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Livros

O CAMINHO DE DEUS EM TEMPOS DIFÍCEIS – A. LADRIERRE

O Estado de Coisas no Tempo dos Apóstolos

 

O assunto que desejo colocar agora perante o leitor cristão é dos mais importantes. Tudo aquilo que nos rodeia nos adverte de que estamos nos últimos dias e nos tempos difíceis de que nos falam 1 Tm 4:1; 2 Tm 3:1; 2 Pe 3:3 e 1 Jo 2:18. Não falo aqui das dificuldades políticas e sociais. Isso pertence ao mundo. Falo do que diz respeito à “fé que uma vez por todas foi dada aos santos”(Jd 3). E ao cristão importa saber qual é, a respeito das coisas da fé, o caminho de Deus nestes tempos difíceis, a fim de nele andar em obediência e santidade. E evidente que não se pode conhecer esse caminho — a expressão da vontade de Deus — senão pela Sua Palavra, as Sagradas Escrituras, divinamente inspiradas. Suponho, pois, que o amado leitor está plenamente certo de que tem nas Escrituras toda a Palavra de Deus, nada mais do que a Sua Palavra e, que, por isso mesmo, elas lhe são a autoridade máxima, a única que faz regra e à qual todo cristão tem o dever de se submeter.

Todo leitor atento das Escrituras tem de estar profundamente impressionado com o contraste que existe entre a Igreja, tal como apresentada no Novo Testamento, e o estado da cristandade dos nossos dias. É a primeira coisa sobre a qual me deterei e que é necessário fazer sobressair.

Durante a Sua vida na Terra, nosso Senhor Jesus Cristo reuniu à Sua volta um remanescente tirado da nação judaica. Eram Seus discípulos, os que creram nEle e responderam ao Seu chamamento. E deles que o Senhor diz, depois de ter sido rejeitado pelos principais dos judeus: “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?” E, estendendo a mão para os discípulos, disse: “Eis a minha mãe e meus irmãos; porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste … este é meu irmão, e irmã, e mãe”(Mt 12:48-50). Jesus não reconhecia em Israel senão aqueles que, unindo-se à Sua pessoa, faziam a vontade de Deus. Em todo o tempo e em todos os lugares, aquilo que caracteriza os que agradam a Deus e formam um remanescente no meio do mal geral é a obediência.

Continuando o relato evangélico, mais à frente, depois da confissão de Pedro (“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”), ouvimos o Senhor anunciar aos Seus discípulos este grande feito: “Sobre esta pedra [— sobre a verdade capital que essa confissão encerra —] edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18). A Igreja devia substituir Israel. Era algo que ainda estava para vir, que Cristo devia edificar, uma coisa particularmente Sua — a minha Igreja — e que, uma vez estabelecida, estaria garantida contra todos os esforços do inimigo pelo poder vivificante do Filho de Deus. E note-se que é a primeira menção feita nas Sagradas Escrituras acerca da Igreja de Cristo.

Portanto, enquanto Cristo esteve neste mundo, a Igreja não existia. As pedras vivas que deviam formá-la estavam lá, na pessoa de Pedro e dos outros discípulos, mas Cristo não tinha ainda consumado a redenção nem havia mostrado, pela Sua ressurreição, o Seu poder de vida que triunfa da morte e daquele que detinha o poder da morte (Hb 2:14). Ora, era sobre Cristo, “declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos” (Rm 1:4), que a Igreja devia ser fundada. Contudo, outro importante acontecimento devia ocorrer. O Espírito Santo ainda não fora dado (Jo 15:26; 7:39). O Espírito Santo era o poder que havia de reunir as pedras vivas e assentá-las sobre a Rocha, a fim de que o edifício se erguesse.

Origem e Desenvolvimento

Em cumprimento das promessas do Senhor, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo veio sobre aqueles que estavam reunidos em Jerusalém (At 2:1-4). Desde esse momento, a Assembléia, ou Igreja, começou a existir. Em lugar do templo, Deus passou a ter sobre a Terra “uma morada no Espírito”(Ef 2:22) no meio daqueles sobre quem foi derramado o Espírito Santo — e desde então nunca mais teve outra.

Logo, a Assembléia que o Senhor prometeu construir, tinha começado a sua existência. Era composta por todos os que tinham crido no Senhor Jesus e tinham sido batizados no Espírito Santo. Quando se verificou esse extraordinário acontecimento, aqueles que o Senhor tinha chamado, os apóstolos, com Pedro à frente, começaram a pregar o evangelho (At 2:14). Muitos crêem na Palavra de Deus, são salvos, batizados e acrescentados… A quê? A Assembléia (At 2:47). Até aquela altura, a Igreja não tinha ultrapassado os limites de Jerusalém. Mas em breve a obra estende-se. Dos judeus passa aos samaritanos e, logo em seguida, aos gentios (At 8:10). E por toda parte onde almas são convertidas ao Senhor, congregam-se e formam assembléias ou igrejas locais que, no Novo Testamento, não recebem outra designação a não ser “igrejas de Cristo”, com a indicação da cidade ou da localidade onde se encontram. Assim, fala-se das igrejas da Judéia, da Samaria e da Galiléia (At 9:31); da igreja de Antioquia, das da Síria e da Cilícia, da Galácia e da Ásia (At 13:1, 15:41; Gl 1:2; 1 Co 16:19); da igreja de Deus em Corinto, da dos Tessalonicenses em Deus o Pai, das igrejas de Cristo (1 Co 1:1; 1 Ts 1:1; Rm 16:16). E os que formam essas assembléias são chamados “os santos”,  “os irmãos” (At 26:10; Ef 1:1; At 11:29 — seria demasiado longo citar todas as passagens que contêm essas expressões).

A Unidade

Todavia, embora houvesse igrejas locais em diversos lugares, uma grande verdade, um fato notável sobressai do conjunto das Escrituras do Novo Testamento: todas essas igrejas formavam sobre a Terra um só corpo — a Assembléia de Deus ou a Igreja de Deus, da qual cada assembléia local era a expressão viva ali, onde se encontrava.

Por isso o Senhor diz: “Edificarei a minha Igreja”. Portanto, ela é uma. O apóstolo Paulo fala aos anciãos da igreja de Éfeso, da “Igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue”. A Timóteo ele diz: “A casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo”. Ainda aqui vemos que ela é somente uma. “Fomos todos batizados num só Espírito, para sermos um só corpo, quer se trate de judeus ou de gregos, de escravos ou de homens livres; e todos fomos dessedentados pela unidade de um só espírito”— diz ainda o mesmo apóstolo aos Coríntios. “Há um só corpo e um só Espírito”, e esse corpo é a Assembléia, porque Paulo diz ainda:”.. .e, sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo”. “Ele é a cabeça do corpo” (At20:28; 1 Tm 3:15; 1 Co 12:13; Ef 4:4; 1:22-23; Cl 1:18).

Todas essas passagens demonstram a unidade da Igreja, e note-se que se trata, em todas elas, da Igreja sobre a Terra, da sua manifestação neste mundo como um só corpo. Em qualquer lugar onde houvesse cristãos reunidos, eles eram ali, assim juntos, a expressão viva da Assembléia universal de Deus ou de Cristo, sem que nenhum outro nome os distinguisse, a não ser, talvez, os nomes de desprezo que lhes davam os seus inimigos, tais como, por exemplo, os de “nazarenos”, “seita impugnada por toda parte”, “O Caminho”, etc. (At 24:5; 28:22; 9:2; 24:14).

Havia, portanto, embora em diferentes lugares, uma única Assembléia cristã, a Assembléia de Deus, claramente distinta como corpo de tudo o que a rodeava, fossem judeus ou gentios, como o prova a seguinte passagem: “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus” (1 Co 10:32).

Fica, pois, claro que, quando uma alma tinha sido convertida ao Senhor, não tinha de procurar qual era a congregação a que deviam unir-se. Não havia mais do que uma assembléia de Deus em cada lugar, e a alma que tinha crido em Jesus, por essa mesma razão passava a fazer parte da Igreja dEle, e era a ela incorporada. Ficava então a fazer parte do corpo, ou seja, da Igreja de Deus em todo e qualquer lugar.

Facilmente se compreende que, tratando-se de um centro urbano de certa importância, poderia haver ali um ou vários pontos de reunião, mas a Igreja ou Assembléia era a mesma — era uma. Era distinta do mundo e uma, segundo o voto expresso pelo Salvador na Sua oração: “para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”(Jo 17:14 e 20-21).

Entrava-se ali, não por se aderir a um credo qualquer, não após uma instrução mais ou menos longa, mas pela conversão, “pela lavagem da regeneração e a renovação do Espírito Santo”(At 16:31-34; 2:38 e 41; Tt 3;5).

A Comunhão

As assembléias locais estavam em comunhão visível e palpável umas com as outras, porque todos aqueles que as formavam se consideravam membros do mesmo corpo (Rm 12:4-5; 1 Co 12:12 e 26-27). Numa mesma assembléia local, esta comunhão dos membros do corpo uns com os outros achava a sua expressão à Mesa do Senhor, no partir do pão. Diz o apóstolo: “Porventura, o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo porque todos participamos do mesmo pão” (1 Co 10:16-17).

Portanto, sendo todos os crentes membros do corpo de Cristo — a Igreja — a mesa à qual se sentavam, embora em diferentes lugares, era uma só e mesma Mesa do Senhor. Aquele que se achava sentado à Mesa do Senhor em Corinto e ali partia o pão, em plena comunhão, sentava-se também à Mesa do Senhor em Roma e podia de igual modo ali partir o pão. A unidade, do mesmo modo que a comunhão entre as assembléias locais, era assim expressa e guardada. Mas era-o também de outra maneira: vemos a assembléia de Antioquia enviar socorros aos irmãos necessitados da igreja de Jerusalém (At 11:27-30). Essa mesma assembléia envia Paulo e Barnabé com alguns outros a Jerusalém para exporem aos apóstolos e aos anciãos uma questão relativa à observância das cerimônias judaicas pelos gentios. Deviam eles observá-las ou não? Decisão tomada, fica confirmada a comunhão das igrejas locais da Judéia e dos gentios (At 15:30-31; 16:4-5). Outro fato que prova essa unidade e comunhão são as cartas de recomendação dadas aos cristãos que se dirigiam de uma assembléia a outra  (At 18:27).

A Liberdade do Espírito

A essa liberdade se refere ainda o livre exercício dos dons nas assembléias. Os obreiros do Senhor, sem receberem ordens de nenhum homem nem de nenhuma organização humana, conduzidos apenas pelo Espírito Santo, vão evangelizar ou apresentar-se nas diversas assembléias, para ensinarem ou edificarem, segundo o dom que receberam do Senhor (At 9:20; 8:4, 5, 26 e 40; 18:24-27; 1 Co 16:12, etc). Ninguém se intitula nem é chamado pastor de uma assembléia, porque Pastor há um só, que é o Senhor. Todavia, em cada assembléia há vários anciãos (chamados, por vezes, bispos ou vigilantes), mas não se encontra nenhum traço de hierarquia, nem de consagração ou ordenação para além daquela que provém do Espírito Santo. Não há, portanto, nenhuma espécie de clerezia na primitiva cristandade.

Os santos, isto é, os crentes sinceros, se reúnem em volta do Senhor para partir o pão, em memória da Sua morte (At 20:7; 1 Co 14:26-33). Se numa reunião alguém tem um salmo, um ensinamento, ou o que quer que seja, dado por Deus para edificação da assembléia, atua com plena liberdade (1 Co 14:26-33). Se, por exemplo, alguém possui um dom, como um apóstolo, e se encontra presente, a assembléia fica contente por poder ouvi-lo. Mas não vemos nem regulamentos nem organizações de espécie alguma, nem constituição! O Espírito Santo presente na assembléia (sendo reconhecida essa presença) é o seu guia — e havia ainda os ensinamentos dos apóstolos.

A Disciplina

Podia haver uma ou mais desordens e podiam introduzir-se erros diversos, porém, nesses casos, a disciplina era exercida segundo a direção dada pelos apóstolos. Sendo caso disso, expulsava-se o malfeitor, a igreja separava-se do herege (1 Co 5:13; Tt 3:10-11; 2 Jo 9-10). Estas indicações eram consideradas suficientes. Em Corinto, por exemplo, onde se encontravam ao mesmo tempo o mal moral e o mal doutrinário, o apóstolo não constitui nenhuma autoridade nem de um só homem nem de vários, para manterem a ordem e a pureza da doutrina. É a própria assembléia que deve purificar-se do mal, seguindo as exortações do apóstolo inspirado, cujas palavras são os mandamentos do Senhor (1 Co 5:2-7; 14:37). A igreja, isto é, toda a assembléia era responsável de se separar do mal, de manter a ordem, de guardar a sã doutrina.

