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Patrística

PADRES APOLOGISTAS – PAIS DA IGREJA

CARTA A DIOGNETO
INTRODUÇÃO
Um pagão culto, desejoso de conhecer melhor a nova religião que se espalhava pelas províncias do império romano, impressionado pela maneira como os cristãos desprezavam o mundo, a morte e os deuses pagãos, pelo amor com que se amavam, queria saber: que Deus era aquele em que confiavam e que gênero de culto lhe prestavam; de onde vinha aquela raça nova e por que razões aparecera na história tão tarde.
Foi para responde a estas e outras questões de igual importância que nasceu esta “jóia da literatura cristã primitiva”, o escrito que conhecemos como a Carta a Diogneto.
Respondendo às questões propostas por interlocutor, o texto se revela, simultaneamente, como crítica do paganismo e do judaísmo e defesa da superioridade do cris-tianismo. Tudo isso num estilo aprimorado, elegante, de maestria no manejo dos elementos retóricos.
Infelizmente, permanecem muitas dúvidas em tor-no deste texto-documento. Elementos importantes que ajudam a determinar e caracterizar uma obra, tais como, autor, data e local da composição, destinatário e a própria integridade do manuscrito ficam na sombra. Nem mesmo o título é seguro.
Alguns julgam que seja um discurso ou uma apologia, menos uma carta. Devido à indefinição do autor e da data de composição, alguns a colocam entre os Padres apostólicos, outros, entre os apologistas. De qualquer maneira, trata-se de um documento de primeira grandeza sobre a vida cristã primitiva que merece ser colocado entre as obras mais brilhantes da literatura cristã.

  1. O manuscrito
    Este texto nunca foi mencionado na antiguidade ou na Idade Média. Permaneceu longos séculos em silêncio, ignorado. Encontrado, casualmente, por Tomás de Arezzo, em Constantinopla, em 1436,
    junto a um punhado de manuscritos contendo 22 títulos de textos apologéticos. Cinco deles estavam catalogados sob o nome de Justino. Junto com o Discurso aos gregos, atribuído a Justino, estava outro manuscrito com os dizeres: “Do mesmo… a Diogneto”.
    Não se encontrou, até agora, nenhuma outra versão deste documento. Este manuscrito grego, único, percorreu, a partir de sua descoberta, longo caminho até se alojar na Biblioteca municipal de Estrarsburgo. Mas não teve sorte muito brilhante. Em 1592, Henricus Stephanus o editou com o nome de Carta a Diogneto. Por esta época, foram feitas algumas cópias para outros bibliotecas, o que salvou texto. De fato, um incêndio provocado pela artilharia, na guerra franco-prussiana, em agosto de 1870, destruiu a Biblioteca e seu acervo.
  2. Autor
    Quem é, afinal, o autor deste discurso ou apologia? Após séculos de discussões, permanece, ainda hoje, grande incógnita. Há, pelo menos, um consenso entre os especialistas: não é obra de Justino mártir. Já no século XVII, Tillemont negava esta autoria, atribuindo-a a um dos apóstolos. A partir daí, as hipóteses se multiplicaram: para uns, seria obra de Apolo, discípulo de Paulo ou de Clemente Romano, para outros, de Aristides ou de Hipólito de Roma. Há os que pensam que este escrito é uma falsificação, uma ficção literária produzida nos séculos XII ou XIII ou mesmo invenção de seu editor, Henrique Stephanus, do século XVI. Na verdade, por razões de divergências de estilo entre os escritos, em razões da argumentação de fundo, de opiniões preferidas, há palpáveis diferenças entre este discurso e os escritos dos autores propostos. Em 1938, P. A. Casamassa concluía que “o autor d a Carta a Diogneto é e continua até agora desconhecido. Das tentativas que se fizeram para identificá-lo com algum escritor do século II, algumas são, certamente, errôneas, por apoiar-se em
    motivos falsos, por exemplo, as de Bunsen e Dräseke, que vêem na carta reflexos do gnosticismo; outras não passam de hipóteses mais ou menos sedutoras”.
