanto não podem ver, nossas crianças! E não as mesmas crianças, como naquelas escolas, não, sempre novas crianças, mais e mais, sem fim, sem trégua, tão logo surge uma criança e já não é mais criança, enquanto atrás dela novas carinhas infantis já se amontoam tão depressa e tão juntas que se tornam indistinguíveis, rosadas de felicidade. Na verdade, por mais encantador que isso possa ser e embora muitos outros possam, com razão, nos invejar por isso, simplesmente não podemos dar às nossas crianças uma verdadeira infância. E isso tem conseqüências. Uma espécie de inesgotável e arraigada infantilidade atinge o nosso povo; em direta oposição com o que há de melhor em nós, nosso infalível senso prático, com freqüência nos portamos com a mais rematada insensatez, exatamente a mesma insensatez das crianças, inconscientes, desperdiçadores, grandiosos, irresponsáveis, e tudo isso muitas vezes em nome de alguma diversão trivial.

E ainda que nosso prazer daí derivado não possa, é claro, ser tão intenso quanto o prazer de uma criança, algo desse prazer sem dúvida sobrevive. Dessa infantilidade de nosso povo também Josefina se aproveita desde o início.

Mas nosso povo não é apenas infantil, somos também em certo sentido prematuramente velhos. A infância e a velhice não nos chegam como aos outros. Não temos juventude, logo somos todos adultos e então permanecemos adultos por tempo demais, daí se originando um certo cansaço e uma certa desesperança que deixa uma profunda marca na natureza do nosso povo, em geral resistente e esperançoso. Nossa falta de dotes musicais está com certeza relacionada a isso; somos velhos demais para a música, sua emoção, seu arrebatamento não convêm ao nosso peso, cansados, nós a pomos de lado; contentamo-nos com o chiado; um pouco de chiado aqui e ali nos é suficiente. Quem sabe, talvez haja entre nós talentos para a música; mas se os houvesse, o temperamento de nosso povo os anularia antes que pudessem desabrochar. Josefina, por outro lado, pode chiar tanto quanto queira, ou cantar, ou como ela preferir chamá-lo, isso não nos perturba, isso nos convém, podemos perfeitamente tolerar; qualquer música que possa aí existir é reduzida a sua menor expressão, uma certa tradição musical é preservada, sem que nos cause o menor desconforto.

Mas nosso povo, sendo como é, ganha algo mais com Josefina. Em seus concertos, sobretudo em tempos de estresse, só os muito jovens se interessam pelo seu canto enquanto canto, apenas eles a observam com assombro quando ela franze os lábios, expele o ar por entre seus lindos dentes da frente, quase desfalece de puro deslumbramento com os sons que ela própria produz e depois de tal desmaio eleva seu desempenho a novas e mais incríveis alturas, enquanto a verdadeira massa do povo —é fácil perceber — está mergulhada em si mesma. Aqui, nos breves intervalos entre suas lutas, o povo sonha, é como se os membros de cada um se soltassem, como se o mais atormentado indivíduo pudesse de vez em quando relaxar e se espreguiçar à vontade no amplo e aquecido leito da comunidade. E nesses sonhos o chiado de Josefina goteja nota a nota; ela o chama de gotas de pérola, nós o chamamos staccato;

mas de qualquer modo ele ali está no lugar certo, como em nenhum outro, encontrando o momento — esperamos por ele — como raramente a música consegue. Há ali algo de nossa pobre e breve infância, algo de felicidade perdida que nunca mais pode ser encontrada, mas também algo da ativa vida diária, de suas pequenas alegrias, irresponsáveis e ainda assim borbulhantes e impossíveis de se conter. Tudo isso se exprime não em sons profundos, mas suavemente, aos sussurros, em confidências, às vezes um pouco roucos. Sem dúvida é uma espécie de chiado. Por que não? O chiado é a fala diária de nosso povo, só que muitos chiam por toda a vida e não sabem, enquanto aqui o chiado se liberta das amarras da vida diária e também nos liberta por alguns instantes. Com certeza não queremos ficar sem esses espetáculos.

Mas há uma grande, grande distância entre isso e a afirmação de Josefina de que ela nos dá novas forças e daí por diante. Para as pessoas comuns, ao menos, não para seu séqüito de aduladores.