Conclusão

Tal era, naqueles tempos, a Igreja de Deus na Terra, a todos visível. Ela era uma, sem outra designação que não fosse a de Assembléia de Deus ou Assembléia de Cristo. Entrava-se ali pela conversão, embora houvesse um sinal exterior dessa entrada na confissão cristã — o batismo.

Exercia-se ali um ministério livre, segundo o dom da graça recebido — e a disciplina, levada a cabo pela própria Igreja, excluía o malfeitor e o herege. Desta forma, a Assembléia ou Igreja era, diante do mundo, um testemunho único e vivo da presença do Espírito Santo, da glorificação de Cristo e do poder vivificante da graça.

O Atual Estado de Coisas

Pergunto agora ao prezado leitor se o que a cristandade oferece hoje aos nossos olhos não difere completamente daquilo que a Igreja era no seu princípio. E a resposta não será difícil para qualquer indivíduo que tenha os olhos abertos e não deixe idéias preconcebidas obscurecem-lhe a mente. Não pretendo entrar no exame das causas que motivaram o estado de coisas atual. Quero simplesmente fazer vivificar esse estado em nossa mente. O paganismo e o judaísmo estão fora de questão agora. Nascemos na cristandade. Na grande maioria, fomos nela introduzidos pelo batismo. O que vemos à nossa volta e onde nos encontramos é a confissão cristã. Mas esta cristandade, esta confissão de fé? O que está compreendido sob este nome, que nos apresenta? Nada mais além de divisão e confusão.

Em lugar de um só corpo, vêem-se espécies de corpos diferentes, chamando-se todos de igreja, que, para se distinguirem uns dos outros, juntam a esse nome uma denominação. Há a igreja romana, que se intitula igreja católica ou universal, que reclama para si a sucessão apostólica e pretende ser a única e verdadeira igreja. Ao lado desta encontramos, no Oriente, a igreja grega, a igreja armênia, a igreja copta e a igreja abissíma. E como se tal não bastasse, existem ainda diversas e numerosas seitas dentro dessas igrejas. A parte destas que acabamos de mencionar, vêem-se ainda as numerosas igrejas genericamente chamadas de protestantes: anglicana, luterana, reformada, presbiteriana, congregacionais, batista, metodista, etc, etc, umas submetidas ao estado e outras separadas do seu jugo. Temos assim as igrejas nacionais e as igrejas independentes, ou livres, da França, na Suíça as do cantão de Vaud, de Genebra, de Neuchâtel — sem contar, por todo o lado, com as inumeráveis seitas diversas, todas de denominações diferentes, todas separadas por divergências muito profundas e reclamando, entretanto, cada uma para si, a posse da verdade absoluta!

Não é assim? E exagerado o quadro que acabamos de esboçar? Achamos, porventura, que isso tem alguma analogia com a Igreja, tal como a vemos no Novo Testamento? Existe nas Escrituras algum vestígio de uma sanção dada por Deus a um tal estado de coisas? E essa a unidade visível? Não! Essa é a confusão visível! Tomemos, por exemplo o caso de uma cidade — Genebra. Quantos corpos religiosos ou igrejas distintas veremos ali, fundados todos sobre princípios diferentes?! Suponhamos agora que uma carta apostólica fosse dirigida “à Igreja de Deus em Genebra”. Onde ia parar? E se todos os cristãos praticantes se reunissem para tomar conhecimento dela, não seria para ouvirem palavras como estas: “Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa e que não haja entre vós dissensões; antes, sejais unidos, em um mesmo sentido e em um mesmo parecer” (1 Co 1:10)? E ainda: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gl 5:19-21)?

 

A Igreja não é deste Mundo

Mas não é tudo. Como já recordei, e como era nos primeiros tempos, o Senhor disse de Seus discípulos: “Eles não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (Jo 17:14). Tal é o caráter da Igreja. Porém, que vemos nós? O que designa um grande número de corporações religiosas é o apoio que recebem dos estados e, por conseqüência, a dependência em que deles se encontram. Isto não é “ser do mundo”? Sem dúvida alguma que é! Mas a igreja romana tem pretensões ainda mais elevadas: quer dominar os reis e os príncipes — e, durante muitos séculos exerceu, de fato, essa prepotência. Entretanto, perguntamos: Querer -autoridade temporal será próprio daqueles que não são do mundo, dos que reivindicam o nome de Cristo, o nome dAquele que não quis ser Rei neste mundo (Lc 12:14; Jo 6:15, 18:36)? E que diremos do fausto mundano que impera nas igrejas romana, grega e anglicana; do fausto em que vivem os seus altos funcionários, quer numas, quer noutras — papas, cardeais, arcebispos e outros, morando em palácios, intitulando-se príncipes da igreja, recebendo vultosos emolumentos? Serão porventura esses os sucessores dos pobres pescadores Pedro e João? Isto é não ser do mundo?!

Se passarmos às igrejas protestantes não veremos nelas, é verdade, tais pretensões nem um tal cerimonial no culto. Mas umas estão sujeitas aos estados, que têm domínio direto ou indireto sobre elas — e isso é, de igual modo, associar-se ao mundo. Outras são regidas por constituições que promulgam para si própriaS, de uma forma ou de outra, como melhor lhes parece e acham conveniente — obra humana, sempre obra humana que, em qualquer dos casos acentua cada vez mais as divisões.

Dessas numerosas congregações independentes dos estados, mas não do homem, algumas formaram-se em tomo de uma doutrina particular ou segundo uma fórmula de organização especial; outras tiram o seu nome ou denominação do homem que as fundou. E mais uma vez volto a perguntar: É isto o que se lê na Palavra de Deus?

 

Uma Fé e não muitas Doutrinas

Se considerarmos a doutrina, que encontraremos nós? A Palavra de Deus nos diz: “Há uma só fé”, do mesmo modo que diz: “Há um só corpo” (Ef 4:4-5). E isto o que se verifica? As igrejas romana e grega retêm algumas verdades ‘ vitais, mas sepultadas sob uma enorme quantidade de tradições e manchadas pelo contato de um culto idolatra. As igrejas protestantes têm as suas profissões de fé, mas valem-se tão pouco delas que muitas pessoas são de opinião que seria melhor não tê-las. Outras há que se pretendem bastante amplas ou liberais a fim de tudo abarcarem — e deixam, desse modo, amplo lugar ao equívoco, de tal sorte que delas podem ser membros duas pessoas de idéias inteiramente opostas sobre esse ou aquele ponto de doutrina! Nas cátedras, nas escolas de teologia, nos livros e nos jornais são ensinadas as doutrinas racionalistas em grau mais ou menos elevado e com mais ou menos sutileza. A autoridade das Sagradas Escrituras, a sua inspiração divina, é atacada até ao absurdo; a pessoa de Cristo, seja na Sua divindade suprema, seja na Sua humanidade sem mácula, é igualmente atacada de diversas maneiras; e as doutrinas da salvação pela graça, da expiação pelo sangue de Cristo são inteiramente postas de lado! E se ainda há quem retenha o são ensinamento, esses, poucos aliás, em vez de obedecer ao mandamento expresso nas Escrituras, que ordena ao homem que se aparte do mal, preferem continuar associados a ele!

 

Quem Chama ao Ministério é o Senhor

Se considerarmos o ministério, que veremos nós? Em que estado se encontra? Desejo, porém, e desde já, esclarecer que não pretendo atingir as pessoas. Existem muitos que são piedosos servos de Deus. Refiro-me apenas aos princípios. Pois bem! Que vemos nós nas diferentes corporações religiosas acerca do ministério? Em primeiro lugar um princípio geral prevalece por toda a parte: não se pode exercer o ministério sem se ter sido consagrado ou ordenado por um homem ou por uma corporação de homens—que eles mesmos, por sua vez, já foram ordenados por outros homens. E aí temos uma clerezia estabelecida na Igreja de Deus. Nas igrejas romana, grega e anglicana, esse clero forma toda a hierarquia, de que não encontramos vestígio algum nas Escrituras, e que desce desde o arcebispo aos simples funcionários eclesiásticos, sem contar, na igreja romana, aquele que tem a triste audácia de se colocar à cabeça e acima de tudo e de todos, intitulando-se vigário de Jesus Cristo. Sem ter chegado a tanto, o protestantismo, nas suas diversas denominações, não deixa de apresentar uma verdadeira clerezia nos seus corpos de ministros ou consagrados, e somente estes podem administrar o batismo e a ceia, não podendo, sejam quais forem os dons que tenham recebido de Deus, exercê-los, sem largos anos de estudos — não das Escrituras, que não têm entre eles senão um lugar muito fraquinho, mas de ciências, mais próprias para transtornarem a fé do que para estabelecê-la ou fortatecê-la. Em lugar do ministério no poder do Espírito, tem-se um ministério feito e preparado pelo homem, ministério este que, em lugar de se exercer livremente, segundo o dom da graça recebido, na única dependência do Verdadeiro Chefe da Igreja — CRISTO! — tem necessidade do controle e da aprovação do homem. E isto é tão certo que, se houvesse alguém numa congregação que tivesse recebido um tal dom, a não ser que fosse ministro ordenado ou consagrado pelos homens e para tal autorizado, ele não poderia abrir a boca! Não é isto rejeitar o Espírito (1 Ts5:19)? É porventura este o princípio segundo o qual, na Palavra de Deus, vemos atuar os obreiros do Senhor e em virtude do qual Paulo dizia de si mesmo: “Apóstolo [ou: enviado], não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai…” (Gl 1:1)? E, se por vezes, nalgumas congregações, se deixa um pouco de liberdade, isso constitui raríssima exceção. Os princípios e a maneira de atuar são tal como acabo de referir.

E que resulta daí? Vejamos. Um certo jovem quer dedicar-se ao ministério, como agora se diz. Talvez não possua nenhum dom; talvez nem sequer seja convertido, mas isso pouco importa. Ele será aceito da mesma maneira, sobretudo se puder pagar. Fará estudos de teologia, passará nos exames, defenderá uma tese, e, convertido ou não, sadio na fé, segundo as Escrituras, ou não, será investido num determinado grau acadêmico, tal como nas ciências humanas e, se o pedir, será ordenado ou consagrado e obterá um posto de sacerdote, de pastor, de padre (o que, com o tempo, poderá guindá-lo a bispo, a cardeal ou até Papa!) e tornar–se assim um condutor de almas, ensinando-as e alimentando–as da sã doutrina — que talvez ele próprio não possua, do mesmo modo que não possuirá os dons necessários para a sua cura de almas! Onde estará então, em tudo isto, a direção do Espírito de Deus? E onde está a submissão às Escrituras, à Palavra de Deus?

O que acabo de expor não será verdadeiro? Não é também verdade que em mais de um púlpito o pastor que o ocupa e deve edificar o rebanho é um incrédulo, não crê na inspiração divina das Escrituras, rejeita a divindade de Cristo e, em outros casos, se é mais ortodoxo, não é, porém, convertido? São poucos nas igrejas aqueles que mantêm perfeitamente a sã doutrina “criado”, como diz Paulo a Timóteo  “com as palavras da fé e da boa doutrina” (1 Tm 4:6). E quem poderá afirmar que o mal não está em contínuo crescimento? E não causará tristeza ver aqueles que têm permanecido fiéis continuarem associados aos que transtornam a fé?

Outro fato bem surpreendente e que se relaciona com o ministério é este: um homem é estabelecido por um arcebispo, por um sínodo ou por qualquer outra autoridade humana, para ser o pastor de uma igreja. A partir daí ele passa a dizer: “A minha igreja”, “o meu rebanho”. Seria isto que Paulo dizia aos anciãos de Efeso? Ouçamo-lo: “Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos [ou supervisores], para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (At 20:28). Eles, os bispos, são muitos — não um só! — estabelecidos pelo Espírito Santo, e não homem! E em nenhuma passagem das Escrituras se nos diz: a igreja ou o rebanho de Fulano de Tal. E este único homem, estabelecido sobre o rebanho, deve fazer tudo: ser evangelista, mestre, pastor, vigilante ou bispo, etc, quando, talvez, não tenha senão apenas um desses dons — ou mesmo nenhum!

