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REFLEXÕES SOBRE A APOLOGÉTICA DE C.S. LEWIS E FRANCIS A. SCH

 

Reflexões Sobre a Apologética de

C.S. Lewis e Francis A. Schaeffer

Gabriele Greggersen*

 

Introdução

Nas páginas a seguir, apresentaremos algumas reflexões de ordem filosófico- metodológica a respeito da apologética de C. S. Lewis e Francis A. Schaeffer, originalmente feitas por dois teólogos americanos, Scott R. Burson e Jerry L. Walls.1 Nesse arrojado estudo comparativo de dois pensadores tão caros ao mundo evangélico, Burgson e Walls sistematicamente resumem e confrontam os pontos centrais da sua argumentação. Gostaríamos de destacar a metodologia empregada pelos autores, que sugere interessantes alternativas metodológicas de estudo e pesquisa para os graduandos e pós-graduandos em teologia que perseveram na defesa da fé não apenas como um estudo teórico, mas também na sua prática estudantil e pastoral.

Também temos por objetivo neste breve estudo auxiliar os interessados na apologética cristã, teólogos ou não, mas particularmente aqueles que enveredam pelo mundo da academia, a identificar caminhos apologéticos alternativos já desbravados por certos autores, e que nos parecem bastante razoáveis e eficazes para fazer frente aos desafios do pluralismo e do pensamento pós-moderno de hoje, que muitas vezes constrangem o cristão assumido.

Num primeiro momento, estaremos discutindo o sentido e alcance da apologética. Em seguida, levantaremos alguns problemas da apologética para, num próximo momento, extrair dos mesmos certos princípios metodológicos que podem servir tanto para o apologista quanto para quem pretende elaborar um estudo verdadeiramente acadêmico e filosófico na área teológica. E as implicações metodológicas e educacionais (ou éticas) desse esforço são bastante comprometedoras, como veremos. Finalmente estaremos apresentando uma proposta de aplicação de alternativas apologéticas práticas, como as sugeridas por Lewis e Schaeffer, com um encorajamento final inspirado no exemplo e na criatividade desses autores.

  1. Questões Apologéticas Preliminares

Uma pequena pesquisa semântica bastaria para nos aproximarmos do objeto destas reflexões. De acordo com o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, apologética significa auto-defesa. Então nos perguntamos, no caso da apologética cristã, quem está sendo defendido e que tipo de acusações estão sendo levantadas. Antes de nos estendermos acerca das questões-chave a que dedicamos este artigo, vale ressaltar que a palavra apologética está fortemente associada a “pedir desculpas” no inglês (apologize).

É interessante notar que a auto-defesa, ao mesmo tempo em que envolve um forte aspecto emocional, parece ser uma característica própria de qualquer raciocínio humano. Consideremos um exemplo. Quando nos sentimos convidados e suficientemente motivados para refletir sobre qualquer assunto de interesse, entre amigos ou em algum debate, acadêmico ou não, normalmente não resistimos à tentação de tomar um posicionamento, declarado ou não. E quando resolvemos assumi-lo em público, somos

logo reconhecidos como alguém que está defendendo algo, ainda que, a princípio pelo menos, não tenhamos sido confrontados ou acusados de absolutamente nada. Sempre que há uma idéia em disputa, temos a tendência de, por algum motivo, levantar a nossa bandeira. Não resistimos ao ímpeto de participar de discussões e tomar partido de idéias, ainda que nada nos obrigue a isso. Como se explica esse gosto natural pela disputa? Não bastaria cada um manter as suas idéias para si, simplesmente respeitando as dos outros? Que impulso é esse que nos leva ao debate?

É curioso notar ainda que, ao final de um curso de mestrado, sejamos convocados a “defender uma tese,” no caso, uma dissertação, para obtenção de um título. Contudo, o estudante poderia se perguntar: De que é que eu deveria estar me defendendo? Afinal de contas, não estou brigando com ninguém e não incorri em nenhuma falta para ser assim penalizado. Por que eu tenho que ser assim exposto? Essa questão torna-se ainda mais premente se considerarmos a sociedade atual, que enfatiza a liberdade de pensamento, a quebra de convenções e formalismos, a tolerância e o relativismo moral.

Mas o ser humano teima em buscar respostas. Teima em querer achar coerência e sentido nas coisas, por mais absurdas e insanas que elas lhe pareçam. A nítida impressão que temos, se observamos o ser humano de perto, é que ele é definitivamente um ser à procura de algo, de algum misterioso elo perdido. Não porque o obrigam a tanto, ou pelo menos, não exclusivamente por isso, mas porque assim o deseja. Nas palavras do jornalista e pensador G. K. Chesterton (1874-1936) – que muito influenciou Lewis e também é autor de obras apologéticas altamente interessantes como What´s Wrong with the World (O que Está Errado com o Mundo) e The Everlasting Man (O Homem Eterno) – “O que foi que disse a primeira rã?” E a resposta é: “Senhor, como tu me fizeste saltar!”2

No capítulo de Ortodoxia intitulado “A Bandeira do Mundo,” Chesterton expressa esse fenômeno em termos de “necessidade de uma fidelidade primordial para com as coisas e, a seguir, a necessidade também duma ruinosa reforma das mesmas coisas.”3 A propósito, Chesterton escreveu esse livro precisamente em resposta ao ataque dos racionalistas e materialistas do seu tempo, que o desafiaram a explicitar a sua filosofia cristã. Uma das respostas surpreendentes que ele dá pauta-se pela própria teologia:

…encontrei uma saliência na teologia cristã, à semelhança de uma ponta dura, ou seja a insistência dogmática de que Deus era pessoal e tinha feito o mundo separado de Si- mesmo. A ponta do dogma ajustava-se exactamente no buraco do mundo, pois tinha sido evidentemente feita para entrar lá. E foi nesse momento que o surpreendente caso se passou. Desde que estas duas partes das duas máquinas ficaram ajustadas, tôdas as outras partes se ajustaram também e adaptaram-se com uma precisão fantástica. Eu podia ouvir, peça por peça, todo o maquinismo tomar o seu lugar com um estalido de alívio. Ajustada a primeira peça, tôdas as outras repetiram êsse ajustamento, como relógios que, um após o outro, batem o meio-dia.4

Chesterton conclui esse impressionante capítulo sugerindo que a bandeira que temos que levantar não é a deste ou daquele argumento, mas a do próprio mundo, que nos é dada de graça. Assim, ao mesmo tempo em que inclui uma auto-defesa, a apologética também abrange uma busca ativa pelas pistas que o próprio mundo nos revela acerca das coisas divinas.

