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Doutrina

SATISFAÇÃO DE CRISTO – PINK

A Satisfação de Cristo
Estudos na Expiação por Arthur W. Pink

CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO

A morte de Cristo, o Filho de Deus encarnado, é o evento mais notável em toda história. Sua singularidade foi demonstrada em diversas formas. Séculos antes que acontecesse, foi predita com uma surpreendente riqueza de detalhes, por aqueles homens a quem Deus levantou em Israel para guiar os seus pensamentos e esperanças a uma revelação mais completa e mais gloriosa de Si mesmo. Os profetas de Jeová descreveram o Messias prometido, não somente como uma pessoa de alta dignidade e como alguém que executaria milagres abençoados e maravilhosos, mas também como alguém que deveria ser “desprezado e rejeitado entre os homens”, e cujas lutas e angústias deveriam ser terminadas por uma morte de vergonha e violência. Adicionalmente, eles afirmaram que Ele deveria morrer, não somente sob sentença e execução humanas, mas que “…ao Senhor agradou moê-lo, fazendo enfermar” [Isaías 53:10], sim, que Jeová clamaria, “Ó espada, desperta-te contra o Meu Pastor, e contra o homem que é Meu Companheiro, diz o Senhor dos Exércitos. Fere ao Pastor…” [Zacarias 13:7].

O fenômeno sobrenatural que acompanhou a morte de Cristo distingue-a claramente de todas outras mortes. O obscurecimento do sol ao meio-dia sem qualquer causa natural, o terremoto que dividiu rochas ao meio e abriu os túmulos, e o partir do véu do templo desde o topo até a barra, proclamaram que O que estava pendurado na Cruz não era nenhum sofredor ordinário.

Da mesma forma, aquilo que seguiu-se à morte de Cristo é digno de nota. Três dias após o Seu corpo haver sido colocado na tumba de José e o sepulcro haver sido seguramente selado, Ele, pelo Seu próprio poder [João 2:19; 10:18], quebrou as amarras da morte e ergueu-Se triunfante do túmulo, e agora vive para todo o sempre, tendo em Suas mãos as chaves da morte e do hades. Quarenta dias passados, após ter aparecido vez após vez, em forma tangível perante Seus amigos, Ele ascendeu ao céu dentre o meio dos Seus discípulos. Dez dias depois, Ele derramou o Espírito Santo, pelo qual eles foram capacitados a anunciar aos homens de todas nações em suas respectivas línguas, as maravilhas da Sua morte e ressurreição.

Como alguém já disse, “O efeito não foi menos surpreendente do que os meios empregados para alcançá-lo. A atenção de ambos, Judeus e Gentios foi estimulada; multidões foram persuadidas a reconhecê-Lo como o Filho de Deus, e o Messias; e uma igreja foi formada a qual, não obstante poderosa oposição e perseguição cruel, subsiste até a presente hora. A morte de Cristo foi o grande assunto sobre o qual os apóstolos foram comandados a pregar, embora fosse sabido de antemão que seria ofensivo a todas classes de homens; e eles na realidade fizeram de tal assunto o tema escolhido dos seus discursos. “Porque nada me propus” — diz Paulo — “saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e Este crucificado.” [I Coríntios 2:2]. . . No Novo Testamento, a Sua morte é representada como um evento da maior importância, como um fato no qual se repousa o Cristianismo, como a única base de esperança para o culpado, como a única fonte de paz e consolação, como, dentre todos motivos, o mais poderoso para motivar-nos a mortificar o pecado e nos devotarmos ao serviço de Deus.” {Dr. John Dick}.

Não somente foi a morte e ressurreição de Cristo o tema central da pregação apostólica e o tema principal dos seus escritos, mas também é lembrada e celebrada no céu: o tema dos cânticos dos redimidos em glória é a pessoa e o sangue do Salvador: “Que com grande voz diziam: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças.” [Apocalipse 5:12]. A expiação feita pelo Filho de Deus, é o começo da esperança do pecador resgatado, e será o tema da sua exaltação, quando ele depositar a sua coroa perante o trono, entoando o cântico de Moisés e do Cordeiro.” {James Haldane}

Agora, é evidente de todos estes fatos, que existe algo peculiar na morte de Cristo, alguma coisa que sem margem a erros a separa de todas outras mortes, e portanto a faz digna da nossa atenção e do nosso estudo mais diligentes, fervorosos e reverentes. Se nos faz necessário, por tudo o que é sério, solene e salutar, termos justa e correta concepções da morte de Cristo; pela qual não significa meramente que devamos saber quando ocorreu, e com que circunstâncias foi acompanhada, mas que devamos o mais seriamente buscar descobrir qual o propósito de o Salvador submeter-Se a morrer na Cruz, por que foi que Jeová O afligiu, e o que foi exatamente conseguido com isso.

Mas ao tentamos abordar assunto tão importante, tão maravilhoso, e todavia tão indizivelmente solene, lembremos-nos que isso requer um coração pleno de temor, tanto quanto a percepção da nossa mais absoluta falta de dignidade. Tocar a própria borda das coisas santas de Deus deveria inspirar temor reverente, mas considerar os segredos mais profundos do Seu pacto, contemplar os eternos conselhos da Trindade divina, esforçar-se por adentrar ao significado daquela transação única no Calvário, a qual foi velada em segredo, requer um grau especial de graça, de temor e humildade, de ensinamento celestial e a humilde bravura da fé. Nossa esperança fervorosa é que Aquele que escolheu nulidades {I Coríntios 1:28} para promover a Sua glória, possa condescender-nos agora uma medida especial da direção do Espírito Santo, e dignar-Se abençoar este livro não para poucos daqueles a quem Deus amou com um amor eterno.

O que fez Cristo, de forma a assegurar a salvação de pecadores? Qual o significado de Sua morte, da qual depende a salvação? A princípio podemos ser claramente alertados das conseqüências de submeter a questão à razão humana ou de trazer a sabedoria do mundo ao questionamento. “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.” [I Co 1:18]. Ao que o apóstolo acrescentou, “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus.” [vv 23,24]. À vista destes testemunhos, era assunto fácil para as passadas gerações dos santos, antecipar o que seria o resultado inevitável quando a sabedoria do mundo, completamente disposta contra o Evangelho que Paulo pregava, fosse constituída como intérprete daquele Evangelho, ou presumisse acomodá-lo aos seus princípios mundanos.

Sessenta anos atrás, Sr. James Inglis, escrevendo em “The Waymarks of the Wilderness” na obra “The Atonement”, disse, “Há uma questão que fundamenta toda a controvérsia teológica: e à medida em que abordamos a crise, tal questão mais e mais vem à tona. A questão nisso tudo realmente é: se Deus ou o homem é que deve ser o supremo; se a glória de Deus ou o suposto interesse do homem é o centro ao redor do qual tudo o mais deve orbitar; se a vontade de Deus deve ser suprema e inquestionável, ou se cada expressão da mesma deve ser trazida ao tribunal da razão humana; e se tudo na teologia, tanto quanto na ética, deve ser julgado por sua racionalidade e sua aparente utilidade ao homem. Aqueles que clamam serem os mais avançados teólogos e moralistas, elevam a natureza humana ao posto de árbitro supremo da verdade e do direito, e buscam aplicar suas máximas favoritas referentes aos governos terrenos também ao governo Divino: que este somente existe para o bem — já que todavia eles dificilmente têm a audácia de dizer pelo consentimento — dos governados.

“Essa questão fundamental da supremacia Divina ou humana sustenta os pontos de vista adotados pelos homens, da inspiração e da autoridade da Escritura. De um lado a questão é simplesmente, O que está escrito? Do outro lado é reivindicado um direito de decidir o que deveria estar escrito — exatamente a presunção que Satã ensinou aos nossos primeiros pais com relação a o que Deus havia dito. Quando esse direito reivindicado é exercido, pouco da revelação é deixado intacto. Um dos primeiros pontos no qual a razão arrogante entra em conflito com o que está escrito, é a condição natural do homem. Nem precisamos ficar surpresos se isso fosse de encontro à avaliação Divina do homem caído, e contra a sentença sob a qual ele se encontra pela natureza de filho da ira, morto em transgressões e pecados, vil, corrompido, impotente e perdido em si mesmo. É somente o Espírito de Deus que pode convencer um homem pecador no sentido Bíblico; e enquanto o apelo é para a razão humana, a visão Bíblica da condição do homem deve ser rejeitada. Embora não se possa negar que os fatos no caso, sejam na história de um indivíduo ou da raça humana, mui dolorosamente corroboram a visão Bíblica, e embora as mais humilhantes descrições da depravação humana na Palavra de Seus pareçam ser somente história condensada, existe uma facilidade maravilhosa de compensar estas tristes realidades por uma excelência ideal, e acobertá-las por delineações apaixonadas das possibilidades do progresso humano. É impressionante o poder do auto engano e da bajulação de si mesmo, no coração do homem. Os sentimentos admiráveis que estão elegantemente expressos nos escritos de homens cujas vidas estavam muito longe de servir-lhes de exemplo, servem para acobertar a depravação geral e profunda, da época na qual eles viveram. Seus admiradores modernos se avaliam mais pela admiração desses sentimentos virtuosos, do que pelo que eles mesmos sabem estar na vida e no caráter. Nunca este poder da auto-ilusão e da auto lisonja é mais notavelmente ilustrado do que quando adentra à esfera do Cristianismo, substituindo o Sermão da Montanha pelos discursos de moralistas pagãos, e avaliando todas as graças do homem renovado, senão as perfeições vivas do Verbo feito carne, entre as possibilidades de aperfeiçoamento humano. Que o homem está caído, não pode ser negado; mas somos ensinados que o mal é acidental, não inerente, e pode ser rastreado à degeneração física, à influência de um mundo desordenado, de maus exemplos, de educação falha. Enquanto dormente e não desenvolvida na alma, há nobreza inerente, o princípio de toda excelência, o qual somente precisa despertado e cultivado, até expandir-se numa perfeição que o transforme na herança dos santos na luz.

“Tais pontos de vista da condição natural do homem levaram à uma correspondente modificação da doutrina Bíblica da regeneração , a qual, de acordo com os nossos teólogos liberais, nada mais é senão o despertar da excelência dormente do homem, dando novo alvo aos poderes e às afeições mal direcionadas, e é o primeiro passo no desenvolvimento de sua nobreza inerente. O testemunho da Escritura quanto à ruína absoluta do homem, e a necessidade de nascer de novo, nos termos singularmente enfáticos usados com referência tanto a uma como à outra, podem parecer apresentar objeção insuperável ao esquema de auto-exaltação; mas uma evasão da objeção já tem sido providenciada, numa teoria de inspiração, que permite que tudo nas Escrituras que é irreconciliável com sua teologia, seja explicado como o exagero de entusiastas ou o imaginário de audaciosos profetas do Oriente.

“Em tal sistema de doutrina a missão de Cristo não pode ter lugar, exceto enquanto provê para este desenvolvimento moral, ou o auxilia. Pois, antes de tudo, na ousada exaltação do homem, o caráter revelado de Deus é distorcido; Suas perfeições são submetidas como tributárias ao suposto interesse de Suas criaturas; Sua justiça, santidade e verdade são convertidas em benevolência; de modo a que não haja demandas por justiça a serem satisfeitas, nenhuma santidade e verdade a serem vindicadas, e pecado deva somente ser reconhecido como pecado enquanto possa interferir com o bem estar da criatura. A humilhação, sofrimento e morte do Filho de Deus não forneceram senão um espetáculo impressionante, através do qual os efeitos diabólicos de um perdão incondicional do pecado possam ser evitados, e pelo qual o coração do pecador possa se enternecer e ser acalmado. A vida e a morte de Cristo, em resumo, são as influências morais pelas quais a excelência dormente da alma é desperta, o amor a Deus e ao homem engendrado, e pelo qual o errante seja ganho no caminho da virtude. A ‘influência’ do Espírito Santo, ao contrário da Sua agência pessoal , agora entra em cena para efetivar a verdade e para auxiliar no desenvolvimento moral, tanto quanto no mundo natural a influência dos raios solares transforma a desolação do inverno no frescor da primavera.”

Quando nos lembramos que a Expiação é o assunto mais importante que pode ocupar as mentes tanto de homens como de anjos; que ela não somente assegura a felicidade eterna de todos os eleitos de Deus, mas também dá ao universo a visão mais completa das perfeições do Criador; que nela estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, enquanto que por ela são revelados os arquivos inescrutáveis de Cristo; que através da própria Igreja que foi comprada pela Expiação, seja a multiforme sabedoria de Deus conhecida aos principados e potestades nos céus {Efésios 3:10} — então que supremo momento deve ser poder compreender este fato da maneira correta! Mas como caído compreenderá estas verdades, às quais o seu coração depravado de tal forma se opõe? Toda a força do intelecto é menos que nada quando intenta, em sua própria força, compreender as profundas coisas de Deus. Uma vez que o homem pode receber coisa alguma, a não ser que lhe seja dada do céu {João 3:27}, muito mais é um esclarecimento especial do Espírito Santo, necessário para ele adentrar neste mistério mais elevado.

“Grande é o mistério da piedade” {I Timóteo 3:16}. Maravilhosa além de toda concepção finita é aquela transação que foi consumada no Gólgota. Ali vemos o Príncipe da Vida morrendo. Ali contemplamos o Senhor da Glória feito um espetáculo de vergonha indizível. Ali testemunhamos o Autor de bênção feito maldição para os vermes da terra. É o mistério dos mistérios que Ele quem ninguém menos que Emanuel, devesse Se inclinar tão baixo para juntar a majestade infinita da Deidade com o mais baixo degrau de humilhação que era possível acessar. Ele não poderia ter descido mais baixo e ser Deus. Bem disse o Puritano Sibbes, “Deus, para mostrar o Seu amor para conosco, mostrou-Se a Si mesmo Deus nisto: que Ele podia ser Deus e ir tão baixo quando morrer.” (Volume 5, página 327).

A que fonte nós podemos então apelar por luz, por entendimento, por uma explicação e interpretação da Cruz? Racionalidade humana é fútil, especulação é profana, de nada valem as opiniões de homens. Assim, somos absolutamente feitos calar quanto a o que aprouve a Deus revelar a nós em Sua Palavra. Se for verdade que nós podemos saber nada sobre a origem da criação original salvo o que as Sagradas Escrituras nos revelam — as conjecturas fogosas e conflitantes da ciência “falsamente chamada ciência” {I Timóteo 6:20} somente servindo para tornar isto mais evidente — então muito mais somos nós inteiramente dependentes dos ensinamentos da Santa Lei, relacionados à fundação na qual encontra-se a nova criação. Em sua esplêndida obra “The Atonement” (1867) — { “A Expiação – n.t.}, o Dr. A. A. Hodge corretamente afirma, “Eu insisto em que, como o Evangelho é inteiramente um assunto de revelação Divina, a resposta à questão, ‘O que Cristo fez na terra de forma a reconciliar-nos com Deus?’ seja buscada exclusivamente numa apresentação justa e completa de de todos os fatos nas Escrituras, que ensinam sobre o tema. De uma pesquisa em toda matéria revelada neste assunto, o que, no julgamento de uma mente não prejudicada por teorias, pretenderam os autores sacros levar-nos a crer? O resultado de tal exame é, somente, desde que não alterado pela filosofia ou por analogias seculares, insistimos, a verdadeira obra redentora de Cristo.”

Bem disse este profundamente instruído servo de Deus ao dizer, “não alterado por analogias seculares”. A verdade de Deus tem sido brutalmente distorcida, a honra de Cristo gravemente manchada, e o povo de Deus (que foram preguiçosos demais para diligentemente estudarem as Escrituras por si mesmos) têm frequentemente sido iludidos pelos esforços superficiais de pregadores irreverentes, que buscavam “ilustrações” em analogias fantasiosas nas relações humanas. Por exemplo: o caso de um criminoso é citado, no caráter de quem não há nenhum traço de salvação, que é condenado à morte por seus graves crimes. Quando ele se encontra já no cadafalso, a Rainha da Inglaterra então supostamente manda seu filho e herdeiro para morrer no lugar do vilão, de modo que ele possa novamente ser integrado à sociedade. Todavia, esta suposição revoltante e monstruosa foi oferecida no século passado, como uma ilustração de João 3:16, no discurso de um pregador popular, de grande reputação.

“O plano de redenção, o ofício da nossa Garantia, e a satisfação por Ele rendida aos clamores de justiça contra nós, têm nenhum paralelo nas relações de homens uns para com os outros. Nós somos elevados acima da esfera das mais altas relações de seres criados até os augustos conselhos do Deus eterno e independente. Traremos pois nossa própria linha para medi-los? Estamos na presença do Pai, Filho e Espírito Santo; um em perfeição, vontade e propósito. Se a justiça do Pai demanda um sacrifício, o amor do Pai o provê. Mas o amor do Filho corre paralelo com o amor do Pai; e não somente na missão geral, mas em cada ato da mesma, vemos o concerto livre e completo do Filho. Em toda a obra nós vemos o amor do Pai tão claramente mostrado como o amor do Filho; e novamente, vemos o amor do Filho para com a justiça e o ódio para com a iniqüidade tão claramente dispostos como o amor e o ódio do Pai, naquela obra da qual seria impossível dizer se é mais maravilhosa a manifestação do amor ou a da justiça. Ao iniciar a Sua missão, ouvimos o Filho dizer com amoroso deleite, ‘Aqui estou, para fazer ó Deus, a Tua vontade’ {Hebreus 10:9}; e quando Ele contempla a conclusão da obra, ouvimo-LO dizer, ‘ Por isso o Pai me ama, porque dou aminha vida para tornar a tomá-la.’ {João 10:17}. Eles são um na gloriosa manifestação de perfeições em comum, e na alegria de todos os benditos resultados. O Filho é glorificado por tudo o que é para a glória do Pai. E ao mesmo tempo, na consumação deste plano, a sabedoria de Deus — Pai, Filho e Espírito Santo — será demonstrada, como não poderia ter sido de outra forma, aos principados e potestades no céu, o homem decaído será, em Cristo, exaltado às alturas de glória e felicidade, de outra forma inatingível.

Mas enquanto nenhum paralelo à grande transação da Expiação, ou às relações do Pai, Filho e Espírito Santo quanto à sua consumação, possa ser encontrado em qualquer das relações de meras criaturas umas para com as outras, Deus tem graciosamente adotado uma série de tipos, históricos e cerimoniais, para a iluminação do Seu grande plano, e especialmente para a ilustração dos vários aspectos dos ofícios e da obra de Cristo. Nestes, a sabedoria divina é mostrada de forma acentuada. Por intermédio do sistema típico, Deus esteve educando os homens para as “boas coisas por vir”, e preparando a linguagem humana para ser um canal apropriado de comunicação para a revelação da Sua graça em Cristo. Ao introduzir o sistema Levítico, Deus mostrou-nos o sentido no qual palavras (no Novo Testamento) tais como sacrifício, sacerdócio, propiciação e redenção, devem ser compreendidas. Nós não podemos aqui dar uma exposição destes tipos, o nosso propósito ao referirmos-nos a eles aqui é somente chamar a atenção para o fato de que eles provêm a chave necessária para destrancar este mistério Neotestamentário.

Os pontos que são proeminentemente excepcionais nos sacrifícios típicos do Velho Testamento é, primeiro, que eles eram oferecidos a Deus, tendo a Ele como seu objeto e fim, ao invés de serem demonstrações exibicionistas para impressionar a homens. Segundo, que eles eram expiatórios, reparadores de pecado, limpadores de iniqüidades. Terceiro, que assim como os pecados do oferecedor dos sacrifícios eram imputados à vítima, assim também a excelência da vítima era atribuída ao oferecedor. Quarto, que através destas oferendas, algo mais do que uma expiação era alcançado — uma satisfação era oferecida à santidade e à justiça de Deus. Isto nos leva a chamar a atenção ao título deste livro, e aqui não podemos fazer melhor do que dar a seguir uma sinopse dos comentários hábeis do Dr. Hodge neste ponto: — Durante a última parte do século dezenove, a palavra “Expiação” veio a ser comumente empregada para expressar aquilo que Cristo operou para a salvação do Seu povo. Mas antes daquela época, o termo usado desde os dias de Anselmo (1274), e empregado habitualmente por todos os Reformadores era “Satisfação”. Este termo, mais antigo, deve ser muito mais preferido, primeiro, porque a palavra “Expiação” é ambígua . No Antigo Testamento ela é usada por uma palavra em Hebreu que significa “cobrir por fazer expiação”. No Novo Testamento ela ocorre senão uma vez, {em Romanos 5:11}, e ali é dada como tradução de uma palavra em Grego, que significa “reconciliação”. Mas reconciliação é o efeito da obra de Cristo, expiadora dos pecados e propiciadora a Deus. Por outro lado, a palavra “Satisfação” não é ambígua. Significa sempre aquela obra completa que Cristo operou de forma a assegurar a salvação do Seu povo, já que tal obra encontra-se relacionada com a vontade e com a natureza de Deus.

De novo: o termo “Expiação” é muito limitado em seu significado para o propósito que lhe é designado. Não expressa tudo o que as Escrituras declaram que Cristo fez de forma a satisfazer por completo as demandas da lei de Deus. Apropriadamente, significa a expiação de pecados, e nada mais. Aponta àquilo que Cristo rendeu para com a justiça de Deus, ao vicariamente suportar a penalidade devida pelos pecados de Seu povo; mas não inclui a obediência vicária rendida por Cristo, aos preceitos da lei; obediência a qual é imputada a todos os eleitos. Já o termo “Satisfação” naturalmente inclui ambos significados. “Uma vez que as demandas da lei sobre os homens são ambos, preceptivos e penais — a condição de vida sendo ‘faça assim e viva’, enquanto que a penalidade condenatória sobre a desobediência é, ‘a alma que pecar, esta morrerá’ — segue-se que qualquer obra venha a satisfazer cabalmente as demandas da lei Divina no lugar dos homens deva incluir (1) aquela obediência a qual a lei demanda como a condição de vida, e (2) aquele sofrimento o qual a mesma lei demanda como a penalidade pelo pecado.”

Que possa o Senhor graciosamente capacitar a ambos, escritor e leitor, para contemplar e compreender este tema maravilhoso de tal forma que muitos frutos possam advir para a Sua glória e Seu louvor.



CAPÍTULO 2: SUA FONTE

“Ao abordarmos este mistério sacro e solene, devemos fazê-lo com respeito e reverência, lembrando-nos tratar-se mais de um assunto de fé e adoração do que de racionalidade e argumentação; um santuário acessível de fato ao manso e ao aflito, ao ansioso e ao contrito, mas do qual deve sempre aproximar-se com solenidade e santo temor” (A. Saphir). Está escrito, “Guiará os mansos em justiça e aos mansos ensinará o seu caminho.” {Salmo 25:9}. Os “mansos” são aqueles que não confiam na carne, que não se apóiam no seu próprio entendimento, aqueles cuja dependência está em Deus e nEle somente.

A fonte da Expiação ou Satisfação de Cristo é Deus . Isto por necessidade, pois somente Deus pode produzir aquilo que O satisfaça. Homens não prover aquilo que satisfará as exigências da santidade e da justiça de Deus contra os seus pecados, não mais do que podem eles criar um universo: “Nenhum deles de modo algum pode remir a seu irmão, ou dar a Deus o resgate dele.” {Salmo 49:7}. Uma lei perfeita somente pode ser mantida por uma criatura perfeita. Alguém que tenha sido tornado impotente pelo pecado é “fraco” {cf. Romanos 5:6} para fazer qualquer coisa que seja boa; portanto a libertação deve vir de fora dele: “Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o Seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; Para que a justiça da lei se cumprisse em nós…” {Romanos 8:3,4}.

“No princípio, Deus…” {Gênesis 1:1}. Tais palavras no início das Santas Escrituras são dignas do seu Divino Autor. Deus é ambos, o Alfa e o Ômega. Ele é o Princípio e o Fim de todas as coisas, pois “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas…” {Romanos 11:36}. Nada pode existir em separado de Deus. Na criação, na providência, e na redenção, Deus é o Princípio. Não fora por Deus, nenhuma criatura existiria. Não fora por Deus, criatura nenhuma perduraria por um momento, pois “…nEle vivemos, e nos movemos, e existimos…” {Atos 17:28}. Não fora pela permissão de Deus, o pecado não poderia ter entrado no mundo; e não fora por Sua vontade em determinar, Sua graça em prover, seu Poder em assegurar, Seu Espírito em aplicar, não teria havido satisfação alguma feita pelas responsabilidades falhas do Seu povo.

Sim, Deus e somente Ele é a fonte da grande e gloriosa Expiação. Sua vontade foi o fator determinante, Seu amor a mola mestra, Sua justiça o incentivo, Sua glória manifesta, o fim. Em humilde tentativa para ampliar os vários membros da sentença precedente, nós ardentemente clamamos em uma voz com um dos antigos, que “O que não vejo, ensina-me Tu…” {Jó 34:32}. Que possa satisfazer o Deus de toda graça, preparar os corações de ambos, escritor e leitor, para contemplar as glórias celestiais do caráter Divino.

1. A VONTADE DE DEUS

Necessário se faz que este seja o ponto de partida ao considerarmos a fonte fundamental de todas as coisas, pois Deus “…faz todas as coisas, segundo o conselho da Sua vontade.” {Efésios 1:11}. Em lugar nenhum é dito que Ele faz todas as coisas de acordo com as exigências da Sua santidade”, embora Deus não faz e não pode fazer nada que não seja santo. Não existe conflito algum entre a vontade Divina e a natureza Divina, todavia é preciso insistir que Deus é uma lei em Si mesmo. Deus faz o que Ele faz, não simplesmente porque justiça requeira que Ele assim aja, mas o que Deus faz é justo simplesmente porque Ele assim o faz. Todas as obras Divinas resultam simplesmente da soberania.

“A criação não poderia ser nada a não ser um ato de soberania. Negar a soberania aqui, seria negar a soberania totalmente; pois, se o universo criado veio a existir, e é o que é, como uma conseqüência necessária de uma ‘Primeira Causa’, aquela primeira causa não poderia ser uma pessoa, não poderia ser dotada de liberdade de vontade, não poderia ser Deus. Além disso, se a existência dessa primeira causa necessitasse da existência do universo, assim deve ter sido desde a eternidade. Não poderia ter havido nenhum princípio do universo criado.

“Redenção, tanto quanto criação, também deve ser puramente uma determinação soberana da vontade Divina. Esta é exigida pelas necessidades do caso, tanto quanto claramente declarada na Escritura. Nenhuma doutrina de Redenção que de qualquer forma venha a projetar sombra sobre a alta e divina montanha da Soberania Divina, pode ser tolerada sequer por um momento. Todas teologias que de alguma forma ensinam ou sugerem que houve qualquer obrigação sobre Deus, para que Ele fizesse isso ou aquilo pelos caídos, rebeldes sujeitos à lei, não são Bíblicas, são irracionais, se não blasfemas. A soberania Divina deve ser reconhecida como determinada a salvar quaisquer caídos, em determinar quem deveria ser salvo, em “escolher”, “erguer”, e “propiciar” o Salvador, e na entrega e submissão do Salvador; mas esta Redenção Soberana uma vez determinada, foi operada sob a lei, e em exata concordância com a lei.” {Dr. J. Armour, na obra “Atonement and Law” (“Expiação e Lei” — N.T.), 1917}.

O que segue, pode ser considerado como tendo gosto de metafísica, todavia nós sentimos que deva ser trazido à baila considerando os difamadores modernos de Deus. Mesmo alguns que são reputados como bem ortodoxos têm traçado grande distinção, quase um abismo, entre a natureza de Deus e a vontade de Deus, falhando em perceber que a vontade de Deus é uma parte essencial da Sua natureza . Alguns têm descido tão baixo quanto a afirmar existir na própria natureza das coisas um padrão de direito que existe independentemente e em separado de Deus, de acordo com o qual Ele Próprio age, deve agir. Tal concepção não somente é degradante, mas blasfema. Outros que não têm adotado esta fábula, têm, não obstante, sido injuriosamente afetados por ela, e supõem que a natureza de Deus, como bem distinta da Sua vontade, é o que determina Sua ações.

Não há nada determinado pela natureza de Deus que não seja determinado pela vontade de Deus. “Quando afirmamos que Deus é santo, não queremos dizer que Ele faz justo o que é justo, por simplesmente ser a Sua vontade, mas que Ele assim o quer porque é justo. Deve haver, portanto, algum padrão absoluto de justiça” — é como um assim chamado professor de Bíblia expressou-se recentemente. Mesmo que seja dito que o “padrão absoluto de justiça” é a natureza Divina, se por isso se referir-se à natureza de Deus como separado da Sua vontade determinadora, a expressão é, para dizer o mínimo, faltosa e enganadora. A vontade de Deus é uma parte essencial da Sua natureza, e portanto a Sua vontade é “o padrão absoluto de justiça”. A vontade de Deus não é algo relacionado, dependente e determinado; mas é soberana, imperial, reinante.

O Próprio Deus é o padrão fundamental e absoluto de justiça. O homem é comandado a reconhecer um padrão de justiça fora e acima de si mesmo, e a sua vontade e conduta deve conformar-se a tal. O padrão de justiça é a vontade revelada de Deus. Mas racionalizaremos nós, disto, que Deus também reconhece um padrão de justiça ao qual a Sua vontade deve estar conformada, um padrão que faça justo o que é justo, e o que é justo sendo feito justo, Ele assim o quer porque é justo? Certamente que não. A verdade é, que nós melhor descobrimos o que a natureza de Deus requer que Ele faça, por nada que Ele, através da Sua vontade, realmente faz . Quando Deus diz, “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia.” {Romanos 9:15}, Ele asseguradamente estabelece diante de nós a Sua vontade, em sua mais alta liberdade e soberania. Mas este ato supremo de graça soberana é o ato do Próprio Deus, e ato ao qual a natureza completa de Deus (Sua vontade estando incluída naquela natureza) O moveu.

Nós falhamos em rastrear qualquer coisa que seja até a sua fonte original, a não ser que rastreemos diretamente até a vontade soberana de Deus. Isso é verdade igualmente no que tange à criação, à providência, e à redenção. Deus não Se viu obrigado a criar este mundo; Ele assim o fez simplesmente porque isso Lhe aprouve {Apocalipse 4:11}. Havendo criado o mundo, quando Adão caiu, Ele poderia bem ter deixado toda a raça perecer em seus pecados, e o teria feito, exceto que a Sua soberana vontade tinha, previamente, determinado de outra forma. Justiça não que Ele interviesse em misericórdia, pois como o justo Governador do mundo, Ele poderia ter procedido de forma a sustentar a autoridade da Sua lei ao exigir a penalidade sobre todos os desobedientes, e assim ter dado aos anjos que não caíram um exemplo adicional da sua terrível vingança. Nem a Sua bondade exigiu que ele devesse resgatar qualquer um dos Seus seres criados da miséria, a qual eles trouxeram sobre si mesmos, pois Ele já a havia exibido de forma cabal, na criação. Nem tampouco o Seu amor demandou, abstratamente considerado, que um Salvador fosse providenciado; tivesse sido esse o caso, um deveria também ter sido dado aos anjos que caíram.

É preciso chamar a atenção que a glória manifesta de Deus não depende da revelação de nenhum atributo em particular, mas antes da exibição de todos, em harmonia completa, e em ocasiões apropriadas. Ele é glorificado quando concede bênçãos sobre os justos, e é igualmente glorificado quando inflige Punição nos ímpios. A glória manifesta de Deus consiste na revelação do Seu caráter às Suas criaturas; todavia é puramente opcional de Sua parte; é bem voluntária, e em nada contribui para a sua felicidade, e poderia ter sido contida, tivesse Ele assim Se contentado. Todavia, como Deus sempre age consistentemente consigo mesmo; se Ele porventura a Si mesmo Se mostrar às suas criaturas, a descoberta sempre corresponderá à grandeza e à excelência da Sua natureza.