A separação, ou antes, a divisão entre as diversas* denominações é tão distinta que, se mesmo um ministro de outra igreja se apresentar, não poderá falar na assembléia, sem autorização expressa (e muito menos ainda um simples cristão, um leigo, como se diz!).

 

Os Crentes são Membros do Corpo de Cristo

Outrora, quando uma alma tinha sido verdadeiramente convertida ao Senhor, essa conversão era razão suficiente para ela se juntar à Assembléia e ter o seu lugar à Mesa do Senhor — que era uma. Hoje, em alguns países, nascemos católicos ou protestantes, e se não quisermos permanecer no estabelecimento nacional (isto é, na igreja estadual), damos a nossa adesão verbal ou por escrito a uma profissão de fé e tornamo-nos membros de tal ou tal igreja, denominação inexata, porque as Escrituras não falam senão dos membros de Cristo (1 Co 12:27). E se se tratar da ceia do Senhor, na maior parte dos casos para sermos admitidos a ela temos de passar primeiro por uma instrução religiosa, depois da qual, convertidos ou não, seremos então admitidos à comunhão, sem discernir, na maior parte dos casos, o corpo do Senhor (1 Co 11:29).

 

O Culto segundo Deus

Poderia alongar-me ainda sobre o culto ou o que se entende por tal. Entre os católicos gregos ou romanos, o culto não é senão uma série ininterrupta de atos de verdadeira idolatria. Entre os anglicanos, um vão ritualismo. E entre a maioria dos protestantes de diversas denominações dá-se esse nome à pregação, acompanhada de algumas orações litúrgicas. Onde estará, pois, o culto em espírito e em verdade, o culto pelo Espírito, que caracteriza o cristão, sacrifícios espirituais de louvor e adoração, agradáveis a Deus por Jesus Cristo, oferecidos pelo conjunto do sacerdócio santo, de todos os crentes reunidos em volta da Mesa do Senhor (Fp 3:3; lPe 2:5; Hb 13:15; Jo4:23)? Uma pregação, por muito excelente que seja, e embora tenha o seu lugar entre os cristãos, não é o culto.

 

A Mesa e a Ceia do Senhor

Falei da Mesa e da Ceia do Senhor. Mas que confusão ainda existe a esse respeito! O ato mais doce para o cristão

—  recordar a morte do Senhor,  até que Ele volte

— tornou-se, entre alguns, num ato de verdadeira idolatria e iniqüidade, apesar da grande solenidade com que é praticado. E entre outros — que tristeza! — é rodeado de terror, desviados do seu verdadeiro significado e feito um meio de graça. Uns, mesmo os que se dizem verdadeiros cristãos, não lhe concedem nenhuma importância; outros, espiritualizam-no. Alguns julgam que comungar uma vez por ano é suficiente. Em certas igrejas comunga-se quatro vezes por ano, nas festas, ainda que não se diga nada sobre este ponto no Novo Testamento. Outras igrejas pensam

que é bom tomar a santa ceia todos os meses. Num grande número de denominações, não há disciplina a respeito da ceia do Senhor. Convertidos ou não, incrédulos ou crentes, todos são admitidos a ela sob a sua própria responsabilidade, como se a igreja não tivesse nenhuma. Que se faz então das indicações das Escrituras? E isto não é tudo. Uma questão ainda mais séria e premente se levanta: No meio desta confusão e destas divisões, onde se encontra verdadeiramente a Mesa do Senhor? Pode ela achar-se em cada uma dessas igrejas, denominações e seitas tão divergentes?

Vemos, pois, de todos os pontos de vista, que o atual estado de coisas na cristandade difere completamente do que era no princípio e está em completo desacordo com os princípios que encontramos na Palavra de Deus, nossa única regra, nossa única e soberana autoridade. Há desacordo quanto à unidade, quanto à doutrina, quanto ao culto e quanto ao ministério. Que conclusão poderemos tirar disto? E que, por causas que não quero expor aqui, a Igreja, como corporação responsável sobre a Terra, faltou ao testemunho que devia prestar, caiu da sua primitiva posição, desviou-se dos caminhos do Senhor e caiu em ruína. Isto é um fato, caro leitor, um fato evidente. E, em lugar de procurarmos dissimulá-lo, desculpá-lo, não valeria infinitamente mais, não seria segundo a vontade de Deus, reconhecer o erro com dor e humilhação de coração, como outrora Daniel reconhecera e confessara a ruína do seu povo (Dn 9:4-8)? Não é este estado de coisas um mal tremendo, com total desvio daquilo que Deus estabeleceu?

 

A Ruína da Cristandade

Rogo ao leitor que observe que em tudo o que tenho dito de modo nenhum me referi a pessoas. Há nesta decaída e arruinada cristandade muitos queridos e bem-amados filhos de Deus, porque o Senhor, no meio da confusão que existe, prossegue o Seu propósito de graça de salvar almas e de conduzir muitos filhos Seus à glória (Hb 2:10). Mas esses filhos de Deus, que se encontram dispersos em todos os sistemas humanos de cristianismo, não são um só, como Jesus pediu. Há, sem dúvida, os que sentem a necessidade de realizar esta unidade. Daí tentativas como a Aliança Evangélica, onde, durante alguns dias do ano, se põe de parte de alguma maneira a cor particular de cada um; mas logo se volta ao seu sistema, retomando a sua bandeira, não fazendo mais do que afirmar a divisão, em detrimento da glória do Senhor. Não, a ruína existe, e qualquer esforço que se faça, seja aliança evangélica ou federação de igrejas, não a poderá deter, tanto mais que, nessas associações religiosas se deixam sempre de lado grandes corporações religiosas que fazem parte da cristandade.

Tem-se procurado justificar as divisões que existem na cristandade. Tem-se dito que o Novo Testamento não nos apresenta nenhuma regra de fé que devamos seguir e que, por conseguinte, o Senhor deixa aos cristãos o cuidado de se organizarem segundo os tempos, os lugares e as circunstâncias e que, entretanto, se tem a unidade na diversidade. Dizer que não temos nada no Novo Testamento para nos dirigir é enganarmo-nos de forma muito singular. Que se faz então de todo o ensinamento de Paulo relativamente à ordem na assembléia: “É, o que ordeno em todas as igrejas”; “como por toda parte ensino em cada igreja” (1 Co 7:17; 4:17)? Não estava presente ali o Espírito Santo para repartir segundo a Sua boa vontade? Havia então diversas organizações?

O Espírito Santo reunia as almas em volta do Senhor, operava na assembléia. O Deus de ordem e de paz achava-se ali presente, e as direções dos apóstolos também estavam ali, para guiar. Seria isto deixar a cada um a liberdade de se organizar como melhor lhe parecesse? Existe porventura nas Sagradas Escrituras uma simples passagem sequer que nos autorize a pensar que há algo de melhor do que era no princípio, que a obra do homem vale mais do que a obra de Deus? Não! É evidente que não! Quer o esforço para afirmar-lhe a unidade, quando, na verdade, as divisões subsistem, quer a tentativa de justificar essas divisões, não fazem mais do que dizer-nos: “A Igreja já não é o que foi, o que sempre devia ser. Falhou”. Estamos no meio daquilo que é obra do homem, e o que ele faz é um mal, pois tende a transtornar a obra de Deus. No edifício cristão o homem introduziu madeira, feno e palha — e o resultado é a ruína que se vê. Vocês crêem que isso possa ser indiferente ao Senhor?

Mas, dir-se-á, não vemos efetuarem-se obras magníficas em nossos dias? Não se prega o evangelho em maior escala do que nunca e a Palavra de Deus não é espalhada em profusão? Bendito seja Deus porque isso acontece. A maldade do coração natural do homem, o fato de ele corromper tudo o que lhe é confiado, não impede, como já disse, a graça de Deus de salvar almas e de, para tal fim, operar pelo Seu Espírito. Graças a Deus, porque a Sua bendita graça ainda reina nos tempos atuais, mas isso em nada atemia o fato da confusão, da desordem e da ruína na igreja. A igreja não respondeu à oração de Jesus: “para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17:21), de maneira que já não é o seu testemunho diante do mundo que glorifica a Jesus e ao Pai. E, se existem almas salvas, apesar da ausência desse testemunho, elas o são por efeito da soberana graça de Deus. E não se diga: “Que importa se, ao fim e ao cabo, as almas são salvas?” Seria desconhecer, de forma muito singular, o que tende para a glória do Senhor. A maneira que Ele julga o mal nas igrejas (Ap 2 e 3) mostra-nos bem que isso Lhe não é diferente.

 

A Evangelização segundo Deus

Sim, bendito seja Deus, existe uma pregação do evangelho e almas que se salvam, mas quanto mais eficaz não seria a evangelização no mundo se fosse apoiada no testemunho da Igreja! E que diferença na maneira de anunciar o evangelho outrora e hoje! Naquele tempo apresentava-se simplesmente Cristo e a Sua obra, e as almas, feridas de compunção, vinham a Ele e eram salvas. Agora procura-se agir sobre os sentimentos e, não raro — sabemo-lo bem —, por meios puramente humanos e totalmente fora das Escrituras, tendo quase sempre em vista um resultado meramente filantrópico, em vez de salvação das almas e da glória de Cristo.

 

Aonde Devemos Ir frente a Confusão Atual?

Outro traço igualmente surpreendente da confusão que reina por toda a parte, do estado de ruína em que nos achamos, do mal que invadiu a cristandade é o seguinte: uma alma foi salva; apresenta-se muito seriamente diante de Deus e interroga-se: “Aonde hei de ir para render culto a Deus? Com quem me reunirei?” Encontra-se essa alma-* perante trinta e seis denominações diferentes, entre as quais precisa escolher. E, se as examinar com retidão e à luz das Escrituras, achará que todas elas, ao fim, não passam de instituições humanas, onde freqüentemente os princípios divinos são sacrificados aos interesses e egoísmo humano. Que ruína! Parece necessário associarmo-nos com o mal para não ficarmos sós!

Procurei apresentar aos leitores como era no princípio, quando a Igreja andava nos caminhos do Senhor, e como é agora. Por mais de uma vez se nos impôs a seguinte conclusão: isto é um estado de ruína total, é a desobediência ao Senhor, é o mal em todas as suas formas. A questão que agora se põe é: “Que temos de fazer, num tal estado de coisas, para andarmos segundo a vontade de Deus?” Mas antes de procurar resolvê-la, eu gostaria de mostrar que essa ruína da igreja já tinha sido anteriormente anunciada na Palavra de Deus. Isto não só confirmará a verdade do que sentimos, mas também nos ajudará a encontrar os recursos que Deus tem reservado para os que desejam andar em fidelidade e obediência ao Senhor, apesar do atual estado de coisas em que vivemos.

 

 

 

 

 

 

Testemunhos da Palavra de Deus quanto à Ruína

O Senhor e, depois dEle, os apóstolos não nos tinham deixado ignorar que o mal se introduzia na nova ordem de coisas que ia estabelecer-se e que devia, por algum tempo, substituir Israel como testemunha de Deus sobre a Terra. Nada de tão grande nem de tão precioso aos olhos e para o coração do Senhor existe como a Igreja ou a Assembléia, segundo os eternos desígnios de Deus. Ela é o templo santo que se ergue, formado de pedras vivas e fundado sobre o Filho de Deus. Ela é o corpo de Cristo, a plenitude dAquele que enche tudo em todos. Ela é a pérola de grande preço: ele deixou tudo, deu-Se a Si próprio para a adquirir. Ela é a Sua esposa, a qual Ele ama, alimenta, santifica e apresentará a Si mesmo sem mancha. Tudo isso já existe no que diz respeito aos verdadeiros crentes e terá, dentro em pouco, a sua perfeita e completa realização na glória.

