Aviso

Somos um site cristão, em conformidade com os padrões reformados, não concordamos obrigatoriamente com as opiniões emitidas nos livros postados, todavia, sabemos que um cristianismo saudável somente pode ser exercido através do conhecimento. Desta forma, sigamos o conselho do apóstolo: “Julgai todas as coisas, retende o que é bom”. Louvado seja Deus!

ESTATÍSTICAS

vivendopelapalavra.com
Na internet desde Outubro/2011
Total de visitas até agosto de 2019:
1.126.243
Total de páginas visitadas até agosto 2019:
3.112.596

Mais Baixados

Literatura clássica

JUCA PIRAMA – Gonçalves Dias

I

No meio das tabas de amenos verdores, Cercadas de troncos — cobertos de flores, Alteiam-se os tetos d’altiva nação;

São muitos seus filhos, nos ânimos fortes, Temíveis na guerra, que em densas coortes Assombram das matas a imensa extensão.

São rudes, severos, sedentos de glória, Já prélios incitam, já cantam vitória, Já meigos atendem à voz do cantor:

São todos Timbiras, guerreiros valentes! Seu nome lá voa na boca das gentes, Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, As armas quebrando, lançando-as ao rio, O incenso aspiraram dos seus maracás:

Medrosos das guerras que os fortes acendem, Custosos tributos ignavos lá rendem, Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro, Onde ora se aduna o concílio guerreiro Da tribo senhora, das tribos servis:

Os velhos sentados praticam d’outrora, E os moços inquietos, que a festa enamora, Derramam-se em torno d’um índio infeliz.

Quem é? — ninguém sabe: seu nome é ignoto, Sua tribo não diz: — de um povo remoto Descende por certo — d’um povo gentil; Assim lá na Grécia ao escravo insulano Tornavam distinto do vil muçulmano

As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro

Nas mãos dos Timbiras: — no extenso terreiro Assola-se o teto, que o teve em prisão; Convidam-se as tribos dos seus arredores,

Cuidosos se incumbem do vaso das cores, Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira, Entesa-se a corda de embira ligeira, Adorna-se a maça com penas gentis:

A custo, entre as vagas do povo da aldeia Caminha o Timbira, que a turba rodeia, Garboso nas plumas de vário matiz.

Entanto as mulheres com leda trigança, Afeitas ao rito da bárbara usança,

O índio já querem cativo acabar:

A coma lhe cortam, os membros lhe tingem, Brilhante enduápe no corpo lhe cingem, Sombreia-lhe a fronte gentil canitar.

II

Em fundos vasos d’alvacenta argila Ferve o cauim;

Enchem-se as copas, o prazer começa, Reina o festim.

O prisioneiro, cuja morte anseiam, Sentado está,

O prisioneiro, que outro sol no ocaso Jamais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o colo, Mostra-lhe o fim

Da vida escura, que será mais breve Do que o festim!

Contudo os olhos d’ignóbil pranto Secos estão;

Mudos os lábios não descerram queixas Do coração.

Mas um martírio, que encobrir não pode, Em rugas faz

A mentirosa placidez do rosto Na fronte audaz!

Que tens, guerreiro? Que temor te assalta No passo horrendo?

Honra das tabas que nascer te viram, Folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes

Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos Da fria morte.

Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva, Lá murcha e pende:

Somente ao tronco, que devassa os ares, O raio ofende!

Que foi? Tupã mandou que ele caísse, Como viveu;

E o caçador que o avistou prostrado Esmoreceu!

Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes Revive o forte,

Que soube ufano contrastar os medos Da fria morte.

III

Em larga roda de novéis guerreiros Ledo caminha o festival Timbira,

A quem do sacrifício cabe as honras. Na fronte o canitar sacode em ondas, O enduape na cinta se embalança, Na destra mão sopesa a iverapeme,

Orgulhoso e pujante. — Ao menor passo Colar d’alvo marfim, insígnia d’honra, Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme, Como que por feitiço não sabido Encantadas ali as almas grandes

Dos vencidos Tapuias, inda chorem Serem glória e brasão d’imigos feros.

“Eis-me aqui, diz ao índio prisioneiro; “Pois que fraco, e sem tribo, e sem família, “As nossas matas devassaste ousado, “Morrerás morte vil da mão de um forte.”

