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Comentários Bíblicos

SALMOS – Vol. 1

O LIVRO DOS SALMOS, visto meramente como uma composição poética, tem sido objeto de nossa mais viva atenção. Homens dos mais refinados e apurados pendores têm com freqüência se dedicado ao estudo dele, partindo das belezas poéticas que lhe são abundantes, e têm admitido, neste respeito, a superioridade das alegações do mesmo. O maior de nossos poetas ingleses1 assim se expressa acerca desses cânticos sacros: “Não só em seu divino argumento, mas na própria arte crítica da composição, eles podem facilmente ser realçados acima de todos os gêneros de poesia lírica como sendo algo incomparável.” Outro excelente erudito,2 discorrendo sobre o mesmo tema, diz: “Em sua fluência e inspiração líricas, em sua força e majestade esmagadoras, as quais parecem ainda ecoar os terríveis sons uma vez ouvidos sob as trovejantes nuvens do Sinai, a poesia das antigas e sacras Escrituras é a mais esplêndida que já incandesceu o coração humano.”
A excelência intrínseca desse Livro, porém, exige ainda nossa mais vivaz atenção. Escrito sob a influência do Espírito de inspiração, seu tema central é digno de sua celestial origem.
Em geral, ele contém detalhes da história nacional do povo judeu, registros de porções particulares da vida e experiências de indivíduos e predições de eventos futuros. Cada um desses tópicos abarca um campo muito amplo, e inclui ilustrações de cada verdade religiosa que se faz necessário conhecer, exemplificações de cada sentimento devoto que é nosso dever apreciar, e exemplos de cada conflito espiritual que nos é possível experimentar.
Deparamo-nos com muitas manifestações da imensurabilidade, da majestade e das perfeições do único e verdadeiro Deus, seu governo do mundo e seu especial desvelo por seu povo eleito. Deparamo-nos com os variados exercícios da alma regenerada, e vemo-la numa ocasião oferendo ferventes súplicas Aquele que ouve as orações, e noutra celebrando suas perfeições e obras; numa ocasião dando expressão às ardentes aspirações de amor a Deus e de confiança nele, e noutra se digladiando com a descrença e a corrupção; em certa ocasião pranteando sob a disciplina divina em decorrência do pecado, e noutra se regozijando sob o efeito da mercê perdoadora e desfrutando daquela paz que excede a toda e qualquer compreensão.
Presenciamos infindáveis e grandiosas predições concernentes ao Messias — sua humilhação, sofrimentos, morte, ressurreição e ascensão para assentar-se à direita do Pai; sua obra no céu como Intercessor de seu povo, bem como sua autoridade como Rei universal; a efusão das influências do Espírito Santo e a conversão de todas as nações à fé do evangelho. Em suma, ali estendemos nossa vista para o juízo final, para a reunião de todos os justos diante de Deus e para a exclusão eterna dos ímpios, tanto da felicidade quanto da esperança.
Esses tópicos, e outros similares, são demonstrados nos mais nobres estilos da poesia e numa expressão cuja magnificência e sublimidade correspondem à importância e grandiosidade dos entimentos que constituem a essência desse Livro; e enquanto proporcionam uma prova incontestável de que o Livro é inspirado, de que ele consiste, não das criações provenientes da mera capacidade humana, mas de uma emanação celestial, demonstram que seu caráter e tendência são totalmente diferentes do caráter e tendência da mais admirável poesia que a habilidade das nações pagãs jamais produziu. Ele não serve a qualquer paixão depravada; não nutre qualquer virtude fictícia; não se presta a oferecer seu delicioso incenso no santuário da degradante superstição. Ele ensina a mais sublime piedade e a mais pura moralidade. Sua única intenção é refinar e enaltecer a natureza humana, elevar a alma a Deus e inspirá-la com a admiração e o amor por seu caráter, refrear as paixões, purificar as afeições e incitar o cultivo de tudo quanto é verdadeiro, honesto, justo, puro, louvável e de boa fama. Ele tem guiado o santo em suas dúvidas e dificuldades; o tem animado na renúncia e no sofrimento; lhe tem comunicado apoio e conforto em seu encontro com a morte. Esse Livro tem sido, conseqüentemente, apreciado pelos homens mais excelentes de todas as épocas, os quais têm se esforçado por encontrar as mais puras expressões nas quais pudessem demonstrar a suprema excelência desse santo Livro. Atanásio o intitula: “Uma epítome de todas as Escrituras.” Basil: “Um compêndio de toda a teologia.” Lutero: “Uma mini-bíblia e sumário do Velho Testamento.” Melancthon: “A mais elegante obra existente no mundo.” E quanto ao apreço que Calvino tinha por seu valor, apontamos para o excelente prefácio no qual ele introduz esta seção de seus labores em busca da atenção do leitor.
