Aviso

Somos um site cristão, em conformidade com os padrões reformados, não concordamos obrigatoriamente com as opiniões emitidas nos livros postados, todavia, sabemos que um cristianismo saudável somente pode ser exercido através do conhecimento. Desta forma, sigamos o conselho do apóstolo: “Julgai todas as coisas, retende o que é bom”. Louvado seja Deus!

ESTATÍSTICAS

vivendopelapalavra.com
Na internet desde Outubro/2011
Total de visitas até outubro de 2019:
1.157.865
Total de páginas visitadas até outubro 2019:
3.267.612

Mais Baixados

Literatura clássica

Odisseia

APRESENTAÇÃO RICHARD P. MARTIN
Proezas e performances
A Odisseia traça o fim de uma viagem, a volta ao lar, depois de vinte anos, de um guerreiro veterano e marinheiro sofredor. Odisseu retoma a vida na ilha de Ítaca na hora certa. Seu filho, Telêmaco, está no limiar da idade adulta, plena, enquanto a paciente esposa, Penélope, começa a perder as esperanças e considera a possibilidade de se casar outra vez. É mais difícil dizer quando essa história começa, porque o destino de Odisseu está ligado ao da cidade de Troia.
E, sob certo ponto de vista, a destruição de Troia pelas mãos das tropas gregas vingadoras estava em progresso havia muito, remontando à origem do cosmos.
Podemos recriar a história dos mitos gregos que muito provavelmente eram conhecidos do público da Odisseia, e lembrar que já em tempos antigos existiam variantes, versões até mesmo contraditórias desses acontecimentos. Dentre as fontes dessas histórias, encontra-se a Teogonia, de Hesíodo (mais ou menos contemporânea do surgimento da poesia homérica, no século VIII aC), e os chamados ciclos épicos dos séculos VII e VI aC (completando o “ciclo” troiano), dos quais chegaram até nós apenas citações fortuitas e poucos resumos de tramas, de fontes posteriores.
Gaia, a Terra, foi uma das primeiras criaturas. Ela tramou para que seu
marido impiedosamente opressivo, Urano (“céu”), fosse destronado pelo filho deles, Crono – que por sua vez foi derrotado por Zeus, o neto favorito de Gaia, num levante familiar de consequências universais. Aconselhado por sua avó primeva, Zeus conquistou a coroa do céu ao recrutar para suas batalhas contra a geração mais velha de deuses os monstruosos Cem Braços, que tinham sido presos por tiranos divinos anteriores. Também aconselhado por ela, ele engoliu uma de suas primeiras esposas, Métis (“inteligência astuta”), e, assim armado com cautelosa sabedoria, veio a garantir que seu próprio reino jamais fosse derrubado. Em vez de gerar um filho mais forte que Zeus, como havia sido predito, Métis, desamparada, ficou bem encolhida dentro do marido e deu à luz Atena, que nasceu, já adulta, da cabeça do chefe dos deuses.
Zeus, portanto, tinha uma dívida com Gaia. Com o passar do tempo e as
reclamações dela do fardo sempre mais pesado dos homens, Zeus concebeu
uma guerra de grandes proporções para diminuir a população mundial e aliviar a carga da superfície da Terra. As condições para a guerra de Troia brotaram de outro casamento divino impedido, um casamento de herói, um estupro e um sequestro.
Zeus desejava a ninfa Tétis, uma das cinquenta filhas do deus do mar, Nereu. Mas, ainda uma vez, temia que, caso esposasse uma deusa poderosa, um filho seu poderia acabar querendo substituí-lo. Então inventou um motivo para casar Tétis com um mortal inocente, Peleu, como recompensa pelo comportamento devoto desse herói. Foi nesse casamento esplêndido que Discórdia (Éris), que não fora convidada, lançou entre os convivas uma maçã com a inscrição “kallistei” – “à mais bela”. Atena, Hera e Afrodite reclamaram o prêmio. O pai dos deuses escolheu um troiano, chamado Páris, para julgar a questão. Rejeitando as promessas das outras duas deusas, ele escolheu Afrodite e recebeu Helena como recompensa.
A mãe dela, Leda, fora certa vez possuída à força por Zeus, disfarçado de