Vem a terreiro o mísero contrário; Do colo à cinta a muçurana desce: “Dize-me quem és, teus feitos canta,

“Ou se mais te apraz, defende-te.” Começa O índio, que ao redor derrama os olhos, Com triste voz que os ânimos comove.

IV

Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, Nas selvas cresci; Guerreiros, descendo Da tribo Tupi.

Da tribo pujante, Que agora anda errante Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci: Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas, De tribos imigas, E as duras fadigas Da guerra provei;

Nas ondas mendaces Senti pelas faces Os silvos fugaces

Dos ventos que amei.

Andei longes terras, Lidei cruas guerras, Vaguei pelas serras Dos vis Aimorés; Vi lutas de bravos,

Vi fortes — escravos! De estranhos ignavos Calcados aos pés.

E os campos talados, E os arcos quebrados, E os piagas coitados Sem seus maracás;

E os meigos cantores, Servindo a senhores, Que vinham traidores, Com mostras de paz.

Aos golpes do imigo Meu último amigo, Sem lar, sem abrigo Caiu junto a mi!

Com plácido rosto, Sereno e composto, O acerbo desgosto Comigo sofri.

Meu pai a meu lado Já cego e quebrado, De penas ralado, Firmava-se em mi:

Nós ambos, mesquinhos, Por ínvios caminhos, Cobertos d’espinhos Chegamos aqui!

O velho no entanto Sofrendo já tanto

De fome e quebranto, Só queria morrer!

Não mais me contenho, Nas matas me embrenho, Das frechas que tenho Me quero valer.

Então, forasteiro, Caí prisioneiro

De um troço guerreiro Com que me encontrei: O cru dessossego

Do pai fraco e cego, Enquanto não chego, Qual seja — dizei!

Eu era o seu guia Na noite sombria, A só alegria

Que Deus lhe deixou: Em mim se apoiava, Em mim se firmava, Em mim descansava, Que filho lhe sou.

Ao velho coitado De penas ralado,

Já cego e quebrado, Que resta? – Morrer. Enquanto descreve O giro tão breve

Da vida que teve, Deixa-me viver!

Não vil, não ignavo, Mas forte, mas bravo, Serei vosso escravo: Aqui virei ter.

Guerreiros, não coro

Do pranto que choro; Se a vida deploro, Também sei morrer.

V

Soltai-o! — diz o chefe. — Pasma a turba; Os guerreiros murmuram: mal ouviram, Nem pôde nunca um chefe dar tal ordem! Brada segunda vez com voz mais alta, Afrouxam-se as prisões, a embira cede,

A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo.

  • Timbira, diz o índio enternecido, Solto apenas dos nós que o seguravam: És um guerreiro ilustre, um grande chefe, Tu que assim do meu mal te comoveste, Nem sofres que, transposta a natureza, Com olhos onde a luz já não cintila, Chore a morte do filho o pai cansado, Que somente por seu na voz conhece.

— És livre; parte.

— E voltarei.

— Sim, voltarei, morto meu pai.

É bem feliz, se existe, em que não veja, Que filho tem, qual chora: és livre; parte!

  • Acaso tu supões que me acobardo, Que receio morrer!
  • Debalde.
  • Não voltes!

— És livre; parte!

— Ora não partirei; quero provar-te Que um filho dos Tupis vive com honra, E com honra maior, se acaso o vencem,

Da morte o passo glorioso afronta.

— Mentiste, que um Tupi não chora nunca, E tu choraste!… parte; não queremos Com carne vil enfraquecer os fortes.

Sobresteve o Tupi: — arfando em ondas O rebater do coração se ouvia Precipite. – Do rosto afogueado Gélidas bagas de suor corriam:

Talvez que o assaltava um pensamento…

Já não… que na enlutada fantasia, Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,

Do velho pai a moribunda imagem Quase bradar-lhe ouvia: – Ingrato! ingrato!

Curvado o colo, taciturno e frio, Espectro d’homem, penetrou no bosque!

VI

  • Filho meu, onde estás?
    • Ao vosso lado;

Aqui vos trago provisões: tomai-as, As vossas forças restaurai perdidas, E a caminho, e já!