O Comentário de Calvino sobre os Salmos, uma nova tradução do qual está agora em vias de ser apresentada ao leitor de língua inglesa, é distinguido por muitas excelências, as quais têm granjeado inapreciável reputação para seus comentários sobre outras partes da Escritura. Neste, bem como em seus demais comentários, seu primeiro e grande objetivo é descobrir a intenção do Espírito Santo. E para tal descoberta, ele toma por empréstimo o princípio elaborado por Melancthon: “a Escritura não pode ser entendida teologicamente, a menos que, antes de tudo, seja ela entendida gramaticalmente.” Anterior ao seu tempo, o que estava mais em voga era o método místico e alegórico de explicar as Escrituras, segundo o qual o intérprete, detendo-se mui pouco ou absolutamente nada no sentido literal, saía em busca dos significados velados e alegóricos.
Rejeitando, porém, tal método hermenêutico, o qual contribuía mui pouco à correta compreensão da Palavra de Deus, e segundo o qual o significado se fazia inteiramente dependente das fantasias do intérprete, Calvino se apegou à investigação do sentido gramatical e literal, por meio de um criterioso exame do texto hebraico, bem como por meio de uma diligente atenção voltada para o alvo e para a intenção do discurso do escritor.
Este princípio hermenêutico não tem como ser excessivamente apreciado. Em primeiro lugar, ele deve prender a atenção do comentarista; e quando é negligenciado, o princípio fundamental da crítica sacra é violado. Calvino estava sempre e profundamente atento à sua importância. Seu único defeito está em sua influência para restringir demasiadamente. Muitos dos Salmos, além do sentido literal, contêm também o sentido profético, evangélico e espiritual. Ao mesmo tempo que têm uma referência primária a Davi e à nação de Israel, apontam também para Cristo e a Igreja do Novo Testamento, fundado no fato de que a primeira referência era típica da última.
Calvino, aliás, explica alguns dos Salmos com base neste princípio. Ele, porém, aplica o princípio menos freqüentemente do que poderia ter feito sem violar os cânones da sã hermenêutica.
Sua profunda aversão pelo método místico de interpretação e pelo absurdo e extensão extravagante a que foi levado pelos Pais, talvez o tenha feito correr para o outro extremo de limitar demasiadamente sua atenção ao sentido literal e dirigir sua atenção pouco demais para o caráter profético e espiritual do Livro e para a referência que o mesmo faz a Cristo e à Igreja. Em conseqüência de tal fato, suas exposições contêm menos unção e são menos ricas de sentimento evangélico do que de outra forma seriam. Há, contudo, dois princípios da verdade evangélica que ele se empenha por inculcar sempre que alguma oportunidade se lhe apresente – a doutrina da justificação pela fé em Cristo sem as obras da lei; e a necessidade de santidade pessoal para a salvação.
Outra excelência do presente Comentário está em seu caráter prático. O autor não se limita a aridez e a detalhes insossos de meros exercícios gramaticais, como se estivesse comentando algum clássico grego ou romano. Ele direciona todas as suas explanações a questões práticas, e assim sua obra exibe uma feliz combinação de observações críticas e filosóficas com exposição prática.
Aqui, uma vez mais, encontramos patenteado o raciocínio sadio e penetrante pelo qual Calvino tem sido universalmente admirado. Tal fato se manifesta na judiciosa seleção que ele faz dentre uma enorme gama de interpretações a que é evidentemente a única verdadeira ou que parece ser a mais provável. Às vezes ele renuncia certa interpretação por ser pobre e insatisfatória.