Considerando a Igreja na sua existência e na sua conduta neste mundo, a sua administração foi confiada ao homem e entregue à sua responsabilidade, como aliás, tem sucedido sempre nas diferentes dispensações de Deus sobre a Terra. Todavia — fato doloroso de verificar, mas inteiramente evidente — o homem tem falhado sempre quando Deus coloca algo sob sua responsabilidade. O primeiro homem, que devia guardar o jardim do Éden,* deixou-se seduzir; Noé, salvo para ser o novo tronco da raça humana, depois de os homens ímpios terem sido tragados pelo dilúvio, Noé, a quem Deus confiara as rédeas do governo, embriagou-se e caiu; Israel, povo escolhido do Senhor para manter a verdade da unidade de Deus no meio das nações idolatras, entrega-se à adoração de um bezerro de ouro; o sacerdócio, estabelecido para a manutenção das relações entre Deus e o povo, tomba nas pessoas de Abiú e de Nadabe, que oferecem fogo estranho; a realeza, que devia conduzir o povo no caminho da justiça, arrasta-o para o culto das falsas divindades; e a Igreja, responsável fazer brilhar na Terra a luz de Cristo e de nela manifestar a Sua vida — uma vida celeste —, falha também na sua alta vocação e vem a dar na coisa mais corrompida entre todas as coisas corrompidas, e tanto mais culpável quanto tem gozado de maiores privilégios.

 

As Parábolas do Reino dos Céus

O Senhor tinha já anunciado esta introdução do mal nas parábolas do reino dos céus, que lemos em Mateus, capítulo 13. Jesus tinha sido formalmente rejeitado pela nação judaica, representada pelos seus chefes (Mt 12:14 e 24). Por isso o Senhor rompe todas as relações messiânicas com ela e já não reconhece por Seus senão aqueles que fazem a vontade de Seu Pai, unindo-se a Ele (Mtl2:46-50; Jo 6:29). Apresenta-Se então, no capítulo seguinte, semeando a Palavra de Deus nos corações, e mostra os diferentes resultados produzidos por essa obra, segundo o estado da alma e a maneira que ela recebe a Palavra. Nas três parábolas seguintes, o Senhor faz-nos conhecer o aspecto exterior que tomará o reino dos céus durante a ausência do Rei que foi rejeitado, e a maneira que ele se estabelecerá. A parábola do joio ensina-nos que no campo, que é o mundo, o Senhor não tinha semeado senão boa semente, isto é, os filhos do reino, aqueles que lhe pertencem de verdade. Mas, por seu lado, o inimigo, o diabo, semeou o joio, os filhos do mal, entre o bom trigo, aproveitando-se, para tanto, da negligência dos servos do Senhor. E esses filhos do mal não são nem os pagãos nem os judeus, que já existiam quando o reino foi estabelecido.

O joio representa um mal introduzido por Satanás no meio dos cristãos. Depois de ter sido semeado o bom trigo, o joio se acha no meio. Os judaizantes, os falsos mestres, os heréticos em breve surgiram e difundiram as más doutrinas, afirmando, contudo, professarem o ( cristianismo. Tal é o aspecto do reino sobre a Terra, o que testemunha a incapacidade do homem para guardar em pureza o que lhe fora confiado. E esse estado de mistura do bem e do mal podemos facilmente verificá-lo. Poderemos nós trazer remédio contra o mal? Não. O Senhor ensina-nos que as coisas continuarão assim, sempre de mal a pior, até chegar o tempo final da ceifa.  julgamento será então executado sobre os maus, e o bom trigo recolhido no celeiro.

As duas parábolas que se seguem apresentam também o aspecto exterior do reino. Na primeira vemo-lo na figura de uma grande árvore, proveniente de uma pequenina semente. Com efeito, os começos bem fracos do cristianismo, como se sabe, foram seguidos de um crescimento rápido e surpreendente em grandeza e extensão. Em menos de três séculos havia ultrapassado já os limites do vasto Império Romano e não cessou de se expandir. Tornou-se uma grande árvore, na linguagem figurada das Escrituras (veja-se Dn 4:20-22; Ez 31:3-6). Mas esta árvore abriga as aves do céu. E uma mistura também, e é de notar que, em geral, as aves são consideradas símbolos do mal. “As aves” descem sobre o sacrifício oferecido por Abraão, e o patriarca deve enxotá-las (Gn 15:11). “Como uma gaiola cheia de pássaros”, diz Jeremias, “são as suas casas cheias de engano” (Jr 5:27). E na parábola do semeador, as aves são a imagem do mal, que arrebata do coração a Palavra do Senhor. Assim o cristianismo, tendo chegado a ser um grande poder sobre a Terra, abriga toda espécie de heresias, de erros e de homens que os sustem, e grande número de incrédulos. A parábola seguinte é a do fermento, que estende a sua ação a toda a massa pura. Ora, o fermento não é o evangelho enchendo o mundo, porque, por um lado, o mundo corrompido não representa a farinha — uma coisa pura — e, por outro lado, o fermento, na escritura, é sempre símbolo de uma coisa má (Mt 16:11,12; 1 Co 5:6 e 8; G15:9). Não se trata, portanto, do evangelho. A massa sem fermento é o que Deus estabeleceu, e o fermento é o que o homem ali introduziu e vai estragar tudo.

Nessas três parábolas, o Senhor dá-nos a conhecer que o mal, pela ação do inimigo e pela negligência dos servos de Deus, se introduziria no reino que ia estabelecer-se sobre a Terra na ausência do Rei, e que esse mal se estenderia e não mais teria fim, a não ser na hora do juízo final.

O apóstolo Paulo é também muito claro e positivo acerca deste assunto. Despedindo-se dos anciãos da igreja de Efeso, mas abarcando no seu pensamento toda a igreja, anuncia que, depois da sua partida, quando a sua autoridade apostólica e a sua energia pelo Espírito já lá não estiverem para refrear o mal, esse mal se introduzirá de maneira dupla: “Eu sei”, diz ele, “que, depois da minha partida entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não perdoarão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens que falarão coisas perversas para atraírem os discípulos após si” (At 20:29-30). Era, portanto, ao mesmo tempo de fora e de dentro que viriam os que haviam de corromper a Igreja. E era dentre eles mesmos, cujo cargo era o de apascentar e guardar o rebanho, que haviam de sair os falsos mestres! Não foi precisamente isto o que sucedeu e que ainda hoje vemos na cristandade?

Em 1 Coríntios 3:7-9, o apóstolo mostra-nos a construção do edifício de Deus, confiado ao homem, como instrumento dEle. Paulo, como sábio arquiteto, pôs o verdadeiro e único fundamento que podia ser posto, ou seja, Jesus Cristo. Outros edificam sobre esse fundamento, porém cada um tem de considerar que materiais emprega na estrutura do edifício. Há os que trazem bons materiais, há outros que introduzem materiais sem solidez e sem valor, e outros ainda que corrompem o templo de Deus. E isto é, com efeito, o que tem sucedido e tem causado a ruína do edifício.

Se considerarmos 1 Timóteo 4:1-3, veremos ali anunciado o abandono da fé por alguns. Seduzidos pelo inimigo, cuja voz escutaram, deixaram as verdades que são os objetos da fé, e substituíram-nas pelos seus próprios ensinamentos — ensinamentos estes contrários ao que Deus estabeleceu e introduziu — sob o pretexto e a pretensão de assim chegar a uma santidade maior. Quem não vê nisto os erros de Roma a respeito do celibato e do ascetismo?

2 Timóteo 3:1-5 revela um mal geral, que devia caracterizar os últimos dias. E note-se que não se trata aqui dos pagãos, como em Romanos 1, mas sim daqueles que professam o cristianismo e entre os quais encontramos os mesmos rasgos de corrupção. Assim, do mesmo modo que a levedura doutrinai, o fermento moral devia difundir-se e corromper a massa pura. Não é isso o que vemos à nossa volta? A parte um certo número que rejeita abertamente o cristianismo, as multidões não o professam, “tendo a aparência de piedade, mas tendo negado a eficácia dela”? E não se pense que há para esse mal melhoria possível. O apóstolo diz um pouco mais à frente: “Os homens maus e enganadores irão de mal a pior, enganado e sendo enganados” (2 Tm 3:13).

 

Pregar a Palavra

O princípio do capítulo 4 da mesma epístola vem dar mais um toque a este quadro: “Virá tempo”, diz o apóstolo, “em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (versículos 3 e 4). De uma maneira geral, onde está, nos nossos dias, o são ensinamento? Não é verdade que se preferem os sermões que agradam ao ouvido e interessam à inteligência natural e à imaginação, sem a preocuação se o fundamento deles é Cristo e a verdade? Que se pergunta em primeiro lugar, falando de um pregador? Será: “Prega ele segundo as Escrituras?” Ou será: “Prega ele bem?” — isto é, de maneira agradável aos ouvidos e aos nossos desejos segundo a carne.

Às palavras de Paulo juntemos as do apóstolo Pedro, na sua segunda epístola: “E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade; e, por avareza, farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita” (2 Pe 2:1-3).

De todas estas passagens podemos concluir que a ruína da igreja, que temos verificado com fatos, era uma coisa prevista e anunciada pelo Senhor e por Seus apóstolos, do mesmo modo como outrora a apostasia de Israel o tinha sido pelos profetas.

Outras passagens do Novo Testamento nos dão a conhecer um fato não menos importante: o mal tendia já a introduzir-se no tempo dos apóstolos, embora ainda contido e reprimido pela ativa energia deles. Foi assim que Deus proveu para que tenhamos as direções e as exortações que nos possam guiar no tempo presente, nestes “tempos difíceis; nesta última hora” em que nos encontramos.

 

O Começo da Ruína

A primeira indicação do começo do declínio e da ruína no tempo dos apóstolos encontra-se na segunda Epístola aos Tessalonicenses. É uma das primeiras cartas que o apóstolo Paulo escreveu. Data do ano 52, pouco mais ou menos. Falando àquela igreja acerca da segunda vinda do Senhor, da manifestação da Sua vinda, como ele o chama, Paulo diz que esse acontecimento não se dará sem que primeiro venha a apostasia e apareça o homem de pecado. Depois acrescenta: “já o mistério da injustiça opera” (2 Ts 2:7). Portanto, o que devemos esperar não é ver a Igreja restabelecida na sua primitiva pureza, mas sim um estado de coisas que irá sempre piorando e terminará na apostasia e no Anticristo. Já se mostravam os germes desse mal horrível, e o olho previsor do apóstolo bem o discernia.

Toda espécie de desordens se manifestava já na igreja de Corinto, divisões, imoralidade tolerada e falsas doutrinas (1 Co 1:5 e 15). Em Roma era preciso observar atentamente aqueles que causavam divisões por coisas que não eram conformes à doutrina que os cristãos tinham aprendido (Rm 16:17). Os galatas desviaram-se do evangelho para seguirem os mestres judaizantes (veja-se toda a epístola); entre os filipenses havia muitos que eram inimigos da cruz de Cristo (Fp 3:18,19);’os colossenses corriam o perigo de não referem o Cabeça (Cristo) e de se deixarem arrastar por filosofias, tradições e ensinamentos de homens (Cl 2:4, 8 e 19). O apóstolo combate todas essas coisas com energia, adverte e admoesta os santos, dando-lhes sábias e preciosas instruções, que ficaram para nós. Mas os princípios do mal estavam lá e esperavam apenas a oportunidade de se manifestar e desenvolver. Como vimos, a advertência de Paulo aos anciãos de Éfeso mostra-nos que era de entre eles próprios que sairiam os falsos mestres.

 

O Desenvolvimento do Mal

Na primeira Epístola a Timóteo 5:15, vê-se que o mal se desenvolvia; mas é sobretudo a segunda epístola, último escrito de Paulo, que nos testifica os seus funestos progressos e o estado em que tinha caído a Igreja. A epístola inteira leva o respectivo selo desse estado. Outrora toda a Ásia tinha ouvido, da boca de Paulo, o evangelho, e as provas do poder do Espírito para a conversão e para a conduta fiel das almas tinham sido manifestadas (At 19:10). Também podia dizer com prazer o apóstolo: “As igrejas da Ásia vos saúdam” (1 Co 16:19). Em Atos 20:37-38 vemos a viva afeição que os anciãos de Efeso, a principal dessas assembléias, testemunham ao apóstolo. Transcorridos apenas alguns anos (cerca de doze), como as coisas mudaram! Paulo, prisioneiro em Roma, escreve a Timóteo: “Todos os que estão na Ásia se apartaram de mim” (2 Tm 1:15). Todos voltaram as costas ao apóstolo, o arauto da verdade, o consagrado servo do Senhor, por cujo ministério tinham recebido tantas bênçãos! Quantos não existem hoje que se apartam da doutrina do santo apóstolo, dizendo que ele se enganou e se deixou influenciar por preconceitos rabínicos!