cisne. O nascimento esdrúxulo de Helena, de dentro de um ovo, pressagiava uma vida notável. Quando atingiu a idade de casar, tinha pretendentes em todos os cantos da Grécia. Menelau, filho de Atreu, foi o eleito, e, para evitar qualquer conflito, todos os pretendentes se viram forçados a um juramento de que tudo fariam para libertar Helena se algum dia ela estivesse em perigo. Odisseu, de Ítaca, que havia sugerido essa ideia, foi por sua vez ajudado pelo pai mortal de Helena, Tíndaro, que convenceu sua sobrinha, prima-irmã de Helena, a se casar com o jovem. O nome dela era Penélope.
Por fim, a fuga – ou rapto, como preferem alguns – e suas consequências.
Numa visita a Menelau, na residência do casal em Esparta, Páris encontrou a recompensa prometida no concurso de beleza e, com a ajuda dos dons sedutores de Afrodite, convenceu Helena a partir com ele para Troia, pondo assim em movimento a mobilização das forças gregas para punir o transgressor ocidental.
Nessa época, Odisseu e Penélope acabavam de ser abençoados com o
primogênito, e o pai orgulhoso, relutante em deixar Ítaca para recuperar Helena, tentou enganar o grupo que o recrutava, liderado por Agamêmnon, irmão do marido ofendido. Usando um gorro de pele (embora fosse verão), ele começou a arar seu campo com uma combinação ridícula de boi e cavalo. Mas um dos visitantes, Palamedes, recusou-se a acreditar que Odisseu fosse louco. Pegou Telêmaco, o filhinho de Odisseu, dos braços da babá e colocou a criança na frente do arado. Quando Odisseu desviou para não machucar o filho, a mentira se revelou. Lá foi ele para a guerra.
O cerco de Troia durou dez anos. Depois da morte de Aquiles e Heitor, os
principais guerreiros de ambos os lados, os gregos seguiram o conselho de
Odisseu e se infiltraram na cidade escondidos dentro do Cavalo de Troia. No caos e matança subsequentes a esse ataque surpresa, Troia caiu, mas o templo de Atena dentro da cidadela foi violado por invasores. Consequentemente, a ira da deusa perseguiria os gregos – inclusive Odisseu – na volta para casa. O regresso dos heróis foi narrado numa epopeia antiga, hoje perdida, chamada Nostoi. Algo semelhante a esse poema deve ser o corpo da canção de Fêmio, o bardo local de Ítaca, que canta para os pretendentes sobre a jornada de volta ao lar dos gregos fatigados pela guerra (1, 325ss). Mais adiante, dentro da própria Odisseia, tomamos conhecimento da volta bem-sucedida de Nestor (3, 130ss), de como
Ájax perdeu a vida, da viagem tristemente retardada de Menelau e do retorno fatal de seu irmão Agamêmnon (tudo em 4, 351ss). Cada uma dessas histórias contrasta com a narrativa geral da viagem de Odisseu. Em particular, a história de Agamêmnon – esfaqueado pela esposa e pelo amante dela logo depois do retorno triunfal – é uma advertência em forma de alerta explícito para Odisseu, da parte de ninguém menos que a própria vítima, no mundo inferior (11, 441ss).
É aí também que Odisseu encontra o grande Aquiles, que escolheu uma vida breve de glória em vez de uma vida longa de volta a sua terra natal. Em outro notável contraste com o destino de seus antigos camaradas de combate, Odisseu consegue ao mesmo tempo a fama e o retorno em segurança, para obter a glória justamente através da volta para casa. Nisso, ele enfim se dá melhor que seu velho rival heroico. Seu regresso a Ítaca envolve mais uma batalha, dessa vez contra 108 jovens, os arrogantes pretendentes de Penélope, alguns deles seus conterrâneos da ilha. Reempossado em seu devido lugar, ladeado pelo filho e pelo pai, Odisseu é um modelo de inteligência, cuidado e perseverança. É o suprassumo do sobrevivente.