Em outras vezes, ele simplesmente declara sua preferência por uma ou outra interpretação, quando, após criterioso exame, pareceu-lhe ter o balanço dos argumentos em seu favor; sem, contudo, expressar alguma oposição final a algum ponto de vista, quando o que preferiu era apoiado por apenas uma leve preponderância de evidência. Em outras vezes, ele não decide entre diferentes interpretações, demonstrando que, com respeito a certas palavras e expressões, ele não chega a uma opinião fixa. Em todos esses exemplos,3 ele revela muita perspicácia e bom senso. Indubitavelmente, ele às vezes se equivoca em sua interpretação de passagens particulares. Mas quando se considera que as Escrituras há muito se fizeram um livro selado, e que os auxílios de que se dispunha eram poucos e no Comentário de Calvino, e das quais temos ainda mui numerosos exemplos em Poole’s Synopsis Criticorum, de forma alguma deve supor-se que o significado da linguagem da Escritura é vago, impreciso e duvidoso. Houvessem os professos intérpretes da Escritura sempre efetuado sua tarefa com critério, bem como com ciência e talento, deixando-se guiar pelas regras da sã hermenêutica, e os leitores não haveriam se emaranhado em tantas diferentes e contraditórias interpretações.
Entretanto, ainda há palavras e orações, cuja exata significação é mais ou menos duvidosa e incerta, de modo que se torna difícil determinar entre diferentes sentidos que lhes foram impostos. As razões disso são bem delineadas por Cresswell, em seu prefácio a The Book o f Psalms With Nots (pp. 14-16), e a passagem tem assim servido de apoio a uma série de variadas interpretações, das quais Calvino trata neste Comentário, e que citaremos por inteiro, não obstante serem longas.
“O hebraico não é só uma língua morta , mas a mais antiga de todas as línguas mortas; ela é, contudo, a língua de um povo que viveu sob instituições e num clima muito diferente daqueles de nosso próprio país, de modo que os idiomas que lhe afluem não podem ser senão estranhos aos nossos hábitos de pensamento e de nosso modo de falar; nem temos algum outro livro senão a própria Bíblia como fonte de pesquisa caso queiramos ilustrar essas peculiaridades fraseológicas. A pobreza de palavras no conteúdo dessa língua antiga é tal que um mesmo termo hebraico mui amiúde contém uma imensa variedade de significações, cuja conexão umas com as outras nem sempre pode ser satisfatoriamente determinada. E ainda há palavras, cada uma das quais não se encontra senão uma só vez em todo o volume da Escritura, de modo que seus significados não podem ser conjecturados, nem mesmo de sua afinidade com outras palavras, nem do teor da passagem na qual ocorrem.
Entre os muitos hebraísmos gramaticais que encontramos em O Livro dos Salmos encontramos os seguintes. Os tempos futuro e passado são adicionados quase que indiscriminadamente, um pelo outro, e o primeiro deles é adicionado ocasionalmente para designar não aquilo que ocorrerá, mas aquilo que está acostumado a ocorrer. O infinitivo é adicionado para muitos outros modos e também para substantivos mesmo no caso acusativo. O tempo futuro é às vezes expresso por um verbo no modo imperativo. Dois substantivos são adicionados em vez de um substantivo e um adjetivo; um substantivo é freqüentemente usado adverbialmente; e o mesmo substantivo repetido denota multidão. Quando a partícula negativa ocorre no primeiro membro da oração, às vezes tem ser imperfeitos, comparados com aqueles que ora possuímos, é ainda admirável que ele tenha tido pleno êxito em trazer a lume seu genuíno significado. Isso se deveu principalmente ao vigor e acuidade do intelecto, combinados com um raciocínio sadio e discriminativo. Tais, deveras, eram as qualidades mentais por meio das quais ele peculiarmente se distinguia. Não nos deparamos com nenhum lampejo de poesia, nenhuma chispa de fantasia, dando evidência de uma poderosa imaginação.
As passagens eloqüentes que ocorrem são a eloqüência da razão, não as eclosões da imaginação. Sua força de pensamento, porém, o vigor e perspicácia de seu intelecto, o extraordinário poder de seu raciocínio, atrai nossa espontânea admiração.