Na sua primeira epístola, a Igreja é ainda vista em ordem, como sendo a Casa de Deus, a coluna e a firmeza da verdade. O apóstolo ali ainda fala de supervisores ou bispos e de diáconos ou servidores, como cargos reconhecidos na Igreja e dá regras relativas à ordem que devia ser observada (1 Tm 3:5). Mas na segunda epístola já não se fala mais nisso. O apóstolo recomenda a Timóteo que confiasse a homens fiéis o depósito das sãs palavras (2 Tm 2:2). Já aí se não fala da Casa de Deus. O estado de coisas é comparado a “uma grande casa”, onde não há somente vasos puros e preciosos, como conviria a um templo de Deus, vasos próprios unicamente para o serviço do Mestre, mas onde, como uma habilitação de homens, existe uma mistura confusa de vasos de desonra com outros (2 Tm 2:20-21). Não é isto o que vemos plenamente manifestado em nossos dias? O joio tinha crescido e aparecia então distintamente misturado com o bom trigo. Entregavam-se a estéreis discussões; o espírito de especulação originava o erro, que se propagava vertiginosamente! Himeneu e Fileto ensinavam que a ressurreição já tinha ocorrido (versículos 17-18). Por outro lado, tal era o abandono em que o apóstolo se achava, tal o resfriamento do afeto cristão, tal a falta de zelo e o temor do mundo que ninguém, em Roma, ajudou Paulo no seu testemunho (capítulo 4:10 e 16).

O apóstolo João, muitos anos depois de Paulo, mostra-nos que o triste e deplorável estado de coisas na Igreja tinha piorado muito: “Também agora”, diz ele, “se têm feitos muitos anticristos… saíram de nós” (1 Jo 2:18-19). Na sua segunda epístola adverte a senhora eleita contra esses sedutores (versículo 7) e, na terceira, vemos um Diótrefes usurpando a autoridade numa assembléia e conseguindo aliciar grande parte dela para rejeitar o apóstolo e excluir da mesma assembléia os que permaneciam fiéis e em comunhão com ele (versículos 9-10). As epístolas do Senhor às sete igrejas do Apocalipse, à parte do seu caráter profético, testemunham também da ruína que cada dia se acentuava mais. Efeso tinha perdido o seu primeiro amor; em Pérgamo, a igreja estava misturada com o mundo, trono de Satanás, e deixava atuar os que sustentavam a doutrina de Balaão ou a dos nicolaítas; Tiatira tolerava a falsa profetiza Jezabel; Sardes tinha pretensão de viver, mas estava morta; e Laodicéia, por causa da sua indiferença por Cristo, ia ser vomitada da boca do Senhor (Ap 2 e 3).

Finalmente Pedro, na sua segunda epístola, do mesmo modo que Judas na sua, dá-nos a conhecer a terrível mistura que existia nas assembléias: homens perversos que, sob o nome de cristãos, se entregavam a toda classe de iniqüidades, e a quem os fiéis toleravam no seu meio (2 Pe 2:10-14; Jd 4:8-13).

Assim, o estado de coisas em que nos encontramos já tinha sido predito e tinha já começado no tempo dos apóstolos, e continuará até o fim. Embora Deus tenha operado de maneira maravilhosa quando os homens que Ele suscitou no tempo da Reforma trouxeram de novo para a luz a Sua Palavra e as grandes verdades da salvação pela fé, não houve restauração da igreja e não há que esperá-la. Sucedeu como quando os judeus regressavam do cativeiro de Babilônia:  não foram restabelecidos na sua primitiva posição.  Somente regressaram duas tribos e ainda ficaram sob o domínio dos gentios — e a glória do Senhor não voltara a morar no templo! Para a igreja meramente professante, o seu destino é a apostasia final e o julgamento, como vimos, em conformidade com 2 Tessalonicenses 2.   O apóstolo Paulo, na sua Epístola aos Romanos, capítulo 11, versículos 17 a 24, faz pressentir claramente esse julgamento, quando fala do porvir para os judeus. Sobre a oliveira natural, cujos ramos naturais (os Judeus) foram quebrados, por causa da sua incredulidade, Deus, pela Sua graça, enxertou ramos de oliveira brava {os gentios). Mas “tu estás de pé pela fé”, diz o apóstolo. Deus tem operado, na Sua bondade soberana, trazendo os gentios à fé. Porém, se estes não perseverarem até o fim na bondade de Deus, a sentença produzirá o seu efeito: “também tu serás cortado”. Ora, como vimos, a cristandade não perseverou na fé e na bondade de Deus, e será cortada, tal como a figueira estéril, que representa Israel (Lc 13:6-9). É o que ressalta da Epístola de Judas e das palavras do Senhor à igreja de Laodicéia. Na Epístola de Judas vemos abater-se o juízo, na vinda do Senhor, sobre os ímpios de quem o Senhor falou e que, em seu tempo, se infiltraram por entre os fiéis (versículos 14 e 15), e Laodicéia, a igreja meramente professante do fim, é vomitada da boca do Senhor.

 

Não Esperamos a Restauração da Igreja

Não tendo de esperar pela reedificação, pela restauração da igreja como tal, que devemos fazer? Devemos inquirir se há um caminho de Deus que devamos seguir no meio da ruína, e qual ele seja. Poderíamos lembrar-nos daquilo que já dissemos, as palavras do Senhor Jesus a propósito da Igreja: “Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18). Bendito seja Deus, porque assim é: o fundamento é sólido e permanece eternamente. Deus opera sempre por Seu espírito e congrega só membros do corpo de Cristo, as pedras vivas, porque somente elas entram na estrutura do templo santo, que se eleva sem cessar (Ef 2:21). O que Cristo edifica, o que depende dEle, é perfeito e assim será manifestado na glória; os desígnios de Deus seguem o seu curso e terão o seu pleno cumprimento; mas o que dependia da ação do homem, o que lhe fora confiado, a Igreja como vaso do testemunho de Deus sobre a Terra, tudo está totalmente arruinado, e a nossa responsabilidade atual é procurar como andar segundo a vontade de Deus no meio de um tal estado de coisas. Vamos procurar expor o que a Sagrada Escritura nos ensina a esse respeito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Qual é o Caminho da Fé em Tempos de Ruína?

Ainda que o estado da Igreja seja deplorável, como fica demonstrado, e a ruína e a confusão se façam sentir por todo o lado e se acentua em cada vez mais, não devemos fechar os olhos ao que Deus opera em Sua graça soberana, mesmo em tempos como este, que agora atravessamos. Além da Reforma, tem havido, em diferentes épocas — e também em nossos dias — avivamentos em que muitas almas têm encontrado a salvação. Atualmente mesmo está sendo desenvolvida uma grande atividade para evangelizar. Sem dúvida, seria desejável que esta obra prosseguisse, mas de maneira mais geral e mais de harmonia com a Palavra de Deus e os exemplos que ela apresenta, pois, freqüentemente, apela-se mais aos sentimentos do que à consciência. Por isso a pouca profundidade e realidade nos resultados. Muitas vezes ainda procuramos antes uma melhoria na conduta exterior, de modo que a evangelização acaba por se tornar filantropia. Todavia, e seja como for, há conversões — e Deus seja bendito por elas! — porque o Espírito Santo, descido à Terra no dia de Pentecostes (At 2), age soberanamente e, para a glória de Cristo, salva as almas, conduzindo-as a Ele, apesar das deficiências dos homens e da ruína da Igreja.

 

A Salvação, e depois?

Mas ser salvo já será tudo? Não! Quando uma alma é convertida ao Senhor, ainda fica por resolver a questão da sua conduta. A partir desse momento, a alma não pertence mais a si própria, mas sim Aquele que por ela morreu e ressuscitou. Já não deve, pois, viver para si própria, mas para Ele (2 Co 5:15). Todo o cristão honesto compreende que, nascido de Deus, tem de levar como indivíduo uma vida santa, consagrada ao seu Salvador, em obediência à Sua Palavra. Mas isto ainda não é tudo! A obediência não compreende a separação daquilo que não é segundo a vontade de Deus e o cumprimento daquilo que Lhe é agradável na vida individual. Há outra parte da conduta do cristão que não importa menos: Ele não é chamado para ficar só. Ele agora é filho de Deus, e, por esse motivo, faz parte de uma família; ele agora é membro do corpo de Cristo, foi constituído adorador de Deus, para Lhe render culto em Espírito e em verdade com os outros adoradores. Faz parte da casa espiritual, do sacerdócio santo, para oferecer a Deus sacrifícios espirituais (1 Jo 3:1; Rm 12:5; Jo 4:23-24; 1 Pe 2:5). Portanto, a questão que agora se põe, ou que deveria pôr-se, para todo novo convertido e para todo cristão é esta: “Com quem me reunirei para prestar culto a Deus? Onde se encontra atualmente a congregação segundo a vontade de Deus e o pensamento de Cristo?” E isto não é, estejamos certos disso, algo indiferente a Deus nem ao bem e ao progresso da alma.

No princípio da cristandade, esta questão nem sequer se punha. Não havia senão os judeus, os pagãos e a Assembléia de Deus (1 Co 10:32). Um convertido dentre os judeus ou dentre os pagãos encontrava-se, necessariamente, fazendo parte da Assembléia ou Igreja. Reunia-se, pois, com os cristãos da localidade onde se encontrava, rendia culto ao Senhor com eles, tomava lugar com eles à Mesa do Senhor, que era uma. Em nossos dias, na ruína e na confusão universais da cristandade, dá-se precisamente o contrário. Uma alma é convertida e deseja servir o Senhor. Aonde irá ela? Com quem vai reunir-se? Pergunto ainda: Será que isto é coisa de pouca importância aos olhos do Senhor? Estamos nós obrigados, para resolver uma tal questão, a examinar e a pesar os argumentos que cada igreja ou seita apresenta, não nos dando, afinal, por onde escolher, senão entre opiniões humanas? Ou então seria preciso ir com todos, indiferentemente, como se a verdade se encontrasse em toda parte — ou antes, em parte nenhuma?

Não, e bendito seja Deus por isso! Ele não nos deixou, nem para esta questão nem para a da salvação, entregues a nós próprios, isto é, dirigirmo-nos segundo as nossas próprias luzes. Importa à Sua glória, como convém à Sua sabedoria e ao Seu amor, que andemos, em relação a tudo, no caminho que Ele traçou para nós. Rogo, pois, encarecidamente a cada um dos meus leitores que procure dar-se bem conta do que tem de fazer para obedecer a Deus no que se refere a este importante assunto. O que temos dito acerca da confusão que reina na cristandade mostra bem a necessidade que temos de estar devidamente esclarecidos a tal respeito. O nascimento, as circunstâncias, o apego àquilo que foi o instrumento da nossa conversão ou aos cristãos que estimamos, ou ainda uma certa inclinação por estas ou aquelas formas podem ter contribuído para que nos congreguemos a uma denominação qualquer, mas a nossa responsabilidade perante Deus é de nos interrogarmos: “Estou eu onde Deus me quer? É esta uma congregação instituída segundo a Sua vontade? Juntando-me a ela ou nela permanecendo é a Palavra do Senhor que estou seguindo?”

 

A Autoridade da Palavra

Para responder a essas questões é necessário resolver primeiro estas: “Qual é a regra da verdade? Onde se encontra a pedra-de-toque divina? Como poderei conhecer com exatidão o pensamento de Deus?” Pois bem, caro leitor, dá-se precisamente o mesmo que se dá para a questão da sua salvação: é a Palavra de Deus que lhe faz conhecer o Seu pensamento e que é a regra da verdade. Ela é a suprema autoridade para nos conduzir; é o Espírito Santo que nos ajuda a compreendê-la e a aplicá-la à nossa alma e à nossa vida. A única pedra-de-toque para saber se a minha conduta é conforme a vontade de Deus é a Sua Palavra, são as Sagradas Escrituras.

As mesmas passagens das Escrituras que nos advertem do mal que tendia a introduzir-se ou se havia já introduzido na Igreja, nos dão a conhecer este recurso único e plenamente suficiente. Que diz Paulo aos anciãos de Efeso, depois de os ter advertido dos perigos que ameaçavam a Igreja? Para conjurar esses perigos remete-os a um Papa ou a um concilio “infalíveis”? Diz-lhes que façam uma constituição de fé, ou que elejam um sínodo ou um presbítero? Não! Eis o que ele lhes apresenta como único e infalível recurso e salvaguarda para todos os tempos e todas as circunstâncias: “Encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça, a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados” (At 20:32). Deus, agindo pelo Seu Espírito, e Sua Palavra como guia no meio das dificuldades (Hb 4:12) e como arma contra os artifícios do inimigo (Ef 6:17) não são suficientes?