Que a morte expiadora de Cristo teve sua origem na vontade de Deus, está claramente declarado em Atos 2:23, “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos.” Embora consumado na plenitude do tempo, foi determinado antes do tempo, decretado e promulgado no céu pela Trindade Eterna. Portanto lemos em Apocalipse 13:8 acerca “…do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.” Cristo era “o Cordeiro que foi morto” determinadamente , no conselho e no decreto de Deus {cf Atos 2:23}; prometidamente , na palavra de Deus passada a Adão após a queda {cf Gênesis 3:15}; tipicamente , nos sacrifícios apontados imediatamente após a promessa da redenção {cf Gênesis 4:4}; eficazmente , com relação ao mérito dos sacrifícios, aplicado por Deus aos crentes antes dos reais sofrimentos de Cristo {cf Romanos 3:25; Hebreus 9:15}.

“Ele [Deus], tornou-O [a Cristo, o Mediador] pecado por nós {cf II Coríntios 5:21}: “feito” ou “constituído” através de um estatuto Divino (i.e. a Ele foi ordenado entrar em lugar da condição penal dos pecadores). Não tivesse Deus assim apontado, a morte de Cristo não teria tido nenhum valor meritório. Uma vez mais, em Hebreus 10, a eficácia do sacrifício de Cristo para com os eleitos é rastreado de volta e diretamente relacionado à vontade eterna e soberana de Deus. No versículo 7, encontramos o Próprio Cristo dizendo, quando estava prestes a encarnar e entrar neste mundo, “Eis que aqui venho, para fazer, ó Deus, a Tua vontade.”; enquanto que no versículo 10 nos é dito, “Na qual vontade temos sido santificados [consagrados a Deus] pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez.” Aquilo que nos salva, ou santifica, não é simplesmente a oferta de Cristo — pois tal em nada nos teria beneficiado, se não houvesse sido Divinamente designada — mas a “vontade” e o decreto da Trindade Eterna relacionados àquela oferta.

2. O AMOR DE DEUS

O Amor era, ou melhor, é a mola-mestra de toda a bondade e a graça de Deus para com o Seu povo. Ele nutre por eles um “amor eterno” {cf Jeremias 31:3}. Foi “em amor” que ele “nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para Si mesmo,…” {Efésios 1:5}. Prova disso é, que desde toda a eternidade Ele, “nos fez agradáveis a Si [não “em Cristo” mas] no Amado.” {Efésios 1:6} — note, cuidadosamente, que esta declaração é dada antes que seja feita referência ao perdão dos nossos pecados, no versículo 7. Houvesse assim agradado a Deus, Ele poderia ter evitado a entrada do pecado neste mundo, Ele poderia ter restrito a descendência de Adão às pessoas dos Seus eleitos, e Ele poderia tê-los levado ao céu, sem que tivessem se contaminado pelo pecado e remidos dele, para lá gozarem felicidade eterna. Isso teria sido uma demonstração surpreendente do Seu amor para conosco. Todavia, aprouve a Deus conceder ao Seu povo ainda maiores, mais completas, mais altas, manifestações do Seu amor para e por eles.

Deus amou Seu povo ao ordená-los para a vida eterna (Atos 13:48, Romanos 9:11-13), mas Ele deu prova ainda maior ao tolerá-los caírem num estado de morte espiritual, e então enviar o Seu próprio Filho querido para redimi-los e resgatá-los de tal estado. Há trezentos atrás, o Dr Thomas Goodwin, em sua incomparável exposição de Efésios 1, chamou a atenção para que, “Tivéssemos nós sido trazidos primeiro àquela comunhão com Cristo, a qual teremos no céu após o dia do julgamento, sem ter conhecido nem o pecado ou a miséria, teria sido uma condição realmente boa e abençoada; na qual nos regozijaríamos infinitamente, e teríamos razão em assim tê-lo feito. Mas, certamente, o céu nos será muito mais doce, pelo motivo de havermos uma vez caído em pecado e miséria, e então termos um Redentor que veio e nos livrou de tudo, e então nos trouxe ao céu. Oh, quão doce isso fará o céu se tornar, para vocês!…

“Eu gostaria que vocês observassem que isso pode exemplificar maravilhosa e poderosamente o amor de Deus para conosco. As últimas palavras de Efésios 1:6 são que Deus nos aceitou a Si no [Seu] Amado, enquanto que a primeira parte do versículo 7 são: ‘Em quem temos a redenção pelo Seu sangue.’ O que! Era Ele o Amado de Deus, e você, também tem a sua redenção nEle? Deus sacrifica o Seu Amado! Deus nos escolhe para sermos santos no céu Consigo mesmo (versículo 4), para lá sermos filhos com Ele (versículo 5), para sermos o louvor da Sua graça (versículo 6)! Que o propósito permaneça: que eles nunca venham a ser pecadores, que Eu os tenha aqui no céu, juntamente com o Meu Filho. Alguém poderia pensar que Deus pode ter dito isso. Não, Deus teria comandado o Seu amor ainda além. Ele os teria permitido caírem em pecado; e redimi-los. Ele teria sacrificado o Seu Amado. Ele tinha tanto amor em Seu coração, que Ele não o poderia demonstrá-lo a nós senão pelo sacrifício do Seu Amado. De que forma tão esplendorosamente é que Ele demonstrou o Seu amor.”

Que amor foi o motivo, razão principal que levou a Deus a prover para o Seu povo um sacrifício expiador pelos seus pecados, está claro pelas palavras tão bem conhecidas de João 3:16, “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito…”. Assim também, em I João 4:9, 10, “Nisto se manifesta o amor de Deus para conosco: que Deus enviou Seu Filho unigênito ao mundo, para que por Ele vivamos. Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou Seu Filho para propiciação pelos nossos pecados. Assim os oráculos sagrados celebram a obra da redenção como a mais elevada e mais marcante demonstração e exibição do amor Divino, e nos direcionam a considerar como tal amor agiu no mais elevado grau e com a maior vantagem, para ser visto e admirado por todos os eleitos, como uma fonte inesgotável e infindável de gratidão e de louvor. Quanto mais indignos e mais merecedores de castigo os objetos daquele amor eram em si mesmos — pecadores, inimigos {cf Rm 5:7-10} — quão mais maravilhoso aquele amor. Quanto maior a entrega alcançada pelo amor, e mais caro o sacrifício para proporcionar tal entrega, quão mais é tal amor coroado. Quanto maiores as dificuldades a serem vencidas — pecado, morte, tumba — quão mais foi aquele amor magnificado. Quanto maiores as bênçãos concedidas — justificação, santificação, glorificação — quão mais deve ser aquele amor adorado.

“Nisto estava a ênfase do amor Divino para conosco, que ‘Ele enviou Seu Filho para ser a propiciação pelos nossos pecados’ {I João 4:10}. Era pelo amor que Ele restauraria os homens após a Queda; não havia mais necessidade de fazer isso do que criar o mundo. Como isso não acrescentou nada à felicidade de Deus, então o desejo de fazê-lo em nada depreciou tal fato. Não havia mais absoluta necessidade de restauração do homem após o rompimento com Deus, do que um novo reparo do mundo após o dilúvio destruidor. Mas que Ele pode elevar o Seu amor ao mais elevado nível, Ele não somente restauraria o homem, mas antes de deixá-lo permanecer em seu estado merecido de miséria, puniria Suas próprias entranhas para preservar o homem de tal estado. Foi puramente a Sua graça [a qual é o amor concedendo favores, aos que são merecedores do inferno — A.W.P.] o motivo pelo qual o Seu Filho “provasse a morte por todos” os Seus Filhos {Hebreus 2:9}.” (S. Charnock, 1635).

3. A JUSTIÇA DE DEUS

A Expiação de Cristo direciona os nossos pensamentos a Deus como Aquele cuja santidade governante demanda satisfação, cuja inflexível justiça insistiu que suas demandas sejam cumpridas plenamente, e cuja lei reta deve ser magnificada e honrada, antes que qualquer bênçãos resultantes pudessem fluir aos Seus eleitos, considerados como os filhos culpados e depravados de Adão. Deus “ao culpado não tem por inocente” {Êxodo 34:7}. Muito diferente daquilo que se passa por amor na esfera humana, o amor de Deus vai de encontro à lei; não é exercido em desafio à justiça. Deus é “luz” {I João 1:5}, bem como Ele é “amor”; e porque Ele assim o é, o pecado não pode ser ignorado, sua odiosidade minimizada, nem cancelada a sua culpa. Isso é verdade, que onde abundou o pecado, superabundou a graça, Todavia a graça não abundou às custas da justiça, antes, “também a graça reina ‘através’ da justiça” (Romanos 5:21).

Mas não poderia Deus remir os pecados do Seu povo sem uma satisfação expiadora? Esta questão nos é respondida de forma explícita e com toda autoridade, em Hebreus 9:22, “… sem derramamento de sangue não há remissão.” Comentando neste versículo em seu memorável livro “The Atonement” (1871), o falecido Hugh Martin escreveu, “Sem dúvida, à primeira vista, este [versículo] parece meramente alegar um fato, sem assinalar um motivo. Parece declarar nada mais do que a verdade histórica, que verdadeiramente Deus nunca remiu os pecados dos homens sem derramamento de sangue. Mas se a ênfase for colocada na palavra “remissão”, e se for tida em mente uma idéia verdadeira quanto à transação que essa palavra representa, notar-se-á que a proposta, “não é remissão sem derramamento de sangue”, não alega meramente o fato, mas também designa uma razão para tal fato —expressar não somente a realidade histórica, mas o princípio fundamental que a justifica, e o qual somente necessita ser cuidadosamente investigado e compreendido, para prover uma resposta satisfatória à questão, ‘Por que Deus não poderia perdoar os pecados dos homens sem uma Expiação ? ‘

“Pois, quando o escritor inspirado afirma que sem derramamento de sangue não há remissão, é como se ele tivesse dito: “Vocês podem imaginar um perdão sem derramamento de sangue, se quiserem; vocês podem conjeturar, ou invocar, algum outro método de perdão; vocês podem conceber a idéia de Deus lidando com o pecador, e livrando-o da punição devida por suas iniqüidades; sem que estas iniqüidades sejam perdoadas; sem que a penalidade incorrida pelas mesmas seja exigida; sem que a lei a qual eles transgridem seja limpa da mancha de desonra com a qual eles a macularam; sem um sacrifício caro; sem uma propiciação solene; sem um resgate impagável. Mas qualquer transação que esta possa ser, isso não seria remissão . Considerando que seria bem possível para Deus isentar o pecador; anular, através de um decreto meramente arbitrário, e sem qualquer satisfação à justiça divina, o débito que o pecador havia contraído; parar com Sua ira para com os Seus inimigos e retornar ao estado de amizade; dizer, ‘Sejam perdoados os seus pecados, agora vocês não têm nada a temer’; tudo isso, ‘sem derramamento de sangue’, sem qualquer sacrifício ou reparação ou expiação: ainda assim tudo isso, no que quer que possa resumir-se, não equivale a remissão . De o nome que lhe aprouver: seja o que for; não é remissão. Pode ser considerado como um equivalente à remissão; pode haver lugar e espaço para o mesmo; pode ser que multidões preocupem-se em averiguar e investigar, ou tenham até mesmo a necessidade de tanto, ou se dêem ao trabalho de buscar. Mas, conquanto isso seja possível da parte de Deus, conquanto possa ser satisfatório para os homens, não se trata de remissão . Pode parecer remissão. Pode dar a impressão de carregar em si tudo aquilo que os não esclarecidos imaginam, quando pensam sobre remissão; mas não se trata de remissão real. Sem derramamento de sangue não há remissão.

“O que a consciência esclarecida de um inquiridor angustiado anseia é “remissão” —remissão de pecado. E o que é isso? É a remoção de culpa; remoção da responsabilidade pela ira de Deus; remoção da Criminalidade ou da iniqüidade. É uma sentença de “ Não Culpado ”. É o reconhecimento da inculpabilidade perante o Santo de Israel; uma posição e relação para com Deus, portanto, na qual a Sua ira seria indevida, injusta, impossível. Isso seria Remissão .”

Não devemos antecipar o campo que esperamos cobrir em capítulos adiante, exceto ao dizer aqui que, o grande problema que confrontou a Deus, e com relação ao qual ousamos dizer que nunca poderia ter sido resolvido seja por inteligência humana ou angelical, foi, como a Misericórdia poderia agir livremente sem insultar a justiça, ou como a Justiça poderia exigir o cumprimento do que lhe era devido sem que as mãos da Misericórdia fossem atadas. Uma solução perfeita e completamente satisfatória para este problema foi encontrada e provida na Satisfação feita a Deus pela mediação do Redentor. É nessa satisfação que “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram.” {Salmo 85:10}. É essa satisfação que proporcionou a Deus ser “…justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” {Romanos 3:26}

4. A GLÓRIA DE DEUS

Tem sido dito corretamente que “A razão e motivo fundamentais de todas as ações de Deus estão em Si mesmo. Uma vez que Deus é infinito, eterno e imutável, que aquilo que foi o Seu primeiro motivo na criação do universo deve sempre continuar a ser a razão fundamental ou finalidade principal em cada ato concernente em sua preservação e governo. Mas o primeiro motivo de Deus deve ter sido simplesmente o exercício das Suas próprias e essenciais perfeições, e no seu exercício a manifestação da excelência das mesmas. Este foi o único propósito que poderia haver sido escolhido pela mente Divina no princípio, antes da existência de qualquer outro objeto” (A Expiação, Dr. A. A. Hodge). As Escrituras são muito explícitas neste ponto, “O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios…” {Provérbios 16:4}. “Porque dele e por ele, e para ele são todas as coisas;…” {Romanos 11:36}. “…tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas.” {Apocalipse 4:11}

A razão fundamental, portanto, que moveu a Deus para ordenar a Cristo como Satisfação pelas responsabilidades falhas de Seu povo deve ter sido a glória Divina, e não os efeitos esperados serem produzidos na criatura. Mas a glória é excelência manifesta, e excelência moral é manifesta somente ao ser exercitada. A justiça e o amor infinitos de Deus, ambos encontram o mais alto exercício concebível no sacrifício de Seu próprio Filho como o Substituto de homens culpados. Deus ordenou ter outros filhos além de Cristo {Romanos 8:29, “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”}, mas foi de forma que eles possam perceber a Sua glória {João 17:24, “…para que vejam a minha glória que me deste; …”}, e que Ele possa “ser glorificado neles” {João 17:10}. Ordenar a Cristo vir a este mundo como Homem, somente por causa do pecado do homem e para a obra da redenção, seria sujeitar Cristo a nós, e fazer o nosso bem o “propósito” da ação de Deus. Tal concepção não só é extremamente absurda, mas terrivelmente ímpia. Adão não foi feito para Eva, mas sim Eva para Adão; e como a mulher é “a glória do homem” {I Coríntios 11:7}, também os santos são chamados de “a glória de Cristo” {II Coríntios 8:23}; e como os santos são de Cristo, assim também é Cristo, o Mediador, de Deus {I Coríntios 3:23}.”

5. A ALIANÇA DE DEUS

Embora tenhamos feito este tópico distinto dos quatro precedentes, ainda assim assinalaríamos que é no Sempiterno Pacto que encontramos a vontade, o amor, a retidão, a glória de Deus, unidos como a causa ou causas motivadoras da perfeita provisão encontrada na Satisfação de Cristo.

Como temos insistido em parágrafos anteriores, tivesse assim agradado a Deus, ele poderia nunca ter criado um único ser para admirar as Suas perfeições. Quando criaturas foram admitidas àquele maravilhoso espetáculo, e então tornaram-se culpadas de desonrá-LO, ele poderia ter-SE revelado posteriormente somente em ira, entornando os frascos da Sua indignação no ponto em que eles (as criaturas) habitavam, transformando-o em uma cena de desolação. Qual seria a perda de um mundo para Aquele a cujos olhos o mundo não é nada, sim, menos que nada e coisa vã {Isaías 40:17} ?

Dessas premissas, segue-se, a verdade que não pode ser contradita, que o plano designado por Deus para a salvação dos Seus eleitos, quem por natureza também compartilharam das ruínas da queda de Adão, originou-se não somente na Sua graça soberana, mas foi determinado unicamente pela Sua própria vontade real. Portando, ao contemplar a obra da redenção nós precisamos ascender até a sua origem, e começar com a consideração daquele entendimento eterno entre as Pessoas da Divindade, acordo no qual é encontrada toda a dispensação de graça para com os homens caídos. Àquele acordo, a tal entendimento a Bíblia se refere como “A aliança eterna” {Hebreus 13:20}.

CAPÍTULO 3: SUA BASE

Ao empregar este termo, a exigência da Expiação, estamos fazendo uso de uma expressão que pede por uma definição e uma explicação clara. Infelizmente, muitos escritores têm falhado ao executar tal tarefa, com a conseqüência de que pontos de vista descuidados e muitas vezes desonrosos a Deus são mantidos neste aspecto específico do nosso assunto. Dizer que Deus deve ou não deve fazer certas coisas é a linguagem da impiedade desonrosa, a menos que expressamente avalizada pelas próprias palavras das Sagradas Escrituras. Vivemos em uma época que é fortemente marcada pela irreverência, e as mais degradantes opiniões sobre o Todo-Poderoso são agora mantidas por alguns que imaginam serem bem ortodoxas estas suas opiniões do Todo-Poderoso. Seria um assunto simples para nós, dar ilustrações e provas disso, mas nos refreamos de corromper nossos leitores {I Co 15:33 – “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes”}. Suficiente é agora apontar, uma vez mais, que nunca houve época em que o povo de Deus mais ardentemente precisasse de atentar às palavras, “Examinai tudo” {I Ts 5:21}.

“Até isto procede do Senhor dos Exércitos; porque é maravilhoso em conselho e grande em obra.” {Isaías 28:29}. A sabedoria infinita nunca age sem propósito . Deus, que é perfeito em conhecimento, nada faz sem um bom motivo. Todas as Suas obras são adequadas de conformidade com os Seus propósitos inerrantes. Isto é igualmente verdadeiro nos Seus atos de criação, providência e graça. No final dos seis dias de trabalho, lemos que, “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom …” {Gn 1:31}. No que diz respeito ao Seu governo sobre nós, “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” {Romanos 8:28}. E quanto à operação da Sua graça, a fé afirma sem hesitação que “Tudo faz bem;” {Marcos 7:37}.

Agora, a mais maravilhosa dentre todas as obras de Deus é aquela que foi executada pelo Seu Filho aqui na terra. Quando tentamos contemplar o que aquela Obra envolveu, nos perdemos em assombro. Quando nós seriamente nos engajamos em estimar as profundezas da vergonha e da humilhação inexprimíveis nas quais adentrou o Amado do Pai, somos chocados e abalados, aterrorizados. Que o Filho eterno de Deus devesse por de lado os mandos de Sua glória inefável e tomar sobre Si a forma de um servo, que o Governador do céu e da terra devesse ser “nascido sob a lei” {Gl 4:4}, que o Criador do universo devesse congregar neste mundo e “não ter onde reclinar Sua cabeça” {Mt 8:20}, é algo que a mente finita não pode compreender; mas onde a razão carnal nos falha, uma fé dada por Deus crê e adora.

À medida em que traçamos o caminho trilhado por Aquele que era rico e todavia pobre se fez por nossa causa, nada mais podemos sentir, a não ser que adentramos no domínio do mistério; mais ainda quando aprendemos que cada passo do Seu caminho havia já sido ordenado nos eternos conselhos da Divindade. Todavia, encontramos aquela trilha conferindo Àquele em quem o Pai Se comprazia, aflição imensurável aflição, angústia inexprimível, ignomínia sem fim, o mais amargo ódio, cruel perseguição; tanto de homens quanto de Satã, ficamos assombrados. E, quando encontramos aquela trilha levando ao Calvário, e lá contemplamos O Santo pregado na Cruz, nosso assombro é ainda mais profundo. Mas, quando a própria Bíblia declara que não somente Deus entregou Cristo nas mãos das mais odiosas humilhações da terra para ser injuriado e blasfemado, que Deus Ele próprio não era meramente um espectador daquela cena horrível, que Ele não somente contemplou os sofrimentos do Amado do Céu, mas que ELE também O castigou, torturou-O com a vara da Sua indignação, e despertou a espada para ferir o Seu “Companheiro” {veja em Zacarias 13:7}; nós somos movidos a reverentemente questionar quanto às necessidades de tal evento sem paralelo.

Que a encarnação, a humilhação e a crucificação do Filho de Deus foram exigidas , ninguém que (pela graça) saúda implicitamente perante a Palavra da Verdade pode duvidar por um momento sequer. A linguagem do Próprio Cristo neste ponto é clara demais para ser confundida. Para Nicodemos Ele disse, “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” {João 3:14, 15}. Aos Seus discípulos Ele declarou, que “…convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia.” {Mateus 16:21}. Assim também, no dia da Sua ressurreição, Ele perguntou, “Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?” {Lucas 24:26}. Não obstante, tão plena e positiva quanto é a linguagem desses versos, nós devemos sempre nos colocar muito em guarda, a fim de que não tiremos deles conclusão a qual vá de encontro a outras passagens das Escrituras e nos leve a uma muito desonrosa concepção de Deus.

Das passagens mencionadas, e outras de características similares, não poucos bons homens têm deduzido que os sofrimentos de Cristo eram uma exigência absoluta , que a própria natureza de Deus os tornou tão indispensáveis que fora deles a salvação dos pecadores era impossível; sim, que nenhuma outra alternativa possível apresentou-se à onisciência de Deus. A tais afirmações nós não podemos assentir, pois elas vão além da linguagem expressa da Escritura Sagrada. Conquanto plausível possa ser o argumento, conquanto lógica a dedução, nós devemos, onde a Escritura silencia, resistir a tão grave conclusão. Dizer que o Todo Sábio Próprio Deus não pudesse encontrar outra forma de salvar os pecadores, consistentemente com Sua santidade e justiça, do que a que Ele encontrou, é altamente presunçoso. Declarar que a Onisciência foi impotente, que Deus foi obrigado a adotar os métodos que Ele adotou, está perigosamente próximo da blasfêmia.

Afirmar que Deus elegeu a melhor forma possível para engrandecer todas as Suas perfeições na redenção do Seu povo, é afirmar aquilo que está honrando a Divindade, mas declarar que esta foi a única forma, é ir além do que as Escrituras declaram. Que o amor e a sabedoria supremos buscariam as formas mais nobres para atingir os fins mais gloriosos, nós cremos firmemente; mas concluir que Deus foi incapaz de conceber nenhum outro método é mero fatalismo, e, podemos acrescentar, meio ateísmo. De acordo com o que teorizam alguns teólogos, nós devemos mudar o que se lê em Efésios 1:11 {“Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”}, para “…daquele que faz todas as coisas de acordo com as exigências da sua própria natureza.” Tampouco Cristo assim considerou no Getsêmane: Ele não aceitou o cálice amargo por causa da inexorabilidade da natureza de Deus, mas como resultado da Sua submissão à Sua vontade.

Das palavras do nosso Salvador no Jardim, “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice!” {Mateus 26:36}, tem sido deduzido que era impossível que isso fosse feito. Em um sentido é verdade: Deus havia ordenado que Cristo devesse morrer, os termos da aliança eterna assim o exigiram, a vontade de Deus assim o demandou; então morrer Ele devia . Mas é algo muito diferente de dizer que quando a Divindade ordenou Seus conselhos, nenhuma outra alternativa pudesse ser planejada, que a morte de Cristo fosse uma necessidade absoluta e inevitável. É realmente impressionante notar, e digno da nossa mais reverente atenção, que no exato momento em que o nosso Salvador agonizante apresentou Sua petição, Ele disse, “Aba Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres.” {Marcos 14:36}.

Ao concluir este ponto, não nos esqueçamos que a Expiação originou-se no absoluto excelente agrado de Deus. Ele não estava obrigado a salvar quaisquer pecadores, Ele não estava sob nenhuma obrigação de ao menos prover um Redentor. Que Ele assim o fez, foi algo puramente da graça, e, na própria natureza das coisas, o galardoardor da “graça” é livre , absolutamente livre, para galardoar ou não fazê-lo, caso contrário a mesma deixaria de ser “graça”, tornando-se algo devido ao que a recebe. Quanto ao método através do qual Deus escolhe manifestar a Sua graça, só podemos dizer que o Mediador apontado respondeu a cada perfeição de Deus e magnificou de forma superlativa todos os Seus atributos; e que este Salvador é ambos, o dom do Seu amor , e a nomeação da Sua vontade .

Lembremos-nos uma vez mais que nos encontramos na esfera do mistério, profundo e insolúvel mistério, para a inteligência finita. A entrada do pecado no mundo, a infinita repulsa de Deus pelo pecado, as exigências morais do Seu governo referente à punição do mesmo, a salvação do Seu próprio povo do pecado, a magnificência do Seu próprio nome através de tal salvação, são alguns dos elementos principais adentrando a este mistério; e a relação que todo o plano da graça Divina tem para com ele, é o que agora nos prende a atenção. Cônscios da nossa absoluta incapacidade de até mesmo nos embatermos com isso, quanto menos ainda resolver um problema tão profundo; cônscios de que raciocinar sobre isso é pior do que fútil, nos voltaríamos reverentemente, em humilde dependência do Espírito da Verdade, às Sagradas Escrituras, para verificar que luz aprouve a Deus lançar sobre este mistério dos mistérios.

1. A EXPIAÇÃO FOI EXIGIDA PELA VONTADE DE DEUS

Se esse não for o nosso ponto de partida, certamente erraremos. A Palavra de Deus declara, incondicionalmente, que Ele “faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade.” {Efésios 1:11}. A extensão completa desta passagem contem uma revelação dos eternos conselhos de Deus para com o Seu próprio povo. Ela nos leva a até antes da fundação do mundo, ao momento quando Ele os escolheu em Cristo. Ao mesmo tempo em que revela que foi em amor que Ele os predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para Si mesmo, o texto também acrescenta de uma vez que nós temos “redenção pelo Seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da Sua graça” {v. 7}, todavia logo em seguida nos é dito, “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o beneplácito, que propusera em si mesmo.” {v. 9}.

A passagem acima torna abundantemente claro para toda mente imparcial, que a Expiação ou a Redenção que Deus tão graciosamente concedida para os Seus eleitos, nasceu de nenhuma obrigação em Sua própria natureza ou de quaisquer reivindicações que as Suas criaturas tivessem para com Ele. Não são poucos os escritores e pregadores que têm blasfemamente insistido que a queda do homem obrigou a Deus providenciar um Redentor. Eles têm tido a arrogância de afirmar que desde que uma vez que o Criador permitiu a Adão trazer a ruína sobre si e sobre sua descendência, o mínimo que Ele poderia fazer era levantar um Restaurador. Dizem eles que as exigências da situação a qual o pecado introduziu no mundo, requereu que algum tipo de medicação seja dado, que neutralize seus efeitos nocivos. Resumindo, estes caluniadores do Mais Elevado têm argumentado que a Expiação foi imperativa , se devesse Deus justificar Sua criação do homem e inocentar a Si próprio por haver permitido que o homem perdesse sua integridade. É para com tais rebeldes arrogantes que Judas 1:10 refere-se, “Estes, porém, dizem mal do que não sabem.”

Outros, que deram expressão à inimizade da mente carnal contra Deus numa forma mais moderada, têm insistido que a benevolência de Deus exigiu dEle que providenciasse um Salvador para os pecadores. Enquanto permitindo que ao próprio homem fosse imposta toda culpa pela condição na qual ele agora se encontra, enquanto concordando que Deus puniu com justiça a desobediência dos nossos primeiros pais em ordenar que todos os seus descendentes devessem provar o amargor do salário do pecado, todavia eles imaginam que a pena de Deus para com os filhos do Adão caído O obrigou a providenciar um Salvador para os pecadores. Uma refutação cabal deste erro amplamente crido é encontrada no tratamento dispensado pelo Criador para com os anjos caídos: nenhum Salvador foi provido a eles! “… Deus não perdoou aos anjos que pecaram…” {II Pedro 2:4}. Existe prova evidente de que a benevolência de Deus não fez a Expiação imperativa.

Quaisquer que sejam as reivindicações que uma criatura não caída possa ter contra Deus, certamente um rebelde contra Ele tem direito a nada mais a não ser um julgamento sumário. Nem podem aqueles que desrespeitam o Seu governo moral por qualquer ato que seu , colocá-LO sob a obrigação de prover-lhes uma base legal de libertação do pecado. Dizer que o podem, seria investir pecadores culpados com o poder de controlar o Divino Legislador, e abstrairia completamente a graça de Deus das suas características de soberania, de liberdade e de ser favor imerecido. Não, não houve nada seja nas perfeições do caráter de Deus, nem nas reivindicações das Suas criaturas, fizesse da Expiação uma necessidade absoluta. O propósito de Deus de salvar um remanescente em conformidade com a eleição da graça proveio somente da Sua própria livre e soberana vontade: a provisão de um Salvador para salvar o Seu povo dos seus pecados nasceu de nada senão da própria determinação de Deus.

2. A EXPIAÇÃO FOI EXIGIDA PELA LEI DE DEUS

Ao dizer que a Expiação foi exigida pela Lei, não contradizemos o que foi dito acima, como claramente mostrar-se-á se atenção cuidadosa for prestada às sentenças que imediatamente se seguem. A vontade soberana de Deus foi exercida em no mínimo duas coisas com respeito à Expiação: primeiro, em Seu propósito original de salvar pecadores, pois tal foi unicamente Seu absoluto beneplácito; segundo, no processo decretado de acordo com o qual eles deviam ser salvos, ou seja, através da obra vicária de um Redentor. Havendo tencionado salvar o Seu povo da ira porvir, pareceu bem a Deus determinar que os pecados deles fossem perdoados de uma maneira através da qual a Sua Lei fosse honrada e engrandecida. Mas que seja cuidadosamente lembrado que também nisto agiu Deus absolutamente livre, e não a partir de qualquer coação. A própria Lei é de Sua própria nomeação, e não algo superior a Ele mesmo. Havendo tencionado salvar , a Aliança Eterna foi formulada, e tendo o Mediador livremente aceito os seus termos e tendo voluntariamente Se colocado sob a Lei, dali em diante tudo foi feito em obediência à Lei. Assim, a Trindade Eterna tendo decidido que a redenção fosse efetuada sob a Lei, tudo foi operado em perfeita conformidade com a Lei.

È à luz destes fatos que as passagens enunciadas num parágrafo anterior, com respeito à necessidade relativa da Expiação, devem ser interpretadas. “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado.” Não houve nenhuma necessidade absoluta em qualquer dos casos. Foi a graça soberana, pura e simples, que proveu um modo de vida para os Israelitas culpados, que estavam a morrer no deserto. Foi por indicação Divina que ambos, a serpente de bronze e o Antítipo foram “levantados”. Assim que em Mateus 16:21: Cristo “devia” ir a Jerusalém e ser morto. Por que? Porque Deus assim ordenara, porque os termos da Aliança Eterna assim o exigiram. Do mesmo modo não era possível que o “cálice” passasse do Salvador agonizante. Por que? Porque Deus determinara que a salvação viesse ao Seu povo através dEle bebendo daquele cálice; dessa forma havia sido inalteravelmente determinado. “Sem derramamento de sangue não poderia ter havido remissão”, é o que não encontramos escrito em lugar algum das Escrituras. Mas sob o regime que Deus instituiu, “ sem derramamento de sangue não há remissão.” {Hebreus 9:22}.

Foi muito bem dito que “A obra da redenção, assim como o curso da natureza, procede em conformidade com um plano pré-determinado, e sob lei absoluta e invariável, lei tão exata como aquela que governa o universo material. Cada fim contemplado pela mente divina na esfera do espiritual, e todos os meios para os atingi-los sob o reino da lei absoluta, foram determinados, com exatidão infinita, desde o princípio.” (Dr. J. Armour).

