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Literatura clássica

NOITES BRANCAS – Dostoiévski

Nesta lindíssima novela os protagonistas encontram-se durante quatro noites à beira do Fontanka — somente durante quatro noites da primavera petersburguesa, que de dia alegra a cidade e os campos em redor com o brilho da verde erva tenra e nova e com as cores vistosas de múltiplas flores, e à noite espalha pelo céu um fulgor alvinitente que torna as noites quase tão claras e luminosas como o dia.

Quem é ele? Um jovem, que a si mesmo se apresenta c descreve como um “sonhador”, que os conhecidos consideram como uma criatura estranha, bisonha, talvez até um tanto tola e ridícula, um rapaz que “mal conhece a vida real” e que, no entanto, no mundo galopante da sua fantasia vê correr diante dos olhos as cenas e as figuras mais significativas na evolução histórica da humanidade, e que vive ainda, no seu delírio de visionário, um romântico sonho de amor em que a sua amada é uma formosa castelã casada com um velho, mas que afinal nem sequer conhece uma mulher, embora anseie a todo momento por conhecer uma jovem semelhante a essa que acabou agora de encontrar chorando, amparada ao parapeito do cais, numa dessas noites brancas de São Petersburgo. Por que chora essa mocinha? Quem será? Apesar de toda a timidez do “sonhador” há um acaso que os faz aproximar, e os dois jovens começam então o seu diálogo apaixonado que vai estender-se por quatro dessas maravilhosas noites brancas. Ela é morena, como o “sonhador” logo tinha imaginado, assim que a viu de longe; tem apenas dezessete anos, é inteligente, viva, ardente, e… está enamorada de outro. Ela veio nessa primeira noite para a beira do rio porque tinha combinado com o namorado esse encontro, após um ano de separação. Este não aparece, mas Nástienhka, durante a sua espera febril e ansiosa, tem a felicidade de encontrar esse espiritual, romântico, tímido e ardente “sonhador” que a consola na sua dúvida, que acende constantemente diante dos seus olhos a chama da esperança e que acaba por se apaixonar por ela.

E, numa dessas noites, já na tempestade da decepção e do despeito, quando começa já a acreditar que aquele a quem ama a esqueceu, Nástienhka, sequiosa de amor, na ânsia de ter junto de si um ser sobre o qual derrame a sua impetuosa ternura, todo o fogo da sua alma apaixonada, acaba por prometer o seu coração ao pobre “sonhador”…

Mas eis que, finalmente, na última noite, surge o verdadeiro dono do coração de Nástienhka, e ela, num arrebatamento de paixão, deixa o companheiro daquelas quatro noites e lança-se nos braços daquele por quem esperava…

Podemos agora perguntar: como definir o caráter de Nástienhka, a mocinha que esperava pelo amado, mas que entretanto promete o seu amor ao primeiro que lhe aparece… para logo depois se esquecer dele e voltar outra vez para o mais antigo? Será ela uma leviana ou uma inconstante? Não. Não é propriamente um temperamento de mulher que Dostoiévski nos apresenta aqui, embora nos tenha admiravelmente descrito a alma de Nástienhka como uma alma apaixonada vibrante e impetuosa. Quer-nos antes parecer que, além da análise da “vida imaginativa e de sonho”, do protagonista, o genial escritor nos quis antes apresentar — e fê-lo de uma forma verdadeiramente artística, cheia de uma beleza delicada, grácil, leve e ao mesmo tempo perturbante — o fenômeno de “transposição” que se operou na alma dessa mulher enamorada, pois o seu coração transbordante de um amor que esperava oferecer ao homem que aguardava e que entretanto não vinha, não se contém, tem necessidade de um objeto visível e sensível, de outro ser que lhe dê a ilusão de que o escutam, que seja como que um alvo concreto sobre o qual possa incidir a luz da sua ternura. O jovem “sonhador” está ali: tem uns olhos que a vêem, uns ouvidos que a escutam, uma boca que lhe diz palavras de consolo e de amor, uma mão que recebe a sua, uma alma que sente e palpita junto dela. Todas as palavras que tinha para dizer ao outro, di-las a este… E por fim até o beijo, que havia de oferecer ao seu verdadeiro amado, vai ainda para esse companheiro daquelas noites.

Esta novela pertence ao ciclo das obras que podemos considerar inspiradas pela malograda paixão de Dostoiévski pela senhora Panáieva, aquela mulher bela e culta que recebia no seu salão as celebridades do mundo literário e artístico. A primeira dessas novelas foi A Dona da Casa; a segunda, Polzunkov; esta é a terceira; e finalmente na novela seguinte, em Niétotchka Niezvânova, há também uma carta de amor onde palpita ainda toda a vibração de um amor desvairado e impossível. Tanto em A Dona da Casa, como em Noites Brancas, os protagonistas apaixonam-se por mulheres que “já estão comprometidas”, que entregaram desde há muito o coração a outro… E, além disso, há também uma grande semelhança que assenta evidentemente sobre o fundo autobiográfico da novela, entre Ordínov, o estudante visionário, e este outro jovem “sonhador” que conhece os tais recantos misteriosos de Petersburgo, dos quais “poderia dizer-se que nunca neles dá o sol que brilha para todos os petersburgueses, mas outro sol, novo, que foi criado unicamente só para eles e que dir-se-ia brilha ali também de maneira diferente, com um fulgor diferente daquele com que brilha no resto do mundo…”, e que, como já alguém disse e é de todo verossímil, mais não são do que esses antros onde se reúnem os conspiradores do grupo de Pietrachévski, uns exaltados que pretendiam derrubar com as suas doutrinas filosófico-literárias o trono de Nicolau, grupo ao qual pertencia Dostoiévski.

Esta novela é a última que o escritor escreve ainda em liberdade. Em breve será preso, e a sua próxima obra, Niétotchka Niezvânova, vai já ser escrita na cela duma fortaleza.

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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