— Que outra explicação pode haver? — dizem eles com descarado atrevimento. — De que outro modo se poderia explicar a grande afluência do público, sobretudo quando o perigo é iminente, que mais de uma vez impediu que as devidas precauções fossem tomadas a tempo para afastar o perigo? Ora, essa última pergunta é infelizmente verdadeira, mas dificilmente pode ser considerado um título de glória para Josefina, sobretudo considerando-se que, quando tais grandes platéias foram arrasadas de surpresa pelo inimigo e muitos dos nossos ali deixados para morrer. Josefina, a responsável por tudo isso, e que talvez tenha até mesmo com seu canto atraído o inimigo, sempre ocupou o lugar mais seguro e foi sempre a primeira a escapar depressa e em silêncio, sob a proteção de seu guarda-costas. Todos sabem disso e ainda assim as pessoas continuam a afluir a qualquer lugar escolhido por Josefina, a qualquer momento em que ela se levante para cantar. Poder-se-ia diante disso argumentar que Josefina se coloca acima da lei, que ela faz o que bem entende, arriscando-se a pôr em perigo a comunidade, e que tudo lhe é perdoado. Se assim fosse, até mesmo as queixas de Josefina seriam totalmente compreensíveis, sim, nessa liberdade que lhe é concedida, nessa extraordinária vantagem que lhe é concedida e a ninguém mais, em direta contravenção legal, poder-se-ia ver uma admissão do fato de que o povo não compreende Josefina, exatamente como ela afirma, de que ele se deslumbra, impotente, diante de sua arte e dela se sente indigno, tenta amenizar a mágoa que lhe provoca fazendo por ela sacrifícios realmente desesperados e, assim como sua arte está além de sua compreensão, considera sua arte sua personalidade e seus desejos além de sua jurisdição. Bem, isso está longe de ser verdade; talvez, enquanto indivíduos, o povo possa se render facilmente a Josefina, mas, como um todo, esse povo não se rende incondicionalmente, a ninguém e também não a ela.

Desde há muito, talvez desde o início de sua carreira artística. Josefina vem lutando pela isenção de todo o trabalho diário, por conta de seu canto; ela seria dispensada de qualquer responsabilidade de ganhar seu pão de cada dia e de se envolver na luta geral pela sobrevivência, que deveria ser — aparentemente — em seu nome transferida para o povo como um todo. Um crédulo entusiasta — e já os houve — pode argumentar, diante do insólito de tal reivindicação e da atitude espiritual necessária para apresenta-la, que há nela uma justificativa. Mas nosso povo tira outras conclusões e com tranqüilidade a recusa. Sequer se preocupa muito em contestar seus fundamentos. Josefina argumenta, por exemplo, que o esforço do trabalho é prejudicial a sua voz, que evidentemente o esforço do trabalho

nada é diante do esforço de cantar, mas ele a impede de ser capaz de descansar o suficiente depois de cantar e de se recuperar para cantar mais, suas forças são completamente exauridas e ela, em tais circunstâncias, jamais consegue chegar ao ápice de suas possibilidades. O povo ouve seus argumentos e não lhes dá atenção. Nosso povo, capaz de com tanta facilidade se comover, às vezes por nada se comove. Sua recusa é às vezes tão clara, que até mesmo Josefina é apanhada de surpresa, parece se submeter, faz sua própria cota de trabalho, canta o melhor que pode, mas sempre por algum tempo; então, com força renovada — para esse objetivo suas forças parecem inesgotáveis — parte outra vez para o ataque.

É evidente, porém, que o verdadeiro desejo de Josefina não é o que ela coloca em palavras. Ela é honrada, não é preguiçosa, fugir do trabalho, aliás, é algo praticamente desconhecido entre nós, se sua reivindicação fosse aceita

ela com certeza continuaria a viver como antes, o trabalho não lhe atrapalharia o canto nem cantaria ela muito melhor — o que ela deseja é o reconhecimento público, inequívoco e permanente de sua arte, muito acima de qualquer outro precedente até então conhecido. Mas embora quase tudo mais pareça ao seu alcance, tal reconhecimento lhe foge sem cessar. Talvez ela devesse adotar uma outra linha de ataque desde o início, talvez ela própria percebesse que sua abordagem não é adequada, mas agora ela não pode voltar atrás, recuar seria desleal para com ela mesma, agora é obrigada a lutar ou morrer por sua reivindicação.

Se ela realmente tivesse inimigos, como diz, eles poderiam se divertir  muito observando essa luta, sem ter que mover um dedo. Mas ela não tem inimigos e, mesmo que seja criticada aqui e ali, ninguém acha divertida sua luta. Exatamente porque o povo se mostra aqui sob um frio aspecto de juiz,

poucas vezes visto entre nós. E embora alguns possam aprovar tal atitude, a simples idéia de que tal aspecto possa algum dia se voltar contra eles mesmos impede que qualquer conclusão daí derive. O importante, tanto na recusa do povo quanto na reivindicação de Josefina, não é o ato em si, mas o fato de que o povo é capaz de apresentar uma barreira empedernida e impenetrável a um dos seus e que tal barreira é ainda mais impenetrável porque em outros aspectos ele demonstra um cuidado paternal e ansioso, e até mais do que um cuidado paterno, em relação a esse mesmo membro de sua comunidade.