As analogias entre o reino da lei nas esferas natural e moral são tanto próximas quanto numerosas, a primeira servindo para esboçar, para descrever a segunda. Por exemplo, primeiro, cada lei no mundo natural, tal como aquela da recorrência das estações climáticas ou a da gravitação, foi ordenada e imposta pelo Criador de acordo com a Sua própria e soberana vontade. Assim também cada lei na esfera moral, como aquela do semear e colher, pecado e sua punição, foi determinado por Deus. Segundo, o reino da lei, como tal, é invariável e inexorável: não conhece nenhuma exceção. Se o mais querido filho na terra ingerir veneno por engano, os efeitos produzidos serão precisamente os mesmos como se o vilão mais odioso tivesse deliberadamente feito com que ele acabasse com sua existência terrena. Terceiro, ainda, embora a lei e suas exigências não possam ser desacatadas impunemente, uma lei mais elevada pode ser posta em prática revertendo a ação de uma lei inferior. Venenos têm seus antídotos. A lei da gravidade pode ser superada pela ação de levantar-se um objeto do chão. Uma lei nunca é suspensa, mas um poder mais elevado pode intervir e livrar dos efeitos de uma lei inferior, através do engrandecer uma lei superior. Foi este o caso com a Expiação.

A lei exige conformidade para com os seus preceitos. Mais perfeita, maiores as obrigações com respeito à mesma. Dada uma lei que é “santa e justa e boa” {veja em Romanos 7:12}, e obediência torna-se imperativa. Para Deus revogá-la ou mesmo suspendê-la, seria equivalente a reconhecer que nela havia algum defeito. Isto nunca poderia ser. Portanto, criaturas criadas sob aquela lei devem, por obrigatoriedade, prestar obediência à mesma. No caso de falharem, então, antes que fosse possível justificá-los, isto é, proclamá-los íntegros, à medida do padrão exigido, alguém deve satisfazer a lei em seu lugar, e sua retidão e obediência imputados à conta deles. Isto foi o que realmente foi feito. Cristo foi “nascido sob a lei” {Gálatas 4:4}, “cumpriu-a” {Mateus 5:17}, e a Sua obediência foi colocada para o crédito legal de todo o Seu povo {veja em Romanos 5:19}, de forma que eles agora, nEle sejam “feitos justiça de Deus.” {II Coríntios 5:21}.

A lei não somente exige obediência aos seus preceitos, mas requer a punição dos seus transgressores. Sua sentença imutável é “a alma que pecar, essa morrerá.” {Ezequiel 18:4}. Na medida em que o Próprio Deus declarou assim, e Ele “não pode mentir”, segue-se inevitavelmente que aonde quer que o pecado seja encontrado, certamente a morte, com tudo o quanto ela inclui, deve seguir-se. O Senhor afirmou expressamente que Ele “ao culpado não tem por inocente” {Êxodo 34:7}. A única saída para os transgressores da lei é que Outro sofra a pena em seu lugar. Sob o regime instituído por Deus, fosse Ele perdoar sem que satisfação fosse dada à Sua lei quebrada através de um Substituto receber a paga pelos pecados, então, Deus não somente atropelaria Sua própria lei, mas também desconsideraria Sua solene intimidação, e a Bíblia diz que Ele “não pode negar-se a si mesmo.” {II Timóteo 2:13}. Portanto, o Próprio Deus providenciou aquele sacrifício impressionante, sobre o qual caiu a justa penalidade da lei.

Para compreender-se corretamente a obra da Redenção, é de todo importante que tenhamos visão correta da lei de Deus, a qual o homem transgrediu, e o estado no qual ele, por rebelião, caiu. A lei de Deus aponta a tarefa do homem, exigindo dele aquilo que é correto e justo. Não pode ser alterada o mínimo que seja, para exigir mais ou menos. É, portanto, uma regra inalterável de retidão. Esta lei necessariamente implica, como sendo essencial a tal, em uma sanção e uma penalidade — uma penalidade exatamente adequada à magnitude do crime cometido pela transgressão da própria lei. Cada criatura que encontra-se sob a lei está obrigado através de infinitos comprometimentos, a obedece-la, sem o menor desvio da mesma, durante toda a sua existência. Mas ao transgredi-la, o homem justamente incorreu nas penalidades e caiu sob sua maldição: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las.” {Gálatas 3:10}.

Agora, a maldição sob a qual pecadores caíram, não pode ser removida, nem os transgressores libertados, até que satisfação completa a ela tenha sido proporcionada. Satisfação tal, que o transgressor por si mesmo é inteiramente incapaz de dar. “Por isso nenhuma carne será justificada diante dele, pelas obras da lei…” {Romanos 3:20}. Porque a lei de Deus é uma expressão imutável da Sua vontade e do Seu caráter moral, nem as suas demandas ou suas ameaças podem ser diminuídas. A autoridade da lei deve ser mantida. Perdoar sem uma justificação, sem uma satisfação à lei, seria agir contra a própria lei. Esta barreira insuperável no caminho da libertação do pecador é o que fundamente a relativa exigência de um Mediador e Salvador.

De maneira que a maldição da lei seja removida de sobre aquele que incorreu no anátema, ela deve recair sobre alguém outro, que seja feito maldição no lugar do primeiro. É neste ponto que as maravilhosas riquezas da graça Divina foram demonstradas. Não somente o Cristo de deus “nasceu sob a lei”, não somente Ele prestou obediência perfeita aos preceitos da lei, mas adicionalmente — Ó maravilha das maravilhas — Ele, “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós” {Gálatas 3:13}. A ele o Próprio Deus pré-ordenou e “propôs para propiciação pela fé no Seu sangue, para demonstrar a Sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da Sua justiça neste tempo presente, para que Ele seja [não simplesmente “misericordioso”, mas] Justo e Justificador daquele que tem fé em Jesus.” {Rm 3:25,26}.

3. A EXPIAÇÃO FOI EXIGIDA PELO PECADO

Ao declarar que a Expiação foi exigida pelo pecado, que não se suponha nem por um momento sequer que a entrada do pecado neste mundo tenha sido uma calamidade não antecipada pelo Criador, e que a Expiação seja a Sua forma de remediar um defeito da Sua obra da criação. Longe disso. Tão distante quanto a queda do homem tendo sido não prevista por Deus, o Cordeiro foi “conhecido, ainda antes da fundação do mundo” {veja em I Pedro 1:19, 20}. A tragédia no Éden não era desconhecida — por catástrofe, mas pré-vista e permitida por Deus, por Suas próprias e sábias razões. No, nós nos utilizados do termo “exigida” no título deste terceiro tópico no sentido de uma exigência condicional . Como tentamos mostrar no capítulo anterior; o motivo, a razão fundamental para todos os atos de Deus é encontrados nELE Próprio; e a razão, o motivo é sempre e sempre para a Sua própria glória. Mas “glória” é excelência manifesta, portando Deus engrandece, magnífica Sua glória manifestativa através do exercício e da exibição de Suas perfeições múltiplas.

Deus maravilhosamente usou o pecado como uma ocasião para demonstrar os Seus próprios atributos. Ele o utilizou como um cenário, um pano de fundo escuro, do qual brilhou de forma mais resplandecente as belezas da Sua sabedoria, Sua santidade, Sua fidelidade, Sua graça. Assim é que Ele usou a própria cólera do homem para o Seu louvor {veja em Salmo 76:10}. Deus é inefavelmente santo. Como tal, Ele é absolutamente livre de qualquer e de cada vestígio de poluição moral. Ele Se delicia com tudo quanto seja puro, e portanto Ele odeia o que quer que seja impuro: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar.” {Habacuque 1:13}. Agora, o pecado é diretamente oposto à santidade de Deus, pois o pecado é essencialmente impuro, imundo, abominável; portanto é objeto de Sua abominação contínua. Como então será a aversão, a repulsa de Deus para com o pecado demonstrada, a não ser pelo Sua punição do mesmo?

A Expiação relativamente exigida pelo pecado é óbvia de outras considerações. Tivesse a criatura nunca caído, ela nunca teria merecido o salário do pecado. Tivesse o homem nunca transgredido a lei de Deus, nenhuma satisfação teria sido exigida para a honra ultrajada da lei. Sendo o pecado ofensivo a ambas, à natureza e à lei de Deus, faz com que todos quantos o cometem estejam sujeitos ao Seu desprazer. Novamente; o pecado é uma grave desonra à glória manifesta de Deus {veja em Romanos 3:22}, um insulto direto direcionado à alta Majestade do Céu, e fosse o pecado perdoado sem uma satisfação adequada, seria o mesmo que dizer que Deus pode ser insultado com impunidade. Mas se a santidade de Deus exige que o pecado seja punido, se a lei de Deus exige que uma satisfação seja apresentada à sua honra, como os transgressores da lei podem possivelmente escapar? O pecado cavou um abismo entre Aquele que é três vezes Santo e os que se rebelaram contra Ele {veja em Isaías 59:2}. O homem é completa e inteiramente incapaz de tapar aquele abismo, ou de atravessá-lo.

Muito bem exclama Jó, “Porque Ele não é homem, como eu, a quem eu responda, vindo juntamente a juízo. Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós ambos.” {9:32,33}. Ah, um ”Árbitro”, um Mediador , alguém capaz de vir “entre nós”, é o que era tão urgentemente necessário, exigido. E do que carecia a condição terrível dos pecadores caídos, a inigualável graça de Deus graciosamente providenciou. Cristo é a resposta Divina à rebelião diabólica dos nossos primeiros pais. E em Cristo, e por intermédio de Cristo, cada atributo de Deus foi glorificado e satisfeita cada exigência de Sua lei. Através da encarnação, da vida e da morte, de Seu Filho sagrado, Deus mostrou a todas inteligências criadas que coisa terrível é o pecado, que horrível brecha foi criada por este entre o Próprio Deus e Suas criaturas, quão imparcial é a Sua justiça, que oceano de amor há em Seu coração ao ponto de promover a felicidade de Seu povo, e acima de tudo, Ele assegurou e antecipou Sua própria glória manifesta, pela honra prestada a todos os Seus atributos. Através da Expiação, Deus foi vindicado.

Mas que seja este o pensamento final do nosso capítulo: foi o pecado que exigiu a Expiação. Que cada leitor Cristão faça desse pensamento o seu próprio e individual pensamento: foram os meus pecados que trouxeram o eterno Filho de Deus a este mundo de escuridão e de morte. Não houvesse nenhum outro pecador além de mim, ainda assim Cristo certamente teria vindo aqui. Sim, foram meus terríveis e imperdoáveis pecados que fizeram com que o Senhor da glória se tornasse “o Homem de Aflições”. Foram os meus pecados que exigiram que o Amado do Pai descesse até tal incomensurável profundeza de vergonha de sofrimentos. Foi por minha causa que O inefavelmente Santo foi “feito maldição”. Foi por mim que Ele enfrentou a Cruz, sofreu a separação de Deus, e provou do amargor da morte. Ó, que possa a compreensão disso me fazer odiar o pecado , e clamar todo dia a Deus por libertação completa do mesmo. Que possa o entendimento de tão maravilhosa graça me constranger a viver somente para Ele, Aquele que “me amou, e Se entregou a Si mesmo por mim.” {Gálatas 2:20}.

CAPÍTULO 4: SEUS PRÉ-REQUISITOS

Antes de estarmos em posição de discernir o que foi requerido de forma a uma expiação ser feita pelos pecados dos crentes, ou mais especificamente, quais eram as qualificações que deviam ser possuídas por aquele que devesse render uma satisfação aceitável a Deus, é essencial que saibamos algo sobre a natureza real da própria Expiação. Isto é o que nos esforçaremos por definir no decorrer dos capítulos que imediatamente se seguem, mas, para calçar o caminho para uma consideração mais inteligente das perfeições do Mediador, delineemos resumidamente o que foi que Cristo veio fazer aqui. O Filho de Deus tornou-Se o Filho de homem para que os filhos dos homens pudessem tornar-se filhos de Deus. Mas estes filhos de homens não eram meramente criaturas, eles eram criaturas caídas e cheias de pecado, e tais como, detestáveis a Deus, e sob a condenação da Sua inexorável lei.

O pecado produziu, escavou um abismo profundo entre o santo Deus triúno e os filhos rebelados de Adão. Abismo esse que o homem não tem qualquer capacidade que seja para preencher ou atravessar. Não somente encontra-se ele alienado do seu Criador {veja em Efésios 4:18, “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração.”}, mas aquela lei por ele quebrada insiste numa reparação completa, e isto, o homem é incapaz de oferecer. Assim, seu caso é verdadeiramente desesperador. Sua única esperança, como procuramos mostrar no final do capítulo anterior, reside num mediador esposando sua causa, um mediador aceitável àquele Deus a quem o homem tão grosseiramente e tão dolorosamente ofendeu, um mediador que ao mesmo tempo seja qualificado e queira responsabilizar-se por ele. Mas onde encontrar-se-ia tal? Onde estava aquele que pudesse servir de ponte no terrível abismo causado pelo pecado, a quem pudessem ser confiados os interesses da Divindade, e que fosse capaz de representar aqueles que estavam, na escala de seres, tão longe, tão abaixo dELE?

“Mesmo que o homem tivesse permanecido imaculadamente inocente, ainda assim a sua condição seria por demais miserável para que ele pudesse se aproximar de Deus sem um Mediador. O que, então, pode ele fazer, após ter sido enterrado na more e no inferno, por sua queda fatal, manchado com tantas blasfêmias, apodrecendo-se em suas próprias corrupções; resumindo, sobrepujado e subjugado por cada maldição? Uma vez que as nossas iniqüidades, como uma nuvem se antepõem entre Deus e nós, alienando-nos completamente do céu, ninguém que não pudesse se aproximar de Deus poderia ser um mediador para a restauração da paz. Mas quem poderia se aproximar dELE? Poderia fazê-lo, algum dos filhos de Adão? Não; eles, com o seu primeiro pai, temiam a Divina presença. O que, então, poderia ser feito? Nossa situação era verdadeiramente deplorável, a menos que a própria majestade Divina descesse até nós; pois nós não podíamos ascender até Ela. Assim é que era necessário (como que nascendo do decreto celestial), que o Filho de Deus se tornasse Emanuel, que quer dizer, Deus conosco” (João Calvino, “Institutas da Religião Cristã”, Livro II, Capítulo XII).

Todavia, ao invés de remover a dificuldade, isso parece somente aumentá-la. Como indicamos acima, a expiação somente poderia levada a termo por intermédio de uma completa satisfação apresentada à Lei, e isso envolvia duas coisas: primeiro, uma perfeita obediência dada a todos os seus preceitos; segundo, um completo sofrimento de toda a sua dura punição. Mas como poderia uma Pessoa Divina ocupar o lugar de subserviência e tornar-Se sujeito às demandas da Lei? E novamente, como poderia uma Divina Pessoa sofrer e morrer? Isso parece ser um problema insolúvel, todavia a sabedoria Divina proveu uma solução gloriosa. Um dos Três Eternos, sem que de qualquer forma deixasse de ser Deus, tomou sobre Si a forma de um Servo e tornou-se Homem. A encarnação Divina foi levada a cabo de forma que a expiação do pecado fosse realizada. O Verbo eterno tornando-Se carne foi uma forma graciosa para um fim glorioso: foi para que Ele pudesse mediar entre Deus e o Seu povo.

Um mediador é aquele que intervém entre duas partes, que encontram-se em desacordo, e promove a paz. Ele deve por necessidade ser uma pessoa diferente de cada um dos que entre os quais é necessária a reconciliação; ele não pode nem ser a parte ofendida, nem a parte que tem ofendido. O lado ofendido pode perdoar o ofensor; mas em tal caso, um mediador não é necessário. O lado ofensor pode lamentar sua conduta, e honesta e sinceramente desejar que a paz seja feita; mas ele não pode ter acesso ao lado ofendido, ou este pode rejeitar suas aproximações, porque ele não julga a satisfação proferida ser adequada. Neste caso uma terceira parte pode interpor-se para ajustar a diferença, através da proposta de termos aos quais ambos lados (ofendido e ofensor) aquiescerão.

O que acabamos de apontar apresenta-nos mais uma dificuldade: não era Deus, o Filho, o lado ofendido pelo pecador, igualmente com o Pai e com o Espírito? Asseguradamente que sim, pois em Seu ser essencial, Ele é um com Eles. Mas as Escrituras Sagradas não somente revelam a unidade absoluta de natureza e de essência nas três Pessoas da Divindade, elas também revelam uma economia ou arranjo entre aquelas Pessoas, através da qual características e ofícios diferentes foram designados a cada Uma, e novas relações são sustentadas por Eles, para com cada Um entre Si e para conosco. Na economia da Redenção e da sua conexão para com o mundo, o Pai recorre, no papel de Governador Supremo dos céus e da terra, o Filho como Mediador, e o Espírito como o Aplicador da Redenção. No Seu ofício como Mediador, Cristo não pressiona as demandas de justiça contra os pecadores, mas Se apresenta como seu Amigo, resgatando-os de sua perigosa situação ao render cabal satisfação por eles seu Soberano ofendido.

“A exigência da mediação de Cristo advém da existência do pecado; o qual sendo contrário à natureza e à vontade revelada de Deus, transforma aqueles que o têm cometido em detestáveis ao Seu desprazer. Uma vez que eles não tinham como apaziguar Sua ira, a interposição de uma outra pessoa foi requisitada para reparar por sua culpa, e estabelecer a fundação da paz. Este é o grande plano do Seu ofício; mas se estende a todos os atos, através dos quais os pecadores são realmente trazidos a um estado de reconciliação, são capacitados a ter comunhão com Deus, e são elevados à perfeição e felicidade imutáveis no mundo porvir. Compreende os ofícios particulares nos quais nosso Salvador é representado como sustentando, o ofício profético, o ofício sacerdotal, e o ofício régio; e é por intermédio da execução destes que Ele completamente realiza as tarefas, e concretiza o caráter de um Mediador” (Dr. J. Dick). Que possamos agora especificar, esforçando-nos por apontar o que era necessário naquele que devesse propiciar a expiação pelos pecadores, a Deus.

1. O MEDIADOR DEVIA SER UM HOMEM

“O mediador entre Deus e os homens não pode ser somente Deus, ou somente homem. Isto nos é ensinado em {Gálatas 3:20}: ‘Ora, o medianeiro [mediador] não o é de um só, mas Deus é um.’. Supõe-se que para um mediador existam duas partes, entre as quais ele intervém; mas Deus é somente uma parte. Consequentemente, o Mediador entre Deus e os homens deve estar relacionado a ambos, e ser igual a cada um deles. Ele não pode ser simplesmente Deus, que é somente uma das partes, e tem somente uma natureza. Portanto, o Verbo eterno deve tomar a natureza humana em união conSigo mesmo, se ele for um mediador entre Deus e homens. Esta mesma verdade nos é ensinada em {I Samuel 2:25}: ‘Pecando homem contra homem, os juízes o julgarão; pecando, porém, o homem contra o Senhor, quem rogará por ele?’ e ‘Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste’ {Hebreus 10:5}.” (Dr. J. Shedd).

Relação de natureza para com aqueles por quem a Expiação foi feita é um elemento essencial na validade da mesma. Era necessário Cristo ser homem , no sentido real e próprio, tanto quanto verdadeiro Deus. Para qualificá-LO para a obra da redenção, Ele precisava possuir atributos opostos: uma natureza frágil e mortal, combinada com dignidade pessoal inefável. Humanidade era requisito para conformar o Messias com o sofrimento, para fazê-LO suscetível à dor e à morte, para tornar possível a Ele oferecer-Se a Si mesmo em sacrifício. Igualmente também era a possessão de natureza humana necessária de forma a validar o que Ele fez , a dar à Sua obediência e sofrimentos um valor essencial na avaliação da lei de Deus. Sendo a obra da nossa redenção uma satisfação moral para a lei de Deus pelos pecados dos homens, ali havia uma competência moral, que a satisfação devesse ser feita por alguém na natureza daqueles que haviam pecado. É impressionante notar nos tipos, nos símbolos, como tal redenção tivesse de ser efetuada por um parente consangüíneo próximo {veja em Levítico 25:25-27: “Quando teu irmão empobrecer e vender alguma parte da sua possessão, então virá o teu resgatador, seu parente, e resgatará o que vendeu seu irmão. E se alguém não tiver resgatador, porém conseguir o suficiente para o seu resgate, então contará os anos desde a sua venda, e o que ficar restituirá ao homem a quem a vendeu, e tornará à sua possessão.” e também em Rute 4:7: “Havia, pois, já de muito tempo este costume em Israel, quanto à remissão e permuta, para confirmar todo o negócio; o homem descalçava o sapato e o dava ao seu próximo; e isto era por testemunho em Israel.”}

A menos que o Próprio Redentor possuísse a natureza daqueles a serem redimidos, o governo moral de Deus não teria sido vindicado, nem a glória do Legislador Divino sido mantida, nem os princípios da lei sido sustentados. A lei em seu preceito era adequada ao homem, e em sua maldição demandava contra o homem. Suas exigências eram tais que somente o homem poderia satisfazer; sua punição tal que somente alguém possuindo a natureza de homem poderia suportar. A punição era sofrer até a morte ; e nenhum anjo podia morrer {Lucas 20:36: “Porque já não podem mais morrer; pois são iguais aos anjos}. A morte somente de um homem poderia possuir congruência moral e legal para com a causa de uma lei dada ao homem e quebrada por ele. Assim, não era somente para qualificá-LO para o sofrimento que o Messias tomou sobre Si a natureza humana, senão para qualificá-LO para tais sofrimentos, que tivessem validade aos olhos da lei Divina. “Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um . . . Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos . . . para expiar os pecados do povo.” {Hebreus 2:11,17}. “Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem.” {I Coríntios 15:21}.

A lei exigia que os a ela sujeitos amassem a Deus com toda sua alma e O servissem com todos os membros de seu corpo, uma vez que ambos pertencem a Deus. Agora, ninguém pode fazer isso senão o ser humano, que consiste de corpo e alma. E novamente; a lei exigia o amor para com o nosso próximo, mas ninguém é nosso próximo que não seja humano, que tem o mesmo sangue que nós: então, por conseguinte, a força daquelas palavras — “e não te escondas da tua carne” {Isaías 58:7}. Portanto aquele que é a nossa Garantia deve amar-nos e querer-nos tanto quanto alguém o faz para com a sua própria carne, e consequentemente nós temos de ser “membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos.” {Efésios 5:30}. Portanto, uniu o Espírito Santo estas duas coisas juntas, com relação a Cristo: “ nascido de mulher, nascido sob a lei.” {Gálatas 4:4}, declarando que o fim principal da Sua encarnação era que Ele estivesse sujeito à lei.

“Não é sem razão que Paulo, quando inquirido a mostrar Cristo no caráter de um Mediador, expressamente fala dEle como um homem: ‘Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.’ {I Timóteo 2:5}. Ele poderia tê-LO chamado Deus, ou poderia de fato haver omitido a designação de ‘homem’, tanto quanto a de Deus; mas porque o Espírito, que falou através dele conhece a nossa debilidade, Ele proveu-nos um medicamento muito apropriado contra tal fraqueza, ao colocar o Filho de Deus familiarmente entre nós (Christians, A.W.P.) como se Ele fosse um de nós. Portanto, que ninguém se perturbe quanto a aonde procurar o Mediador, ou de que forma possa se aproximar DELE. O apóstolo, ao denominá-LO homem, nos alerta de que Ele está próximo, e mesmo perto de nós, já que ele é a nossa própria carne. Certamente que sua intenção é a mesma, em Hebreus 4:15.” (João Calvino).

2. O MEDIADOR DEVIA SER SEM PECADO

Aquele que faz a expiação por outros, deve ser ele mesmo inteiramente livre daquilo que torna a expiação necessária. O que fez a expiação necessária foi o pecado. O redentor deve ser sem pecado, do contrário ele necessitaria de redenção. Um pecador não pode expiar seus próprios pecados, ainda menos pode ele ser o salvador de outros. Assim, era um pré-requisito primário que a vítima substitutiva devesse ela mesma ser imaculada, pura. Isso foi plenamente prenunciado nos tipos [N.T. tipos mostrados no Antigo Testamento]. O cordeiro usado no sacrifício devia ser “sem defeito”. A novilha ruiva não somente devia ser sem defeito, mas também uma rês que “ sobre a qual não tenha sido posto jugo.” {Números 19:2}. Do sumo sacerdote Levítico era exigido possuir um grau elevado de pureza cerimonial.

“Obrigação legal para com a maldição pode surgir de uma ou de ambas coisas: ou de ser nascido sob a maldição, o que é equivalente a dizer, o pecado original; ou de vir a estar exposto à punição em conseqüência de uma quebra pessoal dos requerimentos e preceitos da lei, ou seja, por real transgressão. Infantes da raça humana encontram-se na primeira condição; os adultos, em ambas; mas Jesus não estava nem em uma nem em outra” (Dr. W. Symington em “The Atonement” , 1854). Jesus nunca esteve sob o pacto Adâmico, e portanto o pecado do nosso primeiro pai nunca Lhe foi imposto. Ele foi sobrenaturalmente concebido de uma virgem, e portanto, o vírus do pecado nunca entrou em Suas veias.

3. O MEDIADOR DEVIA SER SANTO

Mais do que uma natureza sem pecado era exigido pelo Redentor. Satã foi, originalmente, criado sem pecado; ainda assim ele caiu. Adão não tinha nenhuma impureza em sua natureza quando ele saiu das mãos do Seu Criador, todavia transgrediu. Mas Jesus Cristo não era meramente negativamente sem pecado, Ele era, em Sua própria humanidade, positivamente santo — “ por isso também o Santo, que de ti há de nascer” {Lucas 1:35}, foram as palavras de Deus para a Sua mãe. É impressionante e abençoado notar que quando o Espírito Santo demonstra, do lado humano, as perfeições pessoais do nosso Sumo Sacerdote, Ele fala dELE primeiro como “santo”, o que refere-se à excelência intrínseca de Sua natureza; depois como “inocente”, o que remonta à Sua total liberdade do pecado com relação à sua conduta; “sem mácula”, que denota a pureza absoluta de Sua qualificação e administração oficiais {conforme Hebreus 7:26, “Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus.”}. A pureza intrínseca e não poluída do Mediador era necessária à aceitação das Suas funções.

O Dr. Dick com muita beleza, chamou a atenção para, “Ele manteve esta pureza primitiva durante o curso de Sua vida, conversando e se associando familiarmente com pecadores, mas não aprendendo os seus modos. Ele morreu, de fato, como um criminoso, mas Ele morreu por pecados que não os Seus próprios: Ele sofreu, ‘ o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus” {I Pedro 3:18}. Não, Ele não estava somente livre de transgressão real, Ele era incapaz de pecar; tão fortificado contra tentação, que Ele não poderia ser seduzido… Ele permaneceu firme durante a mais dura prova. Nenhum argumento, conquanto astuto, poderia confundir o Seu raciocínio; nenhum aliciamento, conquanto poderoso, poderia seduzir as Suas afeições. Satã esgotou suas artimanhas contra Ele, em vão.” A o que podemos acrescentar: Ele tocou o leproso, mas permaneceu incontaminado. Ele veio a ter contato com a morte, mas permaneceu imaculado. Ele carregou nossos pecados em Seu próprio corpo, no madeiro, todavia foi o “Santo”, sem mancha, que foi deitado na tumba {conforme Salmo 16:10}.

4. O MEDIADOR DEVIA SER MESTRE DE SI MESMO

Aquele cuja obra é reconciliar duas partes em litígio, não deve estar sob nenhuma obrigação pessoal para com nenhuma delas. Ninguém poderia oferecer uma satisfação à lei se ele próprio estivesse em débito para com ela. Um mediador deve ser independente, tendo completo poder sobre si mesmo, possuindo completo direito de agir representando a outros. Aqueles que estão sujeitos à autoridade de outrem não podem dispor de si mesmos e de suas funções sem o seu consentimento. Agora, anjos e homens são a absoluta propriedade de seu Criador, e devem aguardar pelo Seu comando antes que possam arriscar ocupar-se com qualquer iniciativa não compreendida na lei original da sua natureza. A vida do homem é dom de Deus, e não deve ser jogada fora nem capitulada, não importa que bem possa ser apreendido do sacrifício, sem a direta permissão dAquele que a deu. Numa palavra, um Mediador entre Deus e os homens devia ter todo o poder sobre a Sua própria vida, para dá-La e tomá-La novamente.

“Não é o bastante que o substituto seja inocente, seja livre das demandas da lei à qual ele dá satisfação por outros. Ele pode estar sob obrigações para com outra lei, a satisfação de quais demandas pode impossibilitar a ocupação do lugar de garantia, de ‘afiançador’. Todo o seu tempo e energia podem estar assim, como se de fato o estivessem, previamente engajados, de forma a exaurir todo o poder para fazer um a transferência mínima que seja, daqueles, em benefício de outros. Isto é, de fato, o caso de todas as criaturas. Quaisquer funções que elas sejam capazes de performar, elas devem originalmente e necessariamente a Deus. Elas são, de acordo com a sua própria natureza, incapazes de qualquer mérito por si mesmas , muito menos por outros . O direito da auto-doação não pertence a criaturas. Elas mesmas e tudo quanto se refere a elas, são de propriedade DELE, quem as fez e as preserva. Elas encontram-se sob a lei para com Deus. Elas não estão sob a aliança que Deus fez com o homem, certamente; mas a lei sob a qual elas existem demanda todas as suas energias, tal lei tem uma demanda para com elas referente à totalidade das funções as quais elas são capazes de executar, e assim nega-lhes por completo o direito de propiciar satisfação a uma outra lei, no lugar de uma ordem diferente de criaturas.” (Dr. W. Wymington).

5. O MEDIADOR DEVIA AGIR VOLUNTARIAMENTE

Isso é tão evidente que deveria não precisar ser discutido. Sem esta qualificação, todas as demais seriam inúteis. Que um mediador indicado seja tão dignificado em sua pessoa, que ele seja o mais intimamente relacionado com o homem, que ele seja inteira e completamente livre de toda contaminação moral, que ele seja e esteja completamente à sua própria disposição; ainda assim é manifesto que, a menos que ele assim escolha na realidade dispor de si mesmo pelo bem de outros, nenhuma validade poderia ser ligada a o que ele fizesse. Satisfação vicária nunca pode ser compulsória: a voluntariedade entra na sua própria essência. C ompelir alguém a sofrer por outro seria o cúmulo da injustiça. Ademais, Deus não aceitará nenhum sacrifício que seja relutantemente Lhe ofertado: o coração deve estar nisso: “ Dá-me, filho meu, o teu coração” {Provérbios 23.26}, que é o Seu primeiro pedido aos Seus filhos, pois quando Ele tem o coração , Ele tem tudo.

De forma inexpressivelmente abençoada é observar o quão cabalmente e o qual frequentemente esse mesmo elemento é visto no grande Mediador. À proposta na aliança eterna Ele assentiu alegremente: “ Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito, Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu” {Salmo 40:7,8}. Em tudo o que Ele fez para completar a expiação pelo pecado, o Senhor Jesus manifestou nenhum grau de relutância qualquer que fosse. Seu alimento era a vontade do Pai {“A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra”, João 4:34}. Ele “Foi levado [não “guiado”] como a ovelha para o matadouro” {Atos 8:32}; Ele “As minhas costas ofereci aos que me feriam, e a minha face aos que me arrancavam os cabelos; não escondi a minha face dos que me afrontavam e me cuspiam” {Isaías 50:6}. Ele “derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores” {Isaías 53:12}; Ele “entregou o espírito” {João 19:30}. Que o leitor interessado abra sua Bíblia no livro de Cantares de Salomão e observe com atenção o quão abençoadamente Ele está ali representado como “pulando” e “saltando” sobre os montes de separação à medida em que Ele apressa-Se por Seu povo!