    Foi a partir de 1946 quando Paul Andriessen publicou sua tese de que “a Carta ou Discurso a Diogneto não é outra coisa que a apologia que Quadrato apresentou ao imperador Adriano e dada por perdida” que surgiu nova polêmica. As provas com as quais Andriessen tenta sustentar sua tese podem ser resumidas no que segue: a) a obra data, indubitavelmente, dos século II ou III. Vários autores destes séculos podem ser eliminados, como Aristides, Justino, por razões de estilo, linha de pensamento que se diferenciam demasiado da Carta a Diogneto. Após examinar cada um dos escritores restantes, não nos resta senão Quadrato. Embora a Apologia de Quadrato tenha-se perdido, Eusébio de Cesaréia conservou um fragmento no qual se percebe que seu autor é dos primeiros tempos do cristianismo. Segundo a tradição dos pesquisadores, Quadrato foi, de fato, um dos
    primeiros apologistas. Eusébio, na História Eclesiástica IV,1-2, nos relata que: “Trajano tendo exercido o poder durante vinte anos inteiros menos seis meses, Hélio Adriano recebeu a sucessão do
    poder. É a este último que Quadrato remeteu um discurso que lhe havia endereçado: ele tinha composto esta apologia em favor de nossa religião porque alguns homens maus se empenhavam em perturbar os nossos. Encontra-se ainda agora este livro entre muitos de nossos irmãos e também conosco. É possível ver nele provas brilhantes da inteligência do autor e de sua exatidão apostólica de doutrina. O autor revela sua antiguidade por aquilo que narra com estas palavras (…).” b) Em Diogneto, há uma lacuna entre os §§ 6-7 do capítulo 7, na qual se encaixaria perfeitamente o fragmento da Apologia, porquanto a matéria do fragmento contém o assunto que deveria ser tratado
    na parte perdida de Diogneto 7,7. Por uma análise detalhada, Andriessen mostra como o estilo do fragmento da Apologia de Quadrato é consoante ao do Discurso a Diogneto. “Por outra parte, o que sabemos de Quadrato por Eusébio, Jerônimo, Fócio, pelo martirológio de Beda e pela carta apócrifa de S. Tiago, dirigida a ele, concorda com o conteúdo da carta a Diogneto. A impressão que se tira
    acerca do autor da leitura da carta coincide com o que sabemos do apologista Quadrato pela tradição, ou seja: que foi discípulo dos apóstolos, que escreveu em estilo clássico e que não somente
    lutou contra o paganismo, mas também contra o judaísmo” (J. Quasten, Patrologia I, BAC, 1968, p. 246).
    Parece-nos que podemos, sem cometer desatinos, acolher a tese de P. Andriessen, até que surjam provas em contrário mais convincentes, como hipótese de trabalho.
  3. Destinatário
    Se aceitarmos a hipótese que o autor desta Apologia é mesmo Quadrato, então o problema do destinatário está, praticamente, resolvido. “Sabemos, ainda por Eusébio, que Quadrato dirigiu sua
    Apologia a Adriano, e os dados que nos porporciona a obra sobre seu destinatário, Diogneto, conviriam perfeitamente a este imperador” (J. Quasten, Patrologia I, BAC, 1968, p. 246). Mas, como Adriano é Diogneto?
    Além de nome próprio, “Diogneto” é, também, título honorífico dos príncipes e ficava muito bem aplicado a Adriano por seu caráter, seu estilo de vida, viajor, ini-ciado nos mistérios de Elêusis, elevado, portanto, à raça dos deuses (cf. Diogneto 10,5-6). O nome ocorria com freqüência em Atenas entre os arcontes: Adriano era ali arconte desde 112 d.C. Não só Quadrato, também Marco Aurélio titula Adriano de Diogneto a quem deveu sua formação (educatus est in Adriani gremio), diz o biógrafo de M. Aurélio M.A. Capitolino em Vita M. Antonini, IV,1. “A Diogneto (i. é, Adriano devo a aversão pela vanglória, o não dar fé aos contos dos obreiros de prodígios e os charlatães sobre os encantos, sobre a evocação dos espíritos e outras superstições (…)”, diz M. Aurélio no livro I de seus Pensamentos. A carta/apologia faz freqüentes referências à iniciação mistérica de seu
    destinatário. Esta começava pela purificação. Na carta/apologia 2,1 se diz: “Comecemos. Purificado de todos os preconceitos que se amontoaram em tua mente; despojado do teu hábito enganador, e
    tornado, pela raiz, homem novo…”. As referências a um destinatário iniciado nos mistérios de Elêusis se encontram também, nos caps. 4, 6; 5,3; 7,1,2; 8,9-10; 10,7. O ataque ao judaísmo, à circuncisão como mutilação da carne (4,4) pode ser compreendido recordando que Adriano proibiu a circuncisão precisamente por ser uma mutilação do corpo (Iudaei vetabuntur mutilare genitalia, Spartianus, Vita Hadriani, XIV). Portanto, podemos concluir que o destinatário da Carta/Apologia a Diogneto seja mesmo o imperador Adriano.