Passaremos agora diretamente aos pontos da apologética “pura e simplesmente” cristã, destacando a forma de tratamento dada por Chesterton, Lewis e autores correlatos.

  1. Questões Básicas da Apologética

Dos vários dilemas com os quais lida a apologética, destacamos somente dois, a questão do mal e a questão da linguagem, que serão mais importantes para atingirmos os nossos objetivos.

  1. O problema do mal

Se já é difícil manter-se motivado para permanecer firme e atender às exigências da vida acadêmica, o que dizer da vida do apologista? Seu destino nos parece ser o de uma “voz que clama no deserto.” Temos muitas vezes a nítida impressão de que só pode tratar-se de um ser pré-histórico, que teima em resistir às mudanças mirabolantes que acontecem no mundo, insistindo na sua visão dogmática da realidade. A impressão que se tem é que a única desculpa que ele tem para continuar sobrevivendo nesse cenário é a de ser um louco ou total alienado do contexto mundial contemporâneo.

Mas como se explica que esse mesmo afã “dogmático” pelo inquérito, pela indagação, também possa ser observado nos cientistas, nos advogados, nos professores, nos estudantes, e em todos aqueles que têm algum interesse em obter respostas mais abrangentes para certos pontos fundamentais das suas vidas? Tudo nos leva a crer que de fato deve existir algo de errado com a vida humana na face da terra. Se tudo estivesse certo, o que explicaria essa busca incessante por respostas. Somente algo de profundamente errado no cenário pode explicar esse apelo para a constante reparação e aperfeiçoamento do ser humano. E essa “falha” não visível, mas certamente perceptível, nos remete desde logo à busca do(s) culpado(s).

C.S. Lewis foi um apologista que, diante das pressões desse misterioso “gargalo,” desse “desafino” audível da existência humana, simplesmente o encarava de frente. Já na sua aula magna em Cambridge, em 1954, após longos e difíceis anos de luta por uma cadeira de titular em Oxford, Lewis assumia-se como sendo, de fato, nada mais nada menos do que um homem primitivo ou um dinossauro,5 que tinha uma consciência bastante clara desse “algo errado” que há com a humanidade:

Em “Apologética Cristã” (Christian Apologetics) Lewis aponta para o fato de que o contexto do século vinte é muito diferente daquele da era apostólica… A culpa não mais é vista como um sistema de alarme embutido, que sinaliza erros morais realmente existentes, mas antes é vista como um sentimento indicador de disfunção que precisa ser racionalizado e expurgado a todo custo. Esse modo de pensar predominante é que levou Lewis a procurar formas para despertar o senso de culpa moral no seu público. Pois Lewis estava totalmente convencido de que o cristianismo não diz nada a ninguém enquanto as pessoas não se derem conta da sua necessidade de arrependimento… ele considerava imperativo que a discussão fosse mantida fora do âmbito genérico das doenças sociais e da política pública… Em outras palavras, a discussão deve concentrar-se nos pecados particulares que afligem as pessoas normais.6

Para fazermos frente às simplistas explicações freudianas da culpa, podemos citar o médico psicanalista e filósofo austríaco Viktor Frankl. Seu tema central era precisamente o dos “pecados particulares que afligem as pessoas normais,” ou seja, a realidade do mal, que não pôde deixar de observar de perto na época da II Guerra Mundial, ao viver os horrores de campos de concentração como Auschwitz. Foi a partir da constatação da desgraça humana, do seu estado de profunda frustração existencial, que ele se deu conta de que, por outro lado, o suicídio não é a opção escolhida pela maioria das pessoas assim

torturadas. Constatou assim que, por piores que sejam as circunstâncias que possam afligir os seres humanos, há uma espécie de elán vital que mantém vivas as suas esperanças e sonhos de um dia encontrarem um sentido, para além dos horrores que os possam estar cercando. Fundado nessa horrível experiência de vida, Frankl desenvolveu uma metodologia terapêutica, também denominada logoterapia ou “método paradoxal,” que, resumidamente, ensina o homem a desenvolver uma visão equilibrada da realidade e do sentido mais profundo da vida, que não pode ser “dado” por nenhum ser humano a outro, mas que é “dado,” quase que “imposto,” pela própria realidade:

Como sou psiquiatra, gostaria de abordar agora o aspecto terapêutico. É possível dar às pessoas existencialmente frustradas um sentido para a sua vida?… Podemos, quando muito, tentar compreendê-las. E eu começaria por ressaltar que não é possível dar sentido, mas somente encontrar o sentido. O sentido de uma pessoa, coisa ou situação tem que ser encontrado pela própria pessoa – mas não dentro dela, porque isto iria  contra a lei da autotranscendência do existir humano. É por isso que só se pode encontrar o sentido: porque ele é objetivo; não podemos atribui-lo ao nosso bel-prazer…. É graças à minha consciência, à minha consciência atenta e bem formada, que eu me torno capaz de compreender o apelo ao sentido que cada situação me propõe; é graças a ela que me torno capaz de ouvir as questões que o dia-a-dia me formula, e é graças a ela que sou capaz de responder a essas questões empenhando a minha própria existência, assumindo uma responsabilidade. Os americanos nunca me levaram a mal o dizer-lhes que deveriam complementar a Estátua da Liberdade, situada na costa leste, com uma estátua da responsabilidade na costa oeste.7

A constatação do mal, da situação crítica, ou seja, da atual condição humana fragmentada (crisis, do latim, significa precisamente rachadura, fissura, abismo, separação, etc.), manifesta-se de várias formas no mundo de hoje, particularmente através da arte. Quantos poemas não lemos que falam do dilema humano? E não é preciso alguém ser “religioso” para dar-se conta do “gargalo”; basta ter um “pudor religioso quase”8 e o sentido do “desenraizamento”9 de um Fernando Pessoa:

Screvo meu livro à beira-magua. Meu coração não tem o que ter. Tenho meus olhos quentes de água. Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar

Meus dias vacuos enche e doura. Mas quando quererás voltar, Quando é o Rei, quando é a Hora?