  • Tardaste muito!

Não era nado o sol, quando partiste, E frouxo o seu calor já sinto agora!

— Sim, demorei-me a divagar sem rumo, Perdi-me nestas matas intrincadas, Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo; Convém partir, e já!

— Que novos males Nos resta de sofrer? — que novas dores,

No outro fado pior Tupã nos guarda?

— As setas da aflição já se esgotaram, Nem para novo golpe espaço intacto Em nossos corpos resta.

— Talvez do afã da caça…

  • Mas tu tremes!
  • Oh filho caro!

Um quê misterioso aqui me fala, Aqui no coração; piedosa fraude

Será por certo, que não mentes nunca! Não conheces temor, e agora temes? Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,

E contra o seu querer não valem brios.

Partamos!… —

E com mão trêmula, incerta Procura o filho, tateando as trevas

Da sua noite lúgubre e medonha.

Sentindo o acre odor das frescas tintas, Uma idéia fatal correu-lhe à mente… Do filho os membros gélidos apalpa,

E a dolorosa maciez das plumas Conhece estremecendo: — foge, volta, Encontra sob as mãos o duro crânio, Despido então do natural ornato!…

Recua aflito e pávido, cobrindo Às mãos ambas os olhos fulminados, Como que teme ainda o triste velho

De ver, não mais cruel, porém mais clara, Daquele exício grande a imagem viva Ante os olhos do corpo afigurada.

Não era que a verdade conhecesse

Inteira e tão cruel qual tinha sido; Mas que funesto azar correra o filho, Ele o via; ele o tinha ali presente;

E era de repetir-se a cada instante. A dor passada, a previsão futura

E o presente tão negro, ali os tinha; Ali no coração se concentrava,

Era num ponto só, mas era a morte!

— Tu prisioneiro, tu?

— Dos índios?

  • Vós o dissestes.

— Sim.

— De que nação?

— Timbiras.

— E a muçurana funeral rompeste, Dos falsos manitôs quebraste a maça…

— Nada fiz… aqui estou.

— Nada! —

Curto instante depois prossegue o velho:

— Tu és valente, bem o sei; confessa, Fizeste-o, certo, ou já não foras vivo!

  • Nada fiz; mas souberam da existência De um pobre velho, que em mim só vivia…

Emudecem;

— E depois?…

—Eis-me aqui.

—Fica essa taba?

  • Na direção do sol, quando transmonta.

— Longe?

— Não muito.

— E quereis ir?…

— Tens razão: partamos.

— Na direção do ocaso.

VII

“Por amor de um triste velho, Que ao termo fatal já chega, Vós, guerreiros, concedestes A vida a um prisioneiro.

Ação tão nobre vos honra, Nem tão alta cortesia

Vi eu jamais praticada Entre os Tupis, — e mas foram

Senhores em gentileza. “Eu porém nunca vencido,

Nem os combates por armas, Nem por nobreza nos atos; Aqui venho, e o filho trago. Vós o dizeis prisioneiro, Seja assim como dizeis; Mandai vir a lenha, o fogo, A maça do sacrifício

E a muçurana ligeira: Em tudo o rito se cumpra! E quando eu for só na terra,

Certo acharei entre os vossos, Que tão gentis se revelam, Alguém que meus passos guie; Alguém, que vendo o meu peito Coberto de cicatrizes,

Tomando a vez de meu filho, De haver-me por pai se ufane!”

Mas o chefe dos Timbiras, Os sobrolhos encrespando, Ao velho Tupi guerreiro Responde com torvo acento:

— Nada farei do que dizes: É teu filho imbele e fraco!

Aviltaria o triunfo

Da mais guerreira das tribos Derramar seu ignóbil sangue: Ele chorou de cobarde;

Nós outros, fortes Timbiras, Só de heróis fazemos pasto. —

Do velho Tupi guerreiro A surda voz na garganta

Faz ouvir uns sons confusos, Como os rugidos de um tigre, Que pouco a pouco se assanha!

VIII

“Tu choraste em presença da morte? Na presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte; Pois choraste, meu filho não és!