Mesmo em tempos antigos, reconhecia-se que a poesia homérica apresentava essas histórias da Guerra de Troia de uma forma singular. No século IV aC, Aristóteles, em seu estudo sobre história e teoria literária, a Poética (1459b), observou que Homero “toma apenas uma porção da história e faz uso de muitos episódios, como o Catálogo das Naus e outros, por meio dos quais diversifica sua poesia. Mas os outros fazem seus poemas sobre uma pessoa, um tempo, uma ação com muitas partes, da forma como o criador dos Cantos cíprios e da Pequena Ilíada fez”. Em resumo, a epopeia homérica tem unidade, enquanto os poemas cíclicos são apenas coletâneas.
Dessa forma, a Ilíada focaliza apenas alguns dias do último ano da guerra, a disputa entre Agamêmnon e seu melhor guerreiro, Aquiles, com seus resultados devastadores. No final do poema, Aquiles ainda está vivo, o Cavalo e a queda de Troia ainda estão no futuro: o poeta se esquiva de contar a saga toda. Mesmo assim, graças a alusões artísticas e justaposições dentro da história, a força emocional dos acontecimentos futuros marca cada parte do poema. Através da morte de Heitor pela mão de Aquiles, e da incursão de Príamo ao campo grego para recuperar o corpo de seu filho, sentimos, no nível mais pessoal, o páthos de uma cidade condenada.
Se a Ilíada é uma saga longa, condensada de modo brilhante e intensamente
focada, a Odisseia é mais uma história simples contada através de uma narrativa complexa. A história do herói da Guerra de Troia começa quase no final de seu retorno, usa flashbacks para dar conta dos anos anteriores, sincroniza diversas subtramas e apresenta eventos importantes sobretudo por lembranças e pela perspectiva de outros. Em outras palavras, já no começo da literatura ocidental quase todos os recursos do cinema e do romance modernos são expostos com maestria.
Os quatro primeiros cantos (divisão tradicional do tamanho de capítulos) do poema são um belo exemplo da narração indireta da Odisseia. Não encontramos o herói. Até mesmo seu nome é postergado em alguns versos, uma vez que o poema começa com um substantivo genérico: “Do varão me narra, Musa, do muitas-vias, que muito / vagou após devastar a sacra cidade de Troia”. Em vez de pôr Odisseu em cena desde o início, o poeta engenhosamente nos faz ouvir outras pessoas falando sobre o herói – os deuses, sua esposa e filho, aqueles que sentem saudade dele e aqueles que querem tomar seu lugar. Seu impacto ganha mais força exatamente pela ausência.
É natural que a ausência de Odisseu tenha maior efeito sobre seu filho, agora com vinte anos. Telêmaco só conhece o pai pelo que contam os outros. Mas então é posto em ação, para sair e descobrir o destino de Odisseu, por meio de uma combinação de fatores – os planos dos deuses, a crescente impaciência dos pretendentes de sua mãe e sua própria maioridade. A história de sua própria “odisseia” em miniatura, visitando os heróis que voltaram – Nestor e Menelau –, e a trama dos pretendentes para assassiná-lo ocupam os quatro primeiros cantos.
Eles são chamados de “Telemaquia” ou a história de Telêmaco. Muitos críticos do século XIX afirmaram que integravam outra composição, agregada com pouca elegância ao poema. Mas as escassas incoerências que embasaram essa crítica são em muito superadas pelas ressonâncias ricas e significativas que emergem quando lemos a Odisseia dessa forma, como a história de um pai sendo aos poucos conhecido por seu filho. Telêmaco, dentro do poema, é como nós, fora dele – um público para o passado heroico.
Essa estratégia poética não só é atraente e persuasiva em termos de narrativa, como também é culturalmente adequada, uma vez que as noções gregas de proeza heroica e história familiar sempre ligaram intimamente a fama de pai e filho. Nos melhores casos, os filhos dão continuidade à fama de seus pais ou a aumentam. Odisseu, na Ilíada, chega a fazer juramentos com a expressão “como pai de Telêmaco” – afirmativa de que aquilo que diz é tão verdadeiro quanto sua paternidade. O próprio nome, Telêmaco, que quer dizer “lutar longe”, é um adjetivo aplicável a Odisseu, tanto com o sentido de arqueiro como de guerreiro que lutou na distante Troia, mais que um epíteto adequado ao filho. É como se a identidade do filho dependesse das ações do pai. Ironicamente, a Odisseia começa com Telêmaco duvidando que Odisseu seja de fato seu pai (1, 215-16). Um dos objetivos principais dos quatro primeiros cantos é mostrar que o jovem merece ser reconhecido pelos outros como filho de Odisseu, e que possui