Quando virás a ser o Christo  De quem morreu o falso Deus, E a despertar do mal que existo

A nova Terra e os Novos Céus?”10

Poderíamos citar milhares de poemas como esse de todos os cantos do planeta e todos eles nos dão a mesma sensação de incompletude, insatisfação e busca de algo mais. Podemos observá-la também na pintura e na música. É precisamente esse fenômeno que Schaeffer destaca em O Deus que Intervém, propondo uma interessante metáfora elucidativa. Ele diz que a realidade é como um livro, mas nós só possuímos uma pequena porção fragmentada do texto, de ‘somente três centímetros de matéria impressa em cada

página.’ Isso é o suficiente para sabermos que há aí algum tipo de autor, mas não o suficiente para compreendermos a história. Se ao menos pudéssemos encontrar os trechos faltantes, teríamos como reunir os fragmentos numa mensagem coerente.11

Quer se queira admiti-lo, quer não, quer se aceite o cristianismo, quer se negue os seus postulados, é só abrirmos o jornal diariamente para admitirmos que há algo de objetivamente errado com o homem e que requer uma desculpa ou defesa. E, uma vez admitido o problema, podemos tratá-lo da mesma forma que tratamos qualquer outro problema na vida, ou seja, usando a capacidade reflexiva e o nosso poder de julgamento e escolha ou decisão. Ou seja, apelamos para a nossa vontade e nossa liberdade de tomar alguma providência. Mas por que não mudamos? E é precisamente no conceito de liberdade que podemos reconhecer o paradoxo e contradição em que vive o ser humano dividido, que diz acreditar em Deus, mas ao mesmo tempo nega o livre-arbítrio, como sugere Lewis.

Assim, somente quando admitimos a incompletude, a fissura, o dilema que há na natureza humana separada de Deus, somos convidados a tomar uma posição que apela em nós para um profundo comprometimento pessoal e formal com o que cremos. É como em um negócio ou proposta de casamento. Tudo depende de termos os ouvidos para ouvir, a razão para entender e o coração para aceitar.

Nesse sentido, lembramos de um “velho conto chinês” que narra a história de um homem que diariamente levava dois baldes de água, equilibrados por uma viga no pescoço, de um poço até a casa do seu senhor. Após dois anos de prestação de serviços, um dos baldes finalmente deu-se conta de que estava rachado e que a sua fissura estava causando prejuízos ao seu senhor e, conseqüentemente, ao senhor do seu senhor. Resolveu então, apresentar as suas desculpas. O servo, muito sábia e generosamente, recomendou-lhe ter bom ânimo e, na próxima viagem, reparar nas flores do seu lado do caminho. O balde obedeceu e reparou nas flores, que o consolaram, mas não lhe deram solução. Então o servo explicou que, uma vez que já conhecia a rachadura do pote, desde o começo resolveu aproveitar-se da mesma, jogando sementes ao lado do balde, de tal sorte que o balde as regasse toda vez que por ali passasse. Dessa forma pôde transformar o prejuízo em lucro, ornando a mesa do seu senhor.

É interessante notar como essa história retrata bem o dilema humano e também a sua solução lógica, quase que matemática: enquanto ficamos fixados na rachadura, não sairemos do estado de angústia, que nos parece vazio de sentido. A partir do momento em que nos damos conta de que o prejuízo já foi revertido em lucro por um simples gesto de amor e graça, tudo muda, como em um passe de mágica. Podemos ter aqui uma idéia do potencial apologético do conto, ao qual voltaremos mais adiante.

  1. O mistério da graça e a linguagem

Outra forma de tratamento do problema do mal encontra-se na própria doutrina cristã, que diz que, embora seja triste e trágica mesmo a condição humana, há motivos igualmente reais e razoáveis para termos esperança. A constatação da miséria humana é a mola propulsora do homem em direção ao sentido mais profundo da vida, do qual ele faz questão de se esquecer. Mas o fato está tão incrustado na natureza humana, que esquecê-lo significa esquecer-se de si mesmo, como nos mostra Chesterton. É mais uma vez no seu surpreendente capítulo de Ortodoxia, “A Moral do Mundo dos Elfos,” que encontramos um conceito de homem como “ser que se esquece” do sentido existencial. Essa é precisamente a grande moral do mundo mágico das fadas. Diz ele,

resumidamente, que todos nós, quando começamos a ler os livros técnicos no lugar dos contos de fada, quando deixamos de cultivar aquele gosto festivo e a gratidão pela vida que a história nos proporciona, mostramo-nos vítimas de uma “calamidade intelectual; todos nós esquecemos nossos nomes. Todos nós esquecemos o que realmente somos. Tudo o que chamamos de senso comum e racionalidade e praticidade e positivismo significa apenas que, devido a certos ponto mortos da nossa vida, esquecemos que esquecemos.”12 Por isso é que vivemos tentando achar substitutos (“Ersatz”) para isso. Mas quando nos encontramos com Cristo, encontramos a chave para o nosso tesouro esquecido. “Em poucas palavras, eu sempre acreditei que o mundo envolvesse magia; agora penso que talvez envolva mesmo um mágico.”13

Essa magia expressa-se de forma particularmente tangível na linguagem, pois, ao mesmo tempo que serve para manifestar a verdade das coisas, ela também a oculta. Em Studies in Words, Lewis já apontava para o perigoso fenômeno da perda do sentido próprio, ao longo do tempo, que não ocorre apenas com os nomes, como Chesterton já alertava, mas também com a linguagem em geral, como nos mostra Luiz J. Lauand, apoiado em Lewis:

Ocorre com a linguagem um conhecido fenômeno de alteração do sentido das palavras que se manifesta muitas vezes quando lemos um autor de outra época. E não só alteração; como mostra Lewis, ocorre freqüentemente, sobretudo no campo da ética, uma terrível inversão de polaridade… aquela palavra que originalmente designava uma qualidade positiva, esvazia-se de seu sentido inicial ou passa até a designar uma qualidade negativa.14

Podemos observar esse problema, por exemplo, na própria palavra “mal.” Antigamente se perguntava: “O que é o mal e como vencê-lo?” Hoje se pergunta: “Qual a relação do mal com os meus traumas de infância? Será que o mal não é uma alucinação coletiva? Quais as causas psicológicas para que eu perceba algo como sendo mal?”