Desde que este Comentário foi pela primeira vez publicado, um grande volume de traduções dos Salmos, bem como numerosas obras críticas e explanatórias sobre eles, têm vindo a lume, enquanto que um grande contingente de novas luzes se tem projetado sobre muitas passagens proveniente de pesquisas filológicas mais extensas, de atenção para o paralelismo da poesia hebraica4 e de informações mais completas que hoje possuímos, pelas descobertas de excursionistas modernos, da história natural, dos costumes e dos hábitos orientais, aos quais se faz freqüente alusão nos Salmos. Mas tal é a acuidade do raciocínio e sucesso em descobrir a mente do Espírito que distinguem essas preleções, que as mesmas jamais serão excedidas por qualquer comentário moderno sobre o mesmo tema. E ainda que já se passou quase três séculos desde que foram escritas, há poucas obras específicas sobre os Salmos, das quais o estudante da presente época, que deseje criticamente examinar, extrairá uma assistência mais importante.
Nem é a imparcialidade e a integridade de Calvino, como intérprete, menos evidentes nesta obra que seu raciocínio. Sendo seu primeiro e principal objetivo descobrir a intenção do Espírito Santo, ele se chegou à Palavra de Deus não com o propósito de encontrar argumentos para estabelecer algumas opiniões ou teorias preconcebidas, mas no humilde caráter de um aprendiz, e jamais o encontramos pervertendo ou torcendo uma passagem em apoio mesmo daquelas doutrinas que mais ardentemente afagou. Longe de fazer isso, ele mui amiúde evita um texto que já fora explicado por outros comentaristas como prova de alguma doutrina importante, e o qual ele teria considerado pelo mesmo prisma, não fosse sua aversão em impor às Escrituras uma construção forçada, e sua rígida determinação em aderir aos princípios da justa e lógica interpretação.
Por exemplo, as palavras do Salmo 2.7: “Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei”, foram citadas por Agostinho e muitos outros eminentes doutores como prova da eterna geração do Filho de Deus. Mas como Paulo, em Atos 13.33, as explica como que recebendo seu cumprimento na ressurreição de Cristo, Calvino as descarta da categoria de provas que apoiam a doutrina de uma geração eterna, embora ele defenda a doutrina,5 e as considera como a referir-se meramente à manifestação provinda da Filiação de Cristo através de sua ressurreição dentre os mortos.6 Uma vez mais, o Salmo 8.5: “Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste”, tem sido explicado com freqüência como expressão profética da humilhação temporária e subseqüente exaltação de Cristo, opinião esta apoiada por razões que longe estão de ser desprezíveis; mas Calvino, julgando pelo prisma do escopo da passagem, a considera exclusivamente em referência ao homem, e enquanto Paulo a cita em Hebreus 2.7, e a aplica a Cristo, ele lha aplica apenas à 5 Que Calvino defendeu essa doutrina faz-se evidente à luz de seu comentário sobre Atos 13.33, onde, depois de afirmar que as palavras do Salmo 2, acima citado, se referem à inequívoca evidência pela qual o Pai proveu que Cristo fosse seu Filho ao ressuscitá-lo dos mortos, observa ele: “Isso, contudo, não é uma objeção à doutrina de que Cristo, a Palavra pessoal, foi gerado pelo Pai eterno antes que houvesse tempo; mas essa geração é um mistério insondável.”
Com respeito aos que argumentam, à luz dessa passagem, em apoio dessa doutrina, ele diz: “Sei que Agostinho, e a maioria dos comentaristas, se agradam mais com a sutil especulação de que ‘hoje’ denota um ato contínuo ou um ato eterno. Mas quando o próprio Espírito de Deus é seu próprio intérprete, e explica pelos lábios de Paulo o que foi dito por Davi, não mais somos autorizados a inventar e a dar às palavras qualquer outro significado.”
guisa de acomodação.7 Da mesma forma, as palavras no Salmo 33.6: “Os céus por sua palavra se fizeram, e pelo sopro [espírito] de sua boca, o exército deles”, têm sido consideradas por muitos judiciosos doutores como uma evidência da Trindade – ‘Jehovah’, denotando o Pai; a palavra de Jehovah’, o Filho; e o sopro [espírito] da boca de Jehovah’, o Espírito Santo.