Achamos a mesma situação na segunda epístola a Timóteo. A ruína da Igreja tinha já começado e ainda devia crescer muito. A que o abnegado servo do Senhor recomenda ou remete os fiéis a fim de se preservarem das seduções do mal? A autoridade suprema e à inteira suficiência da Palavra de Deus. Escutemos-lo: “Os homens maus e enganadores”, diz, “irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” e isto na cristandade, porque não se trata aqui dos judeus nem do mundo pagão. Que fazer então em tais circunstâncias? Eis a resposta: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que, desde a tua meninice sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (2 Tm 3:13-15). Ora, as coisas que Timóteo tinha aprendido, tinha-as recebido de Paulo, o apóstolo do Senhor. E nós temos os escritos inspirados de Paulo que agora fazem parte das santas epístolas, das Sagradas Escrituras de que ele fala a Timóteo (veja-se 2 Pe 3:15-16). A submissão às Escrituras é, pois, a salvaguarda contra o erro; e elas são a verdadeira e única regra para o cristão. A sua autoridade é suprema, porque são inspiradas por Deus, e próprias para ensinar e instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito.

O apóstolo Pedro, na sua segunda epístola, em que fala também dos falsos mestres e do mal que se introduzia no meio dos fiéis, dirige de igual modo os seus olhares para a palavra profética, e exorta-os a recordarem-se das palavras dos profetas e daquilo que o Senhor e Salvador disse pelos apóstolos (2 Pe 1:19; 3:1-2). Judas fala da mesma maneira (versículo 17). Ora, estas palavras dos apóstolos também nós as temos no Novo Testamento!

O nosso guia para nos fazer conhecer o caminho de Deus através do estado de coisas em que nos encontramos não são, portanto, as tradições, os mandamentos de homens, os arranjos humanos, por muito acertados que possam parecer, mas é a infalível Palavra de Deus.

Leitores amigos, vocês crêem que o Novo Testamento, do mesmo modo que o Antigo, é a palavra inspirada de Deus? Crêem que lhe devem inteira e implícita obediência? Então, em caso afirmativo, é somente a ela que vocês devem seguir neste importante assunto — e ela lhes dará, para tanto, todas as diretrizes necessárias. O fundamental é prestar a devida atenção ao que ela diz e obedecer-lhe com simplicidade, sem se deixar perturbar por suposições, por idéias preconcebidas, por hábitos e por laços formados talvez desde longa data. É preciso estar decidido, custe o que custar, a permanecer fiel a Deus e à Sua Palavra.

 

Seguir o Caminho traçado por Deus

Posto isto, qual é o caminho traçado para a fé pela Palavra de Deus? Para o conhecermos, retomemos a passagem de 2 Tm 2:17-22, de que falamos a propósito do mal que o apóstolo previa e que começava já a manifestar-se naquele tempo. Sejam quais forem a ruína e a confusão, “o fundamento de Deus” permanece inabalável. O seu selo tem duas faces e duas divisas. Por um lado “o Senhor conhece os que são seus”. Ele os distingue, no meio da infidelidade geral. Este é o lado de Deus. Mas há outro: o da responsabilidade individual no meio do mal. E eis aqui, a tal respeito, o princípio da maior importância para todo cristão desejoso de obedecera Deus: “Qualquer que profere o nome de Cristo [ou: do Senhor] aparte-se da iniqüidade” (grifo do autor). Assim, todo aquele que se intitula do Senhor, por outras palavras, todo aquele que se diz cristão está no dever de se retirar de tudo o que não estiver de harmonia com a vontade de Deus, expressa por intermédio da Sua Palavra. Importa compreender bem o alcance desta ordem: “Aparte-se da iniqüidade”.

Observemos desde já que a igreja exterior, isto é, o conjunto dos que se dizem cristãos, é considerada uma grande casa — uma habitação humana, onde se encontram misturados vasos para honra e vasos para desonra. Como já fizemos notar, esta casa, descrita em 1 Timóteo 3, na qual ainda reinava a ordem, não é já “a Casa de Deus”, o templo onde não devem encontrar-se senão vasos santos. Ora o cristão — quero dizer, aquele que o é não somente de nome, mas de fato e de verdade — encontra-se, com efeito, nesta grande casa. Mas se ele é fiel, se quer ser, ele próprio, um vaso de honra, santificado, idôneo ao Senhor, então tem a responsabilidade de obedecer à Palavra, que lhe prescreve que se aparte da iniqüidade, que se purifique, separando-se dos vasos de desonra. Ainda aqui procuremos bem compreender: não é somente do mal moral que temos de nos separar e andar em pureza e santidade de vida, nem que devemos romper as relações com aqueles que levam uma conduta mundana ou escandalosa. O apóstolo tem em vista outro mal: é aquele que vem de homens que seguem os seus próprios pensamentos e se apartam da verdade. “A iniqüidade” é, com efeito, tudo o que decorre da vontade própria do homem, sem ter em conta a vontade de Deus. Apartar-se, pois, da iniqüidade é separar-se, é colocar à parte de tudo o que o homem estabeleceu por sua própria vontade na grande casa: sistemas e ordenanças.

No tempo dos reformadores, aqueles que estavam esclarecidos pela Palavra de Deus retiraram-se do vasto sistema de iniqüidade que tinha invadido a Igreja. Pelo menos neste aspecto eles obedeceram à ordem do apóstolo. Por que então restabelecer em seguida outros sistemas com o nome de igrejas reformadas, luteranas, nacionais, livres, independentes, etc? E verdade que estas não contêm em si as abominações de Roma, mas nem por isso deixam de ser o fruto da vontade do homem, e não fazem senão introduzir a confusão na Igreja.

Achamos, porventura, vestígio algum de uma tal ordem de coisas nas Escrituras? Em nossos dias, como já vimos, o que não abrigam essas diversas denominações de protestanismo? Racionalismo, incredulidade, negação das verdades capitais do cristianismo, falsos mestres, homens semelhantes a Himeneu e a Fileto, que transformaram a fé, sem contar toda uma série de aberrações com que topamos a cada passo. Não é isto a iniqüidade? E para honra do Senhor esta manifestação da vontade do homem, que pretende estabelecer regras e ordem aí, onde Deus nada estabeleceu; ou se constitui ele em juiz da Palavra de Deus para a interpretar e agir do modo que quer? Que devo, pois, fazer, senão purificar-me, apartando-me dessas coisas?   Esta é a minha responsabilidade perante Deus, se quero ser   1 obediente. Posso reconhecer os verdadeiros cristãos que se encontrem entre outros em todos esses sistemas e seitas, mas, por mais abnegados que sejam, não devo segui-los na sua posição anti-escriturística. Tenho de me separar de tudo o que não está estabelecido por Deus, de tudo o que a Sua Palavra não sancionou — e isto embora pareça ser algo positivo. É a iniqüidade, e eu não poderia juntar-me a ela sem dela participar. Possa todo cristão honesto que lê estas linhas, interrogando a sua própria consciência, exclamar: “Estarei eu bem certo de ter aprovação da Palavra de Deus, permanecendo ligado a este ou àquele sistema religioso?”

 

O Lado Negativo

Não, certamente. Ainda que uma organização humana congregasse muitos cristãos verdadeiros; ainda que ela fosse composta unicamente de verdadeiros cristãos, seria desobedecer à Palavra de Deus continuar nela sob tal pretexto. 0 simples fato de ela ser humana, de não ter sido estabelecida por Deus, nos impõe o dever de nos separarmos dela.

Desse modo, o primeiro passo a dar no caminho de Deus é o crente sincero retirar-se da iniqüidade, de tudo aquilo que a Palavra de Deus não estabelece, daquilo que é o resultado dos pensamentos e da vontade do homem. E nós temos de o fazer, ainda que corrêssemos o risco de ficar tão solitários como Elias supunha estar, quando dizia: “Fiquei só”. Que queremos nós seguir: os nossos pensamentos, os nossos gostos e os nossos sentimentos ou a vontade de Deus?

Alguns vêem nitidamente o mal que se encontra nos sistemas religiosos, mas dizem: “E necessário ficar onde estamos e usar de toda a nossa influência para tentarmos reformar os abusos e protestar contra o erro”. Porém, não será sem mágoa que, dentro em pouco, percebendo que são impotentes para entravar os progressos do mal.

Protestar no seio do mal e continuar lá, associado a ele de fato, é um protesto sem força e inconseqüente. O verdadeiro protesto é sair do mal. Acima de tudo, está a ordem de Deus, que não pode aceitar compromissos com a iniqüidade: “Saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; não toqueis nada imundo, e eu vos receberei” (2 Co 6:17). Preciosa promessa esta, não é verdade? Eu vos receberei — diz o Senhor! “Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13:13). O arraial, neste caso, era um sistema de ordenanças e de cerimônias estabelecido sobre o princípio de que Deus e o homem pecador podiam habitar juntos. Era o que existia em Israel. Porém, esse sistema terminou quando o homem expulsou Deus do arraial — quando Cristo foi crucificado. Portanto, era preciso sair dele para estar com Jesus. A posição cristã era fora do arraial. Se o homem refaz “arraiais”, estabelecendo, no cristianismo, segundo a sua vontade e a sua própria sabedoria, sistemas religiosos que consistem em ordenanças e regulamentos, a ordem expressa da Palavra do Senhor subsiste: “Saiamos, pois, a ele”, a fim de nos acharmos na posição normal, que convém ao cristão.

Suponhamos agora que uma alma foi levada a obedecer à Palavra de Deus e entrou no caminho da fé, separando-se das organizações religiosas estabelecidas pelos homens. Não se sentirá ela num estranho isolamento, logo após ter dado esse passo? Em caso afirmativo, que deverá então fazer?

 

O Lado Positivo

A Palavra de Deus, que a isso a conduziu, mostra-lhe o que deve fazer nestas palavras: “Foge, também, dos desejos da mocidade; segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor” (2 Tm 2:22). Fugir das paixões da carne (ver 1 Jo 2:16), seguir a justiça, a fé, o amor, a paz é, certamente, o que incumbe a cada cristão individualmente. É o que convém à presença de Deus — e a atividade da vida de Deus na alma pelo Espírito Santo produzirá este fruto. Assim, cada um de nós deve examinar-se para ver se realiza, na sua conduta diária, essa exortação do apóstolo. Mas o pensamento de Deus vai mais longe: no meio da massa dos professos que enchem a grande casa e se envaidecem chamando-se cristãos, existem almas “que, de coração puro, invocam o Senhor”. Um coração puro segue o mandamento expresso da Palavra do Senhor: “Qualquer que profere o nome do Senhor aparte-se da iniqüidade”. E um coração que, sem duplicidade, deseja servir o Senhor e rejeitar tudo o que desonra o Seu nome. É um coração que, tendo-se separado do mal, anda no temor e na comunhão de Deus. Portanto, se uma alma foi levada a invocar deste modo o nome do Senhor e encontra outras andando no mesmo caminho, não deve ficar só, mas prosseguir com elas a justiça, a fé, o amor, a paz. Nesse caso, haveria também tanta falta de obediência ao querer ficar só, quanto havia em não se separar do mal — uma vez reconhecida a sua existência. E evidente que, enquanto não encontrar tais pessoas, terá de esperar que Deus lhas apresente; porém, em nenhum caso e sob nenhum pretexto deve unir-se de novo ao que julgou e condenou. Fazer isso seria reedificar o que tinha destruído e constitui-se, desse modo, transgressor (Gl 2:18).

E evidente que a expressão “coração puro “de maneira nenhuma quer dizer que o homem de coração puro não tenha nenhum pecado nele, como muitos em nossos dias o pretendem. A escritura diz: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós” (1 Jo 1:8). Esperar em Deus, contar com Ele é sempre o caminho absolutamente seguro, que podemos trilhar sem receio.

 

Um Remanescente é Formado

A obediência individual trará para o caminho da fé almas que nele andarão juntas. E desta maneira formar-se-á, sob a direção de Deus, um remanescente tal como o que vemos no meio da ruína no final de cada dispensação.