Em seu brilhante livro sobre o sofrimento, Peter Kreeft, que de resto acreditava que a vida seria de fato trágica se não acontecessem tragédias, define esse tipo de paradoxo nos seguintes termos:

Pode existir o bem absoluto, mas não pode existir o mal absoluto. O mal absoluto é uma contradição. O mal é como a cegueira, o bem é como a visão. O mal é a escuridão, o bem é a luz. O mal é morte, o bem é vida. O mal precisa do bem como o parasito [sic] precisa do hospedeiro, como o poder destrutivo precisa de algo bom para destruir, mas nunca o contrário. O bem não precisa do mal. A luz não precisa da escuridão. Deus não precisa de Satã. Mas Satã precisa de Deus.15

Mais uma vez, em seu primoroso capítulo de Ortodoxia dedicado à “Moral do Mundo dos Elfos,” Chesterton exprime essa mesma relação assimétrica entre bem e mal nos seguintes termos: “A bondade dos contos de fadas não era afectada pelo facto de poder haver mais dragões do que princesas; o que era bom era estar num conto de fadas.”16

Ou seja, o bem é tão infinitamente mais relevante que o mal, que ele simplesmente acontece. Ele é tão óbvio, tão abertamente manifesto no mundo, que nem sequer nos damos conta dele; literalmente o “esquecemos.” O bem não é um evento que  precisamos, por assim dizer, evocar por decreto ou por lei, ao contrário do mal, que, quando ocorre, é uma calamidade que procuramos prevenir pela lei.

No capítulo seguinte àquele dedicado aos contos-de-fada, Chesterton esclarece melhor

esse ponto: “O homem pertence a este mundo antes de ter tempo de perguntar se será uma bela coisa pertencer a ele… A moralidade não começou por um homem dizer a outro ‘Eu não te baterei, se tu não me bateres’; não há vestígio algum de que se tivesse feito tal acôrdo.”17

Assim, a questão do mal não se resolve a partir da enunciação e não se reduz ao nível do discurso. O dilema humano se reflete, assim, no já mencionado fenômeno entrópico das palavras, que tendem ao caos e ao esvaziamento. Ao mesmo tempo, o fato de que nos impelem em direção àquele que nos chama é o melhor referencial possível para defendermos a convicção de que há sentido, e um sentido objetivo e racional, no sofrimento. O sofrimento não se contradiz com a idéia de um Deus bondoso e onipotente; antes, reflete um ser humano “esquecido,” carente de lembrar-se das coisas mais simples da vida, que também são expressas pelo imaginário coletivo preservado, entre outras coisas, pelos contos-de-fada:

Isso prova que os contos de fadas são ainda os únicos que fazem despertar em nós o quase inato sentimento de interesse e admiração… O homem pode compreender o cosmos, mas nunca pode compreender o ego; este está mais distante do que qualquer estrela. Amarás o Senhor teu Deus, mas não te esquecerás a ti próprio. Todos nós estamos sujeitos à mesma calamidade mental: esquecemos os nossos nomes. Esquecemos quem somos realmente. Tudo aquilo que chamamos senso comum, racionalidade, praticabilidade e positivismo significa apenas, pelo que diz respeito a certas fases já mortas de nossa vida, que nos esquecemos de que estamos esquecidos.”18

Está aí o mistério do ser humano: ele se esquece de quem é, e precisa ser constantemente lembrado (os contos de fada podem exercer bem esse papel), para não cometer a pior loucura que pode cometer, que é a de confiar em si mesmo, de depositar toda a sua fé numa “luz interior,” imanente e isolada em um mundo fechado, egoísta e “ensimesmado.” A tarefa do apologista é, portanto, “lembrar” o peregrino dessa realidade, procurando pegá-lo “de surpresa” e fazendo-o chegar ao seu “ponto de tensão.”

  • Implicações Metodológicas
  1. Razão e Verdade

A esta altura, muitos poderiam objetar que, embora seja verdade que há algo de errado com o homem e que ele necessita da intervenção externa (transcendente), caso ele queira manter qualquer tipo de esperança razoável na vida, qual a vantagem de ficar filosofando sobre o assunto e se martirizando para achar o buraco da fechadura? Isso por acaso diminui as desgraças existentes no mundo? E tem uma desvantagem muito grande: essa atitude ainda aumenta a responsabilidade e o comprometimento de quem assim se atreve a perguntar-se a respeito da verdade das coisas e do sentido de tudo o que ocorre no mundo.

Acontece, porém, que, se dirigirmos tal indagação exclusivamente à nossa razão, ficaremos literalmente loucos. Se limitarmos a questão às nossas emoções, recairemos no subjetivismo. Se a atribuirmos simplesmente à fé, cairemos no fideísmo e eventualmente no ceticismo ou ascetismo. Mas, se indagarmos com todo o nosso ser à nossa ratio, à nossa lógica de funcionamento pensada pelo Logos, então não estaremos fazendo nada mais do aquilo que Jesus nos convida a fazer.

Para elucidarmos essa questão, podemos, mais uma vez, utilizar a pedagogia das parábolas, na interpretação brilhante de Joachim Jeremias. Segundo ele, a parábola do semeador “torna-se, na interpretação, uma exortação aos convertidos no sentido de que eles testem suas disposições de coração para verem se levam ou não a sério a conversão.”19

Como a parábola do semeador, outras parábolas têm esse cunho típico que apela para o espírito inquiridor e para um equilibrado bom senso, tais como a parábola do joio e do trigo, da rede, dos talentos, do administrador infiel, da porta estreita, etc. Nesse sentido, de consulta ao próprio coração e busca do equilíbrio pela transcendência de si mesmo, ou seja, da justificação de si, é que podemos reconhecer nas parábolas um autêntico apelo apologético ainda pouco explorado pelos apologistas, mas que Lewis não apenas reconhecia, como procurava sub-criar20 em suas próprias histórias.