Enquanto Calvino, porém, admite que a ‘palavra de Jehovah’ significa a Eterna Palavra, o Unigénito Filho de Deus, todavia raciocina que o sentido da frase: “o sopro [espírito] da boca de Jehovah”, que ordinariamente se ostenta na Escritura, não significa a terceira Pessoa da adorável Trindade, e, sim, simplesmente sermo, expressão verbal, ainda que não houvesse uma verdade que defendesse com mais bravura e considerasse mais como sendo essencial ao sistema cristão do que as doutrinas da Trindade e da Deidade do Espírito Santo. “E bem possível”, diz Tholuck, “que, ao seguir essa direção do raciocínio, ele tenha desnecessariamente sacrificado este ou algum outro texto prova; até que o princípio do qual ele provinha fosse em todos os casos aprovado.”
Este Comentário, de igual forma, produz características bem patentes da erudição de seu autor. Sua íntima familiaridade com a língua hebraica, cujo conhecimento é de imensa importância na interpretação das Escrituras do Velho Testamento, se faz evidente por toda parte. Padre Simão, a quem a acrimônia da controvérsia o levou exacerbadamente a depreciar e a mencionar de forma injusta aqueles que dele diferiam, assevera, aliás, que Calvino era tão ignorante da língua hebraica, que nada conhecia além das letras. No entanto, basta-nos apenas examinar seu comentário sobre os Salmos, para não falar de seus comentários sobre outras partes do Velho Testamento, para nos convencermos de que seu conhecimento da língua hebraica era acurado e minucioso, levando em conta a época em que ele viveu. Ele às vezes se envolve num exame crítico do texto original, manifestando à luz de suas observações filológicas, ainda que breves, uma inusitada familiaridade com aquele idioma; chegando, em suas interpretações, aos mesmos resultados que uma profunda exegese e uma atenção mais minuciosa, filologicamente, têm conduzido os críticos modernos. Com freqüência, quando ele, expressamente, não critica o texto hebraico, ou faz suas afirmações na forma de crítica, o pesquisador do hebraico perceberá que suas observações se fundam numa detida atenção ao estrito significado das palavras hebraicas, e que freqüentemente expressa seu preciso significado com muito energia, com sucesso e com delicadeza de expressão.
Nem é lógico esperar, à luz deste comentário, que Calvino houvesse percorrido todo o campo do conhecimento, até onde poderia o mesmo ser explorado em seus dias. Do antigo e moderno sistemas de filosofia, de história civil e eclesiástica, tanto quanto dos clássicos gregos e romanos, ele extrai matérias e mostra como pôde ele empregar, com exemplo e força, e no entanto sem a mínima ostentação ou pedantismo, sua variada aquisição para ilustrar a sacra verdade.
Em suma, esta obra está permeada de profunda piedade e ampla experiência cristã. Todo o seu matiz indica ser ela o fruto de uma alma que sentia as profundas operações da piedade; de uma alma na qual o amor de Deus era supremo, que buscava seu descanso e felicidade nele só, que reconhecia sua mão e providência em cada evento, que confiava nele em toda e qualquer circunstância, que o fitava como a um Pai e um Amigo que dispensa todas as bênçãos e que, em todas as suas faculdades, era consagrada com total devotamento a Cristo e ao evangelho. Por toda parte, também, ele trata da grande experiência religiosa do homem. Quer o autor comente os lamentosos cânticos nos quais a tristeza derrama sua amargura, ou os triunfantes e jubilosos cânticos nos quais as perfeições e a providência de Deus, os livramentos individuais e nacionais são celebrados; quer fale ele dos exercícios religiosos de Davi, ou das provações de sua vida, ou de seus conflitos íntimos, percebemos uma mente que experimentara por si própria muito daquilo que ilustrava. Tal experiência qualificava eminentemente a Calvino para tornar-se intérprete dos Salmos. Colocado, às vezes, em circunstâncias similares àquelas de Davi, como ele mesmo graficamente descreve em seu Prefácio, se viu assim capacitado a conceber acuradamente o fio de pensamento de Davi, a ver coisas como se fosse com seus próprios olhos, a traçar a compleição e caráter de seus sentimentos, e dessa forma a retratá-los de uma maneira tão justa e natural, que nos deixa quase convencidos a pensar, ao perscrutar a descrição deles, que fossem descritos pelo próprio Davi.
Esta obra foi traduzida do original em latim e conferida com a versão francesa, a qual foi escrita pelo próprio autor. A edição francesa que tem sido usada, e a qual foi indubitavelmente a última corrigida sob os cuidados oculares do autor, foi impressa em 1563 e é descrita no frontispício como “tão cuidadosamente revisada, e tão fielmente comparada com a versão latina, que pode ser considerada uma nova tradução” .