  4. Data e local da composição
    Data e local de composição estão ligados, obviamente, à questão fundamental da autoria. Para Tillemont, esta carta/apologia teria sido escrita antes dos anos 70, provavelmente, em Atenas. H.I.
    Marrou, profundo conhecedor da literatura dos séculos II e III, julga que a obra tenha sido redigida por volta de 190-200, em Alexandria. Neste caso, seu autor seria Panteno, mestre de Clemente de Alexandria.
    Acolhendo a tese de Paul Andriessen de que o autor é Quadrato e Diogneto é Adriano, a carta/apologia teria sido redigida por volta de 120, em Atenas.
  5. Estrutura e conteúdo
    Esta apologia, muito rica doutrinal e espiritualmente, é também muito breve. Seu conteúdo denso pode ser dividido em quatro partes. Não falaremos em “capítulos”, mas em parágrafos. Após um
    exórdio, § 1, os §§ 2-4 formam uma primeira parte. Os §§ 5-6 a segunda parte. Os §§ 7-10, a terceira parte e, finalmente, os §§ 11-12 uma grande conclusão.
    O exórdio, § 1, enuncia claramente as questões que o interlocutor Diogneto-Adriano levanta aos cristãos. Assim, o discurso se abre com uma introdução na qual o autor elenca as questões às quais
    pretende responder. Aí estão as razões do escrito, sua motivação.
    Nos §§ 2-4, primeira parte, o autor refuta a idolatria e a prática ritualística dos judeus.
    Positivamente, mostra a superioridade do cristianismo em relação ao paganismo e ao judaísmo. Os cristãos se recusam a adorar os deuses pagãos porque são ídolos e não praticam os ritos judaicos
    porque são vazios. Segundo o autor, as práticas judaicas são provas “de insensatez e não de religião”.
    Nos §§ 5-6, encontra-se a parte positiva dos mistérios cristãos. Aqui se descreve a vida concreta dos cristãos, o testemunho de amor, o papel deles no mundo, como reagem às provocações, ao desdém.
    No § 6 está o núcleo, o essencial da exposição: o que a alma é para o corpo, o cristão é para o mundo. Assim, os cristãos desempenham no mundo a mesma função que a alma desempenha no corpo.
    Nos §§ 7-8, o autor expõe a origem divina da fé cristã, a transcendência a revelação, a economia da salvação incluindo a encarnação do Verbo e seu sacrifício redentor. Esta terceira parte, é,
    propriamente, uma catequese sobre a essência da nova religião. Se esta revelação tardou a se dar, foi porque Deus quis mostrar, de um lado, a impotência radical do homem e, de outro, sua longanimidade.
    No § 10, uma espécie de conclusão desta ca-tequese, o autor exorta seu interlocutor a aceitar a fé cristã, como deve proceder para isso e quais frutos lhe advirão.
    A última parte, §§ 11-12, desenvolve o discurso sobre o Verbo e como o homem pode-se tornar discípulo deste Verbo adquirindo a verdadeira ciência (verdadeira gnose). Como exortação final,
    apresenta um apelo à conversão de seu interlocutor mostrando, novamente, como a vida se tornará fértil, rica, valiosa e feliz.
    BIBLIOGRAFIA
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    ROASENDA, P., “Il pensiero Paolino nell’epistola a Diogneto”, em Aevum IX, 1936, pp. 468-473.

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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