as qualidades inatas que garantem seu laço paterno. Nos quatro cantos seguintes do poema, o centro da atenção é Odisseu, então na última parte de sua viagem. Ao mesmo tempo que Telêmaco sai em viagem para saber do pai perdido, o herói começa a se aproximar de Ítaca. A ausência fortuita de Posêidon da companhia dos deuses permite que Atena, com o consentimento de Zeus, liberte seu favorito da ilha de Calipso, onde estava preso havia sete anos, cada dia mais inquieto, embora junto da bela ninfa. Outro naufrágio leva-o à terra dos feácios, onde Odisseu, revelando sua identidade, convence a família real a lhe dar retorno seguro para casa. O poema deixa claro que Odisseu fascina sua plateia com uma performance muito parecida com a do poeta real da composição: ele assume o posto de narrador nos quatro cantos seguintes, tecendo uma história de suas aventuras anteriores que inclui canibais gigantes, feiticeiras sedutoras, monstros marinhos, videntes, mágicos, fantasmas – ingredientes eternos das histórias populares de todo o mundo, elaboradas numa narrativa autobiográfica. Ao mesmo tempo que oferece a história desse marinheiro, a Odisseia se dá ao trabalho de construir um pano de fundo cuidadosamente nuançado da história que Odisseu relata. Nós o vemos encantando a plateia; ouvimos as reações dessa mesma plateia (inclusive quando decidem cobrir o narrador de mais presentes); podemos imaginar o bardo local, Demódoco, escutando com admiração e inveja esse contador de histórias recém-chegado – tudo isso certamente para indicar como nós, como plateia, devemos receber e apreciar toda a Odisseia homérica. Mais eletrizante ainda, ao colocar assim a “odisseia” das aventuras do herói, o poeta nos provoca com a ideia de que toda a “autobiografia” pode ser, ela própria, em grande parte, uma conveniente ficção.
Podemos notar a sequência e a forma dessa performance solicitada. As histórias que Odisseu relata parecem seguir um ritmo de dois episódios curtos, depois um longo, mais dois curtos, seguidos de outro longo. Por exemplo, os cícones e os lotófagos são descritos em menos de quarenta versos; eles levam ao episódio dos ciclopes, que faz uso de dez vezes mais versos para ser narrado. O mesmo acontece com as três histórias seguintes: Eolo (curta), lestrigões (curta) e Circe (longa). O efeito é quase o de uma maré. Outro padrão sutil vem à tona se considerarmos os episódios em termos sociais. Cada lugar que Odisseu descreve representa uma variante das condições de vida grega, se definirmos essas condições básicas como uma família estendida, a adoração dos deuses centrada no sacrifício e a agricultura. Os ciclopes são um exemplo negativo: eles não têm agricultura, não têm leis, vivem sozinhos e não se reúnem em assembleias (deficiências inconcebíveis numa comunidade grega). Os lotófagos vivem, aparentemente, sem memória cultural e levam os outros a esquecer. Circe e Calipso – deusas que vivem sozinhas – encarnam o que é impossível para
mulheres gregas. Os feácios, por outro lado, parecem quase gregos. Adoram
deuses reconhecíveis, gostam de canções de bardos e apreciam esportes
competitivos. Mas estão distantes de qualquer conflito real e, portanto, do
heroísmo – uma limitação impensável para comunidades antigas de verdade. Em resumo, a história de Odisseu funciona como uma lente de aumento ou vara de medida, esclarecendo e marcando o que se define como humano e helênico.