Suponhamos que, em vez do povo, tivéssemos que lidar com um indivíduo: poder-se-ia imaginar que tal homem tivesse se curvado todo o tempo diante de Josefina e simultaneamente nutrido um ardente desejo de um belo dia pôr um ponto final a sua submissão; que ele tivesse feito sacrifícios sobrehumanos por Josefina na firme convicção de que haveria um limite natural a sua capacidade de sacrifício; sim, que ele se tivesse sacrificado mais do que seria necessário apenas para acelerar o processo, apenas para corromper Josefina e encorajá-la a reivindicar mais e mais até que ela realmente chegasse ao limite máximo com um último pedido; e que ele então acabasse com ela, com uma recusa final que seria lacônica por ter sido guardada por muito tempo. Ora, não é assim que se passam as coisas, o povo não precisa de tais artimanhas, além disso, seu respeito por Josefina é genuíno e comprovado e as reivindicações de Josefina são antes de tudo tão exageradas que qualquer criancinha lhe poderia ter dito qual seria o resultado; mas pode ser que tais considerações façam parte do modo de Josefina ver as coisas e tenham assim somado uma certa amargura à dor da recusa. Mas sejam quais forem suas idéias a respeito, ela não as deixa detê-la em sua luta. Há pouco tempo, chegou a intensificar seus ataques; até então usava apenas palavras como armas, mas agora começa a recorrer a outros meios, que na sua opinião se provarão mais eficazes mas que nós pensamos poder colocá-la em perigos maiores.

Muitos acreditam que Josefina esteja se tornando tão insistente porque se sente envelhecer e sente sua voz começando a falhar, então pensa ter chegado a hora de travar sua última batalha pelo reconhecimento. Eu não acredito.

Josefina não seria Josefina se isto fosse verdade. Para ela, não existe velhice, nem enfraquecimento de sua voz. Se faz exigências, não é devido a circunstâncias externas e sim a sua lógica interior. Se almeja os mais altos louros não é por estarem no momento mais acessíveis, mas por serem os mais altos; se dependesse dela, estariam mais altos ainda.

Essa desconsideração pelas dificuldades externas, para dizer a verdade, não a impede de empregar os piores métodos. Seus direitos lhe parecem inquestionáveis; então não importa como os faz valer, sobretudo se nesse mundo, como ela o vê, os métodos lícitos estão fadados ao fracasso? Talvez por isso tenha transferido a luta pelos seus direitos do campo da canção para outro que lhe interessa muito pouco. Seus simpatizantes fizeram saber que,

em suas próprias palavras, ela se sente perfeitamente

capaz de cantar de tal modo que todos os níveis de público, mesmo os mais ferrenhos centros de oposição, considerariam um verdadeiro deleite, um verdadeiro deleite não pelos padrões populares, pois o povo afirma que seu canto sempre lhe deu prazer, mas um deleite de acordo com seus próprios padrões. Entretanto, acrescenta ela, já que não pode adulterar os mais altos padrões nem corromper os mais baixos, seu canto terá que ficar como é. Mas quando se trata de sua campanha pela isenção do trabalho, a história é outra; trata-se, é claro, de uma campanha em prol de seu canto, mas como não está lutando diretamente com a inestimável arma de seu canto, qualquer instrumento é válido. Difundiu-se, então, por exemplo, o boato de que Josefina estaria decidida a cortar drasticamente todos os floreados em seu canto, caso sua petição não fosse aceita. Eu nada entendo de floreados, e nunca os percebi no canto de Josefina. Mas Josefina vai reduzir seus floreados, não, por enquanto, eliminá-los por completo, apenas reduzi-los. É possível que tenha cumprido sua ameaça, embora no que me diz respeito nenhuma diferença se perceba em sua apresentação. O povo ouviu como sempre, sem fazer qualquer observação relativa aos floreados, nem mudou uma vírgula em sua resposta à petição. É preciso admitir que o modo de pensar de Josefina, como sua aparência, é muitas vezes encantador. Assim por exemplo, depois daquele espetáculo, como se sua decisão quanto aos floreados tivesse sido severa demais ou representasse uma mudança repentina demais para o povo, ela anunciou que na próxima vez voltaria a cantar com todos os floreados. Mas depois do concerto seguinte voltou a mudar de idéia, teria que suprimir em definitivo aquelas grandes árias com floreados e não voltaria a cantá-las até que fosse favorável o parecer relativo a sua petição.