Enquanto o tradutor fazia da versão latina seu livro-texto, ele fez uma confrontação muitíssimo cuidadosa com a versão francesa, pela qual se viu imensamente corroborado para imprimir uma mais clara e mais plena representação do significado de seu autor. Tendo a versão francesa vindo a lume depois da versão latina, e sendo ela escrita na língua nativa de Calvino, na qual se esperava fosse escrita com mais facilidade do que numa língua morta, admitido, não obstante, que suas obras em latim visam à pureza de seu estilo clássico, ela contém numerosas expansões do pensamento e expressão, pelas quais ele remove as obscuridades ocasionais da versão latina, que se acha escrita num estilo mais comprimido e conciso. Às vezes, ainda que não com freqüência, nos deparamos com uma sentença completa, na versão francesa, que não será encontrada na latina; mas há casos que ocorrem com freqüência em que, ao inserir na versão francesa uma cláusula no início, no meio ou no fim de uma oração, a qual não ocorre no latim, ele explica o que é obscuro na última versão, ou introduz um novo pensamento ou expressa seu significado com mais clareza e numa linguagem mais copiosa. O tradutor introduziu essas cláusulas adicionais no texto, em seu devido lugar, e as indicou com um adendo ao original francês na forma de notas de rodapé. Ele, entretanto, às vezes traduz da versão francesa onde parece mais completa e mais perspicaz do que o latim, sem o indicar em notas de rodapé. Em uns poucos exemplos, onde a expressão nas duas versões é diferente, ele deu a expressão de ambas, retendo no texto a da versão latina e transferindo a da versão francesa para o rodapé.
Com respeito ao princípio sobre o qual ele procedeu na tarefa de traduzir, é bastante dizer que se esforçou por expressar o significado do autor na linguagem tão fiel ao original quanto lhe foi possível, evitando ser demasiadamente literal, por um lado, e demasiadamente liberal, por outro; esse é, em seu entendimento, o método pelo qual um tradutor pode melhor fielmente representar ao leitor o sentido, bem como o estilo e hábito de seu autor.
Foi dado à própria versão de Calvino, do Texto Sacro, em preferência ao de nossa Bíblia em língua inglesa, quando isso era necessário ao claro entendimento de suas ilustrações. As duas versões, entretanto, contêm boa dose de semelhança uma com a outra. Às vezes a versão inglesa é uma acurada tradução de Calvino; outras vezes [se assemelham] às variantes marginais que se encontram em algumas de nossas Bíblias em inglês.
Entretanto, ele não poucas vezes difere de ambas; e, em alguns exemplos, ainda que não em todos, onde ele difere sua tradução parece ser superior em exatidão e põe o sentimento do original numa claridade mais plena e com maior efeito do que se faz em nossa versão inglesa. As citações bíblicas que ele faz têm conferido com as palavras de nossa Bíblia inglesa, exceto naqueles casos em que seu argumento exigia que sua própria tradução da passagem fosse conservada.
Esta obra foi traduzida para o inglês alguns anos após seu primeiro aparecimento, através de Arthur Golding, cuja tradução foi publicada em Londres, em 1571. Arthur Golding, membro de ilustre família e natural de Londres, foi um dos mais renomados tradutores dos clássicos romanos, na época da Rainha Elizabeth, quando a tradução dessas valiosas obras da antigüidade, para o idioma inglês, envolvia todo o seu labor literário. Ele traduziu a História de Justino, os Comentários de César, a Metamorfose de Ovídio, os Benefícios de Sêneca e outros autores clássicos; bem como diversas obras modernas, tanto em francês como em latim, entre as quais está uma série dos escritos de Calvino, além dos Salmos. Tudo indica que sua única obra tenha sido “Discurso sobre o terremoto que ocorreu no Reino da Inglaterra e outros lugares da Cristandade, a seis de abril de 1580”, publicado em seis volumes. “E uma pena”, diz Warton, “que tenha ele dado tanto de seu tempo à tradução.”8 Golding foi, sem qualquer sombra de dúvida, um bom erudito clássico e bem familiarizado com o estilo de Calvino; mas, como sua tradução foi realizada há quase três séculos atrás, toda ela está saturada de palavras e frases que se tornaram antiquadas e obsoletas, à luz da grande transformação que sofreu a língua inglesa desde aquele período. Sendo, por essa conta, freqüentemente muito obscura, às vezes ininteligível, ela fracassa em oferecer uma justa representação, a um leitor de língua inglesa do presente tempo, da obra de Calvino, e o leva a formar menos estima favorável de seu valor do que é devido ao seu mais elevado mérito. Além disso, tudo indica que Golding não conheceu a versão francesa, a qual oferece a um tradutor infindável assistência na fiel apresentação do pensamento de Calvino.