É evidente que deve haver alguma vantagem, já que as pessoas que buscam racionalmente a verdade normalmente também são consideradas “inteligentes.” Uma das grandes vantagens de quem busca a verdade com todo o rigor da lógica e da ciência é que somente assim poderá efetiva e ativamente participar não apenas das dores, mas também da obra redentora de Cristo, ajudando a orientar os peregrinos pelos caminhos da vida.

Para Burson e Walls, Lewis e Schaeffer respeitavam muito o rigor da lógica, especialmente da história, nos seus ensaios de defesa da fé. A partir dos insights dessas duas referências comuns do cristianismo evangélico, os autores extraem importantes implicações para o mundo de hoje. Schaeffer, por exemplo, é explícito em colocar as leis da prova científica lado a lado com a religião:

…quero sugerir que a prova científica, a filosófica e a religiosa seguem as mesmas regras… após ter sido definida a pergunta, em todos os casos a prova consiste em dois passos: (a) A teoria não deve ser contraditória e deve dar uma resposta ao fenômeno em questão. (b) Devemos poder viver coerentemente com a nossa teoria… o cristianismo, começando com a existência do Deus infinito-pessoal, a criação do homem à sua imagem e uma queda espaço-temporal, constitui uma resposta não-contraditória que explica o fenômeno e com a qual podemos viver, tanto na vida prática como na busca do conhecimento.21

Chesterton expressa esta mesma idéia de forma um pouco diferente, afirmando que temos duas opções apenas: ou defendemos nossas idéias ou não podemos afirmar absolutamente nada, sobre qualquer assunto. Ele ousava declarar que toda afirmação, qualquer que seja, ao ser levantada, já parte de algum pressuposto anterior. E mais, parte necessariamente de um pressuposto absoluto, do qual podemos não ter consciência ou certeza, mas no qual acreditamos e que defendemos, em princípio. Isso envolve um polo de justificativa de um dado estado de coisas. Mas envolve também uma estratégia ativa de busca da verdade. Se não arriscamos um tiro no escuro, mesmo sem termos certeza ou visão clara do que temos à frente, se não apostarmos em algum pressuposto, também não teremos qualquer chance de acertar no alvo, ou de encontrar a verdade. Como no caso do detetive, é preciso levantar e seguir as pistas, mesmo que seja no escuro. É o que Chesterton deixa claro em um texto muito curto, mas substancial, que tive o prazer de traduzir alhures:

O que o homem moderno precisa compreender é simplesmente que toda argumentação começa com uma afirmação ponto-de-partida; isto é, com algo de que não se duvida…

Nem é preciso meter religião na história. Diria até que todos os homens de bom senso acreditam firme e invariavelmente em umas quantas coisas que não foram provadas e que nem sequer podem ser provadas. De forma resumida, são elas:

  • Todo ser humano em sã consciência acredita que o mundo e as pessoas ao seu redor são reais e não um produto da sua imaginação ou de um ..
  • Todo homem em sã consciência, acredita não somente que esse mundo existe, mas também que ele tem importância…
  • Todos os homens em sã consciência acreditam que existe uma certa coisa chamada eu, self ou ego e que é contínua…
  • Finalmente, a maioria dos homens em sã consciência acredita, e todos o admitem na prática, que têm um poder de escolha e responsabilidade por suas ações.

Seguramente é possível elaborar algumas afirmações simples como as acima, para que as pessoas possam saber a que se ater. E se os jovens do futuro não vão ter formação em religião, pode-se-lhes ensinar, pelo menos, de forma clara e firme, um pouco de bom senso, três ou quatro certezas do pensamento humano livre.22

É interessante verificar que o conceito de pressuposto é, para Chesterton, equivalente ao tão famigerado e problemático dogma, do qual todos os filósofos procuram esquivar-se, principalmente quando tratam da metodologia filosófica.

Por outro lado, por mais que se domine os recursos da lógica, Lewis destaca a dificuldade da tarefa de manter a atenção do seu público concentrada na questão da verdade. Volta e meia há um desvio que muda o rumo da linha de raciocínio, impedindo que se tirem as últimas conseqüências do argumento iniciado.

Uma das maiores dificuldades é manter na cabeça do seu público a questão da verdade. Eles sempre acham que você está recomendando o cristianismo, não porque seja verdade, mas porque é bom. E durante as discussões eles irão, a todo o momento, tentar desviar-se da questão “verdade–falsidade” para conversas sobre a “sociedade solidária,” ou a moral, ou o salário dos bispos, ou a Inquisição espanhola, francesa ou polonesa – ou qualquer coisa desse tipo. Você tem que forçá-los constantemente a voltar ao assunto e retomar o ponto em questão. Somente assim será possível minar… sua crença de que uma certa dose de “religiosidade” é desejável, mas não se deve levá-la muito longe. É preciso persistir em destacar que o cristianismo é um conjunto de afirmações que, se for falso, não é relevante, e se for verdadeiro, é de infinita importância. O que não pode é  ser medianamente importante.23

E Lewis certamente não estava se referindo aqui somente ao público não-cristão. Os cristãos de hoje têm dificuldade semelhante em manter-se conscientes de que o cristianismo é verdadeiro, e que precisamente esta característica faz com que muitos fujam dele, por suas conseqüências muitas vezes dolorosas e nada agradáveis. Nesse ponto, voltamos às nossas indagações iniciais: Não seria muito melhor para o homem manter a verdade onde está?, perguntar-se-ia o estudante. Para que ficar criando polêmica, se ela não tem grande atrativo junto às massas?

Quando se trata de apologética cristã, entretanto, é importante notar que ela não ocorre no sentido de defesa de uma opinião ou crença pessoal, mas em defesa de algo objetivamente verdadeiro. Lewis já apontava para a tendência genérica das pessoas de cair no subjetivismo, interpretando a defesa da fé cristã como uma luta pela moralização da sociedade, e não como uma busca da verdade.