Em Ezequiel, quando a destruição de Jerusalém estava iminente, o Senhor disse ao Seu mensageiro: “Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal a testa dos homens que suspiram e gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela” (Ez 9:4). Os que desejam ser fiéis a Deus neste tempo de ruína não podem ficar indiferentes perante este estado de coisas. Quanto mais o conhecem mais o seu coração o sente e se aflige. Mas ouçamos outro profeta, algum tempo antes de Ezequiel, nos dias de Josias, anunciar também o julgamento que se abaterá sobre Judá: “Deixarei no meio de ti um povo humilde e pobre; e eles confiarão no nome do Senhor. O remanescente de Israel não cometerá iniqüidade nem proferirá mentira, e na sua boca não se achará língua enganosa; porque serão apascentados, deitar-se-ão, e não haverá quem os espante” (Sf 3:12-13). O caráter do remanescente não é a grandeza que fere os olhos do mundo. Ele é fraco e desprezado; é também tranqüilo e sem temor, e anda nos caminhos da verdade e da justiça. Ele pôs a sua confiança em Deus!

O último dos profetas, quando os que tinham regressado do cativeiro caíram num frio formalismo, mostra-nos também um remanescente fiel, do qual temos mais tarde a expressão nos Zacarias, nos Simeões, nas Anas dos dois primeiros capítulos de Lucas: “Então, aqueles que temem ao Senhor falam cada um com o seu companheiro; e o Senhor atenta e ouve; e há um memorial escrito diante dele, para os que temem ao Senhor e para os que se lembram do seu nome” (Mq 3:16). Reencontramos aqui a marcha coletiva de testemunhas que, fazendo assim, são aprovadas pelo Senhor.

Vemos enfim, no Novo Testamento, as características de um verdadeiro remanescente nos santos da Filadélfia (Ap 3:7-13). Isto é também o fim de uma dispensação: o Senhor anuncia a Sua vinda próxima, e, como dizem os versículos seguintes, Laodicéia, a igreja meramente professante, vai ser vomitada da boca do Senhor. Os fiéis da Filadélfia estão em presença, por um lado, de pretensões religiosas, de um sistema fundado em tradições e ordenanças — os que se dizem judeus, e não o são — e, por outro lado, acham-se muito afeitos à Terra, tendo nela os seus interesses e os seus prazeres. No entanto, no meio deste estado de coisas, que provoca o julgamento de Deus, os santos, os verdadeiros fiéis, apesar da sua pouca força, uniram-se a Cristo, somente a Cristo, “guardaram a Sua Palavra e não renegaram o Seu nome!” Deste modo, estão separados de uma religião humana, separados do mundo e associados pessoalmente a Cristo, guardando a Palavra do Senhor e sendo pacientes — como o Senhor é paciente.

Peço ao leitor que considere perante Deus, com seriedade e oração, esta porção da Palavra do Senhor, onde estão traçados os caracteres de uma conduta fiel e paciente de dedicação a Cristo, e onde o próprio Cristo é apresentado com as características que os fiéis têm de reproduzir, como estando unidos à Sua Pessoa — “o Santo e o Verdadeiro”.

 

Reunidos em Seu Nome

Uma questão importante se põe agora para aqueles que entraram no caminho da fé e nele desejam permanecer e servir a Deus. Tendo deixado as formas, as ordenanças e as organizações humanas, com que poderão eles contar, quando se reunirem? Que lhes restará para continuarem alegremente a sua marcha coletiva?

Todos terão os princípios divinos, segundo os quais os

Cristãos se reuniram no começo da cristandade. Terão o fundamento, o único, o mais seguro fundamento sobre o qual são edificados como pedras vivas, ou seja, Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e eternamente (1 Pe 2:5-8; Ef 2:20-22; Hb 13:8). Eles terão Jesus, o Cabeça de que eles são membros, estando unidos a Ele pelo Espírito Santo, no qual foram batizados (Cl 1:18; 1 Co 12:12-13).

Em seguida, tendo-se separado da iniqüidade por fidelidade ao Senhor, cujo nome invocam, tendo, segundo a exortação do apóstolo, saído fora do arraial para Jesus, e não uns para os outros, encontrar-se-ão reunidos nesse Nome, único centro que o próprio Senhor indica e para o qual o Espírito Santo os terá conduzido. Reunidos nesse Nome, por pequeno que seja o seu número, eles terão Jesus no meio deles, segundo a Sua promessa: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou no meio deles” (Mt 18:20).

 

A Presença do Espírito Santo

Além disso terão o Espírito Santo, não uma influência, mas uma pessoa divina, o Consolador prometido para estar conosco eternamente (Jo 14:16-17). Qualquer que seja o estado de coisas na cristandade, nós sabemos que o Espírito Santo vindo à Terra no dia de Pentecostes (At 2), segundo a promessa do Senhor, está sempre aqui, operando nas almas por toda a parte onde o evangelho é anunciado. Na igreja meramente professante, a presença dEle é, regra geral, olvidada e Sua pessoalidade muitas vezes negada. A exortação do apóstolo: “Não entristeçais o Espírito Santo de Deus” (Ef 4:30) e esta, não menos importante: “Não extingais o Espírito” (1 Ts 5:9) são muito mal compreendidas e muito pouco levadas em consideração. O Espírito não se entristece pela confusão que reina na cristandade? Não é extinguir o Espírito naqueles que receberam dons da graça pelo Espírito não lhes permitir o exercício desses mesmos dons, a não ser que façam parte de um ministério estabelecido e consagrado pelo homem?

Mas aqueles que se encontrarem verdadeiramente reunidos no nome de Jesus reconhecerão a presença e a ação do Espírito Santo e deixarão os dons de graça exercerem-se livremente no meio deles.

 

Os Dons na Igreja

Com efeito, eles terão e reconhecerão os dons que Cristo, o Senhor, dá para o ministério, conforme nos são indicados em Efésios 4:8-13; Romanos 12:6-8 e 1 Coríntios 12:28. Na primeira e na última destas passagens, os dons são as próprias pessoas que, por sua vez, possuem os diversos dons de graça. Os dons de apóstolo e de profeta já não subsistem agora, como é evidente, pelo menos no mesmo sentido que tinham no princípio; mas os de evangelistas, de mestres e de pastores permanecem para a edificação do corpo de Cristo. Não pretendemos dizer que nos diversos sistemas humanos não haja esses dons, pois Deus opera sempre em graça soberana; mas não se encontram no seu devido lugar. Por outro lado, indicamos simplesmente as bênçãos que obterão aqueles que se tiverem separado das organizações humanas. Eles terão tudo aquilo que é de Deus e de Deus provém e, em particular, o ministério dos dons que Cristo dispensa.

 

Guiados pela Palavra

E, enfim, aqueles que pela graça de Deus tiverem entrado no caminho de separação, terão a Palavra de Deus para os edificar, instruir e guiar nesse mesmo caminho. O Espírito Santo e a Sua ação, o Senhor e os Seus dons, a Palavra de Deus e a sua direção, tudo isso não será plenamente suficiente? Tinham porventura outra coisa os primeiros cristãos? Como crentes, tinham recebido o Espírito Santo “e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (At 2:38 e 41-42). Tendo nós recebido o mesmo Espírito quando cremos, não poderemos fazer as coisas tal como eles as fizeram? Eles tinham os apóstolos, dirão vocês. E certo, mas nós temos as palavras dos apóstolos, acerca das quais um deles escreve: “O que vimos e ouvimos isso vos anunciamos para que vós também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 1:3).

A doutrina dos apóstolos nós a temos na Palavra divinamente inspirada. Queríamos nós juntar-lhe algo mais, sob o pretexto de que Deus não nos disse tudo o que era preciso para a nossa edificação espiritual e para nos dirigir, e assim nos deixou a liberdade de nos organizarmos como melhor entendermos? Onde está escrito esse conceito? Onde o disse Deus? Todas as coisas devem ser aprovadas pela Sua Palavra. Ao que ela prescreve devemos obedecer, mas o que ela não autoriza importa deixá-lo. O que ela condena deve ser rejeitado. Pretenderemos nós ser mais sábios do que Deus? Não é a obediência em tudo precisamente o que mais nos convém? Poderemos nós supor que, se tal ou tal coisa estabelecida pelos homens tivesse estado nos desígnios de Deus. Ele não no-la teria dito — Ele que, para Israel, Seu povo na Terra, indicou até o número dos colchetes das cortinas do tabernáculo?

 

Com que propósito Reúnem-se os Crentes?

Acabamos de ver que aqueles que, por obediência à Palavra de Deus, se separam dos sistemas humanos têm tudo o que lhes é necessário para se congregarem e para o seu comportamento segundo a vontade do Senhor. E que a obrigação de se reunir existe para eles — a exortação contida em Hebreus 10:25 no-lo mostra claramente, assim como os exemplos dados pelos discípulos (At 20:7), e ainda as indicações fornecidas pelas epístolas (1 Co 11:18).

Todavia, quando os que desejarem realizar uma congregação segundo a vontade de Deus se reunirem, qual será o seu objetivo? Evidentemente, o seu primeiro e grande alvo, como também o seu mais precioso privilégio, será render culto a Deus. Porém, o culto não consiste em discursos precedidos e seguidos de orações, segundo liturgias e formulários preparados de antemão, lidos, recitados ou mesmo improvisados, mas sim em sincera adoração em espírito e em verdade (Jo 4:23-24), expressa por louvores e ações de graças, segundo a direção do Espírito e a verdade da Palavra, e provinda de corações cheios da presença de Deus e do gozo das Suas bênçãos. “Nós servimos a Deus no Espírito”, diz o apóstolo (Fp 3:3), caracterizando assim os cristãos. E para render este culto a Deus, para Lhe oferecer estes sacrifícios espirituais, que Lhe são agradáveis por Jesus Cristo, todos os cristãos são sacerdotes (1 Pe2:5). Por conseguinte, o exercício dos dons não tem o seu lugar no culto. Aqueles a quem Deus os dá são os membros da assembléia, para se dirigir a Ele. Mas os crentes reunir-se-ão também para serem edificados, ensinados e exortados, e é aí que os dons de graça se exercerão, para o serviço de Deus, tendo em vista a perfeição dos santos (Ef 4:12).

 

A Ceia do Senhor

Na Ceia do Senhor, estabelecida “até que Ele venha” (1 Co 11:26), os crentes têm o fundamento do culto cristão. Ela recorda os sofrimentos e a morte do Senhor, e fala-nos também da imensidade do amor de Deus, que nos deu Seu Filho unigênito, da abnegação de Jesus Cristo, que se entregou à morte por nós; e fala-nos ainda da nossa perfeita libertação pela Sua morte, e, conseqüentemente, da nossa separação do mundo pecador. A Ceia do Senhor, apresentando ao crente verdades tão sublimes, exercita-lhe os seus afetos,  eleva-lhe os pensamentos para Deus, para o que Ele é e fez por nós, produzindo assim, em nosso coração, a adoração, os louvores e as ações de graças. Portanto, ela é, de fato, o centro do culto cristão. Mas é também, e ao mesmo tempo, o centro de comunhão para os crentes. Nelas eles afirmam que, estando em comunhão com Cristo, também estão em comunhão uns com os outros, como membros de um só corpo, de acordo com o que diz o apóstolo: “Porventura, o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo porque todos participamos do mesmo pão” (1 Co 10:16-17). Encontram-se desse modo sobre o terreno da unidade e que, bem compreendida, faria desaparecer as seitas, as denominações e o sectarismo. A Ceia do Senhor é, portanto, a preciosa ordenança estabelecida pelo próprio Cristo (1 Co 11:28) — e que terão como centro do seu culto todos aqueles que se reunirem em nome de Jesus.