No que respeita às notas que se encontram apensas a esta tradução, elas pretendem capacitar o leitor a entender com mais clareza o significado das observações filológicas e as críticas de Calvino quando são obscuras, à luz da sucintez com que são expressas; ou com o fim de exibir os méritos de Calvino como comentarista, demonstrando quão freqüentemente suas interpretações são adotadas e apoiadas pelos mais eminentes críticos bíblicos; ou para ilustrar o Texto Sacro, demonstrando o significado preciso dos termos hebraicos ou explicando alguma porção da história natural ou algum costume ou hábito oriental ao qual haja alguma alusão. As versões antigas oferecem importante assistência na explicação de passagens difíceis e sua tradução de textos particulares tem sido ocasionalmente apresentada quando tal coisa contribui para a elucidação dos mesmos, ou lança luz sobre as observações de Calvino.
Dessas versões, a Septuaginta, a Vulgata e a de Jerônimo parecem ser as únicas que ele consultou, e à primeira ele faz freqüentes referências.
Como as traduções de A Sociedade João Calvino se destinam a toda a comunidade cristã, tem sido considerado fora de ordem entrar em questões teológicas, sobre as quais existe diferença de opinião entre as diversas denominações da comunidade cristã. Ao elaborar estas notas, o editor repetidas vezes comparou a tradução que Calvino fez do Texto Sacro com o original hebraico, bem como com a Septuaginta, com a Vulgata e com a versão de Jerônimo. Ele consultou também um considerável número de obras críticas sobre os Salmos escritas por alguns dos mais eminentes eruditos bíblicos que têm escrito sobre este livro, quer como um empreendimento separado, quer em conjunto com outros livros da Escritura. Ele faz livre uso das ricas histórias fornecidas pela erudição; e no decurso da obra ele finca cuidadosamente as balizas de suas fontes autorizadas quando tal coisa fornece maior peso às suas afirmações. Muitos dos autores citados foram homens de proeminente erudição, tirocínio e piedade, possuindo profunda familiaridade com a língua hebraica, bem como com devotados anos de laboriosos estudos no campo da investigação do significado deste Sacro Livro; e é maravilhoso descobrir quão estritamente os resultados das investigações de Calvino, mesmo no tocante às passagens mais difíceis, se harmonizam com os resultados a que chegaram os críticos modernos, guiados pela exatidão dos princípios hermenêuticos. Isso às vezes tem forçado a atenção do editor, e quanto mais ele comparava as críticas e as interpretações de Calvino com os labores de tão preclaros mestres, mais sublimemente despertava sua admiração pelo talento, penetração, erudição e acume crítico desse grande comentarista. Aliás, não umas poucas, senão as mais belas interpretações que serão encontradas em comentários e obras críticas, foram antes apresentadas por Calvino, ainda que seja ignorada sua fonte de origem. Que fique expresso indelevelmente aqui que o exame da filologia do Sacro Texto, bem como as obras críticas sobre o tema, levaram o editor a observar quão estreitamente Calvino amiúde adere, em suas interpretações, à autoridade do original hebraico, o que o capacitou em muitos casos, no decurso da tradução, a apresentar o significado de seu autor mais corretamente do que de outra forma teria feito, bem como a evitar equívocos nos quais Golding com freqüência caiu, evidentemente por não estar familiarizado com a filologia da passagem, ou a crítica à qual Calvino brevemente se reporta ou se refere, e a qual é difícil ao leitor claramente entender, a menos que a encontre expressa de forma mais plena em alguma outra obra crítica.
Resta apenas acrescentar que o último volume conterá copioso índice das principais matérias contidas no Comentário e Notas das passagens da Escritura, mais ou menos ilustrado, bem como das palavras hebraicas referidas ou explicadas.
Edinburgh, junho de 1845.
James Anderson

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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