6. O MEDIADOR DEVIA ESTAR FEDERALMENTE UNIDO AO SEU POVO

Em sua defesa da Satisfação de Cristo, Turretin indicou como existem três tipos de união que nos são conhecidas nas relações humanas, as quais justificam a imputação do pecado uma a outra; natural, como entre um pai e seu filho; moral e política, como ente um soberano e seus vassalos; voluntária, como entre amigos, ou entre um criminoso denunciado e seu responsável. Mas a união de Cristo com o Seu povo apóia-se num patamar muito mais forte do que qualquer um desses já considerados. Foi voluntária de Sua parte, pois Ele espontaneamente assumiu todas as obrigações as quais sofreu. Mas também foi uma ordenação pactual , decretada pelas três Pessoas Divinas em conselho, das quais os comandos são a única fundação de toda a lei, todos os direitos, e para todas as obrigações. “As Escrituras Sagradas ensinam plenamente que Deus estabeleceu entre Cristo e Seu povo uma união sui-generis , transcendendo a todas analogias terrenas em sua intimidade de irmandade e de co-associação recíproca, ambas, vital e federal.” (Dr. C. Hodge).

A posição intermediadora assumida por Cristo e a obra redentora a qual Ele concretizou não podem ser corretamente compreendidas até que sejam vistas em conexão com a
Aliança Eterna. Não é difícil ver que a morte na Cruz somente foi tornada possível para o Filho de Deus através do Seu tornar-Se homem. Mas nós precisamos voltar mais atrás e perguntar, Qual foi a relação entre Cristo e o Seu povo que fez com que Ele Se encarnasse e morresse por eles? Não é suficiente dizer que Ele foi a sua Fiança para com o Legislador e Juiz ofendido. Mas o que tornou apropriado que Ele devesse ocupar tal lugar? Nenhuma resposta satisfatória pode ser dada, até que voltemos diretamente até os conselhos de Deus. A Unidade pactual dá conta de tudo, justifica tudo, explica tudo.

Cristo foi substituto por Seu povo porque ele era e é um com eles — identificado conosco e nós com Ele; não simplesmente como decretado pela soberana autoridade de Deus, mas como pactuado entre o Pai eterno e o eterno Filho. Cristo “suportou os pecados de muitos” porque em Sua identificação pactual com eles, os pecados deles tornaram-se, não meritoriamente mas verdadeiramente Seus; e para com os filhos e filhas do pacto, o Pai acusa a justiça de Seu Filho, porque, em sua unidade pactual com Ele, a Sua justiça é imerecida mas verdadeiramente a própria justiça deles. Isto por si só explica toda a história de Cristo como o Filho encarnado de Deus; toda a Sua interposição como o Salvador de Seu povo; e estabelece a carreira de Cristo na terra em sua verdadeira relação para com o propósito eterno de Deus. Em sua plenitude, como sustentado nos clientes do pacto tanto quanto na Cabeça do pacto, é o instrumento formal através do qual a fé vem em posse certa do Próprio Cristo, e das benesses da redenção.

Cristo é expressamente denominado de “o último Adão” {veja em I Coríntios 15:45, “ Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante.”}, e portando nos é dito que o primeiro Adão era “a figura daquele que havia de vir.” {conforme Romanos 5:14}. Adão era uma “figura” de Cristo em um bom número de formas, mas supremamente nesta, que ele colocou-se como o cabeça federal de uma raça. Deus firmou um pacto com ele {Oséias 6:7, “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim.”}, e portanto ele permaneceu e caiu como o representante legal de toda sua família: quando ele pecou, eles pecaram. Quando ele morreu, eles morreram {veja em Romanos 5:12-19}. Assim também foi com o “último Adão”: Ele permaneceu como o Cabeça pactual e Representante federal de todo o Seu povo, estando sendo legalmente um com eles, de modo que Ele assumiu e desvencilhou-os de todas as suas responsabilidades. O nascimento de Cristo foi o início da manifestação começada, da eterna união entre Ele e o Seu povo.

Na Aliança, Cristo disse ao Pai, “ Anunciarei o teu nome a meus irmãos,Cantar-te-ei louvores no meio da congregação. E outra vez: Porei nele a minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu.” {Hebreus 2:12,13}. De maneira muitíssimo abençoada esta verdade é explicada no que imediatamente se segue: “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas,” e portanto, “não se envergonha de lhes chamar irmãos” {Hebreus 2:11}. Federação é a raiz desta aliança, maravilhosa graça — identificação é a chave que a explica. Cristo veio não para estranhos, mas para “irmãos”; Ele aqui veio não à procura de pessoas para Si, mas para afiançar um povo já Seu {veja em Efésios 1:4, “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo” ; Mateus 1:21, “E dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.”}.

Uma vez que união tal existiu entre Cristo e Seu povo desde toda a eternidade, seguiu-se inevitavelmente que, quando Ele veio à terra, Ele devia suportar os seus pecados, e agora que Ele subiu ao céu, eles devem vestir-se {veja em Isaías 61:10} com toda a recompensa de Sua perfeita obediência. Este é entre tudo o esteio mais forte nos muros da Verdade, ainda assim aquele que mais frequentemente assaltado pelos inimigos. Homens têm argumentado que a punição do Inocente como se Ele fosse culpado foi um ultraje à justiça. Na esfera humana, castigar um homem por algo que ele não é responsável nem culpado, é, além de qualquer questionamento, injusto. Mas este princípio não se aplicou a Cristo, pois Ele identificou-SE voluntariamente com Seu povo de modo tão íntimo que poderia ser dito, “ Porque, assim O que santifica, como os que são santificados, são todos de um ” {Hebreus 2:11}.

Quando dizemos que a união entre Cristo e Seu povo é uma união federal , queremos dizer que é de natureza tal que envolve uma identificação de relações legais e de obrigações e direitos recíprocos: “ … pela obediência de um muitos serão feitos justos.” {Romanos 5:19}. Os eleitos de Deus foram “escolhidos em Cristo” {Efésios 1:4}. Foram “criados em Cristo Jesus ” {Efésios 2:10}. Foram circuncidados nELE {Colossenses 2:11}. São “feitos a justiça de Deus nELE ” {II Coríntios 5:21}. À vista desta união inefável, a Bíblia não hesita em dizer que, “somos membros do seu corpo , da sua carne, e dos seus ossos. {Efésios 5:30}.

7. O MEDIADOR DEVIA SER DIVINO

Pense na obra que o Mediador teve de executar. Ele tinha de restaurar ao favor Divino aqueles que estavam sob a maldição. Ele tinha de render à lei uma obediência que aquele criado sem pecado (Adão) havia falhado em executar. DELE foi exigido apresentar a Deus uma satisfação que tivesse méritos infinitos , que proporcionasse infinitas bênçãos para Seu povo. Isto, uma criatura finita não poderia fazê-lo. Ele devia suportar todo o peso da ira de Deus derramada sobre todos os pecados de Seu povo, pecados que estavam se concentravam na Fiança. Ele tinha de vencer o Diabo, de modo a resgatar seus cativos. Ele devia submeter o pecado, de modo que seu aguilhão fosse destruído. Ele devia engolir a morte e conceder vida eterna a todos aqueles que o Pai Lhe havia dado. Finalmente, Ele devia dar o Espírito Santo ao Seu povo, que lhes executaria a redenção comprada. Quem, exceto uma pessoa Divina era competente para tamanha tarefa?

Novamente; pense no que foi efetuado pela obra do Mediador. Ela restaurou ao povo de Deus a verdadeira liberdade {Gálatas 5:1}. Agora, como corretamente indicado por Witsius, se qualquer mera criatura , conquanto exaltada, nos tivesse redimido, nós nos teríamos tornado propriedade pessoal daquela criatura, pois aquele que nos liberta nos compra para sua possessão {I Coríntios 6:19,20}. Mas é uma contradição manifesta, ser libertado e ser livre, e todavia ao mesmo tempo ainda ser propriedade de qualquer criatura, pois a verdadeira liberdade consiste em única sujeição. Assim, o nosso Senhor diz que, “ Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” {João 8:36}. E novamente; para os redimidos se gloriarem em quem quer que seja como seu Salvador, dizer a Ele, “Tu és nosso Senhor”, render-lhe respeito adorador, é honra à qual nenhuma mera criatura poderia o menor direito que fosse. Assim, o Mediador devia ser uma pessoa Divina.

“ Porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire os pecados.” {Hebreus 10:4}. Por que? Em primeiro lugar, aqueles sacrifícios típicos não poderiam, na sua própria natureza, magnificar os preceitos da lei: eles eram totalmente incapazes de render aquela perfeita obediência que era exigida. Nem, em segundo lugar, poderiam eles suportar por completo a penalidade da lei. “Nem todo o Líbano basta para o fogo, nem os seus animais bastam para holocaustos.” {Isaías 40:16}. As chamas da ira de Deus aniquilariam completamente o gado por sobre mil outeiros, e ainda esperariam por algo mais o que consumir. Portanto, Deus pôs “o socorro sobre um que é poderoso ” {Salmo 89:19}. Cristo era capaz não somente de cumprir perfeitamente a lei, mas de sofrer a plena extensão de seu curso completo.

É “o altar que santifica a oferta” {Mt. 23:19}, a referência aqui sendo feita ao tipo enunciado em Ex. 29:37: “ e o altar será santíssimo; tudo o que tocar o altar será santo.” Sobre isso, bem disse o Dr. T. Ridgley (1815), “De onde se conclui, que o altar era mais santo que a oferta colocada sobre ele, e isso significa, que o altar no qual Cristo foi oferecido, acrescentou uma excelência ao Seu sacrifício. Agora não se poderia dizer que nada mais o fizesse, a não ser a Sua natureza divina estando pessoalmente unida à Sua humanidade, o que a tornou infinitamente valiosa.” Por esta razão, o propiciatório não foi feito de madeira, mas de “ouro puro” {Ex. 25:17, “Também farás um propiciatório de ouro puro; o seu comprimento será de dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio.”}.

Quão frequentemente o Espírito Santo dá ênfase suprema a este fato. Antes Ele nos diz em Hebreus 1 que Cristo, “ havendo ele mesmo feito a purificação dos pecados”, Ele primeiro apresenta este Sofredor vicário como o “Filho” de Deus, o “Herdeiro de todas as coisas”, o “resplendor da glória de Deus”, sim, a “expressa imagem do Seu Ser”! Também no capítulo 2 da Epístola aos Filipenses, Aquele “que humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte” nos é primeiramente apresentado como Aquele que subsistiu “em forma de Deus”, e que “não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar”. Também, novamente, no primeiro capítulo da carta aos Colossenses, Ele é descrito como o Criador de todas as coisas {v. 16}, onde lemos também acerca da paz que Ele fez pelo sangue da Sua Cruz {v. 20}. E isso é porque Cristo era Aquele que deu um valor infinito a o que fez.

Fechamos esse capítulo um tanto longo, com as palavras conclusivas do Dr. Symington neste assunto cativante: “Da perfeição de Sua expiação, que surge das circunstâncias especificadas como acima, isto procede, que Ele intercede por nós dentro do véu do santuário superior, que Ele dispensa com mão generosa os dons da Sua aquisição e faz com que sejam divididos os despojos de um grande saque. E perdão e paz, redenção e santidade, glória e gozo eternos estejam, entre os ricos frutos da conquista real e triunfal que Ele alcançou, quando por intermédio da Sua infinitamente meritória morte, Ele derrotou principados e potestades, e deles fez espetáculo aberto. Com a mais completa confiança, então, que possa o necessitado pecador, golpeado com o mais profundo senso de consciente indignidade, depender desta toda suficiente expiação para a sua salvação.”

CAPÍTULO 5: SUA NATUREZA


Uma concepção inadequada da enormidade terrível do pecado resulta, necessariamente, numa visão falha da Expiação. Na leitura da grande quantidade de livros que foram escritos a intervalos variados durante os últimos quatrocentos anos, somos golpeados pelo fato de que lado a lado com a atenuação da imensurável odiosidade do pecado, tem havido também um retalhamento, um rebaixamento das características mais essenciais compreendidas na natureza da obra redentora de Cristo. O mais superficialmente que o pecado seja considerado, menos aparecerá a necessidade de tarefa tão estupenda como aquela a qual o Filho de Deus assumiu e triunfantemente desempenhou. O pecado é um mal de magnitude infinita , pois é cometido contra uma Pessoa infinita , para com quem cada criatura encontra-se sob obrigações infinitas de render prazeirosa e incessante obediência. É por isso que o castigo de Deus ao pecado não redimido será eterno . Necessariamente assim, pois nada menos se adequará ao caso, nada menos satisfará a justiça Divina. E é por isso que Deus não poderia receber satisfação alguma para com a Sua lei quebrada, exceto se de alguém que possuísse infinitos méritos.

A passagem em Romanos 3:23 define o pecado como “destituição da glória de Deus”, i.e., da Sua glória declarativa e manifesta. Pecado é a falha em render a Deus aquilo que é de direito à Sua alta honra, a saber, respeito e tributo constantes, perfeitos, implícitos. As bem-aventuranças essenciais de Deus não podem ser atacadas pela criatura: onde assim LHE aprouver, bastar-LHE-ia simplesmente balbuciar as palavras, e cada rebelde em todo o universo deixaria imediatamente de existir. Mas a Sua glória afirmativa pode sim, ser atacada pelos nossos pecados. O pecado desonra a Deus, e o homem caído é completamente incapaz de restaurar-LHE a honra, e todavia essa incapacidade para fazê-lo é criminosa e aumenta a sua culpa. Não somente o pecado desonra a Deus, mas também não pode ser perdoado por Ele nem o transgressor absolvido, até que cada exigência da lei seja cumprida. Isso, a criatura não pode fazer. Como mostramos no capítulo anterior, ninguém exceto um mediador que fosse tão Divino quanto humano, era competente para render plena satisfação a Deus. E isso foi o que Cristo fez: A Sua Expiação trouxe de volta à glória declarativa de Deus o benefício de honra e de louvor que LHE é devido.

Mas a vida e a morte de Cristo são fatos históricos, que são, praticamente, universalmente admitidos, mas a “ palavra da cruz” {como escrita em I Coríntios 1:18}, ou seja, a explicação Bíblica de Sua obra expiadora, é assunto puramente de revelação Divina, e deve ser recebida com humildade inconteste e dela depender com segurança pacífica, simplesmente porque nos é dada a conhecer pela autoridade de Deus. Raciocínios e argumentos, aqui, são inteiramente vãos, e especulações são profanas. Ademais, como proclamamos no capítulo inicial, todas tentativas de ilustrar , a partir de supostas analogias humanas, desonram a Deus e pervertem a Sua Verdade de modo grosseiro. A obra redentora de Cristo é única. Ela permanece só, em sua magnificência solitária. Não há nada em toda história que de alguma forma lhe seja semelhante. Quanto um pregador tenta “simplificar” o mistério das três Pessoas da Trindade através de alguma ilustração da “natureza”, ele somente demonstra a sua própria tolice, e a ninguém auxilia. Assim também, cada esforço para explicar a Expiação com o auxílio do que quer que seja, fora das Sagradas Escrituras, é somente voltar da luz para as trevas. Os mistérios Divinos não podem ser compreendidos por intermédio de qualquer coisa que se esteja no escopo dos nossos sentidos físicos.

Com razão foi dito que “a exatidão dos termos esclarece os pensamentos”, a o que podemos acrescentar, A precisão, a exatidão do pensamento é essencial a uma correta visão de qualquer porção da Verdade, e visão correta da Verdade é honrosa a Deus. Portanto, nenhum esforço deve ser poupado na busca por alcançar a mais alta possível precisão de linguagem, quando aspirando expor as coisas de Deus. Muitas vezes um leitor somente obtém uma visão nublada de um assunto, porque o escritor confundiu os efeitos com a natureza daquilo com o que lidava em seus escritos. Por exemplo, certeza de salvação é um dos frutos da fé (tanto quanto um dom do Espírito), todavia tem sido considerado como um elemento essencial da própria fé. Em conseqüência, porque lhes faltou segurança, alguns verdadeiros Cristãos mergulharam no que Bunyan temia ser o Lamaçal de Desânimo, por imaginarem que não estavam salvos. Semelhantemente, muitos escritores versando sobre a Expiação têm descuidadamente misturado alguns dos seus principais efeitos e frutos, com a sua própria natureza.

Um exemplo pertinente do que acabamos de dizer é visto na agora quase idéia corrente, de que a Expiação de Cristo significa “o colocar juntos, Deus e o pecador” { N.T. o escritor utilizou um jogo de palavras, desmembrando o termo em Inglês “Atonement” — Expiação, em “At-one-ment”, que traduzido ao pé da letra significaria mais ou menos “em uma fábula” } . Mas este não é de forma alguma o significado do termo, seja utilizado pelas Sagradas Escrituras ou empregado em obras teológicas seguras, confiáveis. A reconciliação é um dos muitos efeitos ou frutos da Expiação de Cristo, mas não se constitui parte da obra que ele perpetrou. Muitos outros têm falhado em distinguir entre a Expiação de Cristo e a Redenção, que é um dos seus frutos. É de vital importância distinguir entre o que Cristo fez e o que resultou a partir dali. Para compreender o que Ele fez, vamos agora tentar definir a natureza da Sua Expiação.

1. FOI UMA OBRA FEDERAL

Ao empregar o termo “federal”, queremos dizer que havia uma unidade oficial existindo entre o Mediador e aqueles por quem Ele mediou, ou, numa linguagem mais simples, que existe uma união legal entre Cristo e Seu povo. “Quando, no Velho Testamento, aos eleitos é feita referência como a parte com a qual Deus faz uma aliança, eles tão vistos como estando em Cristo, e sendo um com Ele. A aliança não é feita deles somente, e enquanto separados de Cristo. Isso nos é ensinado na carta aos Gálatas, 3:16, ‘ Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.’ Os eleitos são aqui (como também em I Coríntios 12:12) chamados de ‘Cristo’, por causa da união entre Cristo e os eleitos. E de maneira similar, quando de Cristo, conforme em Isaías 42:1-6 é dito ser a parte com a qual o Pai tem aliança, os eleitos devem ser enxergados como estando nELE. Tão unidos e um com Ele, que o Seu sofrimento expiador é visto como sendo o seu sofrimento expiador, ‘estou crucificado com Cristo’ {Gálatas 2:20}.” — (Wm. Shedd, 1889).

“Cristo não é somente o Substituto, mas a Fiança do Seu povo. O Evangelho está alicerçado no fato de que Adão e Cristo são cabeças pactuais e representantes de suas respectivas famílias. Por conseguinte, são ambos denominados de “o primeiro homem” e “o Segundo homem” {conforme em I Coríntios 15:47}, como se não tivesse havido ninguém mais a não ser eles, pois os filhos de cada um eram inteiramente dependentes de seus cabeças. Em Adão todos eles morrem; em Cristo todos eles são vivificados {leia em I Coríntios 15:22}. O primeiro “todos” refere-se e inclui cada indivíduo da espécie humana, enquanto que o segundo “todos” é explicado pelo apóstolo com sendo “os que são de Cristo” {I Coríntios 15:23}.” — (James Haldane, Doutrina da Expiação ).

Foi como o cabeça dos Seus eleitos que Deus comprometeu-se, fez aliança com Cristo, de modo que, num sentido muito real, tal aliança foi também feita com eles. Isto é o que explica todas aquelas passagens que falam da unidade dos santos com Cristo, como se, estivessem “crucificados com Cristo” {Gálatas 2:20}, “morrido com Ele” {Romanos 6:8}, tivessem sido “sepultados com Ele” conforme simboliza o batismo escritural {veja em Romanos 6:8}, houvessem sido “ressuscitados com Ele” {como Colossenses 2:12}, “elevados com Ele” {conforme Efésios 2:6}, e tivessem sido feitos “assentarem-se nos lugares celestiais, em Cristo Jesus ” {como declarado em Efésios 2:6}. Então eles eram legalmente um com Ele, e Ele com eles, em tudo o quanto Ele fez para render satisfação completa a Deus. Neste ponto que é vitalmente importante, não podemos fazer melhor do que dar uma sinopse da última seção do capítulo dois da inestimável obra de H. Martin:

Como podemos nós formular e estabelecer a relação subsistente entre Cristo e os Seus, como Redentor e redimidos, a menos que voltemos atrás, para a doutrina do Pacto? Alguma relação, é evidente, deve ser reconhecida como subsistindo entre Cristo e aqueles no lugar de quem Ele morre, do contrário nem de longe nos aproximamos da idéia de um sacrifício vicário. A possibilidade de real expiação absolutamente postula, e requer, uma conjuntura, uma combinação entre Aquele que expia e aqueles por quem a Sua expiação está disponível. Isto está além da necessidade de alguma prova. E como existe uma obrigatoriedade de alguma conjuntura ou relação, então na busca da conjunção ou relação que verdadeiramente subsiste, nossa busca não pode terminar satisfatoriamente até que tenhamos encontrado e reconhecido a unidade pactual. A mesma razão que demanda uma relação, permanece insatisfeita até que se encontre com esta relação.”

Não satisfaz as necessidade do caso referir-se à união entre Cristo e Seu povo, a qual é efetivada na sua regeneração, pela agência do Espírito Santo e a instrumentalidade daquela fé, que é o Seu dom. Verdade, é indispensável antes que qualquer um possa desfrutar de quaisquer das bênçãos da compra efetuada por Cristo. Mas deve ter havido uma relação entre Cristo e o Seu povo antes que Ele os resgatasse. Tampouco são as necessidades do caso satisfeitas, ao referir-se à Encarnação. Verdade, o Redentor devia tomar sobre Si carne e sangue antes que Ele pudesse redimi-los, mas ainda assim deve haver um laço de união mais íntima do que aquele que Cristo tem, com os salvos e os não salvos. Ele apoderou-se da “semente de Abraão ” {conforme em Hebreus 2:16}, não da “semente de Adão”! Nem seria suficiente dizer que a relação é aquela de fiança e de substituição, pois a pergunta ainda pende de resposta, O que adequou e tornou justo, que o Filho de Deus devesse sofrer por outros, o Santo ser feito pecado? É até este ponto que a investigação deve ser afunilada.

Cristo foi a Fiança de Seu povo porque Ele era o seu Substituto. Ele agiu por eles porque Ele se colocou em seu lugar. A relação de um substituto justifica a Fiança; mas o que justificará a substituição? Eis aqui o eixo sobre o qual tudo gira. Nós concordamos de coração com o Dr. Martin, quando ele diz, “Não podemos obter satisfação alguma neste ponto, nenhuma resposta suficiente a esta questão, e portanto nenhuma conclusão satisfatória a toda a nossa linha de investigação, até que a doutrina da sempiterna unidade-pactual venha à tona. Aquela é a sublime relação. Aquela é a sublime e principal conjunção entre o Redentor e os redimidos, que sozinha suporta e responsabiliza-se por tudo o mais com respeito à relação que pode estabelecida como verdadeira, no que a eles se refere. ‘ Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos.’ {Hebreus 2:11}. Ele nos substituiu, porque Ele é um conosco — identificado conosco, e nós com Ele.”

Promovido por infinito amor, Cristo, como o homem-Deus, aceitou livremente os temos da Aliança Eterna, que foi proposta a Ele, e voluntariamente assumiu todas as responsabilidades legais por Seu povo. Como seu Cabeça, Ele veio à terra, viveu, sofreu e morreu como seu Representante vicário. Ele obedeceu e sofreu como seu Substituto. Através da Sua obediência e dor, Ele os desencarregou de todas as suas obrigações. Seus sofrimentos dispensaram o castigo da lei, e Sua obediência mereceu bênçãos infinitas para eles. A passagem em Romanos 5:12-19 afirma de modo explícito que os eleitos de Deus são, legalmente, “feitos justos”, em precisamente o mesmo princípio pelo qual eles primeiro foram “feitos pecadores”. “Nossa união com Cristo é da mesma ordem, e envolve a mesma classe de efeitos, como a nossa união com Adão. Nós a chamamos uma união, tanto federal como vital . Outros podem chamá-la como lhes aprouver, mas não obstante permanecerá certo que trata-se de união de natureza tal, como para envolver uma identidade de relações legais e de obrigações e direitos recíprocos” (A. A. Hodge). “ Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” {Romanos 5:19} — “para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” {II Coríntios 5:21}.

Mais de mil anos atrás, Agostinho observou que, “Tal é a inefável proximidade desta união transcendental, que ouvimos a voz dos membros sofrendo, quando eles sofreram em seu Cabeça , e clamaram através do Cabeça, na cruz, ‘Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?’ {Mateus 27:46}. E, de maneira similar, nós ouvimos a voz do Cabeça sofrendo, quando Ele sofreu em Seus membros, e clamou ao perseguidor no caminho de Damasco, ‘Saulo, Saulo, porque me persegues?’ {Atos 9:4}.

A relação federal de Cristo para com o Seu povo era uma relação real, na qual o Deus infalível considerou justo punir Cristo pelos pecados do Seu povo, e creditá-los com a Sua justiça, e satisfazer assim, completamente, todas as demandas da Sua lei sobre eles. Como resultado aquela união, Cristo foi em todas as coisas foi feito em tudo “semelhante aos irmãos” {Hebreus 2:17}, sendo “contado (reconhecido como) com os transgressores” {Isaías 53:12}; e eles, por sua vez, são “membros do Seu corpo, da Sua carne, e dos Seus ossos” {Efésios 5:30}. Como conseqüência desta união federal, Cristo também é feito “espírito vivificante” {I Co. 15:45}, de modo que, no tempo devido, cada um de Seu povo se torne um membro vivo e vital daquele corpo espiritual do qual Ele é o Cabeça {conforme Ef. 1:19-23, “E qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.”}

A relação entre Cristo e aqueles que se beneficiam da Sua Expiação não foi, portanto, algo vago, indefinido, casual, mas consistiu de uma unidade pactual real, identidade legal, união vital. A fiança assim pressupõe. A substituição explícita assim demanda. Imputação real procede di sso. O castigo que Cristo sofreu não poderia ter sido infligido de outra forma. Aqueles por quem a Satisfação foi prestada, por necessidade inevitável, compartilham dos seus benefícios e recebem o que foi por eles comprado. Somente isso satisfaz a objeção da injustiça de o Inocente sofrer pelo culpado, como também somente isso explica a transferência dos sofrimentos e dos méritos de Cristo, para os redimidos.

2. FOI UMA OBRA SUBSTITUTIVA

Os termos “substitutiva” e “vicária” são comumente usados de forma muito relaxada. Muitos que têm buscado ganhar uma reputação pela ortodoxia e a partir de então insinuarem-se na confiança do povo de Deus têm feito uso dos termos simples, vazios, todavia com não outra intenção senão de dizer que Cristo sofreu em favor de outros, para o benefício de outros. Mas isso é somente uma meia verdade, e portanto parente muito próxima de uma mentira. Sofrimento ou castigo vicário é mais do que sofrimento suportado pelo bem de outrem. Os sofrimentos ou martírios pelo bem de uma causa, de patriotas pelo seu país, de filantropos pelo bem da raça humana, não são “vicários”, pois eles não são substitutivos . Sofrimento vicário é o sofrimento suportado não somente em favor de outros, mas no lugar de outros, no lugar real de outros. Carrega, portanto, consigo, a isenção da parte no lugar da qual o sofrimento é padecido. O que um substituto faz pela pessoa cujo lugar ele preenche, ele absolve tal pessoa da necessidade dela mesma passar ou sofrer a mesma coisa! Assim,quando afirmamos os sofrimentos de Cristo foram “vicários”, queremos dizer que Ele a Si mesmo Se colocou no lugar dos pecadores e satisfez a lei por eles, e que, de forma tal, que a lei não pode mais fazer nenhuma reivindicação, qualquer que seja sobre eles. Os sofrimentos de Cristo foram “vicários”, identicamente do mesmo modo que a morte de animais no Antigo Testamento era em lugar da morte do transgressor que os oferecia em sacrifício.

As Escrituras ensinam que Cristo era, num senso exato e completo, o Substituto do Seu povo, i.e. que por indicação Divina e de Sua livre vontade, Ele assumiu todas os seus débitos, tomou o seu lugar perante a lei, e obrigou-SE a fazer no lugar deles tudo o que a lei exigia, rendendo a ela aquela obediência da qual dependia todo o bem-estar deles, e sofrendo o castigo da lei, merecido pelos seus pecados. Cristo veio a ser o seu Patrono vicário, assumindo todas as suas obrigações e responsabilizando-se por satisfazer a justiça Divina em seu lugar. Tão real foi a Sua substituição em lugar deles, que o que Ele fez e o que Ele sofreu por eles evitou toda necessidade de eles cumprirem com as demandas da lei em suas próprias pessoas. Assim, a Satisfação prestada por Cristo foi muito mais que um expediente para “remover aqueles obstáculos” que impediam a Deus justificar os pecadores: era o que exigiu a Justiça, para perdoar os pecados de todos quantos por quem tal Satisfação foi feita. A Satisfação de Cristo foi infinitamente mais do que uma maneira de “abrir o caminho” por onde a graça de Deus pudesse fluir: era o que necessitavam todos pelos quais ela foi feita, para serem vestidos com toda a sua excelente eficácia.

Ao tornar-Se o Substituto por Seu povo, ao colocar-Se sob as obrigações deles, ao engajar-Se para liberá-los de todas as suas responsabilidades, Cristo foi, necessariamente, “ nascido sob a lei ” {Gálatas 4:4}, de forma a poder Ele guardar os seus estatutos, cumprir as suas exigências, e assim por intermédio dela, ser “engrandecido” e ser feito “glorioso” {como em Isaías 42:21}. A Escritura ensina claramente que ao obediência de Cristo foi algo tão “vicário” como o Seu sofrimento, e que ele reconciliou os eleitos e Deus, tanto de um lado como do outro — por isso é que insistimos no uso do termos mais amplo, “a Satisfação de Cristo”, pois o termo “expiação”, no seu sentido estrito, cobre somente a expiação da nossa culpa através do Seu sofrimento vicário. A ativa obediência da lei por Cristo foi exigida como a condição meritória por intermédio da qual o favor Divino e a recompensa prometida da Aliança pudessem vir sobre todos aqueles dos quais Ele era a Garantia. Nós nunca devemos tentar separar a obediência ativa e os sofrimentos passivos de Cristo, nem ao contemplar Sua obra mediadora, ou ao considerar o efeito daquela obra na posição de aliança do Seu povo. A obediência vicária de Cristo é parte intrínseca daquela “justiça” a qual Ele perpetrou no nosso lugar, e a qual nos é imputada como base para a nossa justificação. Tudo o quanto Cristo fez na terra, ele assim o fez como Mediador . Ele agia em nosso lugar tão verdadeiramente quando Ele obedeceu a Deus como quando Ele agüentou a Sua ira. E é em referência a ambos aspectos conjuntamente , que Ele é nomeado “ o Senhor justiça nossa” {Jeremias 23:6}.

É preciso enfatizar que a “obediência” de Cristo não deve ser restrita a o que Ele fez antes da Cruz, nem devem os Seus “sofrimentos” serem limitados a o que Ele suportou durante a Crucificação e nos momentos que imediatamente a precederam. Não, Ele sofreu durante toda a Sua vida, e obedeceu durante toda a Sua morte. “Toda a vida terrena de Cristo, incluindo o Seu próprio nascimento, foi um esvaziar-SE contínuo, mesmo até a morte. Seu nascimento, e cada momento de Sua vida, na forma de servo, foi da natureza de sofrimentos santos. Cada experiência de dor durante todo o curso de Sua vida, e eminentemente na Sua morte na cruz, foi, de Sua parte, um ato meritório e voluntário de obediência. Ele viveu toda Sua vida terrena, desde o Seu nascimento e até a Sua morte, como o nosso Representante, obedecendo e sofrendo em nosso lugar, e pelo nosso benefício; e durante todo este percurso, todo o Seu sofrimento foi obediência, e toda a Sua obediência foi sofrimento. A justiça a qual Ele operou por Seu povo consistiu precisamente neste sofrimento e obediência. A justiça de Cristo, que é imputada distintamente a cada crente, como a base de sua justificação, consiste precisamente deste sofrimento e desta obediência. Sua vida terrena, como sofrimento cancela o castigo, e como obediência , satisfaz os preceitos e assegura a recompensa prometida da lei; mas o sofrimento e a obediência não estavam de fato separados, e são inseparáveis em princípio, e igualmente necessários para satisfazer a lei da aliança e assegurar a salvação dos eleitos” (A.A. Hodge)

A lei, como um pacto, uma aliança de vida, estava acompanhada por duas sanções. Primeira, a promessa de “vida” ou de favor Divino e bem-estar eterno, condicionada à perfeita obediência: veja Lv. 18:5 {“ Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o Senhor. ”}; Mt. 19:17 {“ E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos .”; Rm 10:5 {“ Ora Moisés descreve a justiça que é pela lei, dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas.”} , Gl 3:12 {“ Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá.”}. Segundo, o castigo de “morte” pendente na desobediência. Agora, o objetivo pelo qual Cristo Se encarnou foi “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.” {Romanos 8:4}, e portanto é declarado que “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê.” {Romanos 10:4}. E isto somente foi possível por Ele cumprir todas as condições da lei. Tivesse Cristo não obedecido vicariamente a lei, tivesse Ele meramente sofrido o castigo da lei, devido pelos nossos pecados, então nós estaríamos destituídos de qualquer justiça positiva, e seríamos como Adão era antes de cair. Mas as Escrituras afirmam enfaticamente que Cristo salvou por Sua obediência tanto quanto pelos Seus sofrimentos: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” {Romanos 5:19} — a “obediência” de Cristo deve ser aqui interpretada na mesma forma natural e óbvia como a “desobediência” de Adão. Assim, nossa obrigação dupla para com Deus, como criaturas e como pecadores, foi satisfeita e liberada por Cristo.