Não surpreende que pesquisadores em busca de alegorias tenham encontrado terreno fértil nessas histórias. Uma linha de leitura – já corrente no século II aC – via a jornada de Odisseu como a saga de toda alma, seduzida pelos bens e preocupações do mundo, mas resistindo ao canto das sereias e conseguindo voltar a seu lar (celestial). Em tempos mais recentes, a crítica psicanalítica descobriu fantasias oral-narcisistas ou simbolismo fálico subjacentes ao texto. Ambientalistas podem ler nessas histórias considerações sobre o uso e abuso dos recursos naturais, ou uma celebração da tecnologia. Tal flexibilidade e infinita riqueza de sugestões mantém a história viva. No plano cognitivo, podemos traçar uma curva ascendente ao longo das recordações de Odisseu e encontrar a história da educação. De seu selvagem ataque pirata inicial aos cícones até seu desafio quase fatal ao ciclope enraivecido e, mais além, até sua perda de tudo o
que tinha, ficamos com a sensação de que o herói de fato aprende. Ele se tornou mais sábio (e nos torna mais sábios) por ter visto as cidades e captado o modo de pensar de muitos povos.
Embora seja um momento central e um tour de force dentro da Odisseia, a
história de aventura contada do canto 9 até o 12, na voz do próprio herói,
surpreendentemente constitui apenas um sexto de todo o poema. No entanto, cristaliza e destila todos os temas principais do resto da composição. Muitos dos temas presentes na história das aventuras são desenvolvidos do canto 13 até o 24, abrangendo o tempo da volta de Odisseu a Ítaca através dos encontros com seus criados e seu filho, da luta com os pretendentes e do tão esperado encontro com a esposa. Por exemplo, por essa história ficamos sabendo como Odisseu com frequência deparou com terras desconhecidas; e então o vemos fazendo mais uma dessas descobertas, mas a de sua própria ilha. Ouvimos a respeito do poder
de mulheres espertas – Circe e Calipso, sobretudo –, enquanto na história externa, contada pelo poeta mais que pelo próprio Odisseu, tais figuras fortes são recorrentes, na forma de Penélope, Clitemnestra e a rainha feácia Arete (talvez não por coincidência, parte da plateia da história contada por Odisseu). A comida sempre reaparece – constituindo problemas distintos nos episódios dos lotófagos, do ciclope, de Circe e, em especial, do gado de Sol – enquanto a narrativa externa lida com o apetite insaciável dos pretendentes. De fato, o poema toma o cuidado de traçar um paralelo entre a tripulação inconsequente de Odisseu, que devorou os rebanhos de Sol, e os arrogantes pretendentes, exaurindo em continuação o estoque doméstico do herói ausente. Assim como o deus destruiu os homens de Odisseu, o guerreiro que volta para casa eliminará os intrusos.
Disfarce, astúcia, o uso inteligente da persuasão, tudo isso ocorre na história interna dos cantos 9 a 12, e encontra ressonância na narrativa mais geral. E, por meio do episódio do ciclope – seu comportamento, sua cegueira, o cumprimento da maldição de Posêidon –, nossa atenção é atraída especialmente para a noção de justiça cósmica. Esse conceito (chamado diké) abrangia para os gregos arcaicos não apenas o funcionamento adequado da natureza, mas de todo tipo de relações sociais, sobretudo o tratamento adequado aos estrangeiros. Não por acaso a história geral faz de Odisseu um vingador que retorna, um algoz da hubris dos pretendentes, um restaurador da ordem e um representante da justiça de Zeus na terra. Sob essa luz, a performance permanente da Odisseia na cultura grega representou não apenas um entretenimento duradouro, mas uma constante reafirmação de valores culturais, da busca de uma sociedade por sua estabilidade e inteireza.

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

comente

Clique aqui para enviar um comentário