Falar em verdades absolutas hoje em dia não é muito bem visto, pois isso não é nada “prático” e extremamente difícil, por ser comprometedor. Assim, o apologeta é convidado a aplicar uma certa dose de didática, se quiser ser ouvido. E é preciso que ele tenha consciência do que está enfrentando. Pois o grande Ersatz que se cria para substituir a verdade é a chamada “tolerância” ou “democracia,” que muitas vezes não passa de uma forma velada de relativismo. Esse ponto já nos remete ao próximo princípio metodológico que é o da realidade objetiva.

  1. A Realidade Objetiva

Luigi Giussani insiste no mesmo caráter impositivo da realidade que o já observado por Frankl, no caso do reconhecimento do problema do mal. E mais, para ele a realidade remete toda a questão do método para o nível da postura, da intencionalidade ou do motivo mais profundo por trás da mesma:

Espero que esteja evidente o motivo pelo qual tematizei esta premissa como a necessidade da razoabilidade. O objeto de um estudo exige realismo, o método é imposto pelo objeto; mas, concomitante e complementarmente a isto, é preciso que o trabalho sobre o objeto respeite a exigência da natureza do homem que é a razoabilidade; possuir motivos adequados ao dar passos na direção do objeto do conhecer. A diversidade de métodos estabelece a ordem destes motivos adequados. Um método é lugar de motivos adequados.24

Lewis e com ele muitos outros apologistas acreditam que, apesar de todas as dificuldades, é importante tocar na ferida das más intenções do homem moderno, por meio da argumentação. Embora ninguém seja salvo pelo argumento, ele pode tirar o indivíduo de seu estado de marasmo espiritual, conforme explicitado anteriormente. E um dos melhores métodos para isso é estudar a estratégia do inimigo. Não é para menos que a estratégia predileta do “diabo” de Cartas do Diabo ao seu Aprendiz, seja a de desviar a atenção dos seres humanos, fazendo a verdade das coisas cair no esquecimento ou ser relegada a segundo plano, como fica claro nesta recomendação de Screwtape a seu sobrinho:

Mantenha contato próximo com nosso colega Glubose, que está encarregado da mãe, e suscite nesta casa um bom e estabelecido hábito de irritação mútua; aborrecimentos diários. As seguintes técnicas são úteis. 1. Conserve sua atenção na vida interior. Ele pensa que sua conversão é algo dentro dele, e sua atenção, portanto, está principalmente voltada no momento para os estados de sua própria mente – ou antes para aquela versão bastante expurgada deles, a qual é tudo que tu deverias permitir que perceba . Encoraje isto. Conserve sua mente afastada dos deveres mais elementares, dirigindo-a para os mais avançados e espirituais. Agrave esta útil característica humana, o horror do óbvio e sua negligência. Tens de levá-lo a uma condição na qual ele possa praticar o auto-exame por uma hora, sem descobrir nenhum daquele fatores acerca dele mesmo que são perfeitamente claros para qualquer um que viveu na mesma casa, ou que trabalhou no mesmo escritório.25

O capítulo III do livro é extremamente peculiar e citado por filósofos de vários lugares do mundo, por seu notório realismo.

Assim, ao que nos parece, reconvertendo do raciocínio de Screwtape, não há escapatória:

a melhor estratégia apologética é atentar para a verdade e realidade das coisas, o que exige um esforço árduo, perseverante e paciente de observação, atenção e reflexão crítica argumentativa.

  1. O potencial apologético do conto

A partir do que discutimos até aqui, não nos parece mera coincidência o fato de encontrarmos, em um estudo etimológico mais atento, a palavra apologus associada, no latim, ao conceito de fábula. E o apólogo exerce um papel educacional muito forte em toda literatura clássica, de todas as culturas, como nos mostra Lauand, a partir de seu conhecimento da cultura árabe, que o denomina mathal:

Para uma aproximação concreta da riqueza de conteúdo desse conceito, comecemos exemplificando com um contexto familiar, o da Bíblia. Nela, o uso de mathal (ou seu equivalente mashal, da raiz m-sh-l) é empregado em situações, para o leitor ocidental, muito variadas. Assim, numa edição árabe da Bíblia, encontraremos, com toda a naturalidade, a seguinte gama de significados (entre outros) em torno de mathal: a) Provérbio. É o sentido mais usual… b) Sátira, objeto de escárnio… c) Escarmento, exemplo de castigo…d) Exemplo, ideal a ser seguido… e) Parábola… f) Comparação…26

Podemos suspeitar, a partir daí, que a fábula, parábola, conto, etc. são ótimas ferramentas para o trabalho apologético. De acordo com o dicionário, parábola vem do grego:

parabolê, comparação, alegoria. Narrativa curta, não raro identificada como o apólogo e a fábula, em razão da moral, explícita ou implícita, que encerra, e da sua estrutura dramática. Todavia, distingue-se das outras duas formas literárias pelo fato de ser protagonizada por seres humanos. Vizinha da alegoria, a parábola comunica uma lição ética por vias indiretas ou simbólicas: numa prosa altamente metafórica e hermética, veicula-se a um saber apenas acessível aos iniciados. Conquanto se possam arrolar exemplos profanos, a parábola semelha exclusiva da Bíblia, onde se encontra em abundância: o Filho Pródigo, a Ovelha Perdida, o Semeador, o Bom Samaritano, a Ceia de Natal [sic], Lázarro e o Rico, etc. 27

Lewis mesmo conhecia e aproveitava bem o instrumento e linguagem da ficção e do conto. Um exemplo ilustrativo disso é a cena em que Eustáquio, que havia se transformado num dragão em A Viagem do Peregrino da Alvorada, como resultado de suas atitudes avarentas e mesquinhas, converte-se novamente em Eustáquio pela intervenção poderosa de Aslan, como o próprio Eustáquio conta a seu primo, que outrora passara por experiência semelhante:

Assim, comecei a esfregar-me e as escamas começaram a cair de todos os lados. Raspei ainda mais fundo e, em vez de caírem as escamas, começou a cair a pele toda, inteirinha, como depois de uma doença ou como a casca de uma banana. Num minuto, ou dois, fiquei sem pele. Estava lá no chão, meio repugnante. Era uma sensação maravilhosa. Comecei a descer à fonte para o banho… “Está bem,” pensei, “estou vendo que tenho outra camada debaixo da primeira e também tenho de tirá-la.” Esfreguei-me de novo no chão e mais uma vez a pele se descolou e saiu; deixei-a então ao lado da outra e desci de novo para o banho. E aí aconteceu exatamente a mesma coisa. Pensava: “Deus do céu! Quantas peles terei de despir?” …A única coisa que me fazia agüentar era o prazer de sentir que me tirava a pelo. É como quem tira um espinho de um lugar dolorido. Dói pra valer, mas é bom ver o espinho sair… A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia.28

Como podemos ver nesse exemplo, Aslan respeitou o tempo de Eustáquio, que retribui com obediência e disposição para ser retransformado no que ele realmente era, mas isso não diminui a dor da transformação, como a lagarta só se transforma na verdadeira borboleta que é, através de um lento e doloroso processo de libertação de seu casulo.

Outro exemplo é o caso de Gilda em A Cadeira de Prata. Ela nunca teria alcançado paz de espírito, enquanto não se dispusesse a soltar-se e cair nas patas do terrível leão. A sede era tão forte que chegou a pensar que pouco se importaria em ser comida pelo animal, desde que desse tempo de beber um bom gole.

  • Não está com sede? — perguntou o Leão.
    • Estou morrendo de
    • Então,
    • Será que eu posso… você podia… podia arredar um pouquinho para lá enquanto eu mato a sede?

A resposta do Leão não passou de um olhar e um rosnado baixo. Era (Jill se deu conta disso ao defrontar o corpanzil) como pedir a uma montanha que saísse do seu caminho.  O delicioso murmúrio do riacho era de enlouquecer.

  • Você promete… não fazer nada comigo… se eu for?
  • Não prometo nada — respondeu o Leão…
  • Perdi a coragem — suspirou
  • Então, vai morrer de
  • Oh, que coisa horrível! — disse Jill dando um passo à frente. — Acho que vou ver se encontro outro
  • Não há outro — disse o Leão…
  • Venha cá — disse o Leão.

E ela foi. Estava agora quase entre as patas dianteiras do Leão, olhando-o diretamente nos olhos. Mas não agüentou isso por muito tempo e desviou o olhar. (…)

Eu estava imaginando… quer dizer… não está havendo um engano? Acontece que ninguém chamou a gente aqui. Nós é que pedimos para vir. Eustáquio disse que devíamos chamar… alguém… não me lembro do nome… e que esse alguém talvez nos deixasse entrar. Foi o que fizemos, e então encontramos a porta aberta.

  • Não teriam chamado por mim se eu não houvesse chamado por vocês.
  • Então o senhor é o Alguém? — perguntou
  • Mas ouça qual é a sua missão…29

Esse Alguém tem outra missão muito especial para quem teve a perseverança de acompanhar o presente estudo até aqui, que é a de aproveitar os recursos alternativos que a realidade verdadeira dos homens e das coisas nos oferece (literatura imaginativa, música, arte, escultura, natureza, etc.) como meios legítimos para alcançar as almas perdidas para o único e verdadeiro Senhor Jesus Cristo.

  1. Convite para um compromisso

Diante do “abalo” ou “espanto” (que, aliás, é o que nos inspira à arte e à filosofia) que a verdade das coisas assim explicitada provoca pelas vias do imaginário e tantas outras estratégias, somos desafiados a tomar uma atitude.

Pois é somente a partir do paradigma da verdade do Evangelho, postulada e principalmente vivida como “verdade verdadeira,”30 que o apologista terá condições de ser um verdadeiro “ser humano,” ao invés de um “coelho” a se esconder da verdade das coisas, ou um “soldadinho de chumbo,” sem vontade e compromisso pessoal, como Burson e Walls deixam claro.

Estamos aqui diante de uma porta por trás da qual, de acordo com algumas pessoas, o segredo do universo está aguardando. Ou isso é verdadeiro, ou não é. E se não for, então o que a porta está escondendo, de fato, é simplesmente a maior fraude, o mais colossal conto do vigário de que se tem registro. Será que a maior tarefa de todo o ser humano (isto é, de homem, não de rato) não é obviamente tentar descobrir o que é verdadeiro, para depois devotar toda a sua energia ou a serviço desse tremendo segredo ou para denunciar e destruir essa enorme trapaça?31

Por isso, por lidar com um dilema existencial humano, e por buscar a verdade absoluta das coisas, é que Lewis também reconhece que o trabalho do apologista é, além de difícil, extremamente perigoso. Pois, assim que reconhecemos uma verdade, parece que a mesma é magicamente tragada pelo gargalo que constantemente atordoa a mente humana, até mesmo a do cristão autêntico, como Lewis comenta numa carta de 1946: “…o trabalho apologético é tão perigoso para a nossa própria fé. Uma doutrina nunca se parece mais obscura do que quando acabei de defendê-la com sucesso.”32

CONCLUSÕES

Em seu estudo comparativo, os autores que inspiraram este debate partem da constatação do peso e da influência de alguns apologistas, particularmente C.S. Lewis, para o mundo pós-moderno, citando uma pesquisa recente feita pela revista Christianity Today dando-lhes destaque especial.

Em seguida, dão a entender que Lewis e Schaeffer devem ser entendidos como “clássicos,” não da apologética, e sim da literatura cristã. Daí a importância que dão ao resgate do contexto histórico e biográfico de cada um dos autores. Somente então Burson e Walls passam para a discussão acerca do tipo de abordagem que cada um dos autores estudados utilizou em sua apologética, detalhando os seus argumentos e teologia implícitos.