“Como nosso Representante, Ele sustentou na união de Sua personalidade divina a nossa natureza impessoal, ‘um corpo verdadeiro e uma alma sábia’, de forma que Ele pudesse assim nascer vicariamente sob a lei , a fim de que através de Sua obediência puramente vicária, ele pudesse ‘ remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos’ {Gálatas 4:4,5}. Isso significa, necessariamente (a) que Cristo foi nascido sob a lei, à qual Ele não pertencia naturalmente, mas posição à qual Ele foi transferido por um ato de soberania divina; (b) que Ele foi colocado em tal lugar, não por Si mesmo, mas em nossa posição, em nosso lugar; (c) que Ele foi feito nascer sob a lei pelo propósito de assegurar-nos não somente a remissão dos pecados, mas também a adoção de filhos , através da qual nos tornamos ‘herdeiros de Deus por Cristo ‘ {Gálatas 4:7}; tudo isso estando condicionado não ao sofrimento, mas à obediência. Tudo o que Cristo fez na terra, Ele assim o fez como nosso Mediador, e tudo o que Ele fez como Mediador, Ele assim o fez no lugar daqueles por quem Ele agiu como Mediador. Portanto Ele disse {em Mateus 3:15}, ‘porque assim nos convém cumprir toda a justiça.’ “ (A. A. Hodge).

Na Epístola aos Romanos, 8:3 (o contexto deve ser cuidadosamente sopesado), lemos que “ o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne.” Aquilo que a lei era incapaz de fazer era justificar os ímpios . O motivo para isto era que a lei demanda obediência perfeita, e isso a carne, por causa do pecado, torna impossível ao pecador cumprir. Em vista disso, Deus enviou Seu próprio Filho, na semelhança de carne pecaminosa, e pelo pecado. Enviou-O ao lugar de réu que pertencia ao Seu povo, e pelo Seu executar o castigo nELE “condenou o pecado na carne”, e pela aceitação da Sua obediência vicária, a “justiça da lei” é cumprida em nós. A frase “a justiça da lei” é utilizada no Novo Testamento para expressar a totalidade daquilo que a lei demanda como a condição de favor. Em Adão, antes de cair, a justiça da lei era a perfeita obediência. No caso de todos os seus descendentes, é a perfeita obediência da lei mais o sofrer do seu castigo; daí a impossibilidade de nós alcançarmos uma justiça legal por intermédio da nossa própria e pessoal agência.

Agora, a “justiça da lei” é colocada em antítese para com “a justiça da fé” {como em Romanos 10:5,6}. É o mesmo que (veja o contexto) as tentativas fúteis do pecador para satisfazer as exigências da lei em sua própria pessoa, em contraste com a satisfação vicária de Cristo, da qual a fé se apropria e toma posse. “ aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” { II Pedro 1:1}. No mesmo efeito, nossa justiça vá é contrastada com a perfeita justiça de Deus em Cristo: veja em Romanos 3:20–26. A obediência, aquela obediência, a obediência de Cristo é, portanto, a essência da justiça. Portanto lemos que Ele “para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça,” {I Coríntios 1:30}. E Paulo declara, portanto, o seu desejo de ser “achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé.” {Filipenses 3:9}. O fato de Cristo sofrer o castigo da lei, exigiu o perdão dos nossos pecados; a obediência prestada por Cristo, exigiu que a Sua justiça seja imputada a nós e que estejamos eternamente estabelecidos no favor de Deus.

Na passagem citada acima (Romanos 8:3), nos é dito que Deus enviou o Seu próprio Filho “ em semelhança da carne do pecado”. Esta expressão incomum precisa ser investigada cuidadosamente, a fim de não pecarmos pelo exagero, ou não a compreendermos por enunciado falho. Primeiro, ela afirma a realidade da humanidade de Cristo. Segundo, até que ponto aquela humanidade encontrava-se unida. A Divindade precisava ser de uma humanidade sem pecado: gerada pelo Espírito Santo, era pura e santa. Isto foi assegurado pelo fato de que embora Ele tomasse sobre Si a carne de Adão através da Virgem, Ele não encontrava-Se sob a aliança, sob o pacto de Adão. Terceiro, sua “semelhança” ou aparência era segundo a ordem de “carne do pecado”: entre Ele e os homens pecadores não havia nenhuma diferença perceptível , que pudesse ser notada: em cansaço e exaustão, aflição e sofrimento, Cristo era em todos aspectos “ semelhante a seus irmãos” {Hebreus 2:17}. Mas o trabalho duro e a tristeza, o sofrimento, a fraqueza e a dor, não LHE sobrevieram como a conseqüência inevitável da Encarnação, senão resultaram da Sua vinda até aqui, como a Garantia do Seu povo.

Cristo era pessoalmente isento de todas as conseqüências do pecado de Adão, mas oficialmente Ele estava sujeito a elas. Pessoalmente, Ele era uma pessoa Divina assumindo uma humanidade sem pecado, e tivesse Ele não vindo aqui como o Cabeça dos eleitos de Deus (considerados como criaturas caídas), Ele indubitavelmente teria aparecido numa humanidade tão gloriosa como aquela de Adão não caído. Mas, oficialmente Ele assumiu a aparência, a “semelhança da carne do pecado”, uma expressão referindo-se aos efeitos os quais o pecado era a causa: especialmente, sujeito a sofrimento e à mortalidade, e isso desde o momento do Seu nascimento. Ó, infinito rebaixamento de Si mesmo! Ó maravilha de condescendência! Ele sofreu em Seu corpo o peso do pecado imputado, um corpo sustentando as tristes marcas do pecado, pois “o Seu aspecto estava tão desfigurado que não era o de um homem, e a sua figura não era a dos filhos dos homens” {Isaías 52:14}. Não houve nenhuma diferença perceptível entre a Sua humanidade e a nossa, não porque precisamente a mesma carne tivesse a Ele sido transmitida desde Adão, mas porque como O portador dos nossos pecados Ele assumiu voluntariamente o peso da culpa imputada, que carregava consigo a humilhação e a degradação, sofrimento e morte: tal foi oficialmente assumida, não pessoalmente herdada.

Cristo veio na “semelhança da carne do pecado”, e “por causa do pecado” {Romanos 8:3}, isto é, por conta do pecado: foi por isso que Deus O “enviou”: “pecado condenado na carne”: o pecado ainda é personificado , tal como escrito na Epístola aos Romanos 5:6, 7: veja também 5:21; 6:14, etc. — o potentado tendo seguros os homens em cativeiro. Deus “condenou o pecado” fala do pecado como uma pessoa julgada perante o mais elevado tribunal e corretamente, justamente condenado. Em conseqüência do julgamento de Deus, o pecado não tem mais nenhuma reivindicação sobre aqueles a quem ele havia tiranizado: eles estão libertos. “Condenou o pecado na carne” quer dizer condenado na humanidade de Cristo, como o Sacrifício vivo sem pecado — conforme Romanos 5:18, 21 — uma condenação livrando o seu povo da condenação: Romanos 8:1. Cristo foi “condenado”, visitado por sofrimento penal, porque Ele apresentou-Se perante Deus somente na aparência dos nossos pecados malditos. E isto, “ para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós ”, ou seja, como se nós , pessoalmente o tivéssemos feito.

Muito corretamente apontou o Mr. J. Inglis, “O fato de que Deus enviou Seu Filho na semelhança de carne do pecado e pelo pecado, sugere que Ele adentrou à condição de Seu povo, que, com todas as suas maldades, é a conseqüência do pecado. Se O encontramos pobre e desprezado, faminto e com sede, sujeito ao trabalho árduo e à fadiga, homem de dores e familiarizado com a tristeza e o sofrimento, não isento do medo da morte nem isento da própria mortalidade, para dizer nada de tudo o mais que Ele suportou nas mãos de Satã e dos homens; tudo isso são indubitavelmente as conseqüências do pecado, e Ele somente poderia estar exposto a elas na condição de Ele representando os pecadores.” (Waymarks, Volume 10).

Uma luz mais cheia brilha a partir dos quatro Evangelhos, quando percebemos que eles não são a biografia de um indivíduo privado, mas a história da Fiança, da Certeza do povo de Deus. Cristo foi o Cabeça Representante de uma companhia eleita: desde Belém até o Calvávio, Ele foi a sua Vítima vicária. O aparecimento do Filho de Deus na terra foi a conseqüência direta do pecado. A Encarnação e a Cruz são inseparáveis; ambas foram os meios para um fim — a vindicação da justiça Divina, a expiação do pecado, a prestação de cabal e meritória obediência à lei. Não podemos analisar o significado do Seu nascimento, feito abaixo dos anjos; a pobreza da Sua condição, Sua ocupação manual, ganhando Seu pão pelo suor do Seu rosto, em conformidade com a maldição sobre o Seu povo; Sua tentação por Satã; Suas privações, o suportar a sede e a fome e a execução pública; tudo isso, dizemos, não podem ser contemplados sem a firme convicção de que estavam todos incluídos na nossa culpa e relacionados com o nosso castigo, com a nossa punição.

CAPÍTULO 6: SUA NATUREZA (CONTINUAÇÃO)



O aspecto particular da Satisfação de Cristo que está agora diante de nós, leva até o próprio coração deste tema maravilhoso. É de fundamental importância para a honra de Deus e para o estabelecimento de nossas almas na Verdade, que a natureza da Expiação seja bíblica e claramente definida. Erro neste ponto é fatal. Até que compreendamos corretamente o que foi que Cristo fez, nós não estaremos preparados para contemplar o plano, a eficácia, a extensão, ou os frutos e resultados disso, e menos ainda estaremos nós equipados para proclamá-lo e expô-lo. Por essas razões é que devemos proceder com vagar, e nos esforçarmos por ter plena certeza de onde pisamos. A grande maioria dos erros dos homens quanto à Expiação são as conseqüências de uma concepção não escritural de sua natureza. Portanto, suplicaríamos ao leitor para paciente e em oração ler e reler o que escrevemos nesta fase vital do nosso assunto, tudo testando através da Palavra de Deus.

Em nosso último capítulo nós apontamos que a obra expiadora de Cristo foi,

Primeiro, uma obra federal: que houve uma união oficial existente entre o Mediador e aqueles em benefício de quem Ele mediou, que há uma unidade legal entre Cristo e Seu povo. Antes da fundação do mundo os eleito de Deus foram “eleitos em Cristo” {Efésios 1:4}, a eles foi “prometida” a vida eterna {Tito 1:2}, e que a graça lhes foi “dada” nEle {II Timóteo 1:9}. Foi portanto como seu Cabeça pactual, e por causa disso, como sua Garantia pactual, que quando da plenitude dos tempos Deus enviou Seu Filho para agir em seu benefício. Tudo quanto Cristo fez e tudo quanto Ele sofreu foi como seu Representante legal. A menos que isto seja firmemente agarrado, firmemente compreendido como o que perdura na própria fundação do sacrifício redentor de Cristo, estaremos certos de nos enganarmos e errarmos ao tentar interpretar seu escopo e aplicação. Cristo e Seu povo, juntos, formam uma única Pessoa mística, no conceito de Deus.

Segundo, a obra redentora de Cristo foi uma obra substitutiva. O que Cristo fez e o que Cristo sofreu foi não somente em benefício de outros, mas o foi também expressamente no lugar de outros. É verdadeiro, abençoadamente verdadeiro, que a Sua obediência e os Seus sofrimentos tenham beneficiado a outros, mas é preciso ser enfaticamente dito e firmemente sustentado que a obediência que Ele prestou e que os sofrimentos que Ele sofreu assim o foram, realmente no lugar de outros. Cristo tomou o lugar de réus de Seu povo, assumiu suas dívidas e responsabilidades, tornou-Se Responsável por eles, e tomou para Si a tarefa de satisfazer a justiça Divina por eles. Cristo engajou-Se a fazê-lo quando Ele aceitou os termos da Aliança Eterna. Cristo veio para fazê-lo quando Ele Se encarnou. De Belém e até o Calvário, Ele deve ser considerado como tendo tomado o lugar do Seu povo culpado, sofrendo e fazendo, fazendo e sofrendo, tudo quanto a justa lei de Deus exigia deles.

“ Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei” {Gálatas 4:4}. A derivação de Cristo de humanidade real através de Sua mãe terrena não é algo de somenos importância, no que se refere à Expiação, pois a Sua relação de irmandade, como o nosso Redentor consangüíneo, depende absolutamente do fato de que ter Ele derivado sua humanidade da substância de sua mãe, sem o que Ele não possuiria nem a união legal nem a união natural com o Seu povo, a qual deve estar na base, na fundação do Seu caráter representativo. Para ser o nosso Redentor, a Sua humanidade não poderia nem ser trazida do céu, nem imediatamente criada por Deus, mas derivada como a nossa, a partir de uma mãe humana, porém com esta diferença, que a Sua humanidade nunca existiu no pacto de Adão, para conferir por herança, fosse culpa ou mancha. Ele devia encontrar-se na palidez, na fraqueza da raça humana. Não obstante, Cristo “nasceu sob a lei” não através da condição de criatura, mas para os objetivos da Fiança, da Garantia: então, por conseguinte, o valor atribuível da Sua obediência. (condensado, da obra de George Smeaton).

As palavras “nascido sob a lei” precisam ser cuidadosamente definidas. “Cristo tornou-Se sujeito à lei por intermédio de uma constituição Divina. Ele não nasceu sob a lei como todos os homens o são; sua sujeição à lei segue-se ao fato de serem eles os descendentes naturais de Adão, a quem a lei foi dada originalmente, e ao fato de ser ele ocupar para com eles o lugar de representante. Mas cristo não era um descendente natural de Adão, nem foi o primeiro Adão um representante do segundo Adão, pois ele era o Senhor do céu. Sua obrigação para com a lei surgiu não do Seu nascimento, mas Ele nasceu sob ela, sob a lei, por intermédio de uma indicação peculiar a Si mesmo, para responder a um fim específico, a saber, a redenção dos homens pecadores. E portanto, o que a lei exigia deles, fosse numa forma de sofrimento ou de obediência, Ele Se tornou obrigado a submeter-Se e a executar” (John Brine, 1743, “A Eficácia Certa da Morte de Cristo”).

Cristo foi ambos, “nascido” e “dado” ao povo de Deus {Isaías 9:6}, e isso com vistas à salvação deles: o que Ele fez e o que Ele sofreu foi para o bem e no lugar daqueles por causa de quem Ele veio ao mundo. Alguns têm procurado burlar a característica vicária da Sua obediência, argumentando que como Homem, Cristo estava sob a obrigação de cumprir a lei. Mas isso é negar, não implicitamente todavia explicitamente, que Ele era o filho de Deus. Muito cuidado precisa ser tomado neste ponto. A humanidade de Cristo, tal como, era impessoal , e portanto não devia nenhuma obediência qualquer que fosse à lei. O Deus-homem não é duas pessoas numa só: Ele é uma pessoa com duas naturezas. Como o filho de Deus Ele era uma pessoa já antes que Se tornasse encarnado. Ao encarnar-Se, Ele tomou sobre Si a humanidade, a natureza humana, mas não como uma segunda personalidade. Portanto, a humanidade de Cristo estando unida ao Filho de Deus, ele não estava nem poderia estar obrigado a obedecer à lei. Foi por intermédio de uma constituição Divina, através de acordo pactual, que Ele “nasceu sob a lei”, com vistas á redenção e à justificação do povo eleito de Deus.

No momento em que Cristo foi “nascido debaixo da lei”, Ele adentrou ao lugar ocupado pelo Seu povo, considerado como criaturas caídas. Isso sozinho explica as experiências com que Ele Se deparou, a degradação que Ele sofreu, a injustiça que Ele encontrou nas mãos dos homens, e o castigo que Ele recebeu do Próprio Deus. Temos em nosso coração as mais desonrosas e degradantes concepções de Deus se imaginarmos, por um momento que seja, que Ele permitiria a uma pessoa inocente sofrer, quanto menos ainda se Ele permitisse ao Seu Filho amado sofrer injustamente nas mãos de desprezíveis humanos. Nós jamais teremos uma visão correta da manjedoura, da necessidade da fuga para o Egito, do trabalho na bancada de carpinteiro, do não ter aonde reclinar Sua cabeça, das horríveis indignidades que Ele suportou dos Seus inimigos, e do tratamento injusto que Ele recebeu daqueles que Lhe imputaram a sentença de morte, até que reconheçamos que desde Belém e até o Calvário Ele foi a Vítima vicária de Seu povo, que Ele carregava os pecados deles, e que sofria as devidas retribuições pelas iniqüidades deles.

“Porquanto o Senhor Deus é sol e escudo; o Senhor dará graça e glória; não negará bem algum aos que andam na retidão” {Salmo 84:11}. Mas como os descendentes do Adão caído, o povo de Deus, nos seus dias não regenerados, fizeram exatamente o contrário de “andar na retidão”. Eles abandonaram o caminho dos mandamentos de Deus e seguiram um curso de vontade própria, e isto, não ocasionalmente, mas constantemente. Em conseqüência, muitas coisas boas lhes foram negadas. Embora endereçadas diretamente a Israel, as palavras de Jeremias 5:25 contém um princípio de ampla aplicação: “As vossas iniqüidades desviaram estas coisas, e os vossos pecados apartaram de vós o bem.” Portanto, quando Cristo aqui veio como o Portador dos pecados do Seu povo, a justiça Divina exigiu que a Ele Lhe fossem negadas “muitas coisas boas”.

Como um errante da casa do Pai {Lucas 15:13}, o homem perdeu todo o direito a tanto quanto uma moradia terrena, por conseguinte aqui encontramos Cristo tomando o lugar do Estrangeiro sem lar. Na medida em que o homem caído prefere o “mundo” a o que quer que seja que Deus coloque perante ele, encontramos Cristo levado ao Egito (o símbolo evidente de “o mundo” na Escritura), e portanto disse Deus, “ Do Egito chamei o meu Filho.” {Mateus 2:15}. Em conseqüência da Queda, Deus pronunciou a seguinte maldição sobre o homem, “No suor do teu rosto comerás o teu pão,” {Gênesis 3:19}, portanto encontramos Cristo trabalhando pelo Seu pão {cf. Marcos 6:3}. Porque os eleitos, enquanto pecadores falharam em amar aos seus próximos, nós encontramos a Cristo sofrendo o ódio dos homens. Porque nós temos sido culpados de glutonaria, Ele foi feito sentir fome. Porque nós temos sido imoderados ao beber, Ele sentiu sede. Porque nós temos usado dissolutamente o nosso dinheiro, Ele não tinha nenhum centavo {cf. Mateus 17:27}. Porque temos falado mal de Deus, contra Ele falaram mal; porque nós O negamos, Ele foi negado. “Nem um só palpitar de dor Ele sentiu, nem uma só agonia de aflição Ele experimentou, nem um só suspiro de angústia Ele exalou, nem uma só lágrima de pesar Ele verteu, por Si mesmo. Foi tudo pelos homens; foi tudo por nós. Se nem um só dos Seus sofrimentos foi pessoal., segue-se que todos eles foram substitutivos, que todos eles estavam, é claro, incluídos na matéria ou substância do Seu sacrifício expiador. Durante todo o período de Sua vida mortal a vítima estava por ser imolada. No momento do Seu nascimento, a espada da justiça foi desembainhada contra o homem que é O parceiro de Jeová, e não retornou à bainha até que tivesse sido banhada no sangue do Calvário.

“Pode se supor em desacordo com esta visão do tema, que a redenção do homem algumas vezes está relacionada nas Escrituras simplesmente ao sangue de Cristo, ou só à Sua morte. Mas linguagem tal não deve ser entendida como limitando a Expiação de Cristo ao simples ato de morrer, ou àqueles sofrimentos nos quais houve um literal derramamento de sangue. A agonia sangrenta no jardim, e a morte amaldiçoada na Cruz, foram partes importantes e conclusivas do Seus sofrimentos, e, em linguagem comum, aparentemente, a consumação da Sua humilhação, sem a qual todo o que ocorreu antes deve ter sido em vão; e pode ser considerado como tendo alcançado salvação, no mesmo modo como aquela última prestação de uma dívida que é liquidada gradualmente cancela o débito e proporciona a liberação do débito. Mas, como quando de Cristo é dito ter sido “obediente até à morte” {Filipenses 2:8}, devemos entender a frase, não como de um ato solitário , mas da duração da Sua obediência durante todo o período da Sua vida, então pode ser dito que Ele sofreu até à morte, como expressivo da duração do Seu sofrimento durante todo o curso de Sua vida terrena.” (W. Symington).

É nas cenas finais dos “dias da Sua carne” {Hebreus 5:7} que podemos o mais amplamente descobrir a Cristo como ocupando o lugar do Seu povo pecador, e recebendo de Deus aquilo que lhes era devido. Mesmo aonde O vemos diante de homens, o que se nos mostra deve ser lido e interpretado sob a luz da Sua posição vicária e de Sua completa identificação com o Seu povo culpado. O que teve lugar aqui na terra nada foi senão o esboço, a descrição visível do veredicto da Suprema Corte. Tomemos a Sua aparição perante Caifás e Pilatos. Ousamos dizer que os anais da história humana serão perscrutados em vão, não somente na busca de um paralelo, mas por qualquer coisa que chegue perto de uma semelhança. Não obstante, o significado mais profundo do tratamento sem precedentes dispensado a Cristo foi percebido somente por poucos. Aqui, tanto quanto quase que em todos outros lugares, homens se ocuparam com o lado humano , em vez de com o lado Divino das coisas. Em muito, escritores têm se assombrado com a conduta iníqua do sumo sacerdote de Israel e do governador Romano na Judéia, e fulminantemente condenado seus atos injustos; mas aparentemente nunca lhes ocorreu questionar, Por que Deus não somente sofreu, mas ordenou aquilo tudo? {cf. Atos 4:27, 28}.

Os Romanos eram renomados pelo seu respeito pela lei, pela eqüidade dos seus relacionamentos, pela generosidade com a qual eles tratavam os povos que conquistavam. Como então deve ser o tratamento injusto dispensado por Pilatos para com Cristo ser considerado? Verdadeiro, do lado humano, ele temeu que se ele resistisse às demandas dos líderes Judeus, uma reclamação seria feita a Cezar, e então ele provavelmente perderia a sua posição. No entanto, isto ainda deixa não resolvida a questão mais profunda e mais importante: Por que Deus exigiria que o Seu Filho fosse ridicularizado ao ser submetido a um julgamento o qual parece pior que uma farsa, realmente, uma paródia de justiça? Nós sugerimos que aquela consideração somente, fornece a chave para este grande problema, e que, a dupla relação sustentada por Cristo: pessoalmente inocente, oficialmente culpado; nEle mesmo, sem pecado; em virtude da Sua identificação com o Seu povo, “feito pecado” {II Coríntios 5:21}. Era o Pecador quem foi julgado por sentença. “Ele foi [judicialmente] reconhecido [por Deus] entre os transgressores” {Lucas 22:37}: isso igualmente se aplica ao Seu julgamento, às bofetadas no salão do julgamento, e à Sua real crucificação. A passagem em João 18:8 prova isso: Se o Representante for dominado, então aqueles a quem Ele representa devem ser libertos.

Como o Substituto de Seu povo pecador, Cristo tinha de ser encontrado inocente e ainda assim pronunciado culpado! Embora pessoalmente imaculado, a justiça Divina exigia que ele devesse ser tratado como oficialmente merecedor de condenação. O que aconteceu em Jerusalém não foi nada a não ser a expressão visível do grande Julgamento que havia ocorrido no Céu. A sentença pronunciada por juízes humanos nada foi senão a intimação ou a promulgação da sentença que havia sido passada pelo Divino Juiz ao portador do Pecado. Cristo não ocultou Sua face da vergonha e da cusparada. Por que? Porque como criminosos culpados, como foras-da-lei culpados, como o mais desprezível dos desgraçados, aquilo é o que os nossos pecados mereciam. Quando perante Seus acusadores Ele permaneceu mudo, não oferecendo resposta às acusações que Lhe foram feitas (Mateus 26:62, 63). Por que? Porque embora pessoalmente inocente, Ele ocupava o lugar de pecadores culpados , portanto nada havia que Ele pudesse alegar em atenuação.

Isto joga uma maravilhosa torrente de luz nas narrativas dos Evangelhos. A acusação que foi imposta contra Cristo enquanto Ele permaneceu no Sinédrio, como trazida contra aqueles a quem Ele representava não era uma acusação falsa! Culpado de blasfêmia contra Deus, certamente que cada um de nós o é. Portanto como o Representante oficial de Seu povo pecador, o Senhor Jesus permaneceu em silêncio, não apresentando nenhum argumento de defesa que interrompesse o julgamento. Tão verdadeira era a acusação contra nós , que não havia nenhuma necessidade de testemunhas {cf. Mateus 26:65}! Dizemos novamente, o tribunal terreno, al lidar com a acusação de blasfêmia, ou desonra praticada contra o Nome e a Palavra de Deus, e ao sentenciar à morte a nossa Garantia, foi a promulgação da sentença contra os nossos pecados, muito do mesmo modo como a sombra no relógio de sol registra os movimentos que estão acontecendo numa outra esfera! A santa Pessoa de Cristo estava ali, no lugar dos culpados, e o juiz humano nada fez senão expressar o veredicto do Juiz Divino! Foi o Pecador que foi acusado e julgado. No começo, o Juiz de toda a terra já havia formalmente pronunciado a sentença, “…certamente morrerás.”; e tal sentença agora era cabal e finalmente executada, vicariamente , nos pecadores eleitos.

Seria um insulto ao Seu governo moral supor por um momento que o inflexivelmente justo e inefavelmente santo Deus permitiria a um Homem perfeitamente inocente e puro sofrer as indignidades, os castigos, e a sentença que Cristo recebeu. Sua própria e infalível Palavra nos assegura, “ Sendo os caminhos do homem agradáveis ao Senhor, até a seus inimigos faz que tenham paz com ele.” {Provérbios 16:7}. Ah, não era nenhuma pessoa inocente que compareceu perante Caifás e Pilatos; ao contrário, era o pecador quem estava sob julgamento — ali, na Pessoa do seu Substituto imaculado e sem pecado. O tribunal de júri terreno era senão o adiantamento; na realidade foi o Portador do pecado fazendo uma aparição real perante o Tribunal de Deus! Por conseguinte, podia haver somente uma decisão possível: embora pessoalmente sem pecado Ele era oficialmente culpado, e nada ficou senão a sentença de condenação e sua imediata execução. Assim podemos nós, e assim deveríamos nós admirar a super-dominante providência de Deus, que fez com que a corte inferior na terra projetar tão claramente a sombra da ação da Suprema Corte nas Alturas.

O que tentamos salientar acima é tão pouco compreendido, é sim tão completamente desconhecido da maioria dos nossos leitores — tão superficiais até o último grau são as ministrações dadas de púlpito pelos melhores hoje em dia! — que confiamos que eles terão paciência com as nossas repetições, e até mesmo se darão ao trabalho de reler o que tem sido escrito. Então dizemos novamente, que não existe nenhuma explicação possível daquele julgamento (aparentemente) anômalo, o qual passou pelas devidas formas de lei e de ordem, a menos que reconheçamos ter sido uma representação simbólica, sim, uma representação Divinamente arranjada, de um mistério espiritual, expondo a completamente única, porque dupla , relação que Cristo ocupou. Assim foi Pilatos obrigado a afirmar quanto à absoluta inocência dAquele abençoado que se encontrava perante ele: por sete vezes ele declarou “Não acho culpa alguma neste homem”. Não obstante, ele O sentenciou à morte! Cristo era pessoalmente inocente, todavia como a Vítima vicária, como o Representante do Seu povo criminoso, Ele era oficialmente culpado. Assim, Cristo foi justamente pronunciado ser imaculado, mas oficialmente condenado à morte. É por isso que Deus fez com que o Seu amado sofresse tal zombaria, ignomínia e sofrimento.

“Suportando vergonha e zombaria rude,

Em meu lugar, condenado Ele foi,

Selou meu perdão com Seu sangue,

Aleluia! que Salvador.”


As passagens da Bíblia que expressamente apresentam o caráter vicário da obra redentora de Cristo são tão numerosas que não podemos senão fazer aqui uma seleção delas. Foi predito que, “E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo” {Daniel 9:26}. Então, porque foi Ele “cortado”? Ouça a resposta do povo ensinado pelo Espírito de Deus: “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.” {Isaías 53:5}. De Suas próprias declarações, podemos citar as seguintes: “Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.” {Mateus 20:28}; “o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas.” {João 10:11}. Dos escritos apostólicos, as seguintes podem ser tomadas como amostras: “Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.” {Romanos 5:6}; “Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos,” {I Pedro3:18}; “Deus, . . . enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados.” {I João 4:10}.

Inimigos da Verdade, ansiosos para repudiar a natureza substitutiva da obediência e da morte de Cristo têm apontado que a palavra “pelos” não é conclusiva. Ela pode significar “no lugar de”, ou também pode significar somente “em favor de.” Assim: o soldado morre “pelo”, ou em benefício, em favor de seu país. A resposta suficiente para isto é que embora em algumas passagens seja usada a preposição Grega “huper”, a qual tem também o mesmo significado duplo que a preposição “por”, ainda assim há outras passagens onde o Espírito Santo empregou o termo “e” e isso não pode significar outra coisa senão “no lugar de”. Esta é a palavra usada em Marcos 10:41, “… Isto é o meu corpo, que por (e para) vós é dado…”

Na tradução Septuaginta Grega do Velho Testamento a palavra “anti” é usada para expressar a troca de posição de alguma coisa ou pessoa, por outra. Isto pode ser comprovado em referência aos seguintes trechos, onde o termo “anti” é traduzido pelas palavras que colocamos em itálico : “ Deus me deu outro filho em lugar de Abel” {Gênesis 4:25}. “…e José deu-lhes pão em troca de cavalos, e das ovelhas, e das vacas e dos jumentos…” {Gênesis 47:17}. “…faleceu Arão, e ali foi sepultado, e Eleazar, seu filho, administrou o sacerdócio em seu lugar .” {Deuteronômio 10:6}. Estas passagens são tão claras e a aplicação da preposição é tão óbvia que comentários quanto a isso seriam supérfluos.

Esta preposição Grega é também utilizada no Novo Testamento, em passagens outras que onde Cristo está em vista, que definem seu significado de maneira inequívoca. Tomemos os seguintes casos, onde o termo “anti” é o equivalente em Grego para as palavras em português que colocamos em itálico : “ …Arquelau reinava na Judéia em lugar de Herodes, seu pai…” {Mateus 2:22}. “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.” {Mateus 5:38}. “…se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente?” {Lucas 11:11}. “A ninguém torneis mal por mal…” {Romanos 12:17}. Em nenhuma dessas passagens pode “e” possivelmente significar “em lugar de”. Não, com exceção daqueles casos onde é usada no sentido de contra , como em “anticristo” — a preposição Grega “anti” tem o significado uniforme de “no lugar de”.