Bem, o povo deixou que todos aqueles avisos, decisões e contradecisões entrassem por um ouvido e saíssem por outro, como um adulto imerso em pensamentos que ouvisse sem dar atenção o balbuciar de uma criança, em princípio sem más intenções, mas inacessível.

Josefina, entretanto, não desiste. Outro dia, por exemplo, declarou que havia machucado o pé enquanto trabalhava, então era-lhe difícil ficar de pé para cantar; mas, como não podia cantar sem ser em pé, suas canções precisariam ser agora abreviadas. Embora ela manque e se apóie em seus simpatizantes, ninguém acredita que esteja realmente machucada. Admitindo que seu frágil corpo fosse hipersensível, ela ainda é uma de nós e nós somos uma raça de trabalhadores; se começássemos a mancar a cada vez que nos arranhássemos, o povo inteiro jamais deixaria de mancar. Mas ainda que ela se deixe carregar como uma inválida, ainda que se apresente nessas patéticas condições mais vezes do que o normal, o povo continua, tão agradecido e encantado como antes, a ouvir seu canto, mas não se incomoda muito com a abreviação de suas canções.

Como não pode continuar mancando para sempre, ela pensa em outra coisa, alega que está cansada, não tem ânimo para cantar, que se sente fraca.

Então temos um espetáculo teatral somado ao espetáculo musical. Vemos os simpatizantes de Josefina ao fundo, pedindo e implorando que cante. Ela gostaria de atendê-los, mas não pode. Eles a confortam e a acariciam com sua adulação, quase a carregam para o local de antemão escolhido para que se apresentasse. Finalmente, explodindo inexplicavelmente em lágrimas, ela cede, mas quando se ergue para cantar, visivelmente sem forças, exausta, com os braços não abertos como sempre, mas inertes e caídos ao longo do corpo, o que dá a impressão de que talvez sejam um pouco curtos demais — exatamente quando parece que vai começar, pronto, não consegue fazê-lo afinal, um involuntário tremor de sua cabeça assim nos demonstra, e ela desmaia diante de nossos olhos. Sem dúvida ela se refaz e canta, para mim mais ou menos como sempre, talvez alguém que tenha um bom ouvido para  os mais sutis matizes de expressão possa perceber que ela está cantando com um sentimento especial, o que talvez seja excelente. E, no final, na verdade menos cansada do que antes, pisando firme, se alguém pode usar tal imagem para definir seus passinhos trôpegos, ela se vai, recusando qualquer ajuda de seus simpatizantes e medindo com olhos frios a multidão que respeitosamente lhe abre caminho.

Isso aconteceu há um ou dois dias; mas a última notícia é que ela havia desaparecido, exatamente quando deveria cantar. Não apenas seus simpatizantes procuram por ela, muitos se dedicam à busca, mas é tudo em vão: Josefina evaporou-se, não cantará, sequer poderá ser bajulada para que cante, dessa vez ela desertou por completo.

É estranho o quanto ela pode estar equivocada em suas maquinações, a astuta criatura, tão equivocada que se poderia acreditar que não há qualquer maquinação, mas que ela está apenas sendo conduzida pelo seu próprio destino, que no nosso mundo não pode deixar de ser um triste destino. Por vontade própria ela abandona o canto, por vontade própria destrói o poder que havia conseguido sobre o coração de todos.

Como poderia ela ter conseguido tal poder, se conhece tão pouco a respeito do nosso coração? Ela se esconde e não canta, mas nosso povo, calmamente, sem qualquer desapontamento visível, massa autoconfiante em perfeito equilíbrio, de tal modo constituída que, mesmo que as aparências o neguem, pode apenas dar e nunca receber, nem mesmo de Josefina, nosso povo continua seu caminho.

O caminho de Josefina. entretanto, deve declinar. Logo chegará o momento em que suas últimas notas se ouvirão e se converterão em silêncio.

Ela é um pequeno episódio na história eterna de nosso povo, e o povo superará sua perda. Não será fácil; como poderão nossos encontros acontecer em absoluto silêncio? Mas afinal, não eram eles silenciosos mesmo quando Josefina estava presente? Seria seu chiado muito mais alto e mais vivo do que será sua lembrança? Não terá sido porque o canto de Josefina estivesse muito à frente de seu tempo que nosso povo, em sua sabedoria, tanto o apreciou?

Então talvez não sintamos tanta falta dela, afinal, enquanto Josefina, redimida das dores terrenas que segundo ela se destinam a todos os eleitos, se perderá alegremente em meio à incalculável massa de heróis do nosso povo e logo, já que não somos historiadores, atingirá as alturas da redenção e será esquecida como todos os seus irmãos.

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

comente

Clique aqui para enviar um comentário