A conclusão deles é que, se formos fiéis ao próprio método de atenção aos clássicos, e se nos aplicarmos como seres totais que somos, partindo da superabundante graça divina, os apologistas, devidamente contextualizados, têm muito a contribuir para enriquecer o patrimônio epistemológico e espiritual da teologia cristã, ajudando também os cristãos honestos consigo mesmos e com os outros a vencerem as suas dúvidas sinceras e as crises espirituais a que estão expostos no mundo atual.

Podemos destacar, a partir do exposto até aqui, que há pelo menos dois métodos importantes aplicados pelos clássicos da literatura e da filosofia que podem contribuir para o esforço apologético: o reconhecimento da realidade objetiva das coisas que nos impõe o reconhecimento de que algo está errado e precisa ser reparado, e que para repará-lo (todo detetive, juiz e filósofo sabe disso) é preciso buscar a verdade das coisas, aplicando para isso a lógica humana, que, para evitarmos os abusos e a própria loucura, deve ser iluminada pelo Logos divino. Pois, através da criação à imagem e semelhança de Deus, nós fomos convidados a participar da obra não apenas de redenção do mundo, mas também de sua celebração por meio da intelecção, ou seja, da leitura abrangente e profunda do mesmo. Não é a Deus que devemos defender, nem ao ser humano, pois para este já foi designado o melhor advogado. O que temos que defender é a aplicação ativa e passiva da nossa inteligência às coisas que acontecem no mundo à nossa volta, como faziam os grandes clássicos, desde os poetas até os apologistas.

Encerramos com um pequeno poema de João Gilberto Gaspar, que é bastante sintético das reflexões que procuramos explicitar neste artigo:

“Pôr-de-Sol”

Depois de um dia de pesada lida, Contemplo o entardecer e, realmente, Morre a beleza deste sol poente,

No crepúsculo… a tarde esmaecida. E o meu olhar se espraia molemente,

No horizonte, onde a barra é colorida. E, na meditação mais comovida, Minh’alma, agora em prece comovente, Despede-se da tarde que termina.

Cânticos bíblicos da campina, Assobia a codorninha escondida!

E, olhando no horizonte avermelhado, Vejo do meu crepuscular passado

Um            outro            pôr-de-sol…            É            a            minha            vida.33

* A autora obteve os graus de mestrado e doutorado em História e Filosofia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. É professora de Didática e Metodologia no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper.

1 Scott R. Burson e Jerry L. Walls, C. S. Lewis & Francis Schaeffer: Lessons for a New Century from the Most Influential Apologists of our Time (Downers Grove, Illinois: InterVarsity, 1998).

2 G. K. Chesterton, Ortodoxia, trad. Eduardo Pinheiro (Porto: Tavares Martins, 1944),

77.

3         Ibid., 109.

4         Ibid., 116-117.

5           C. S. Lewis, “They Asked for a Paper: De Descriptione Temporum,” em Lyle W. Dorsett, ed., The Essential C. S. Lewis (Nova York: Touchstone, 1996), 471-481.

6         Burson e Walls, C. S. Lewis & Francis Schaeffer, 172-173.

7         Victor Frankl, Sede de Sentido (São Paulo: Editora Quadrante, 1989), 26-31.

8          Fernando Pessoa, O Eu Profundo e os Outros Eus, 15ª ed. (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980), 26.

9         Ibid.

10       Ibid., 63.

11       Francis Schaeffer, em Burson e Walls, C. S. Lewis & Francis Schaeffer, 108.

12                                    G.K.          Chesterton,          Orthodoxy.          (Texto          eletrônico. http://www.dur.ac.uk/~dcs0mpw/gkc/books/ortho14.txt)

13       Ibid.

14            Luiz Jean Lauand, “Provérbios e Educação Moral,” tese de Livre Docência apresentada à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1995, p. 53.

15        Peter Kreeft, Buscar Sentido no Sofrimento, trad. Alexandre Patriarca (São Paulo: Loyola, 1995), 48.

16       Chesterton, Orthodoxy, 76.

17       Ibid., 96, 99.

18       Ibid., 74-75. Ortografia adaptada.

19        Joachim Jeremias, As Parábolas de Jesus, trad. João Rezende Costa, 7ª ed. (São Paulo: Paulus, 1996), 81.

20 “Sub-criação” é um termo cunhado por J.R.R. Tolkien, o autor de Hobbit e da famosa trilogia O Senhor dos Anéis, que procura dar conta desta característica essencialmente humana de ser uma “criatura” e ao mesmo tempo “criadora,” por ser imagem e semelhança do Criador. O “sub” significa que nunca seremos totalmente originais no processo de criação. Original só um: Deus.

21      Burson e Walls, C. S. Lewis & Francis Schaeffer, 82.

22        G.K. Chesterton, “Filosofia para a Sala de Aula” (trad. Gabriele Greggersen) (http://www.hottopos.com/videtur7/a_filosofia_para_a_sala.htm.

23       C. S. Lewis, God in the Dock (Grand Rapids: Eerdmans, 1970), 101.

24        Luigi Giussani, O Senso Religioso, Curso Básico de Cristianismo, Vol. 1 (São Paulo: Companhia Ilimitada, 1988), 39.

25       C.S. Lewis, Cartas do Diabo ao seu Aprendiz (São Paulo e Petrópolis: Vozes, 1998), 19-20.

26       Lauand, “Provérbios e Educação Moral,” 100ss.

27       Massaud Moisés, Dicionário de Termos Literários, 6 ª ed. (São Paulo: Cultrix, 1992), 385.

28        C.S. Lewis, A Viagem do Peregrino da Alvorada (São Paulo: Martins Fontes, 1997), 112-113.

29 C. S. Lewis, A Cadeira de Prata (São Paulo: Martins Fontes, 1997), 27-29.

30 Termo introduzido por Scott R. Burson e Jerry L. Walls na obra citada.

31 Lewis, God in the Dock, 111-112.

32 Walter Hooper, ed., Letters of C. S. Lewis (Nova York: Hartcourt, 1988), 382.

33                  João Bosco Martins Salles, O Simples e o Poeta, em Mirandum IV (São Paulo: Editora                Hottopos),                 acessado          em          17.04.99,           no          site http://www.hottopos.com/mirand4/osimples.htm (atualizado em 10.05.1998).

 

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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