Assim, após breve exame das passagens onde esta preposição Grega é encontrada, temos completa satisfação de que somos inteiramente garantidos ao dizer com A.A. Hodge, “Se a intenção o Espírito Santo fosse que compreendêssemos que Cristo substituiu estritamente no lugar de réu de Seu povo, Ele não poderia ter usado nenhuma linguagem mais exatamente adaptada para expressar Sua intenção. Se não fosse esta a Sua intenção, nós bem podemos perder qualquer esperança de chegar à compreensão da Sua intenção no assunto através do estudo das Suas palavras em qualquer departamento da Escritura.”

Embora a preposição Grega “huper” tenha o duplo significado que o termo “por” possui, não é motivo para permitir que os inimigos da Verdade arranquem de nossas mãos aquelas passagens que tratam da Expiação de Cristo, onde ocorre este termo em particular. Que “huper” algumas vezes tem a mesma força que “e”, nenhum estudioso honesto negará. Que em muitas passagens somos forçados a compreendê-la como significando “em lugar de” , pode ser mostrado claramente e definitivamente estabelecido através de várias considerações. Tome apenas uma passagem, “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por [huper] todos, logo todos morreram.” {II Coríntios 5:14 — Almeida, Corrigida e Revisada}. O fato da substituição aqui é pleno; uma vez que Cristo morreu no lugar e na posição de “todos”, então os “todos” são legalmente considerados como tendo morrido também. Em outras palavras, a expiação vicária de Cristo é contada como a expiação pessoal do crente. Seria mera tolice dizer, “Se um morreu em benefício de todos, então todos morreram”. Se perguntado por que o Espírito Santo utilizou-se da expressão um tanto quanto ambígua “huper” em algumas passagens, ao invés de o inequívoco “e”, a resposta é, Porque Cristo não somente morreu no lugar do Seu povo, mas também por seu benefício!

Resumindo o que se nos apresentou nesta segunda divisão da natureza da Satisfação de Cristo, diríamos: Os sofrimentos aos quais o Senhor Jesus foi exposto, desde a hora do Seu nascimento até Ele entregou o Seu espírito nas mãos do Pai, foram absoluta e definitivamente vicários, nascido como o Substituto de Seu povo — não somente para vantagem dele, mas verdadeiramente no lugar e no espaço deles . Ele aqui veio como o Representante e Cabeça federal deles, tomando para Si e liberando-os de todas as suas obrigações, recebendo em Seu espírito e alma e corpo, tudo o que lhes era devido. Ele foi o seu Resgate, pagando todos os seus débitos. Ele foi o seu Mediador, postando-se entre Deus e eles, recebendo de Deus e a Ele rendendo, tudo o quanto era devido a eles e por eles. Ele foi o seu Sumo Sacerdote, fazendo oblação por eles. Ele foi humilhado por causa do nosso orgulho. Ele foi feito pobre para expiar a nossa cobiça. Ele teve fome porque nós, em Adão, comemos do fruto proibido. Ele teve sede, porque nós bebemos de fontes proibidas. Ele morreu, porque nós estávamos mortos em pecados.

Embora seja uma antecipação do que pertence, estritamente falando, a um aspecto futuro do nosso tema, não podemos encerrar este capítulo sem chamar a atenção para a implicação clara, inescapável e inexpressivelmente abençoada do que tem estado perante nós. Cristo não somente morreu em nosso lugar, Ele morreu para assegurar a nossa salvação. Ele não somente morreu em nosso espaço, Ele morreu em nosso benefício. Porque Ele Se tornou pobre, nós somos enriquecidos. Porque Ele foi abandonado por Deus, nós somos reconciliados com Deus. Porque Lhes foram arrancadas suas roupas, nós somos vestidos com o manto da Sua justiça. Ele foi humilhado para que pudéssemos ser exaltados. Ele veio à terra, para que pudéssemos ir ao céu. Ele Se fez servo, para que pudéssemos ser livres. Ele foi atribulado, de modo que pudéssemos ser confortados. Ele foi tentado, para que pudéssemos triunfar. Ele foi espancado, para que pudéssemos ser sarados. Ele foi desonrado, para que pudéssemos ser glorificados. E não há nenhuma contingência ou incerteza quanto a isso. Que o Seu povo colhesse os benefícios da satisfação de Cristo não depende de quaisquer condições que eles venham a cumprir. Arrependimento e fé foram comprados por Cristo para cada um por quem Ele obedeceu e sofreu. Justiça Divina exige que Cristo veja do labor de Sua alma e esteja satisfeito. A lei de Deus demanda que a sua recompensa seja concedida a todos por quem Cristo a obedeceu. A própria retidão e fidelidade de Deus insistem que, porque o Capitão da sua salvação foi feito perfeito através de sofrimento, Ele traga os “muitos filhos à glória”.


Payment God cannot twice demand,
First at my bleeding Surety
s hand
And then again at mine
.

“Deus não pode exigir pagamento duas vezes,
Primeiro na sangrenta mão da minha Certeza
E depois, outra vez, na minha
.

Complete atonement Thou hast made,
And to the utmost farthing paid
What e
er Thy people owed .

“Expiação complete, Tu o fizeste,
E pagaste até o último centavo
O que quer que fosse que o Teu povo devia
.

Flow then can wrath on me take place
If sheltered in Thy righteousness
And sprinkled with Thy blood?

“Pode então a ira derramar-se sobre mim
Se estiver protegido na Tua justiça
E molhado com o Teu sangue?

Turn , then , my soul , unto thy rest,
The merits of thy Great High Priest
Speak peace and liberty
.

“Volte-se então, minhalma, ao teu descanso,
Os méritos do teu Grande Sumo Sacerdote
Proclamam paz e liberdade.
.

Trust in His efficacious blood,
Nor fear thy banishment from God
Since Jesus died for thee
.” (Toplady)

“Confia em Seu sangue eficas,
Não teme teu banimento de Deus
Já que Jesus por ti morreu.
” (Toplady) .

CAPÍTULO 7: SUA NATUREZA (CONTINUAÇÃO)


Foi corretamente dito que, “A doutrina da Expiação é colocada em sua luz adequada somente quando considerada como a verdade central do Cristianismo, o grande tema das Escrituras. O principal objeto de Revelação foi desdobrar este método único de reconciliação através do qual os homens, uma vez alienados de Deus, pudessem ser restaurados à relação correta, e mesmo a uma relação melhor do que a sua antiga posição. Mas a doutrina é simplesmente revelada , ou em outras palavras, nos é ensinada somente pela autoridade Divina” (George Smeaton). Se for um fato que a grande Expiação é a luminária central no firmamento da verdade de Deus, é igualmente verdadeiro que a natureza da Expiação é o próprio coração deste assunto vital. Portanto cabe a nós dar-lhe nossa mais devota e cuidadosa consideração.

Na busca de expor a natureza da Satisfação que o Mediador rendeu a Deus em lugar do Seu povo, nós vimos, primeiro, que Sua obra foi uma obra federal : que Cristo entrou neste mundo não como um indivíduo privado, mas num caráter oficial, como o Cabeça pactual dos eleitos de Deus, como o seu Representante legal. Isso excepcionalmente aparece em Seu primeiro pronunciamento ministerial. Em Lucas 2:49 temos a primeira palavra pessoal , que as Escrituras registram como procedendo daqueles lábios nos quais a graça havia sido “derramada” {Salmo 45:2, “Tu és mais formoso do que os filhos dos homens; a graça se derramou em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre.”}, a saber: “ Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai? ”. Ali Ele expressou a Sua relação para com Deus , para com Aquele que O havia enviado: Ele havia vindo aqui para tratar dos negócios, para fazer a obra que o Pai O havia designado. Aquelas palavras foram por Ele pronunciadas enquanto um Garoto de doze anos. Um intervalo de dezoito anos se passou antes de ouvirmos um outro pronunciamento Seu, feito como nunca um homem o fez, a saber, “ Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça.” {Mateus 3:15}. Aqui Ele expressou a Sua relação para com o Seu povo , para com aqueles no lugar de quem Ele havia sido enviado.

O Salvador havia agora saído da reclusão de Nazaré e Se apresentado para o batismo, nas mãos do Seu anunciador. João deve ser considerado como a expressão viva e o ponto culminante da lei e dos Profetas {Lucas 16:16, “ A lei e os profetas duraram até João…”} que tiveram por longos séculos testemunhado para a vinda do Messias, e os quais agora, pelo seu grande representante {Mateus 11:11, “Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista…”}, devia apresentar Cristo ao Seu ofício {João 1:31, “E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.”}. Como Cristo reconheceu a eles (ao dirigir-se a João), também eles (nEle, seu representante) deviam confirmá-Lo como a verdade dos Profetas e a substância dos tipos da lei. A princípio João hesitou, e Cristo disse “Deixa por agora .” Em Grego, o termo “agora” é enfático: deixa em Meu presente estado de humilhação, como um ato apropriado ao Meu ofício como Substituto . O motivo apresentado foi: “porque assim Nos convém”, não “Me”, no sentido pessoal, mas “nós” — Cristo sendo um com aqueles a quem Ele havia vindo salvar! Eis a relação federal, vista desde o começo!

Assim nos convém cumprir toda a justiça.” Aquelas palavras não devem ser limitadas ao ato do batismo. A linguagem é mais geral em seu escopo, ainda que particular em seus termos. A expressão “convém” significava, “Não é indigno do Filho de Deus descer tão baixo, pois a “justiça” assim o exige”. Sua linguagem intimidava, “É apropriado que eu apareça ‘em semelhança da carne do pecado’ {Rm 8:3}, identificando-Me com eles no ‘confessar dos seus pecados’ {Marcos 1:5}”. Era conveniente que Ele devesse ser batizado naquele rio do qual se falava de morte {Jr 12:5} bem no início do Seu ministério público, pois isso simbolizava aquele “batismo” de sofrimento pelo qual Ele passaria {Lc12:50} e mostrasse Sua disposição para enfrentá-lo. Passar por sob as águas do Jordão era um símbolo adequado de todas aquelas ondas e vagas {Salmo 42:7} da ira de Deus, que cedo quebrariam sobre Ele. Era apropriado que ele devesse “executar toda justiça”, submeter-Se a tudo aquilo que a lei prenunciara e que os profetas predisseram, e assim concluir, completar todas as demandas de Deus sobre o Seu povo.

Segundo, vimos que a Satisfação rendida por Cristo para com Deus foi uma satisfação vicária . Agora como o Substituto de Seu povo, a lei exigia duas coisas de Cristo: primeiro, que Ele rendesse aquela obediência que era exigida deles, enquanto criaturas; segundo, que Ele devia sofrer aquele castigo que eles mereciam, enquanto pecadores. Assim, a obra mediadora que foi dada a Cristo para executar envolvia dois aspectos, os quais embora inseparavelmente conectados, todavia são claramente separáveis em pensamento, ou seja, uma obra de obediência distinta dos sofrimentos que Ele padeceu. Em toda Sua obediência Ele sofreu; em todos os Seus sofrimentos Ele obedeceu. Por conseguinte, é de primária importância reconhecer que durante todo o curso de Sua vida terrena Cristo sustentou uma relação dupla para com a lei: pessoalmente sem pecado, oficialmente sob a sua maldição. O próprio fato de Seu postar-se “em semelhança da carne do pecado” {Romanos 8:3} evidencia que o pecado havia sido transferido a Ele desde o momento que Ele foi concebido no útero da Virgem. Não obstante, Ele que “sofreu pecado” durante todos os Seus dias de carne, também foi O Executor de uma obra Divina.

A própria condição sem pecado de Cristo foi a base necessária para a Sua obra de tolerar o pecado {II Coríntios 5:21}. Ele devia ser inocente para representar os culpados; Ele devia ser santo para tomar o lugar dos ímpios, do contrário Ele também necessitaria de um Salvador. Foi o Justo que sofreu pelo injusto {I Pedro 3:18}. Assim a maravilhosa vida de Cristo é muito mais que um espetáculo a ser apreciado com admiração, e mais que um exemplo a ser seguido por Seu povo {I Pedro 2:21}; ela deve ser considerada como a obra de um pela multidão . Única, gloriosa, perfeita, foi Sua formosa vida. “…porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” {João 5:30}, apresenta os princípio orientador que sempre O governou — compare em João 4:34 {”Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra”}. “Eu faço sempre o que lhe agrada.” {João 8:29}. Sua vida foi uma vida de serviço constante a Deus: ininterrupta em duração, perfeita em grau, impecável em seu equilíbrio. Uma graça não excluiu ou prejudicou outra: tudo estava lá, tudo estava perfeitamente combinado. Tal vida, tal obediência, tal serviço, merecida recompensa , e é em verdade concedida a todos quantos Ele representou, a todos aqueles a cujo substituto Ele foi. Nós agora estamos prontos para considerar que:

3. FOI UMA OBRA PENAL

As Escrituras ensinam claramente que Deus é ambos, Santo e Justo, e que “justiça e juízo” (e não “amor e misericórdia”) são a base do “trono” de Deus {Salmo 89:14}. Dessa forma existe na Essência Divina o que abomina o pecado por sua pecaminosidade intrínseca, tanto no que diz respeito à poluição como em seu aspecto de culpa. As perfeições de Deus são portanto mostradas tanto pela proibição como pela punição do pecado. Ele comprometeu-Se que “ a alma que pecar, essa morrerá.” {Ezequiel 18:4}. Portanto, de forma que uma Satisfação completa seja rendida a Deus, o pecado deve ser punido, o castigo da lei deve ser aplicado. Consequentemente, como o Salvador de Sua Igreja, Cristo tinha de sofrer vicariamente a imposição da maldição da lei.

O que procuraremos mostrar agora é que os sofrimentos e a morte de Cristo foram uma satisfação à justiça Divina em favor dos pecados do Seu povo. No caso de alguma objeção quanto ao utilizarmos o termo “satisfação”, chamemos a atenção para o fato de que esta palavra é encontrada em nossas Bíblias , tendo sido usada pelos tradutores como o equivalente à palavra em Hebreu que é geralmente usada como “Expiação”: “ E não recebereis resgate ( satisfação) pela vida do homicida que é culpado de morte; pois certamente morrerá. Também não tomareis resgate (satisfação) por aquele que se acolher à sua cidade de refúgio, para tornar a habitar na terra, até à morte do sumo sacerdote.” {Nm. 35:31,32}. — [N.T.: O autor utiliza a Bíblia em Inglês (“versão King James”), cujo texto no original é: “Moreover ye shall take no satisfaction for the life of a murderer, which [is] guilty of death: but he shall be surely put to death. And ye shall take no satisfaction for him that is fled to the city of his refuge, that he should come again to dwell in the land, until the death of the priest.” Neste caso, o termo “satisfaction” (na versão “King James”) foi traduzida por “resgate” na versão utilizada pelo tradutor (“Almeida, Corrigida e Revisada, Fiel”)]

A profunda humilhação à qual foi sujeito o Filho de Deus ao tomar sobre Si a forma de servo, e de ser feito “em semelhança da carne do pecado”, foi um castigo judicial imposto sobre Ele pelo Pai, todavia voluntariamente submetido por Ele próprio. O propósito particular de Sua humilhação, Sua obediência, Seus sofrimentos, os torna penais , pois eram para a satisfação das exigências da lei de Deus sobre o Seu povo. Ao ser feito “nascido sob a lei” {Gl 4:4}, Cristo tornou-Se sujeito a tudo o que é imposto pela lei: “ Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz” {Rm 3:19}, o que significa que a lei exige o cumprimento de seus termos. “Cristo em nosso lugar e espaço, através de ambos, Seus atos e Seu sofrimento, satisfez a justiça Divina , nos aspectos legislativo, punitivo e vindicativo, da forma mais perfeita, satisfazendo toda a justiça da lei, que de outra forma a lei exigia de nós para impunidade, e para termos o direito à vida eterna” (H. Witsius, 1693).

“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito.” {I Pe. 3:18}. A referência aqui não deve ser restrita ao que Cristo sofreu nas mãos de Deus enquanto encontrava-Se pregado na Cruz, nem a tudo por quanto Ele passou durante aquele dia e a noite precedente. Acautelemos-nos de limitar a Palavra de Deus! Não; a totalidade da sua humilhação está aqui incluída. A vida toda de Cristo foi vida de sofrimentos, portanto foi Ele apontado como “o Homem de dores” {Is. 53:3}, e não simplesmente, “dor”. Desde o Seu nascimento e até a Sua morte, sofrimento e dor marcaram-No como sua legítima vítima. Enquanto ainda uma criança Ele foi levado ao exílio, para escapar da fúria daqueles que perseguiam Sua vida. Aquilo foi nada mais que o prenúncio de toda a Sua vida terrena. O cálice de angústia, posto em Seus lábios em Belém, nunca foi removido, até que Ele sorvesse seus sedimentos amargos no Calvário.

Cada variedade de sofrimento foi experimentada por Ele. Ele provou da pobreza em seu rigor mais severo. Nascido numa estrebaria, sem qualquer propriedade na terra, dependente da caridade de outros {Lucas 8:3, “… e muitas outras que o serviam com seus bens.”}, frequentemente estando em pior situação do que as ordens inferiores da criação {Mateus 8:20, “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”}. Ele sofreu censura de ser um glutão, um beberrão, um enganador, um blasfemo, um demônio. Portanto, sim O ouvimos gritar, “Afrontas me quebrantaram o coração” {Salmo 69:20}. Ele experimentou tentação em toda a sua malignidade. O Príncipe das trevas O assaltou com toda sua esperteza e poder, fazendo com que as suas legiões infernais O atacassem, vindo contra Ele como “Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge.” {Salmo 22:12,13}. Acima de tudo, Ele sofreu a ira de Deus, de forma que Ele afirmou, “A minha alma está cheia de tristeza até a morte” {Mateus 26:38}, “em agonia” {Lucas 22:44}, e finalmente, “abandonado por Deus” {Mateus 27:46; Marcos 15:34}.

Qual é, então, a explicação destes “sofrimentos” sem paralelo? Por que a mais perfeita obediência foi seguida pelo castigo mais terrível? Por que a santidade imaculada foi visitada por angústia inexprimível? Davi declarou, “Fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo…” {Salmo 37:25}; por que, então, foi O Justo abandonado por Deus? Somente uma resposta é possível, somente uma resposta atende por completo a todos os fatos do caso; somente uma resposta esclarece o governo de Deus. Ao tomar o lugar dos pecadores violadores da lei, Cristo tornou-Se obrigado a liberá-los de todas as suas dívidas, e isso significou carregar os seus pecados, ser acusado com a culpa que era deles, sofrer a punição que era deles. Consequentemente, Deus tratou-O como o Representante do Seu povo criminoso, infligindo a Ele tudo o que mereciam os seus pecados. Como o Substituto portador dos pecados de Seu povo, Cristo foi justamente exposto a todas as terríveis conseqüências do desprazer manifesto de Deus.

Há muito, a pergunta já havia sido feita, “Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu?” {Jó 4:7}, à qual podemos, sem a menor hesitação, responder, Ninguém. Deus nunca matou e nunca matará o inocente. Portanto, antes que a Sua ira punitiva pudesse cair sobre Cristo, os pecados de Seu povo deviam primeiro ser transferidos a Ele, e isto é precisamente o que a Bíblia afirma. Isso foi notavelmente prenunciado nos tempos antigos, no grande tipo que era o Dia da Expiação anual em Israel, “E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniqüidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode,” {Levítico 16:21}. Assim também foi claramente profetizado, “Senhor fez cair sobre Ele a iniqüidade de nós todos … Ele levou sobre Si o pecado de muitos.” {Isaías 53:6, 12}. Também é expressamente afirmado no Novo Testamento, “Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos” {Hebreus 9:28}. Uma vez mais afirmaríamos que não há sequer um indício que Cristo suportou os pecados de Seu povo somente enquanto Ele encontrava-se pendurado na Cruz. Estamos cientes de que muitos assim o afirmam, mas em fazendo-o eles não somente se tornaram culpados de acrescentar à Palavra de Deus, mas também de contradizê-La diretamente.

Nós já chamamos a atenção que a expressão em Romanos 8:3, “em semelhança da carne do pecado”, claramente pressupõe a transferência dos pecados de Seu povo a Cristo, e que o que aconteceu imediatamente após o Seu nascimento foi em total cumprimento deste fato, e não pode ser entendido de outra forma. Que Ele foi circuncidado {Lucas 2:21} não somente provou que Ele havia sido feito “semelhante aos homens” {Filipenses 2:7}, mas também evidenciou que Ele havia sido feito “em semelhança da carne do pecado.” Assim também o cerimonial de “purificação” de Sua mãe {cf Lucas 2:22} e sua apresentação de uma “oferta pelo pecado” {cf Levítico 12:2, 6}, foi em perfeita observação do fato que, embora Sua humanidade fosse imaculada, ainda assim Ele havia adentrado neste mundo oficialmente culpado.

Nós pecamos enquanto crianças pequenas — “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” {Salmo 58:3} — e portanto enquanto criança, Cristo sofreu, sofreu não somente como o nosso Substituto, mas porque os nossos pecados haviam sido transferidos a Ele. Nós pecamos enquanto adolescentes, e em sua juventude Cristo sofreu, e sofreu nas mãos de Deus, como claramente testificam as Suas próprias palavras: “Estou aflito, e prestes tenho estado a morrer desde a minha mocidade; enquanto sofro os teus terrores, estou perturbado” {Salmo 88:15}. No início da nossa maturidade, nós pecamos, e Cristo sofreu no início da Sua maturidade. Referimo-nos uma vez mais à tentação que Ele sofreu de Satã. Em Hebreus 2:18 nos é dito que Ele, “sendo tentado, padeceu ”, e aquele mesmo sofrimento foi penal . Que o “padecer” de Cristo quando tentado por Satã foi determinado e decretado como uma punição de Deus, está provado pela afirmação de que “ENTÃO foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” {Mateus 4:1}.

Tendo o homem se permitido ser sujeitado por Satã, Deus, por uma sentença justa, entregou-o como escravo da tirania daquele; portando era necessário que Cristo, como o Substituto de Seu povo pecador, devesse ser exposto às tentações do Diabo, de forma que neste aspecto Ele pudesse satisfazer a justiça divina. Muito certamente Satã e seus agentes nunca poderiam haver assaltado a Cristo, não tivesse Ele sido (legalmente) acusado com a culpa pelos nossos crimes, que Deus justamente O expôs às injúrias deles {cf Atos 2:23}. Os próprios eleitos, como pecadores, estavam sujeitos ao poder de Satã {cf Colossenses 1:13}, e isso pela justa sentença do Juiz de toda a terra; portanto não eram eles somente “presas do poderoso”, mas também eram “ legalmente presos” {cf Isaías 49:24}. Portanto, como Cristo aqui veio como a Certeza, em lugar deles, Ele, pela virtude da sentença de Deus, também Se tornou sujeito às bofetadas de Satã.

“A obediência passiva, ou dolorosa de Cristo, não deve ser confinada a o que Ele experimentou no jardim e na cruz. Este sofrimento foi a culminação, mas não a totalidade de Sua aflição expiadora. Tudo em Sua carreira humana e terrena foi doloroso pertence à Sua obediência passiva. É uma afirmação verdadeira de Jonathan Edwards, que o sangue vertido na circuncisão de Cristo foi realmente uma parte de sua expiação vicária, como o foi o sangue vertido de seu lado perfurado. E não somente Seu próprio sofrimento, mas também a Sua humilhação, foi expiatória” (W. Shedd). “A satisfação ou propiciação de Cristo consiste tanto em Seu sofrer o mal, como em Seu estar sujeito à humilhação . . . O que quer que seja a que Cristo estava sujeito, em se tratando do resultado judicial do pecado, tinha a natureza de satisfação pelo pecado. Mas não somente o próprio sofrimento, mas toda a humilhação e depressão do estado e circunstância de natureza humana abaixo do seu estado primitivo de honra e dignidade, tal como o Seu corpo permanecendo sob o domínio da morte, e corpo e alma estando separados, são frutos, resultados judiciais do pecado” (Jonathan Edwards, 1743).

Quando as Escrituras falam da Satisfação de Cristo, elas a relacionam com os Seus sofrimentos em geral, como em Isaías 53:4, “ Verdadeiramente Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre Si;” isto é, Ele sofreu todas as dores e agonias devidas a nós, pelo pecado. Deve ser o mais cuidadosamente notado que a declaração inspirada de que “o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos” {Isaías 53:6} vem antes de “Ele foi oprimido e afligido” e antes de “como um cordeiro foi levado ao matadouro”; já que foi no início de Seu ministério público, e não enquanto Ele encontrava-Se pendurado na Cruz que Deus moveu um dos Seus servos para clamar, “Eis aqui o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” {João 1:29}. Cristo foi levado “ao matadouro” e até mesmo a aflição foi estendida sobre ele e a nossa iniqüidade foi exigida dEle, antes das três horas de escuridão. Então também este mesmo capítulo {Isaías 53} relaciona a nossa “cura” às pisaduras que Ele recebeu de homens, tão plenamente como outras passagens atribuem o nosso livramento da maldição da lei ao fato de haver Deus O visitado com tal maldição.

“Porque para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo” {I Pedro 2:21}. “Aqui, sofrer denota estar em aflição: pois aqui se entende todos aqueles demais sofrimentos, nos quais Cristo nos deixou um exemplo de paciência. Estes sofrimentos ele (Pedro) afirma serem por nós, isto é, passados tanto em nosso lugar, como em nosso favor. Pois este é o significado em geral da palavra huper , e tal é verdadeiramente o que Pedro quer dizer. Concluímos, destarte, que em 3:18 ele diz, ‘Cristo padeceu uma vez pelos pecados’, em outras palavras, que Ele pudesse ser a propiciação pelos nossos pecados” (H. Witsius).

Quando os direitos soberanos de Deus são enfatizados, ali é geralmente levantada a objeção de que estamos de tal forma “reduzindo homem a uma mera máquina.” Muitos são aqueles que estão preparados para sustentar um sumário pela responsabilidade humana. Mas na realidade é de fato muito raro ouvirmos qualquer coisa sobre responsabilidade transferida . Todavia é neste ponto que se encontra uma das principais maravilhas e glórias do Evangelho. A responsabilidade do povo de Deus foi transferida para Cristo. Ele assumiu as suas dívidas, Ele Se fez imputável pelos seus débitos, responsável por cada demanda da lei contra eles. Não tivesse este sido o caso, como poderia Deus ter com justiça posto as iniqüidades de Seu povo sobre a cabeça do Seu Santo Filho? Ainda menos poderia Ele ter chamado pela espada da Justiça para golpeá-Lo. Foi porque Cristo foi “feito pecado” por nós, que Ele também foi “feito maldição” por nós: esta última não poderia ser sem a anterior. Como este é um ponto de vital importância, nós devemos amplificá-lo um pouco mais.

Hebreus 7:22 declara que Cristo “De tanto melhor aliança Jesus foi feito fiador”: Ele foi o Responsável pelo Seu povo, como Judá o foi por Benjamin. “Eu serei fiador por ele, da minha mão o requererás; se eu não o trouxer, e não o puser perante a tua face, serei réu de crime para contigo para sempre” {Gênesis 43:9}. Ou, como Paulo o foi por Onésimo, “E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta . Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi; eu o pagarei” {Filemon 1:18, 19}. Exatamente assim Cristo Se responsabilizou perante Seu Pai, por nós: cobra de Mim o que quer que seja que eles Te devem, e Eu satisfarei. “Um fiador, cujo nome é colocado num contrato, não somente é obrigado a quitar o débito, mas ele faz de tal o seu próprio débito também, tanto quanto é o débito do principal, de modo que ele possa ser processado e acusado pelo débito. Assim Cristo, quando Ele uma vez Se fez um Fiador, Ele também colocou-Se no lugar pelos pecadores, de modo que aquilo que a lei apresentasse contra eles, fosse apresentado contra Ele” (T. Goodwin, 1680).

Cristo devia tomar sobre Si a culpa pelas nossas transgressões antes que Ele pudesse tomar o nosso castigo sobre Si, e então satisfazer a justiça divina em nosso lugar. Que Ele assim o fez , é demonstrado por Suas próprias palavras. É realmente extraordinário descobrirmos como Cristo realmente possuiu os nossos pecados como sendo Seus . Primeiro, no Salmo 40. Que se trata de um Salmo Messiânico, sabemos da citação sobre o mesmo em Hebreus 10. Que ele contém as próprias palavras de Cristo, é claramente evidente dos versículos 7 a 11 {“Então disse: Eis aqui venho; no rolo do livro de mim está escrito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu; sim, a tua lei está dentro do meu coração. Preguei a justiça na grande congregação; eis que não retive os meus lábios, Senhor, tu o sabes. Não escondi a tua justiça dentro do meu coração; apregoei a tua fidelidade e a tua salvação. Não escondi da grande congregação a tua benignidade e a tua verdade. Não retires de mim, Senhor, as tuas misericórdias; guardem-me continuamente a tua benignidade e a tua verdade”}. Ele é ainda o Orador no versículo 12, onde Ele declarou, “Porque males sem número me têm rodeado; as minhas iniqüidades me prenderam de modo que não posso olhar para cima. São mais numerosas do que os cabelos da minha cabeça; assim desfalece o meu coração.” Que prova esta é, de que os pecados de Seu povo haviam sido transferidos a Ele! Segundo, no Salmo 69, um outro grande Salmo Messiânico. Aqui também nós O encontramos dizendo, “Tu, ó Deus, bem conheces a minha estultice; e os meus pecados não te são encobertos.” {versículo 5}. Quão inequivocamente estas palavras mostram que os nossos pecados foram computados a Ele! Tais pecados não eram Seus por perpetração, mas sim por imputação.

“Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre [a] o madeiro” {I Pedro 2:24}. “ ‘Nossos pecados’ aqui são as nossas obrigações para castigo por conta das nossas violações da lei Divina, e as conseqüências necessárias daquelas obrigações; em outras palavras, culpa no sentido de vinculada ao castigo, e o castigo em si mesmo” (J. Brown). Aqueles pecados Cristo “levou”, suportou como um fardo pesado. O significado principal do verbo Grego é “carregar acima”, a alusão sendo feita ao animal típico que era carregado até o altar, o qual era sempre erigido num lugar elevado. A margem dá a tradução mais preferida — “ ao madeiro”: a preposição é a mesma como no versículo seguinte, “tendes voltado ao Pastor.” O motivo por que a Cruz aqui é chamada de “o madeiro”, veremos mais adiante.

Havia obrigatoriamente a necessidade de Cristo tomar sobre Si a culpa das nossas transgressões, de modo que a justiça Divina O punisse, pois “ bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade” {Romanos 2:2}. Quem quer que seja punido por Deus deve ser culpado de pecado. Portanto nós lemos, “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós” {II Coríntios 5:21}. Cada palavra aqui requer um parágrafo em separado. A crase na abertura do versículo [nota do tradutor: o autor utiliza-se da Bíblia na versão King James, “For he hath made him [to be] sin for us, who knew no sin”, e na frase em questão refere-se à preposição “for”, na abertura do versículo] determina o terreno no qual encontra-se a mensagem da reconciliação (versículos 19, 20): o versículo 19 declara que Deus não imputa ao Seu povo os seus pecados; o versículo 21 nos conta o por que: porque eles foram imputados a Cristo. Aqui a Expiação é rastreada de volta à sua fonte. “Deus estava em Cristo reconciliando”: Ele fez Cristo ser pecado — quando? Na aliança eterna: Ele era pessoalmente sem pecado, foi Deus quem assim O adjudicou! “Aquele que não conheceu pecado” é a forma negativa de dizer que a Sua obediência era perfeita. A lei não tinha nenhuma falta contra Ele, seja de comissão ou de omissão. Não obstante, “Ele [Deus] O fez [constituiu legalmente a Cristo] ser pecado por nós,” não em mera aparência, mas em terrível realidade, e isto, desde o momento de Sua encarnação.