Detenhamo-nos ainda mais um momento sobre este ato tão importante — a Ceia do Senhor. Em primeiro lugar, quanto à sua celebração, não vemos nada na Palavra do Senhor que nos autorize a pensar que havia uma classe de pessoas consagradas e designadas por um sínodo ou qualquer outra autoridade eclesiástica, a quem fosse conferida a função de dar graças pela Ceia e de a distribuir. No entanto, que vemos nós na quase totalidade dos sistemas religiosos? Ponho de lado o passado. Sabemos em que monstruosas aberrações ele caiu relativamente à Ceia do Senhor, que foi convertida em missa — ato de verdadeira idolatria, herdado, aliás, do paganismo greco-romano. Mas, nas diversas frações do protestantismo, o cargo de dar graças e de distribuir a ceia pertence exclusivamente — assim como a administração  do  batismo  —  a  homens  para  tal estabelecidos,  a ministros consagrados ou pastores ordenados,  como popularmente se diz.  Tem  isto, porventura, base alguma nas Escrituras? Não! A Epístola aos Coríntios mostra-nos que a desordem se introduzira na assembléia com respeito à Ceia do Senhor. Tinha-se olvidado o seu significado e o seu alcance. O apóstolo repreende a um ou a vários ministros que se teriam esquecido de cumprir fielmente o seu cargo? Ou então estabelece uma autoridade qualquer para manter a ordem? Não! E à assembléia que ele se dirige, ele repreende e torna responsável pelo que acontece, não só quanto à Ceia do Senhor, mas também quanto à ordem que em tudo devia ser observada (ver 1 Co 11:17-34; 14:26-40). Portanto, a quem pertence dar graças e distribuir a Ceia do Senhor? Aqueles a quem Deus, pelo Seu Espírito, lhes põe no coração que o façam e que, nesta ocasião, se tornam porta-vozes da assembléia, de sorte que ela dirá “Amém” à sua ação de graças. Ter-se-á talvez cumprido, pelo  menos  até  um  certo ponto  e  só  nalgumas congregações, o que acabamos de dizer; e, cedendo à evidência da Palavra do Senhor, ter-se-á permitido a um ancião — dos eleitos pela congregação! — abençoar e distribuir a Ceia. Mas é ainda um membro do presbitério, do clero, para dizer a palavra exata — e onde veremos isso nas Escrituras?

O Primeiro Dia da Semana

Direi também uma palavra acerca do dia em que convém partir o pão. Em muitas “igrejas” toma-se a Ceia do Senhor umas quatro ou cinco vezes por ano, nas grandes festas — como são chamadas, sem nenhuma sanção escriturística para serem estabelecidas. Noutras congregações toma-se uma vez por mês. Mas é também uma convenção humana, visto que uma simples leitura da Palavra do Senhor nos mostra que o partir do pão se fazia no primeiro dia da semana — o dia da ressurreição do nosso bendito Salvador. Vemos de igual modo que o partir do pão era o fim principal da reunião dos discípulos (At 20:7).

Por conseguinte, aqueles que desejam entrar no caminho de separação a que as Escrituras chamam os crentes terão também para eles o que lhes recorda o estreito laço que os une a Cristo presente no meio deles; terão o memorial de Seus sofrimentos e de Sua morte.

A Responsabilidade da Igreja

Mas à Mesa do Senhor prende-se ainda outra coisa que envolve a responsabilidade da assembléia: É a disciplina. E evidente que os verdadeiros crentes têm o seu lugar à Mesa do Senhor, porque somente eles são resgatados pelo Seu sangue e membros do Seu corpo. Suponhamos então a Mesa do Senhor posta no meio daqueles que são separados dos vasos de desonra. Por triste e humilhante que seja, forçoso será reconhecer que um cristão pode, por falta de vigilância, cair em pecado. Nesse caso, que deve fazer a assembléia? Purificar-se de um mal que a mancharia por completo se, uma vez reconhecido, ela o tolerasse. Encontramos a esse respeito um claro e precioso ensinamento em 1 Coríntios 5. Esse capítulo termina com as seguintes palavras: “Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo”. Excluído da assembléia, é-o também, e necessariamente, da Ceia do Senhor, que é a expressão da comunhão de uns com os outros. Nesse capítulo de Coríntios trata-se de uma questão de mal moral; mas que se poderá dizer do mal doutrinai, do erro que ataca a Cristo e à Sua Palavra? As Escrituras não são menos claras a esse respeito, pois dizem-nos que é preciso rejeitar o homem herético ou sectário, após uma primeira e uma segunda admoestação (Tt 3:10-11), e que não se deve receber em casa, nem mesmo saudar aquele que não traz a doutrina de Cristo (2 Jo 10).

A Disciplina na Igreja

Ora, a respeito de disciplina, que vemos nós na maior parte das denominações cristãs? Cada qual toma a ceia sob a sua própria responsabilidade, e a mesa do Senhor, ou aquilo que assim é chamado, está aberta a incrédulos e a homens que professam erros anticristãos!

Foi a minha intensão demonstrar, segundo as Escrituras, o que possuem aqueles que desejam andar no caminho da fé e da obediência, separando-se do mal que invadiu a cristandade. Ao mesmo tempo pudemos ver a simplicidade das ordenanças e das direções dadas na Palavra de Deus a fim de manter a ordem que deve ser observada numa congregação formada em nome do Senhor. Acrescente-se que, se todos estes pontos que passamos em revista têm a sua aprovação na Palavra de Deus, todos os cristãos verdadeiramente desejosos de obedecer ao Senhor têm o lugar com aqueles que se encontram sobre este terreno. Ele é suficientemente amplo para conter a todos. Por outro lado, nenhum cristão tem o direito de insistir para fazer aceitar o que não está claramente estabelecido nas Escrituras e menos ainda de pô-lo como condição de comunhão. Tal seria o caso, por exemplo, se quisesse impor o batismo dos adultos. Seria ultrapassar os limites que a Palavra do Senhor nos estabelece. E de igual modo seria desobedecer, se deixássemos de lado o que quer que seja que as Escrituras estabelecem. Assim, repito, o terreno é bastante vasto para receber todos aqueles que desejam sinceramente andar em obediência ao Senhor.

A Manifestação da Unidade dos Crentes

Ainda há mais: a unidade, que caracterizava outrora os crentes, de uma maneira visível e palpável, já não existe atualmente. Todavia, o princípio dessa unidade reencontrará a sua manifestação prática pela obediência à Palavra de Deus. Suponhamos que, de fato, em diferentes lugares se formaram congregações de crentes reunidos sob os mesmos princípios, aceitando tudo o que a Palavra de Deus prescreve — e nada mais. Essas diferentes congregações não estarão em comunhão umas com as outras, seja qual for a distância que as separa e qual for o país onde se encontrem? Evidentemente que sim! E como estarão reunidas em torno de um mesmo centro — Jesus —, e como têm o mesmo Espírito que as une a Ele e que as conduz, todos os seus membros em plena comunhão achar-se-ão também a uma só e mesma mesa — a Mesa do Senhor. E também os dons que houver entre eles terão o seu livre exercício em todas essas congregações, onde quer que elas se encontrem. E a disciplina exercida por uma assembléia não poderá deixar de ser acatada por todas as outras. É assim que a unidade será mantida na prática.

O que é uma Seita?

Desejo agora tratar de uma objeção que se poderia fazer. Dir-se-á: “Você afirma que a cristandade está dividida em seitas, e que isso é um grande mal. Mas querendo congregar-se da maneira como você diz, não formaria uma nova seita a juntar a todas as outras já existentes?” De maneira nenhuma, e espero poder demonstrá-lo. Em primeiro lugar, o que é uma seita? Não será um agrupamento de pessoas reunidas pelos mesmos pontos de vista sobre um determinado assunto mais ou menos particular?! Posto isto, que vemos nós na cristandade, senão um grande número de igrejas separadas umas das outras por diferenças de organização, de doutrina ou de disciplina? E são precisamente esses pontos de vista particulares que distinguem cada igreja e formam o traço de união entre os membros que a compõem. Assim, as igrejas presbiterianas são aquelas cujos membros pensam que a melhor forma de governo para uma igreja é aquela em que esse governo é exercido por um corpo de anciãos ou presbíteros. É esse ponto de vista particular que os separa dos outros cristãos. As igrejas independentes ou livres são fundadas sobre o princípio da emancipação do controle do estado quanto ao salário do clero e quanto ao governo da igreja. Pois bem! Mas é isso o que deve constituir o traço de união?! E um ponto de vista particular. E se me disserem: “Fazemo-lo por obediência a Cristo, o Cabeça da Igreja”, então responderei: “Nesse caso, obedeçam a Cristo em tudo, e que seja Ele, de fato, o seu centro de união.”

Suponhamos agora uma igreja batista. E uma corporação de pessoas reunidas pelo enfoque particular de que o verdadeiro modo de batismo é por imersão, e ministrado a pessoas maduras o suficiente para crerem (Embora seja correto segundo as Escrituras, este aspecto da verdade é colocado em destaque acima de outros igualmente importantes — nota do editor). Poderíamos passar em revista todas as outras denominações do protestanismo e veríamos que o reunir-se em torno de um ponto de vista particular da verdade é comum a todas, e que por isso, como, aliás, muitos o reconhecem, são seitas todas elas. Mas poder-se-á, de igual modo, qualificar de seita os que rejeitam todo ponto de vista particular, para se reunirem somente em nome de Jesus, subordinando-se unicamente ao que a Palavra de Deus ensina claramente?

Como já tive oportunidade de o recordar, é-nos dito e bem explicitamente: “Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados e para que não incorras nas suas pragas” (Ap 18:4). Saiamos, pois, fora do arraial, saiamos para Jesus! E isto que todos os verdadeiros cristãos devem fazer — não formar campos separados, cada um sob a sua bandeja particular.

E verdade que entre muitos cristãos se tem feito sentir a necessidade da união. Tem-se falado muito nisso e fala-se também dos meios de a conseguir. Suponhamos, por um momento, que membros de diversas denominações ou sistemas religiosos se reunissem para examinar a questão. Não é verdade que seria necessário, e desde logo, que cada um pusesse de parte tudo o que caracteriza o seu sistema? E se fossem até o fim, e abandonassem inteiramente todos os pontos de vista que os separam; se conviessem todos em não mais seguir senão aquilo que está de acordo com a Palavra de Deus

—  e nada mais além da Palavra de Deus —, não se encontrariam eles, todos eles, precisamente sobre o terreno que temos indicado?

Dir-se-á talvez: “É o que se faz na Aliança Evangélica! Reunimo-nos para orar juntos, e cada um põe de lado os seus pontos de vista particulares para estar lá somente como cristão”. Está bem, mas o que se faz logo após esses dias de reunião? Cada qual retorna ao seu sistema e continua como se nada tivesse acontecido. A confusão existente é desse modo posta mais ainda em evidência. Ora, se foi bom despojarem-se durante uns oito dias do seu caráter de seita, por que não se despojam para sempre?! Se todos os crentes se reunissem, pondo inteiramente de lado tudo o que os distingue e separa, os nomes que as diversas denominações tomam perderiam a sua razão de.ser

—  tornar-se-iam inúteis! Não haveria mais do que o nome de Cristo, e dir-nos-íamos simplesmente cristãos, irmãos no Senhor, tal como sucedia nos primeiros tempos do cristianismo.

O Lugar está fora do Arraial

Permita-me fazer ainda outra suposição. Se o Senhor Jesus voltasse agora, para pôr as coisas em ordem, segundo as Escrituras, e restabelecer a unidade da Igreja, pensam vocês que Ele ia tomar o Seu lugar nesta ou naquela denominação, com exclusão de todas as outras? Não! Mas como outrora Moisés levantou fora do acampamento a tenda do testemunho ou da congregação (Êx 33:7), também o Senhor, fora de todos os sistemas, chamaria a Si todos aqueles que O amam de coração puro. E eles deixariam as suas diversas organizações para ir ao encontro dEle e se congregar em Seu nome, tendo Ele próprio e o Seu Espírito no meio deles. Ele distribuiria então diversos dons de graça, segundo os Seus divinos planos, e eles teriam também as Escrituras como guia infalível para o que tivessem de fazer. Ora, como o Senhor não está corporalmente no meio de nós, o princípio da Sua presença encontra-se nas Escrituras. Ele disse que, se nos reunirmos em Seu nome — e somente em Seu nome! — Ele estará no meio de nós. Temos, portanto, de atuar de acordo com esta Palavra.

E evidente que se todos os verdadeiros cristãos se congregassem assim em volta de Jesus, reunindo-se em Seu nome, haveria algo como uma nova manifestação prática da Igreja, como um só corpo, não tendo outro nome senão o de Cristo, outro centro e outro chefe senão Cristo; não tendo outra regra de fé além da Sua Palavra, outro ministério além dos dons diretamente dados por Ele para serem exercitados sempre na liberdade e no poder do Espírito Santo.

Porém, meu querido leitor, não devemos esperar que outros, ou que todos sigam este caminho, para nós também o seguirmos e nele perseverarmos até o fim. Cada qual, pessoalmente, tem o dever de obedecer ao Senhor, sejam quais forem as conseqüências terrenas disso resultantes — ainda que tivéssemos de ficar sós nesse Caminho!

Se você reconhece que as coisas que procurei colocar sob o seu olhar são segundo a Palavra do Senhor, e se quer ser fiel, então não pode seguir senão um caminho: o caminho da separação do mundo e obediência ao Senhor, de acordo com as Escrituras.

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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