Possas tu, descendente maldito De uma tribo de nobres guerreiros,

Implorando cruéis forasteiros, Seres presa de vis Aimorés.

“Possas tu, isolado na terra,

Sem arrimo e sem pátria vagando, Rejeitado da morte na guerra, Rejeitado dos homens na paz,

Ser das gentes o espectro execrado; Não encontres amor nas mulheres, Teus amigos, se amigos tiveres, Tenham alma inconstante e falaz!

“Não encontres doçura no dia, Nem as cores da aurora te ameiguem,

E entre as larvas da noite sombria Nunca possas descanso gozar:

Não encontres um tronco, uma pedra, Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos, Padecendo os maiores tormentos,

Onde possas a fronte pousar.

“Que a teus passos a relva se torre; Murchem prados, a flor desfaleça, E o regato que límpido corre,

Mais te acenda o vesano furor; Suas águas depressa se tornem, Ao contacto dos lábios sedentos, Lago impuro de vermes nojentos, Donde fujas como asco e terror!

“Sempre o céu, como um teto incendido, Creste e punja teus membros malditos

E o oceano de pó denegrido Seja a terra ao ignavo tupi! Miserável, faminto, sedento,

Manitôs lhe não falem nos sonhos, E do horror os espectros medonhos Traga sempre o cobarde após si.

“Um amigo não tenhas piedoso Que o teu corpo na terra embalsame,

Pondo em vaso d’argila cuidoso Arco e frecha e tacape a teus pés! Sê maldito, e sozinho na terra; Pois que a tanta vileza chegaste,

Que em presença da morte choraste, Tu, cobarde, meu filho não és.”

IX

Isto dizendo, o miserando velho A quem Tupã tamanha dor, tal fado

Já nos confins da vida reservara,

Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias

Da sua noite escura as densas trevas Palpando. — Alarma! alarma! — O velho pára!

O grito que escutou é voz do filho, Voz de guerra que ouviu já tantas vezes

Noutra quadra melhor. — Alarma! alarma!

— Esse momento só vale apagar-lhe Os tão compridos trances, as angústias, Que o frio coração lhe atormentaram

De guerreiro e de pai: — vale, e de sobra.

Ele que em tanta dor se contivera, Tomado pelo súbito contraste, Desfaz-se agora em pranto copioso, Que o exaurido coração remoça.

A taba se alborota, os golpes descem, Gritos, imprecações profundas soam, Emaranhada a multidão braveja, Revolve-se, enovela-se confusa,

E mais revolta em mor furor se acende.

E os sons dos golpes que incessantes fervem.

Vozes, gemidos, estertor de morte Vão longe pelas ermas serranias

Da humana tempestade propagando Quantas vagas de povo enfurecido Contra um rochedo vivo se quebravam.

Era ele, o Tupi; nem fora justo

Que a fama dos Tupis – o nome, a glória, Aturado labor de tantos anos, Derradeiro brasão da raça extinta,

De um jacto e por um só se aniquilasse.

— Basta! clama o chefe dos Timbiras,

— Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste, E para o sacrifício é mister forças. —

O guerreiro parou, caiu nos braços Do velho pai, que o cinge contra o peito,

Com lágrimas de júbilo bradando: “Este, sim, que é meu filho muito amado!

“E pois que o acho enfim, qual sempre o tive, “Corram livres as lágrimas que choro,

“Estas lágrimas, sim, que não desonram.”

X

Um velho Timbira, coberto de glória, Guardou a memória

Do moço guerreiro, do velho Tupi!

E à noite, nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,

Dizia prudente: – “Meninos, eu vi! “Eu vi o brioso no largo terreiro Cantar prisioneiro

Seu canto de morte, que nunca esqueci: Valente, como era, chorou sem ter pejo; Parece que o vejo,

Que o tenho nest’hora diante de mi.

“Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo!

Pois não, era um bravo; Valente e brioso, como ele, não vi!

E à fé que vos digo: parece-me encanto Que quem chorou tanto,

Tivesse a coragem que tinha o Tupi!”

Assim o Timbira, coberto de glória, Guardava a memória

Do moço guerreiro, do velho Tupi.

E à noite nas tabas, se alguém duvidava Do que ele contava,

Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

comente

Clique aqui para enviar um comentário