Ao sentar-se no banco do réu de Seu povo, Cristo tornou-se responsável para com a justiça de Deus no lugar deles: o que quer que eles devessem, devia ser exigido do seu Fiador: ele devia quitar os débitos deles, sofrer o castigo completo das suas iniqüidades, receber o salário do pecado, em lugar deles. Cristo agora tornou-Se exposto a tudo o que a santidade de Deus devia infligir sobre o pecado. Lemos, portanto, que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” {Gálatas 3:13}. “A cruz era maldita, não somente na opinião dos homens, mas através do decreto da lei Divina. Portanto, quando Cristo foi levantado sobre a cruz, Ele Se fez odioso para com a maldição” (Calvino).

A própria forma da morte que Deus designou para o Seu Filho nos revela a natureza penal da mesma. A Cruz não foi nenhum mero “acidente”, como se não fizesse diferença a forma que tivesse a Sua morte. Razões fundamentais tornaram conveniente e necessário que o Fiador devesse ter uma morte que fosse amaldiçoada de Deus ; portanto as freqüentes referências no Novo Testamento à “cruz” e ao “madeiro” — cf João 12:32, 33. No Calvário, a maldição terrível de Deus para com o pecado foi revelada publicamente, da qual a cruz não era a causa, mas o símbolo: cf. João 3:14. Sob a lei Mosaica (à qual o apóstolo se refere em Gálatas 3:13), pendurado num madeiro era uma morte reservada para grandes criminosos. Portanto a força da palavra “madeiro” em I Pedro 2:24. Cristo pendurado no madeiro foi o testemunho público da maldição de Deus sobre Ele. “A causa da maldição não era o fato de ser pendurado no madeiro, mas o pecado com o qual Ele foi acusado; e aquele modo de castigo demonstrava que Ele era o objeto do santo desprazer de Deus; não realmente porque Ele encontrava-se pendurado no madeiro, mas porque Ele era o portador dos pecados, e o castigo das ofensas pelas quais aquele castigo ignominioso foi designado foi então infligido. A sabedoria Divina apontou que Aquele que carregava o pecado do mundo devesse ser exposto como uma maldição, pois o desprazer Divino era ali demonstrado da forma mais horrível” (G. Smeaton).

Quanto a por que esta forma e método de morte foi selecionado por Deus dentre todas outras possibilidades — envenenamento, apedrejamento, decapitação, etc. — Gênesis 3 nos provê com a resposta: “Como o pecado mortal que difundiu a maldição sobre a raça humana estava relacionado com a ‘árvore’ proibida, Deus sabiamente ordenou que o último Adão devesse expiar o pecado ao ser suspenso em um madeiro: e Ele apontou na lei (Deuteronômio 21:22,23) tal símbolo da maldição que relembrava a todos homens da origem da maldição Divina no mundo. Ele não removeria a maldição de qualquer outra forma” (G. Smeaton). Entre os Romanos, morte por crucificação era humilhação mais baixa possível. Era o mais degradante dos castigos, infligidos somente em escravos e o mais inferior dos povos, e se homens livres fossem a qualquer tempo sujeitos à crucificação por grandes crimes, tals como roubo, alta traição, ou sublevação, a sentença não poderia ser executada até que eles tivessem sido listados como escravos, e isso, pela máxima humilhação. Sua liberdade lhes era tirada por intermédio de os entregar a chibatadas e açoites, como foi feito com Cristo. Assim a maldição da lei de Deus foi executada sobre o Cabeça e o Substituto de Seu povo. “Pregar a Cristo crucificado” {I Coríntios 1:23} é proclamar e expor o Seu haver sido “feito pecado por nós” {II Coríntios 5:21}.

Porque Cristo foi “feito pecado” e “feito uma maldição” por Seu povo, a ira da santidade de Deus inflamou contra Ele e a espada da Sua justiça O feriu. “Ó espada, desperta-te contra o meu pastor, e contra o homem que é o meu companheiro, diz o Senhor dos Exércitos. Fere ao pastor” {Zacarias 13:7}, e cf. Mateus 26:31. Deus infligiu castigo a Cristo como se Ele tivesse sido o ofensor pessoalmente. “Todavia, ao Senhor agradou moê-Lo, fazendo-O enfermar; quando a Sua alma Se puser por expiação do pecado” {Isaías 53:10}. Como todos os sofrimentos dos homens, sejam infligidos imediatamente por Deus ou mediatamente por Satã ou homens {cf. Jeremias 2:15–17}, surgem dos deméritos do pecado; assim também todos os sofrimentos de Cristo, de homens, de Satã, de Deus, surgiram dos deméritos dos pecados de Seu povo, imputados ao seu Substituto.

O castigo que Deus assinalou a Cristo era o próprio castigo que era devido ao Seu povo. Que Ele foi amaldiçoado de Deus é visto pelo fato de haver Ele sido pendurado no madeiro. Que Ele recebeu as pagas pelos pecados foi evidenciado por Deus O haver desamparado. Que ele foi contado com transgressores foi demonstrado pelo fato de haver Ele morrido ladeado por dois ladrões. Verdade, Ele não sofreu eternamente, pois a eternidade do nosso castigo era somente uma circunstância advinda da nossa incapacidade de sofrer todo o peso da ira de Deus numa breve sessão, e portanto a brevidade da duração dos sofrimentos de Cristo não é uma objeção válida contra a identidade do castigo que Ele recebeu. Além disso, a infinita dignidade de Sua pessoa mais do que compensou a lei. “Ao olho esclarecido, é encontrada na cruz uma outra inscrição, ao lado daquela que Pilatos ordenou fosse escrita: “A Vítima da culpa. Os Salários do pecado” (J. Brown).

CAPÍTULO 8: SUA NATUREZA (FINALIZAÇÃO)


Apontamos nos capítulos anteriores que o aspecto particular da Satisfação de Cristo que agora se encontra perante nós constitui o próprio coração desse assunto importante. Como o coração físico é para o corpo humano, assim é a natureza da Expiação para o todo deste maravilhoso tema. Quando o coração de um homem se torna seriamente afetado, o todo de sua constituição sofre. De forma semelhante, quando erramos em nossas vistas do caráter preciso dos sofrimentos e da obediência de Cristo, o todo do nosso sistema da verdade sofre danos em exata proporção. O teste ácido dos pontos de vista de um teólogo e da capacidade de um pregador de expor o Evangelho, é a sua ortodoxia neste ponto em particular. Por conseguinte, porque esta parte da Verdade é de tão vital importância, nós buscamos reverentemente examiná-la minuciosamente em sete partes, e apresentar aos nossos leitores, com certa profundidade, os resultados da nossa investigação.

Primeiro, mostramos que a obra de Cristo foi federal em seu caráter: isto é, Cristo tornou-Se legalmente um de Seu povo. Ele veio aqui não para estranhos, para Seus “irmãos” {cf. Hebreus 2:12}. Ele veio aqui não para alcançar um povo para Si, mas para assegurar um povo já Seu (cf. Efésios 1:4; Mateus 1:21}. O lugar que nós ocupávamos era “sob a lei”. Nós fomos colocados sob a lei na criação, e perfeita obediência tornou-se a condição do nosso bem-estar. Através da nossa queda em Adão nós nos tornamos incapazes de obedecer às demandas da lei e sujeitos à sua penalidade impossível de ser relaxada. A lei permaneceu sobre nós, portanto, como um capataz inexorável, demandando o impossível, e como o órgão de imutável justiça, insistindo na nossa morte. Para ser, portanto, o nosso Salvador, o Filho de Deus foi “nascido sob a lei” {Gálatas 4:4}: Ele foi, por intermédio da ordenação de Deus, transferido àquela posição. Assim, o lugar que Ele tomou foi o nosso lugar sob a lei. Ao tomar aquele lugar Ele necessariamente assumiu todas as nossas responsabilidades: obediência como uma condição de vida, sofrimento como uma conseqüência penal da desobediência.

Segundo, mostramos que a obra de Cristo foi vicária em seu caráter. A substituição foi assim definida: “Um ‘substituto’ é alguém que faz ou que sofre a mesma coisa que a pessoa ou pessoas a quem ele substitui deveriam ter feito ou sofrido”. As Escrituras nos ensinam claramente que a obediência de Cristo foi tão vicária quanto o foi o Seu sofrimento, e que Ele nos reconciliou com o Pai através tanto de uma como de outra. É por esta razão que escolhemos o termo “Satisfação” em preferência ao termo mais popular, “Expiação”. “A palavra ‘Expiação’ significa somente a expiação da nossa culpa através dos sofrimentos vicários de Cristo, mas nada expressa concernente à relação a qual a Sua obediência sustenta para a nossa salvação, como aquela condição meritória sobre a qual o favor Divino e a recompensa prometida foram suspensos pela aliança. Por outro lado, a palavra ‘Satisfação’ expressa exatamente tudo o que Cristo fez como nosso Substituto, em nosso lugar e em nosso benefício, com o objetivo de satisfazer em nosso lugar as demandas federais da lei, e de assegurar-nos as recompensas condicionadas ao seu completo cumprimento. Sua obra toda foi da natureza de uma satisfação” (A. A. Hodge).

Terceiro, mostramos que a obra de Cristo foi penal em sem caráter. Isto segue de necessidade inevitável. Ao tornar-Se um com Seu povo criminoso, Cristo adentrou à posição deles na lei perante Deus. Ao agir como o Substituto de Seu povo, Cristo devia receber aquilo que lhes era devido por Deus. Porque os pecados de Sua Igreja foram transferidos a Cristo, Ele devia receber o salário deles. Porque Ele tomou o nosso lugar na lei, a maldição da lei devia recair sobre Ele. Porque Ele foi “feito pecado” por nós, a espada da justiça Divina devia feri-LO. Como a Bíblia nos declara em I Coríntios 15:3, o Deus-homem não somente morreu “por nós”, mas “Cristo morreu pelos nossos pecados ”, o que somente foi possível pelos nossos pecados haverem sido federalmente colocados sobre Ele. Porque os nossos pecados Lhe foram imputados, a ira de Deus recaiu sobre Ele, e Ele foi visitado com tudo aquilo que os nossos pecados mereciam. Agora estamos prontos a mostrar que —

4. FOI UMA OBRA SACRIFICIAL

Das muitas passagens que apresentam este aspecto da redenção de Cristo, podemos citar os seguintes, “ Quando a sua alma se puser por expiação do pecado” {Isaías 53:10}. “Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” {I Coríntios 5:7}. “Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” {Efésios 5:2}. “Que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios . . . porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo” {Hebreus 7:27}. “Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?” {Hebreus 9:14}.

Antes de tentarmos definir o caráter do sacrifício de Cristo, lembremos-nos primeiro que Ele próprio apresentou um sacrifício a Deus através de um acordo pactual . Como nos é dito em Romanos 3:25, “ Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue”. Deus somente pode ser agradado com aquilo o que Ele tenha apontado. A Aliança Eterna fornece a chave para muitos versículos na Bíblia. Por exemplo, quando Cristo estava já para ir à Cruz, Ele disse, “Agora é glorificado o Filho do homem” {João 13:31}. Mas como podia ser? Não era mais a Sua degradação? Não, pois a Trindade eterna havia designado ao Deus homem a obra da mediação, e aquilo era uma alta honra. Assim o Filho do homem o viu. É nossa glória também, reverenciarmos perante a vontade de Deus e manter os Seus desígnios.

Segundo, embora Cristo ofereceu Ele próprio um sacrifício em conformidade com o desígnio Divino, foi também por Seu próprio livre consentimento . Como em toda a nossa obediência há dois ingredientes principais para a verdadeira e correta constituição da mesma, a matéria da própria obediência, e o princípio ou fonte dela em nós; em outras palavras, o ato e a vontade por trás dele — esta última a qual Deus aceita em nós, muitas vezes sem {cf. II Co. 8:12} e sempre mais do que a ação exterior — assim na obediência de Cristo, que é ambos, o padrão e a medida da nossa, há estas duas partes eminentes, que a completam — a própria obediência, Sua prontidão de vontade para com a mesma. Primeiro, Cristo estava disposto desde a eternidade. Isto está claro a partir da Aliança, pois isto é um acordo mútuo entre duas partes. Também está necessariamente implícito no fato de Ele ser feito “um Fiador” {Hebreus 7:22}, um responsabilizar-se de Sua parte: um fiador empenha sua palavra, através do “apertar as mãos” como a frase se encontra no original: Provérbios 22:26. Novamente; sua prontidão desde a eternidade até a hora da Sua encarnação é evidente em Provérbios 8:30 , que mostra em que ou quem Ele se deleitava em todo o tempo.

Novamente, Sua prontidão é vista nestas palavras, “ [Ele] humilhou-Se a Si mesmo” {Filipenses 2:8} ativamente, e não “Ele foi humilhado”, de forma passiva. Clara e abençoadamente isto também nos é trazido em Hebreus 10:5-7. Ali encontramos Sua dedicação de Si mesmo para com a Sua grande obra, “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), Para fazer, ó Deus, a tua vontade.” Eis a coisa extraordinária: aprouve aqui ao Espírito Santo tornar conhecidas a nós (como o grande Secretário da Aliança), as próprias palavras que o Filho usou ao afastar-Se da presença do Pai para vir à terra. Ao que podemos acrescentar — fato maravilhoso, que faz o coração bater mais forte — também aprouve ao Espírito Santo revelar-nos as primeiras palavras pronunciadas pelo Pai quando Seu Filho retornou a Ele, “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha mão direita” {Salmo 110:1}.

O ponto com que estamos lidando agora é tão precioso que imaginaríamos estendermos-nos nele. Não houve nenhuma coação sobre Cristo: tudo o que Ele fez foi feito livremente e com satisfação. Desde o princípio dos Seus dias na carne, Ele disse, “ Tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe” {Salmo 22:10}, e isso, por Sua perfeita escolha. Assim também, ao aproximar-Se do fim Ele pode dizer, “O Senhor Deus me abriu os ouvidos, e eu não fui rebelde; não me retirei para trás. As minhas costas ofereci aos que me feriam, e a minha face aos que me arrancavam os cabelos; não escondi a minha face dos que me afrontavam e me cuspiam” {Isaías 50:5,6}. Sim, Cristo “ Se entregou a si mesmo” {Gálatas 2:20} por nós.

Terceiro, como foi designação do Pai, e a vontade do Deus homem consentiu que Ele próprio oferecesse um sacrifício, assim também foi pela agência do Espírito . “ Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus? {Hebreus 9:14}. O desempenho de todo o Seu ofício Messiânico foi pela capacitação do Espírito Santo. O próprio nome, “Cristo”, significa “O ungido ”, e Lhe foi dado por causa da unção peculiar do Espírito, conferida a Ele, unção que era única em natureza e grau. No início do Seu ministério público, Ele declarou, “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque o Senhor me ungiu” {Isaías 61:1}. Ele era “cheio do Espírito Santo” {Lucas 4:1}, e o mesmo Espírito que o conduziu ao deserto {cf Mateus 4:1} também O conduziu como uma Vítima disposta, à Cruz. Nós agora resumiremos as várias características do sacrifício de Cristo:

A. O Sacrifício de Cristo Foi um Sacrifício Resgatador

“Há três formas genéricas de concepção sob as quais a obra operada por Cristo para a salvação dos homens é apresentada. Estas são (a) a de uma oferta expiatória pelo pecado; (b) a da redenção da vida e da liberdade dos cativos através do pagamento de um resgate em seu lugar, e (c) a satisfação da lei pelo cumprimento vicário de suas exigências. Estas diferentes concepções são formuladas para tanto limitar e para suplementar uma à outra numa maneira estritamente análoga à combinação das diferentes percepções do mesmo objeto pelos diferentes sentidos físicos. O sentido da visão, embora quando educado em conexão com as percepções coexistentes e mutuamente limitantes e limitantes dos órgãos do tato e da audição, é inigualável quanto à extensão e precisão da sua informação, todavia, se deixada a cargo de si mesma, nunca teria se desenvolvido além da vaga percepção de uma criança quanto a uma superfície assombreada de forma variada, sem qualquer sentido de relação no espaço.

“Todo o nosso conhecimento do mundo material, considerado como um objeto de sentido, provém da educação das nossas mentes no uso dos sentidos físicos em combinação , e os hábitos, costumes de julgamento e dedução a algo que são assim criados. Os homens aprendem a interpretar as impressões que lhes são feitas através de seus olhos, por intermédio de outras impressões que lhes são feitas com relação ao mesmo objeto, através dos sentidos do tato e da audição, e vice-versa. De forma similar o nosso conhecimento da verdadeira natureza da obra de Cristo e seu efeito e influência sobre nós resulta de todas as várias formas nas quais as Escrituras a apresentam em combinação , cada uma delas ao mesmo tempo limitando, modificando e suplementando todas as demais.

“Deve ser notado, ademais, que as Escrituras não apresentam estas diferentes concepções como diferentes lados de uma mesma casa para serem tomados em sucessão, mas habitualmente as apresentam em combinação, como luzes e sombras mixadas juntas na mesma pintura ao produzir a mesma expressão inteligível. Assim, nas mesmas sentenças é dito, que somos redimidos não por outra coisa, ‘ Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado’ {I Pe 1:19}. ‘Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós’ {Gálatas 3:13}. Isto é, Ele nos redimiu não no sentido de fazer um pagamento pecuniário em quitação por todos os nossos débitos, mas através de Seu sofrimento vicário, como os sacrifícios sangrentos do ritual Mosaico, do castigo devido pelos nossos pecados.”

“O fato aqui observado, que as mesmas sentenças inspiradas representam a Cristo no mesmo exemplo, na mesma ilustração e nas mesmas relações tais como um ‘resgate’ e como uma ‘oferta pelo pecado’, e como tendo feito sofrer ‘a maldição da lei’ por nós, é merecedor de um cuidadoso estudo. O ensinamento da Escritura não é que Cristo seja um sacrifício, e um resgate, e alguém que tome sobre si a maldição da lei, mas que Ele é aquela espécie particular de sacrifício a qual é um resgate; que a Sua redenção é daquela natureza que é efetuada por Seu suportar a maldição da lei em nosso lugar, e que Ele nos redime ao oferecer-Se a Si mesmo como um sacrifício sangrento a Deus. Assim, o ensinamento do Espírito Santo é tão preciso quanto qualquer teoria eclesiástica da Expiação. Cristo nos salva através de ser Ele um sacrifício. Ele é especificamente uma oferta pelos pecados, no sentido Judeu. Ainda mais especificamente, pelo Seu ofertar-Se como resgate por nós, e o Seu suportar a maldição da lei em nosso lugar, e o objetivo e efeitos deste pagamento de resgate, Seu sacrifício e Seu suportar a maldição, é que Ele nos redime da maldição da lei. Não se trata de qualquer tipo de sacrifício, mas de um sacrifício pagador do resgate, sacrifício sofredor da maldição. Não se trata de qualquer tipo de redenção, mas de uma redenção sacrificial” (A. A. Hodge).

Claro está que o sacrifício de Cristo foi um sacrifício resgatador , primeiro em Mateus 20:28, “ Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.” Esta declaração extraordinária chama por nossa atenção mais cuidadosa. Cristo veio aqui não para ser servido como o Senhor de tudo, mas para dar a Sua vida, não somente através e na morte, mas durante todo o curso do Seu serviço terreno. A palavra “dar” enfatiza o fato de que Ele agiu voluntariamente, sem compulsão de qualquer espécie. A razão para Ele dizer que veio para dar a Sua “vida” ou “alma” aparece da linguagem sacrificial de Levítico 17:11, “Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas.” A vida do sacrifício típico representava a vida daquele que o ofertava: a sentença de morte executada no primeiro era no que havia incorrido o segundo. Esta era a idéia fundamental de todos os sacrifícios no Velho Testamento.

Cristo aqui veio para dar a Sua vida como “um resgate”. Este termo necessariamente tem a conotação de que os muitos por quem o resgate foi pago eram cativos , em escravidão, os escravos do pecado {cf. Tito 3:3}, e como tais, ofensivos para o santo desprazer de Deus. Há uma distinção importante entre “resgate” e “redenção”: o primeiro é o preço pago para assegurar o segundo. Na Bíblia, a primeira menção de um “resgate” encontra-se em Êxodo 21:30 {“ Se lhe for imposto resgate, então dará por resgate da sua vida tudo quanto lhe for imposto”}, onde um alto preço era exigido para a libertação de alguém que, através da culpa, merecia a morte, cf. Êxodo 30:12, etc. O resgate de Cristo foi pago para satisfazer a justiça de Deus: uma vida por uma vida; o resgate sendo uma imposição penal. Cristo deu Sua vida como um “resgate por muitos”: a preposição Grega é “e”, a qual, exceto em poucos casos onde significa “contra”, é sempre utilizada num sentido substitutivo . Sua vida não foi “dada” de qualquer forma indefinida, vaga, pelo bem de outros, mas foi um “quid pro quo” {N.T.: compensação, contrapartida, algo em troca de outro} específico, morrendo exatamente no lugar de Seu povo. O “muitos” está em contraste com a Uma vida.

“… a igreja de Deus, que Ele resgatou com seu próprio sangue ” {Atos 20:28}. A idéia proeminente de “resgate” é aquela de pagamento, de substituição vicária, de uma coisa se colocando no lugar de outra. Não há figura que possa tão completamente carregar esta idéia como a de alguém pagando uma compra com dinheiro. A própria idéia de compra necessariamente envolve a idéia da substituição. Eu vou a uma livraria e pergunto o preço de um livro. É um real. Eu coloco o dinheiro no balcão, e tenho de imediato a liberdade de pegar o livro. É meu. De acordo com qual princípio? O da substituição. Eu substituo o dinheiro pelo livro, eu troco o dinheiro pelo livro. Foi desta forma que Cristo comprou o Seu povo. Aos santos em Corinto Paulo escreveu, “… que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço” {I Coríntios 6:19, 20}.

“ Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados . . . Mas com o precioso sangue de Cristo” {I Pedro 1:18, 19}. Os pecadores são os prisioneiros da justiça Divina. Verdade, eles são os cativos do Diabo, mas quem os entregou a ele? O Senhor: Satã nada mais senão o executor da Sua justa sentença. E a sua salvação não é uma simples libertação sem compensação. Nem é a salvação dos pecadores culpados um ato isolado de poder, efetuado pela interposição de um braço armado cheio de poder para assegurar a sua fuga. Favor gratuito e todo o poder supremo estão ambos relacionados com o fato, mas ainda há mais: existe um preço que foi pago, um resgate depositado, equivalente sob cada ângulo à redenção pela qual foi oferecido; e aquele preço foi a satisfação de Cristo.

B. O Sacrifício de Cristo Foi um Sacrifício Sacerdotal

Isto tem sido negado pelos Socinianos, e é triste ver aqueles que crêem na Divindade de Cristo adotarem este raciocínio de negação da natureza sacerdotal da oblação do nosso Salvador. Através de uma má compreensão do texto em Hebreus 8:4, eles insistem que Cristo somente adentrou ao Seu ofício sacerdotal após, como conseqüência da Sua ascenção. Que Cristo foi Sumo Sacerdote e agiu como tal enquanto Ele se encontrava na terra está abundantemente claro em Hebreus 2:17, pois Ele fez a propiciação pelos pecados de Seu povo na Cruz! É verdade que outros além de sacerdotes ofereceram sacrifícios a Deus nos tempos do Antigo Testamento, mas o Novo Testamento apresenta a Cristo não somente como Sacerdote, mas como o grande “ sumo Sacerdote” de Seu povo, e se o caráter, o propósito e o âmbito daquele ofício for interpretado (como deve ser) à luz dos tipos inspirados, então não há espaço deixado para dúvidas quanto ao significado do anti-tipo. O sumo sacerdote de Israel representava o povo perante Deus. Tirado de entre os homens, ele era ordenado para agir em favor dos homens naqueles assuntos os quais estavam relacionados para com Deus , de modo que ele pudesse trazer perante Deus ambos, ofertas e sacrifícios {cf. Hebreus 5:1}. Como a característica principal do profeta era aquela de alguém qualificado e autorizado a falar de Deus aos homens, a característica principal do sacerdote é aquela de alguém qualificado e autorizado para tratar de assuntos de homens, com Deus. O sumo sacerdote era aquele em quem culminava todo a casta sacerdotal, e ele, especialmente ele, agia em todos aspectos como o representante literal de toda a nação santa (nação separada). Primeiro, ele portava os nomes de cada tribo gravados nas pedras em seus ombros, e no peitoral sobre o seu coração {cf. Êxodo 28:9-29}. Segundo, ele fazia expiação em favor de todo o povo, confessando todos os seus pecados sobre a cabeça do bode expiatório {cf. Levítico 16:15-21}. Terceiro, se ele pecasse, tal pecado era considerado como o pecado de todo o povo {cf. Levítico 4:3}. Sua função principal era oferecer sacrifícios sangrentos em propiciação e interceder pelo povo. O cumprimento antitípico disto nos é mostrado na Epístola aos Hebreus, onde Cristo é chamado de Sacerdote por seis vezes, e de Sumo Sacerdote por doze vezes. Vamos então, muito rapidamente, apontar os vários detalhes disto.

Primeiro, em Hebreus 2:17,18 nos é dito que Cristo Se encarnou “ para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote,” etc. Segundo, em Hebreus 5:4-6 aprendemos que Cristo foi escolhido por Deus para este ofício . Terceiro, as passagens em 5:7; 8:3; 9:11-15, 25-28; 10:12-19, etc., mostram que Cristo literalmente desempenhou as funções de um sacerdote, oferecendo a Deus um sacrifício por todo o Seu povo, o qual, através da aceitação de Deus de tal sacrifício, pôs fim às ofertas típicas. Prova conclusiva disto foi fornecida por Deus, no rasgar do véu do templo, deste modo colocando de lado todo o sistema do sacerdócio Levítico. O sacrifício sacerdotal de Cristo havia agora substituído os deles.

Que Cristo foi sumo Sacerdote na terra também está claro na passagem em Hebreus 4:14: “ Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus…”. Aarão era sumo sacerdote quando ele adentrou ao santo dos santos, todavia ele era também um sumo sacerdote antes , ou ele não poderia de forma alguma ter entrado lá. Para Cristo ser um sacerdote, Ele devia ter um sacrifício, pois a própria natureza do ofício sacerdotal o exigia. Toda a atividade do sumo sacerdote, como sacerdote, consistia em oferecer sacrifício, com o desempenho de todas aquelas coisas que necessariamente o precediam e o sucediam. Agora, Cristo era ambos, Sacerdote e Sacrifício. Ele ofereceu-Se a Si mesmo a Deus. O que poderia ser mais claro do que a passagem em Efésios 5:2, “Cristo . . . Se entregou a Si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave”? Ele tinha a ver com Deus, enquanto na relação e respeito de um “sacrifício”. Em sua pessoa dual, Ele era Sacerdote; em Sua natureza humana, Ele era o sacrifício ofertado. No termo “carne” — “condenou o pecado na carne” {Romanos 8:3} — o Espírito Santo refere-se a toda a humanidade de Cristo, e foi o “sacrifício” pelo pecado, através do qual o pecado foi “condenado”.

“Porque todo o sumo sacerdote é constituído para oferecer dons e sacrifícios; por isso era necessário que este também tivesse alguma coisa que oferecer” {Hebreus 8:3}. E o que era que Ele “ofereceu” ? Seu “próprio sangue” {Hebreus 9:12}, Seu “corpo” {cf. Hebreus 10:10}, Sua “alma” ou “vida” {cf. Isaías 53:10}, “a Si mesmo” {Hebreus 9:14}. No sacrifício de Cristo também havia um “altar”, a saber, Sua Divindade: “. . . o altar que santifica a oferta” {Mateus 23:19}. A Divindade de Cristo não somente sustentou e fortaleceu Sua natureza humana em sendo nisto um sacrifício, mas também proporcionou mérito e eficácia ao Seu sacrifício. Como aquele um sacrifício foi proveitoso por todos os pecados de todo o povo de Deus, senão pelo fato de que Aquele que o ofereceu a Si próprio era Deus, tanto quanto homem! Cristo permanece em Seu ofício de Sacerdócio {cf. Hebreus 8:1}, não somente para oferecer sacrifício novo {c.f Hebreus 10:12}, mas para interceder {cf. Hebreus 7:25}.

C. O Sacrifício de Cristo Foi um Sacrifício Propiciatório

Pela queda de Adão uma triste ruptura foi criada entre Deus e o homem. O pecado irritou grandemente o santo Deus contra Suas criaturas rebeldes, e além disso, houve uma inimizade mútua compelida entre eles. De um lado, nós lemos de Deus, “ odeias a todos os que praticam a maldade” {Salmo 5:5}, “Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo , e ele mesmo pelejou contra eles” {Isaías 63:10}. Do homem, lemos, “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus ” {Romanos 8:7}; “A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou” {Colossenses 1:21}. Agora, Cristo aqui veio para efetuar a reconciliação entre estas duas partes alienadas, para trazer Deus e homens juntos novamente em amizade e amor. Através do verter o Seu sangue, Cristo aplacou a justa ira de Deus. Através do Seu sacrifício, Ele pacificou as exigências da justiça Divina. Alguns têm perguntado, Como podiam os eleitos serem “por natureza filhos da ira” {Efésios 2:3}, vendo que Deus sempre os amara {Jeremias 31:3}? Na linguagem de John Owen nós respondemos, “Ele nos amou, considerando do livre propósito da Sua vontade de enviar a Cristo para nos redimir e oferecer satisfação pelos nossos pecados; Ele estava irado conosco, considerando a Sua lei que foi violada, e sua Justiça provocada pelo pecado.”

As passagens principais no Novo Testamento que apresentam este aspecto particular do sacrifício de Cristo são as seguintes, “ Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça” {Rm 3:25}. “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus [não pela obra do Espírito Santo em nós, nem por nós baixarmos as armas do nosso arsenal, mas] pela morte de seu Filho ” {Rm 5:10}. Nós somos “reconciliados” através de Cristo desviar de nós a cólera de Deus e proporcionar a nossa aceitação em Seu legal favor. “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo” {II Co 5:18}. “E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz” {Cl. 1:20}. “Para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo” {Hb 2:17}. “Se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados” {I Jo 2:1,2}.

Já, as passagens acima são melhor compreendidas à luz dos tipos do Velho Testamento. Lá nós lemos, “ E disse Moisés a Arão: Toma o teu incensário, e põe nele fogo do altar, e deita incenso sobre ele, e vai depressa à congregação, e faze expiação por eles ; porque grande indignação saiu de diante do Senhor; já começou a praga. E tomou-o Arão, como Moisés tinha falado . . . e fez expiação pelo povo . . . e cessou a praga.” {Números 16:46-48}. Novamente, lemos, “o Senhor disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos . . . Tomai, pois, sete bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos por vós, e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei. . . .” {Jó 42:7 – 9}. O que poderia ser mais claro? A ira de Deus foi apaziguada por sangue vertido! Resta ainda a ser apontado, que a palavra em Hebreu para “expiação” e a palavra em Grego para “propiciação” são uma e a mesma.

D. O Sacrifício de Cristo Foi um Sacrifício Expiatório

Toda a humilhação e todo o sofrimento de Cristo, desde o Seu nascimento e até a Cruz, foram investidos de um caráter sacerdotal e sacrificial, como constituindo Sua oferta única de Si mesmo como um sacrifício, propiciatório de Deus e expiatório pelos pecados de Seu povo; todavia a ênfase das Escrituras mostra que a oblação de Cristo, de Si mesmo como vítima foi principalmente manifesta e concentrada no derramar de Sua alma até a morte. A fé é direcionada à Cruz, não como apresentando meramente o final e o clímax histórico, mas a consumação indispensável de tudo o quanto precedeu, pois a herança do pecado não é somente o sofrimento, mas sim a morte .

O termo “propiciação” define o vínculo que o sacrifício de Cristo teve para com Deus : tal sacrifício O aplacou. O termo “expiação” refere-se ao vínculo que o sacrifício de Cristo teve para com os homens : tal sacrifício removeu os pecados de Seu povo.

“ Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados” {Mateus 26:28}. O termo “remissão” é um termo judicial, e significa a anulação da culpa, a remoção de todos os motivos de punição. “Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” {Hebreus 9:26}. Cristo de tal maneira “removeu” todo o pecado de Seu povo, de modo que eles agora estejam perfeita e finalmente absolvidos na alta corte de Deus, de forma que nenhuma acusação possa jamais ser intentada contra eles {cf. Romanos 8:33}. O tipo no Velho Testamento foi gloriosa e abençoadamente cumprido, “Porque naquele dia se fará expiação por vós, para purificar-vos ; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Senhor ” {Levítico 16:30}. Desta forma os filhos crentes de Deus podem dizer, “…e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” {I João 1:7}.

Este foi uma das principais finalidades da Satisfação de Cristo para com os santos: tomar sobre Si os pecados de Seu povo, e de tal forma expiá-los que dos tais fosse o fim. Aqueles que não estão protegidos pelo precioso sangue de Cristo tem a dizer, “Diante de ti puseste as nossas iniqüidades, os nossos pecados ocultos, à luz do teu rosto” {Salmo 90:8}. Mas aqueles que, por intermédio da soberana graça, foram levados a confiar no Cordeiro, podem exclamar, “Assim como está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões” {Salmo 103:12}. A nossa culpa foi anulada por completo. Fomos completamente libertos de um castigo merecido. Não há nenhuma acusação sequer, listada na corte de Deus contra nós. Prova disso é que, “Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus” {Hebreus 10:12}. Portanto, “Cristo . . . aparecerá segunda vez, sem pecado , aos que o esperam para salvação” {Hebreus 9:28. Aleluia! !

CAPÍTULO 9: SEU OBJETIVO


Qual foi o propósito da Trindade Eterna ao enviar Cristo Jesus a este mundo? O que a encarnação do Filho de Deus tencionou executar? O que os Seus sofrimentos e obediência foram ordenados efetuar? Com referência a este assunto tão importante, as idéias mais errôneas têm sido levadas em consideração, idéias em divergência direta com a Escritura Sagrada, idéias que são as mais desonrosas para com Deus. Mesmo aonde tais erros horríveis não têm sido completamente sustentados, porção suficiente do sua influência malévola têm sido recebida para corromper a verdade pura, na qual muitos homens bons têm crido. Em outras situações, onde este tema importante tem sido largamente negligenciado, somente as concepções mas vagas e confusas são mantidas. É triste ver o quão pequeno espaço este tema vital ocupa agora na maioria dos púlpitos, e nos pensamentos e estudos da maioria dos Cristãos professos.

“Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras” {At. 15:18}. Tudo o que Deus faz está de acordo com o planejado: tudo é operado “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” {Ef. 3:11}. Deus tinha um propósito na criação: “O Senhor fez todas as coisas para atender aos Seus próprios desígnios ” {Prov. 16:4}.Ele tem um propósito na providência: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” {Rm. 8:28}. E ele tem um propósito e um objetivo na Satisfação que foi operada por Cristo: “O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo” {I Pe. 1:20}. O que, então, era tal objetivo, tal propósito? Esta não é uma questão especulativa, mas da máxima importância. Certamente que a resposta correta a ela deva ser aquela que respalda a glória de Deus. Portanto, qualquer resposta que carregue em si os inevitáveis corolários de um Pai desonrado, de um Filho posto em opróbrio e de um Espírito Santo derrotado, não pode de maneira nenhuma ser a resposta correta. A Redenção é a glória de todas as obras de Deus, mas contudo significaria a desgraça interminável das mesmas, se falhasse em realizar qual fosse o fim para o qual estava já pré-ordenada a alcançar.

Uma concepção, agora largamente aceita, é a que Cristo aqui veio para remover certas barreiras que encontravam-se no caminho, impedindo a graça de Deus de fluir até as criaturas caídas. Esta teoria é que a morte de Cristo removeu aquele obstáculo interposto pela justiça Divina, impedindo que a misericórdia fosse estendida aos transgressores da lei. Aqueles que sustentam este ponto de vista supõem que a grande Expiação foi meramente o adquirir de Deus um direito para o Seu perdão dos pecados. As palavras de Arminius são: “Deus tem vontade e intenção de fazer o bem à humanidade, mas não poderia fazê-lo em virtude do pecado. Sua justiça bloqueando o caminho; como conseqüência do que Ele enviou a Cristo para remover tal obstáculo, de forma que Ele possa, sob a prescrição de que condição Lhe satisfaça, e esta sendo por eles [a humanidade] cumprida, ter misericórdia deles.” Triste é encontrar tantos hoje em dia ecoando os erros deste homem equivocado.

O erro na teoria acima é facilmente exposto. Se fosse verdade que o propósito da satisfação de Cristo foi o de adquirir um direito junto ao Seu Pai, de modo que não obstante a Sua justiça Ele pudesse salvar os pecadores, então na verdade Ele morreu para pagar por uma liberdade para Deus , ao invés de uma liberdade do pecado para o Seu povo; para que uma porta pudesse ser aberta para Deus vir até nós com misericórdia, ao invés de que um caminho fosse aberto para nós podermos nos achegar à Ele. Isto certamente é “virar as coisas de cabeça para baixo”. E onde nas Escrituras, podemos perguntar, existe uma palavra que suporte idéia tão grotesca? Será que a Bíblia declara que Deus enviou o Seu Filho como resultado do amor de Deus para consigo mesmo, ou do Seu amor para conosco? Será que as Escrituras afirmam que Cristo morreu para proporcionar algo para Deus, ou para o Seu povo? Será que a Palavra de Deus ensina que os obstáculos foram interpostos pela justiça Divina, ou que os nossos pecados eram o que Cristo veio até aqui para remover? Somente pode existir uma resposta a estas perguntas.

Novamente: esta teoria reduziria toda a obra de Cristo a um experimento custoso, o qual podia ou não alcançar sucesso, na medida em que de acordo com esta concepção, ainda há algumas condições que o próprio pecador deve cumprir antes que seja possível ser beneficiado com aquela misericórdia a qual Deus lhe concederia. Mas isto é uma negação absoluta dos efeitos fatais da Queda, um repúdio da depravação total do homem. Aqueles que estão espiritualmente mortos em pecados são totalmente incapazes de cumprir quaisquer condições espirituais. Tanto quanto oferecer a alguém totalmente cego um milhão de dinheiros sob a condição que ele veja, é ofertar algo espiritual a alguém que não tem capacidade nenhuma de discernir sobre tanto: veja em João 3:3 ; I Coríntios 2:14. Ponto de vista tal como este encontra-se tão longe removido da verdade, quanto a luz das trevas. Tal ponto de vista, reduzido a termos simples, torna-se nisto; se o pecador crer, então Cristo morreu por ele; se o pecador não crer, então Cristo não morreu por ele; assim a atitude do pecador é feita a razão do seu próprio objeto, como se o seu crer fizesse ser o que caso contrário não era. A tais absurdos insanos, os que se opõem à graça são levados.

Quão diferente é o ensinamento claro da Palavra! Cristo aqui veio para cumprir o Seu acordo na Aliança Eterna. Naquela aliança uma determinada obra foi prescrita. No Seu cumprimento da mesma, uma certa recompensa foi prometida. Tal obra era que Cristo devia apresentar uma satisfação perfeita para Deus em favor de cada um e de todo o Seu povo. Tal recompensa era que todas as bênçãos obtidas e compradas por Ele devessem ser infalivelmente concedidas a cada um e a todo o Seu povo. “Deus, como resultado do Seu infinito amor para com os Seus eleitos, enviou Seu querido Filho na plenitude dos tempos, a quem Ele havia prometido na fundação do mundo; para pagar um resgate de valor e dignidade infinitos, pela compra da redenção eterna, e trazendo para Si todos e cada um daqueles a quem Ele havia pré-ordenado para a vida eterna, para o louvor da Sua própria glória. Assim que a liberdade de todo o mal do qual nós somos libertos, e um prazer por todas as boas coisas que nos são concedidas, na nossa passagem da morte para a vida, do inferno e ira para o céu e glória, são as próprias conseqüências e efeitos da morte de Cristo, como a causa meritória de todas elas” (John Owen). Estamos agora preparados para responder à nossa pergunta inicial. O propósito da Satisfação de Cristo foi

1. QUE DEUS PUDESSE SER MAGNIFICADO

“O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios” {Provérbios 16:4}. O grande fim que Deus tem em todas as Sua obras é a promoção da Sua glória própria e declarativa: “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” {Romanos 11:36}. Assim deve ser. Não existe nada for a de Si mesmo que possa possivelmente se constituir motivo para o Seu agir. Declarar o contrário seria negar a Sua auto suficiência. O objetivo de Deus na criação, na providência, e na redenção, é a magnificação de Si mesmo . Tudo o mais está subordinado a esta suprema consideração. Nós enfatizamos isso, porque vivemos numa época de infidelidade e de ateísmo prático.

Deus predestinou o Seu povo “ Para louvor e glória da sua graça” {Efésios 1:6}. Cristo “ nos recebeu para glória de Deus” {Romanos 15:7}. Todas as Divinas promessas para nós estão em Cristo “Amém, para glória de Deus por nós” {II Coríntios 1:20}. A herança que temos obtido em Cristo é de maneira a “sermos para louvor da sua glória” {Efésios 1:12}. O Espírito Santo nos é dado como o penhor da nossa herança “para louvor da sua glória” {Efésios 1:14}. O próprio regozijo do crente está “na esperança da glória de Deus” {Romanos 5:2}. Nossa ação de graças é que possa redundar “para glória de Deus” {II Coríntios 4:15}. Este é o propósito de todos os benefícios que obtemos da Satisfação de Cristo, que sejamos todos “Cheios dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” {Filipenses 1:11}. Enquanto toda língua já “confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” {Filipenses 2:11}.

Deus tinha ambos propósitos ao enviar Cristo a este mundo, um subserviente e outro supremo: o propósito supremo era demonstrar a Sua própria glória, o propósito subserviente era salvar os Seus eleitos para a Sua própria glória. O primeiro foi executado pela manifestação de Seus atributos abençoados, que é principal propósito em todas as Suas obras, de forma tão preeminente em sua maior e mais importante obra de todas. O restante do capítulo pode muito bem ser devotado à extensão deste único pensamento. Através da obediência e da morte de Cristo, Deus engrandeceu a Sua lei {cf. Isaías 42:21}. A lei de Deus foi mais honrada pela sujeição do Filho à mesma, do que havia sido desonrada pela desobediência de toda a raça de Adão. Deus engrandeceu o Seu amor ao enviar o Querido de Seu íntimo para redimir vermes inúteis da terra. Ele engrandeceu a Sua justiça , pois quando o pecado (por imputação) foi encontrado sobre o Seu Filho, Ele chamou pela espada para feri-Lo {cf. Zacarias 13:7}. Ele engrandeceu a Sua santidade : Seu ódio pelo pecado foi mais claramente demonstrado na Cruz do que o será no lago de fogo. Ele engrandeceu o Seu poder ao sustentar o Mediador sob tão pesado fardo quanto o que foi sobre Ele colocado. Ele engrandeceu a Sua verdade através do cumprimento dos compromissos da Sua aliança e pelo trazer de entre os mortos o grande Pastor das ovelhas {cf. Hebreus 13:20}. Ele engrandeceu a Sua graça ao imputar aos ímpios todos os méritos de Cristo. Este, então, foi o mais importante propósito de Deus na Expiação: engrandecer a Si mesmo.

2. QUE O DEUS HOMEM FOSSE GLORIFICADO

Cristo é o Centro de todos os conselhos da Divindade. Ele é ambos, o Alfa e o Ômega dos propósitos da Divindade. Todos os pensamentos de Deus com relação a tudo no céu e na terra começam e terminam em Cristo. “Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo” {Efésios 3:9}, e “Tudo foi criado por ele e para ele” {Colossenses 1:16}. Como Mediador, ele é o único meio de união e de comunhão entre Deus e a criatura. “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” {Efésios 1:10}. Cristo é O Cabeça universal no qual Deus tem resumido todas as coisas. Foi portanto estupenda a obra da redenção confiada a Ele, que Ele pudesse reconciliar para Si mesmo todas as coisas no céu e na terra, e isto, de forma que Lhe revertesse um ganho de glória.

O homem Cristo Jesus foi elevado à união com a Palavra essencial e eterna, Deus o Filho, de modo que pudesse ser o “Companheiro” de Jeová {cf. Zacarias 13:7}. O homem Cristo Jesus foi predestinado para a honra inefável da união com a segunda pessoa na Trindade. Como tal, Ele é o Cabeça de toda a eleição da graça, chamado pelo Pai, “o meu eleito, em quem se apraz a minha alma” {Isaías 42:1}. Na qualidade de Deus homem, o Pai pactuou Ele, apontou-O como Fiador, e designou-Lhe a Sua obra. Como Deus homem, Ele tinha uma existência pactual antes que Ele encarnasse. Isto nos é claro a partir de João 6:62, “Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava?” Foi na condição de Deus homem que o Pai enviou a Cristo em sua missão de misericórdia, e isso para a Sua glória pessoal.

Enquanto Judas saía para trai-Lo, Cristo disse, “Agora é glorificado o Filho do homem” {João 13:31}. Poucas horas depois, Sua estupenda missão estaria completa. O Mediador foi honrado, supremamente honrado, pelo fato de haver Deus confiado ao Seu cuidado a obra mais poderosa de todas, uma obra a qual ninguém mais era capaz de executar. A Ele foi confiada a tarefa de glorificar a Deus aqui na terra; de vencer o Seu arquiinimigo, o Diabo; de redimir os Seus eleitos. A isso Ele faz referência, “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” {João 17:4}. Ele havia completado o vasto propósito de Deus, executado os Seus decretos, cumprido a Sua vontade.

Tendo tão gloriosamente glorificado o Pai, o Pai glorificou proporcionalmente o Mediador. Ele foi exaltado “Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” {Efésios 1:21}. Ele foi elevado “à destra da majestade nas alturas” {Hebreus 1:3}. A Ele foi dada toda autoridade no céu e na terra {cf. Mateus 28:18}. A Ele foi dado poder sobre toda carne, para que Ele dê a vida eterna a todos quantos o Pai Lhe dera {cf. João 17:2}. A Ele foi dado um nome que está acima de todo nome, perante o qual todo joelho se dobrará {cf Filipenses 2:9,10}. Falando da obra consumada de Cristo e da recompensa dada pelo Pai, o Salmista escreveu, “Grande é a sua glória pela tua salvação; glória e majestade puseste sobre ele. Pois o abençoaste para sempre; tu o enches de gozo com a tua face” {Salmo 21:5,6}. Este foi o grande propósito da Trindade: que o Deus homem fosse assim glorificado.

3. QUE OS ELEITOS DE DEUS PUDESSEM SER SALVOS

“Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” {Lucas 19:10}. Quão diferente é este testemunho claro, positivo e incondicional; da fábula que quase todos pregadores contam hoje em dia! A estória da vasta maioria é que Cristo aqui veio para tornar possível a salvação para os pecadores: Ele fez a Sua parte, agora os pecadores devem fazer a sua. Reduzir a maravilhosa, gloriosa e completa obra de Cristo a meramente tornar possível a salvação, Lhe é extremamente desonroso e insultante.

Cristo veio até aqui para levar a cabo o soberano propósito de Deus da eleição, para salvar um povo já “Seu” {cf. Mateus 1:21} através de uma resolução pactual. Existe um povo a quem Deus já tinha “elegido desde o princípio para a salvação” {II Tessalonissenses 2:13}, e a redenção ocorreu de forma ao cumprimento daquele decreto. E se crermos no que as Escrituras declaram com relação à pessoa de Cristo, então temos prova indubitável de que não pode possivelmente haver falha em conexão com a Sua missão. O Filho do homem, o Menino nascido, não era ninguém a não ser o “Deus forte” {cf. Isaías 9:6}. Ele portanto é onisciente, e sabe onde procurar por cada um dos Seus perdidos; Ele é onipotente, e assim não pode falhar em livrá-los quando os encontra.

Observe que em Lucas 19:10 não é dito que Cristo aqui veio para procurar e salvar todos os perdidos. É claro que não. Dois terços da história humana já haviam passado seu curso antes que Jesus nascesse. Metade da raça humana já estava no Inferno quando Ele entrou na manjedoura em Belém. Foi “os perdidos” (veja no Grego) por quem Ele se encarnou. Aquela é a terrível condição na qual os eleitos de Deus estão, por natureza. Perdidos! Eles perderem todo o conhecimento do verdadeiro Deus, toda a afeição por Ele, todos os desejos por Ele. Eles perderam a Sua imagem, segundo a qual eles foram originalmente criados, e contraíram a imagem de Satã. Eles perderam todo o conhecimento de sua própria e real condição, pois o seu entendimento se obscureceu {cf. Efésios 4:18}; eles estão espiritualmente mortos em delitos e pecados {cf. Efésios 2:1}. Totalmente inconscientes do seu terrível estado, eles não buscam a Cristo nem tampouco se dão conta de sua necessidade dEle.

Cristo não veio aqui para ver se havia alguém que O seguisse. É claro que não. A passagem em Romanos 3:11 declara de maneira enfática “não há quem busque a Deus.” Cristo é Aquele que busca. E isto é por Ele ensinado de forma maravilhosa, na parábola da ovelha perdida. Um cão extraviado ou um cavalo perdido geralmente encontrarão seu caminho de volta à casa. Não tanto assim uma ovelha: quão mais livre, mais para longe se afasta do rebanho. Por conseguinte, se aquela ovelha deva ser recuperada, alguém precisa ir procurá-la. Isto é o que Cristo fez, e o que através do Seu Espírito Santo Ele continua a fazer. Como declarado em Lucas 15:4, Ele vai “em busca da que se perdeu, até encontrá-la .” Porém mais: Cristo veio à terra não somente para procurar e encontrar, mas também para salvar . Suas palavras são, “Pois o Filho do homem veio para buscar e salvar aquele que estava perdido” {Lucas 19:10}. Note que não é meramente que Ele Se ofereça para, ou que Ele ajude para, mas que Ele realmente salva . Tão foi a declaração enfática e absoluta declaração do anjo a José, “Lhe porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo dos pecados deles” {Mateus 1:21} — não tentar nem fazê-lo parcialmente, mas realmente salvá-los .

Cristo aqui veio com um objetivo definitivamente definido, em vista, e sento quem Ele é, não há espaço possível para qualquer falha em Sua missão. Daí que, antes que Ele viesse, Deus declarou que Ele “verá o fruto do penoso trabalho de Sua alma e ficará satisfeito ” {Isaías 53:10}. Como o Mediador, Ele fez aliança solene com o Pai para salvar o Seu povo dos seus pecados. Ele realmente comprou -os com o Seu sangue {cf. Atos 20:28}. Ele operou por eles uma salvação perfeita, portanto é Ele é “poderoso para salvar” {Isaías 63:1}. Este fato é abençoadamente ilustrado no contexto que precede a Lucas 19:10. Ele disse a Zaqueu, “desce depressa; porque me convém ficar hoje em tua casa . . .Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão” {vv. 5, 9}. Sim, “um filho de Abraão”, alguém da semente eleita. Portanto, corajosamente diríamos aos leitores que, se você pertence ao rebanho de Cristo, você deve ser salvo, mesmo que neste momento você esteja bem inconsciente da sua condição de perdido. Embora, tal como Saulo de Tarso, você possa todavia “assolar a igreja”, a graça irresistível o conquistará , pois está escrito, “Apresentar-se-á voluntariamente o Teu povo.” {Salmo 110:3}

“Eu vim para que tenham vida, e que a tenham em abundância. Eu sou o bom Pastor. O bom Pastor dá a vida pelas ovelhas” {João 10:10,11}. Temos novamente aqui claramente definido o propósito da missão e da satisfação de Cristo. Seu rebanho possuiu “vida” uma vez, possuindo-a em seu cabeça natura, Adão. Mas quando ele caiu, eles caíram; quando ele morreu, eles morreram. Pois como está escrito, “em Adão, todos morrem” {I Coríntios 15:22}. Mas por Cristo, por intermédio de Sua obra, e nEle como seu Cabeça espiritual, eles obtém não somente “vida”, mas vida “mais abundante”; isto é, uma “vida” que em muito excede tudo o que eles perderam em seu primeiro pai, como o último Adão excede, em Sua Pessoa , o primeiro Adão. Portanto está escrito, “O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante” {I Coríntios 15:45}.

“Porque assim como o Pai tem vida em Si mesmo, também concedeu ao Filho ter vida em Si mesmo” {João 5:26}, texto que fala de Cristo como o Deus-homem, o Mediador, como é claro do termo “concedeu”. Mas aquela vida tinha de ser “dada” {cf. João 10:17} e recebida novamente na ressurreição antes que pudesse ser, eficazmente, concedida ao Seu povo {cf. João 12:24}. É como O Ressurreto que Cristo “é espírito vivificante”. O primeiro Adão foi feito “alma vivente” de forma que pudesse comunicar vida natural à sua posteridade; o último Adão “é espírito vivificante”, de forma que possa conceder vida espiritual a toda a Sua semente. Assim como a alma residindo no corpo de Adão o animava e fazia-o ser uma “alma vivente”, também o homem Cristo Jesus sendo unido ao segundo da Trindade, constitui “espírito vivificante”, ou seja, vivificando Seu corpo sobrenatural, ambos agora e no porvir. A vida do Cabeça é a vida de Seus membros.

O Cristão primeiro tem uma vida federal em Cristo, antes que tenha uma vida vital de Cristo. Sendo legalmente um com Cristo, assim deve ser. Quando Cristo morreu o Seu povo morreu. Quando Cristo foi ressuscitado o Seu povo ressuscitou “juntamente com Ele” {Efésios 2:5,6}. É a esta união com a vida de Cristo que Romanos 5:17 refere-se: “Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo.” Sim, há um “muito mais”: a abundância da graça é maior que os deméritos do pecado, e o dom da justiça excede aquilo que foi perdido em Adão. A justiça dos eleitos de Deus sobrepuja em muito aquilo que eles possuíam em inocência através do primeiro Adão, pois esta é a justiça de Cristo, que é Deus. A ela, nem a justiça de Adão ou a dos anjos podem ser comparadas. Aqueles redimidos por Cristo são não somente recuperados da queda, mas lhes é feito “ reinar em vida”, a o que eles não tinham direito em seu primeiro pai. Uma vez que Cristo é Rei, os de Seu povo são feitos “reis” também {cf. Apocalipse 1:6}.

O mesmo aspecto da verdade nos é apresentado novamente em II Co. 5:14, 15: “Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto : um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” [N.T. o autor refere-se à versão “Bagster’s Interlinear”]. A Versão Americana é equivocada, aqui. Muitos tem presumido que a última cláusula do versículo 14 refere-se àqueles que estão “mortos em pecado”, mas isto era verdade, exceto pela morte de Cristo! Nem tampouco a morte espiritual dos descendentes caídos de Adão os torna capazes de “viverem para” Cristo, mas bem ao contrário. Não, na verdade, se “um morreu por todos” (ou seja, por todo o Seu povo), então todos eles morreram nEle . Então, no versículo 15 se nos é apresentada a conseqüência e o fruto disso: como o resultado da Sua ressurreição de entre os mortos, ele “vivem”. Seu ato foi, representativamente, o ato deles. A morte expiatória de Cristo, no terreno da união federal e da substituição, foi também a nossa morte; veja em Gl. 2:19 {“Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo”}. Assim também a Sua ressurreição foi, representativamente, a nossa ressurreição: veja em Cl. 3:1 {“…fostes ressuscitados juntamente com Cristo”}. Assim, Em Cristo, os eleitos de Deus têm uma vida “mais abundante” do que eles jamais tiveram em Adão antes da queda.

A mesma verdade é estabelecida perante nós em I Pedro 2:24, “Carregando Ele mesmo em Seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça…” A primeira parte deste versículo já esteve perante nós em um capítulo anterior. A segunda metade dele expressa o propósito Divino ao apontar Cristo para ser federal e vicariamente o Portador dos pecados de Seu povo. A morte de Cristo foi a sua morte: eles estão “mortos para os pecados” e não para “o pecar”! Que o leitor compare Romanos 6:2 com a exposição do Apóstolo nos nove versículos subseqüentes. Além disso, a ressurreição de Cristo foi a ressurreição deles: eles “vivem,” legalmente e representativamente, “para a justiça” em Cristo, seu Cabeça ressurreto, de quem está escrito, “[Ele] vive para Deus” {Romanos 6:10}. Citamos a seguir um trecho da lúcida exposição de I Pedro 2:24.

“Estar ‘morto para os pecados’ é estar liberto do poder de condenação do pecado; ou, em outras palavras, da sentença condenatória da lei, sob a qual, se um homem mente, ele não pode ser santo; e a partir da qual, se um homem é liberto, sua santidade está absolutamente assegurada. Viver ‘para a justiça’ é claramente a visão positiva daquilo, o que, ‘estar morto para o pecado’ é a visão negativa. ‘Justiça’, quando em oposição a ‘pecado’, no sentido de culpa ou de responsabilidade para punição, como aparece muitas vezes nos escritos do apóstolo Paulo, é a descrição de um estado de justificação. Um estado de culpa é um estado de condenação por Deus; um estado de justiça é um estado de aceitação com Deus. Viver para justiça, é neste caso viver sob a influência de um estado justificado, um estado de aceitação com Deus; e a declaração do apóstolo é: Cristo Jesus, através dos Seus sofrimentos até a morte, respondeu completamente às demandas da lei sobre nós ao levar para longe os nossos pecados, de modo que nós, crendo nEle, e através disso nos unindo a Ele, pudéssemos estar tão completamente libertos de nossas responsabilidades para castigo, como se nós, em nós mesmos, não Ele em Si mesmo, em Seu próprio corpo, tivéssemos passado pelos castigos; e que pudéssemos tão realmente ser trazidos a um estado de justiça, justificação, aceitação com Deus, como se nós, e não Ele em Sua obediência até a morte, tivéssemos engrandecido a lei e a enobrecido.”

“Deus enviando o Seu próprio filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado” {Romanos 8:3,4}. Novamente aqui o propósito da missão de Cristo é claramente apresentado. Deus enviou Seu Filho aqui, de modo que (1) a punição da culpa de Seu povo fosse infligida sobre o seu Cabeça, (2) que as justas exigências da lei — perfeita obediência — pudessem ser cumpridas através dEle, por nós. Esta justiça é dita ser “cumprida em nós” porque representativamente, nós estávamos “em Cristo”, o nosso Fiador: Ele obedeceu a lei não somente “pelo” nosso bem, mas de modo que a Sua obediência realmente se tornasse a nossa por imputação; e assim Cristo adquirisse para nós um direito ao Céu.

Uma passagem paralela a Rm 8:3,4 é encontrada em II Co. 5:21, “Aquele que não conheceu pecado, Ele O fez pecado por nós, para que, nEle, fôssemos feitos justiça de Deus.” O objetivo, o propósito da vida e morte vicárias de Cristo foi que uma justiça perfeita fosse operada por Seu povo e imputada a eles por Deus, de modo que eles pudessem exclamar, “De mim se dirá: Tão somente no Senhor há justiça e força” {Is. 45:24}. Isto se nos apresentará de maneira mais completa quando abordarmos os resultados da Satisfação de Cristo, todavia umas poucas palavras sobre tanto cabem aqui. A justiça do crente é inteiramente objetiva ; o que significa dizer, é algo totalmente fora dele mesmo. Isto é claro a partir da antítese de II Co. 5:21. Cristo foi “feito pecado” não por herança, mas por imputação, pela culpa de Seu povo sendo legalmente transferida a Ele. De forma similar, eles são “feitos justiça de Deus nEle ”, não “em si mesmos”, através da justiça de Cristo sendo legalmente computada em sua conta. Na consideração de Deus, Cristo e o Seu povo constituem uma única pessoa mística, por conseguinte é que os seus pecados foram imputados a Ele, e que a Sua justiça é imputada a eles, e é portanto que lemos: “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.” {Rm. 10:4}.

“Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus” {I Pedro, 3:18}. Esta maravilhosa declaração nos dá uma visão notavelmente clara do castigo substitutivo sofrido por Cristo, com o propósito de tanto sendo, especialmente, restaura o Seu povo à proximidade e serviço sacerdotal para Deus. Quatro coisas nisto são dignas da nossa mais cuidadosa atenção. Primeiro, Cristo “sofreu”. O pecado era a causa do Seu sofrimento. Não tivesse havido pecado, Cristo nunca teria sofrido. Sofrer significa “levar castigo”, como em nosso discurso normal dizemos, uma criança sofre pelos pecados de seus pais. Cristo sofreu por “nós”, toda a eleição da graça: foi por seus pecados que Ele foi penalizado. Segundo, Ele sofreu “uma vez”. Isto não deve ser tomado como significando que o Seu sofrimento foi confinado às três horas de escuridão, mas significa “uma vez por todas” conforme está em Hebreus 9:27,28 {“E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-Se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos”}. O “sofrimento” que impregnou a vida terrena inteira de Cristo, culminou na Cruz. Aquele sofrimento foi final. Sua Expiação todo-suficiente possui validade eterna.

Terceiro, Cristo Ele próprio foi pessoalmente sem pecado: foi O “Reto” ou “Justo” quem sofreu. Afirmar que Ele era “justo” significa que Ele foi aprovado por Deus como tendo sido testado pelos padrões da lei. Ele não somente era sem pecado, mas Aquele cuja vida foi ajustada às exigências Divinas. Como tal, ele sofreu, O puro pelos impuros, O inocente pelos culpados. Seus sofrimentos não estavam em Sua própria conta, nem se constituíram o curso inevitável dos eventos ou leis do mal num mundo pecador; mas foram a conseqüência direta e necessária de Ele vicariamente tomar o lugar de Seu povo culpado. Cristo recebeu o castigo que eles deviam ter sofrido. Ele foi pago com o salário do pecado o qual era devido a eles.

Quarto, o objetivo em vista dos sofrimentos substitutivos de Cristo era o de trazer o Seu povo até Deus . Isto somente era possível pela remoção dos seus pecados, que os separavam dAquele que é três vezes Santo {cf. Isaías 59:2}. Pelo Seus sofrimentos Cristo alcançou por nós acesso a Deus. “Mas, agora, em Cristo Jesus , vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo” {Efésios 2:13}. “Para conduzir-vos a Deus” é a mais compreensível expressão usada na Escritura para expressar o propósito da Satisfação de Cristo. Ela inclui o trazer o Seu povo das trevas até a maravilhosa luz: fora de um estado de alienação, miséria e ira, até um estado de graça, de paz e de comunhão eterna com Deus. Eles estavam por natureza num estado de inimizade, mas Cristo os reconciliou através da Sua morte {cf. Romanos 5:10}. Eles eram por natureza “filhos da ira” {cf. Efésios 2:3}, odiosos até o desprazer judicial de Deus; mas pela graça eles foram aceitos em Seu favor {cf. Romanos 5:2}. Eles eram leprosos por natureza, mas com uma única oferta Cristo “aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” {Hebreus 10:14}.

Aqui, então, em resumo, está o propósito divino na Satisfação de Cristo, que o próprio Deus seja honrado; que Cristo seja glorificado; que os eleitos possam ser salvos pelos seus pecados sendo afastados, uma vida abundante lhes sendo dada, uma justiça perfeita lhes sendo imputada, e seus seres trazidos na direção do favor, da presença e da comunhão com Deus.

Sobre o autor

Hélio Clemente

Meu nome é Helio Clemente: Tenho 72 anos, sou engenheiro, brasileiro, divorciado, graduado pela USP em 1967. Não defendo ou divulgo nenhuma denominação em particular, cristianismo é somente o evangelho, e o evangelho é toda a Escritura, desde o Gênesis até o Apocalipse.

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